A hora dos asquerosos – Yoani é recebida aos berros por pterodáctilos na Câmara. Ou: Suplicy revela o que sempre foi e o que nun
A hora dos asquerosos – Yoani é recebida aos berros por pterodáctilos na Câmara. Ou: Suplicy revela o que sempre foi e o que nunca foi
Abaixo, há um relato da sordidez de que são capazes parlamentares do PT, do PC do B e, por que não?, do PMDB também. Sob o patrocínio da embaixada cubana e com a conivência do Palácio do Planalto, Yoani Sánchez foi alvo de manifestações grosseiras no Parlamento brasileiro. Nada menos! Pior: o presidente da Câmara, o “neocubaneiro” e velho bucaneiro das convicções políticas Henrique Eduardo Alves, manobrou para, na prática, escondê-la. E, como vocês verão abaixo, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) revela o que sempre foi e o que nunca foi. Ainda voltarei a este senhor.
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Por Gabriel Castro e Marcela Mattos, n VEJA.com:
A blogueira cubana Yoani Sánchez foi recebida aos berros na Câmara dos Deputados por parlamentares pró-ditadura dos irmãos Castro. Logo após chegar ao Congresso e ser recebida por parlamentares de oposição, a dissidente visitou o plenário. Lá, a sessão foi interrompida por alguns segundos enquanto Yoani cumprimentava os integrantes da Mesa Diretora. Foi o que bastou para que parlamentares defensores da ditadura esperneassem. A oposição afirma que a sessão que a cubana visitou foi convocada às pressas pela base governista para evitar que a visita da blogueira à Casa fosse transmitida pela TV Câmara.
Amauri Teixeira (PT-BA) foi o primeiro da tropa pró-ditadura cubana a se manifestar e acabou sendo chamado de “ditador nazista” por Jair Bolsonaro (PP-RJ), que ocupava a tribuna. “É inadmissível uma blogueira vir aqui atrapalhar os nossos trabalhos”, esbravejou o deputado Francisco Escórcio (PMDB-MA). “Vamos votar logo, deputado”, gritavam outros parlamentares, que tentavam desviar o foco de Yoani. A deputada Perpétua Almeida (PCdoB-BA) disse que o episódio criava um “incidente diplomático” e abria um “grave precedente”: “Amanhã eu vou trazer um blogueiro da Bahia aqui”, disse.
Na entrada da sala onde a convidada participou de um debate com os deputados sobre liberdade de expressão, manifestantes pró e contra o regime autoritário cubano travaram um embate verbal. Mesmo com o acesso ao local controlado por seguranças, três manifestantes contra Yoani que tiveram acesso à sala tentaram impedir a audiência aos gritos.
Sem se exaltar, a dissidente cubana respondeu de forma elegante aos protestos de deputados defensores da ditadura cubana, minutos antes: “O parlamento do meu país tem uma triste história: nunca disse não a uma lei. Nunca viu um debate como hoje, aqui, com diferenças e contraposições. No meu parlamento isso é impossível”, disse Yoani.
“Cuba não é um partido, não é uma ideologia, não é um homem. É plural, diversa, com muitas cores. E estamos lutando para que essa Cuba plural possa ter um marco legal de direito e respeito, para que todas as ideias se manifestem como temos visto que se manifestam no Brasil”, afirmou a blogueira, em um curto pronunciamento.
Yoani Sánchez também disse que criou seu blog apenas para contar o dia-a-dia do que via em seu país. “Quando abri Generación Y, não pensei que a minha vida ia mudar tanto. Por que um blog traria com conseqüências a vigilância policial, a satanização pública através da propaganda oficial?”.
Além de parlamentares de PSDB, DEM e PPS, estiveram presentes na audiência deputados do PP, do PSD, do PR e do PV. Os senadores Aécio Neves (PSDB-MG), Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), Alvaro Dias (PSDB-PR), Pedro Taques (PDT-MT) e Eduardo Suplicy – único petista – também compareceram. Alguns parlamentares pediram desculpa à cubana pelas agressões verbais que a blogueira sofreu em solo brasileiro.
Antes de ouvirem Yoani, os deputados assistiram ao documentário Conexão Cuba-Honduras, do cineasta Dado Galvão. As imagens mostram como a jornalista é vítima, em Cuba, com intimidações e agressões financiadas pelo governo ditatorial.
Interrogatório
Dois parlamentares, nada interessados em saber as condições de vida de Yoani em Cuba, trataram de interrogar a convidada: Eduardo Suplicy pediu que ela pedisse o fim do embargo econômico à ilha e defendesse o fim da prisão americana de Guantánamo, em solo cubano. Glauber Braga (PSB-RJ) foi mais longe: perguntou se ela defendia a libertação de cinco cubanos presos nos Estados Unidos por espionagem. E ainda quis saber quem financia as viagens que a blogueira tem feito.
De forma tranquila, Yoani respondeu: defende o fim do embargo e a libertação dos presos para que o regime cubano tenha menos razões para justificar o próprio fracasso e desviar o foco da falta de democracia na ilha. Disse que é contra as violações supostamente praticadas em Guantánamo. E ainda explicou, detalhadamente, de onde vieram os recursos de suas viagens – de doações espontâneas e entidades como a Anistia Internacional.
Manobra
Não fosse uma mudança às pressas, a sessão que acabou em bate-boca nem teria acontecido. Às 21h50 de terça-feira, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), enviou um e-mail aos gabinetes dos deputados convocando sessão extraordinária às 11 horas desta quarta-feira, três horas antes do horário anunciado no ncerramento dos trabalhos.
Com a convocação de última hora, a transmissão do debate com a blogueira cubana na Comissão de Constituição e Justiça foi cancelada, já que as pautas no plenário têm prioridade na programação da TV Câmara.
Por Reinaldo Azevedo
na coluna Direto ao Ponto, de Augusto Nunes:
“Nós não temos medo da comparação, inclusive no debate da corrupção”, diz Lula na festa do PT. O que espera para quebrar o silêncio de 90 dias sobre o caso Rose?
Diante de plateias amestradas, que ovacionam até ponto, vírgulas e reticências, ninguém é mais falante do que Lula. Cercado por devotos genuflexos, todos exibindo a cara deslumbrada de presidiário transferido sem escalas da cela para o set de um filme pornô, ninguém fabrica mais bravatas por minuto do que o ex-presidente. Reverenciado por bajuladores vocacionais, que começam a gargalhar antes do início da piada, ninguém é mais valente do que o inventor do Brasil Maravilha. Só havia gente assim na festa organizada pelo PT para celebrar os 10 anos da chegada ao poder. E o palanque ambulante sentiu-se como pinto no lixo.
“Todas as coisas que eles pensaram em fazer nós fizemos melhor”, caprichou na abertura do cortejo de bazófias. “Eles”, como sabem os ouvintes castigados pela discurseira interminável, são Fernando Henrique Cardoso, a elite golpista, a mídia reacionária, os granfinos paulistas, os loiros de olhos azuis e todos os demais viventes que se negam a engrossar a seita lulopetista. “As coisas” são boas ideias do governo FHC prostituídas pelo Bolsa Família, o maior programa oficial de compra de votos do mundo.
Em seguida, como faz desde 1976, o animador de comício desdenhou da oposição: “Eles estão inquietos, sem valores e sem propostas”. (De valores e propostas Lula entende, sobretudo quando envolvem contratos com a base alugada). Depois, atacou o senador Aécio Neves, gabou-se de eleger qualquer poste e, claro, criticou FHC ─ sem se atrever a soletrar em voz alta a sigla que está para o SuperLula como a kriptonita verde para o Super-Homem. “Vou dizer apenas que a resposta que o PT deve dar a eles ─ e eles podem se preparar, podem juntar quem quiserem ─ é a reeleição da presidente Dilma em 2014”.
As salvas de palmas animaram campeão da gabolice a cruzar a fronteira da prudência. “Nós não temos medo da comparação, inclusive no debate da corrupção”, escorregou na areia movediça o recordista mundial de escândalos por mandato. Risonhos na plateia, os mensaleiros José Dirceu, José Genoíno e João Paulo Cunha aplaudiram com especial intensidade a ousadia do chefe. Mas os três sabem com quem estão lidando. É possível que Lula faça duas ou três visitas dominicais à cadeia que hospedará os companheiros condenados pelo Supremo Tribunal Federal. Mas antes disso terá esquecido o que disse na festa do PT.
Ele foge de comparações com FHC como o vampiro foge da claridade. Se não temesse o duelo penosamente desigual entre um homem que pensa e sabe e uma figura que pensa que sabe, teria topado em fevereiro de 2010 o debate imediatamente aceito por Fernando Henrique. À época, o ministro da Propaganda, Franklin Martins, informou que um presidente não poderia debater com um ex-presidente. Fora do gabinete há mais de dois anos, Lula segue refugando o convite ─ que será reapresentado pela coluna já nesta quinta-feira.
É improvável que crie agora a coragem que faltou quando o Brasil ignorava a existência de Rosemary Noronha. Depois do escândalo protagonizado pela primeiríssima amiga, o medo certamente aumentou. A Polícia Federal revelou há 90 dias que o escritório da Presidência da República em São Paulo fora doado por Lula a uma quadrilheira juramentada. Faz 90 dias que o protetor de Rose e seus comparsas não abre a boca sobre o assunto. Nesta quarta-feira, ao propor que a comparação entre os governos do PT e do PSDB inclua a taxa de roubalheira, tornou obrigatória a incorporação à pauta de perguntas para as quais não tem resposta.
Não lhe será difícil fugir outra vez do debate com FHC. Mas não conseguirá escapar da hora da verdade enquanto existirem jornalistas que não temem rosnados, prezam a independência e jamais renunciarão ao compromisso com a verdade.
(por Augusto Nunes)
Aos defensores da democracia: a agenda de Yoani e a ação dos totalitários, que reduz o adversário a uma “coisa” para poder eliminá-lo sem óbices morais
Sim, caras e caros, eu sei. Gente como nós, pessoas que não são funcionários de uma ideologia, de um partido, que estudam, que trabalham, que trabalham e estudam, que não amanhecem com a vida ganha e vivem do fruto do seu esforço, nós não temos tempo para sair por aí demonizando pessoas. Ainda que saibamos que o pior deles, o mais asqueroso, o mais bandido, o mais ladrão, o peculatário emérito, esteja a dar uma palestra aqui e ali, não vamos lá para protestar, não vamos lá para demonstrar nossa indignação. E olhem que poderíamos: roubaram nosso dinheiro. Pior do que isso: roubaram o dinheiro dos pobres, dos sem-casa, dos sem-creche, dos sem-saneamento, dos sem-saúde, dos sem-escola decente. Temos a nossa vida, não é? Não temos a vocação para nos organizar “contra”.
Mas é preciso pensar se não é chegada a hora da mobilização a favor. A favor da democracia. A favor da pluralidade. A favor da liberdade. A favor do direito à opinião. No programa “Entre Aspas” de ontem, o petista Breno Altman disse o que entende por democracia: não havendo agressão física (Yoani foi fisicamente agredida por petistas e pecedobistas, diga-se), tudo pode; não havendo agressão física, é legítimo e constitucional calar as pessoas, subtrair-lhes direitos essenciais. Na Alemanha nazista, Altman só teria deixado de chamar o modelo de “democrático” quando os judeus começaram a tomar porrada. Ocorre que houve um longo caminho de subtração de prerrogativas até que se chegasse a esse ponto.
Não tem jeito! É parte essencial do pensamento totalitário — pouco importa de matriz (e matiz) esquerdista ou direitista — desumanizar o outro, transformá-lo em “coisa”, reduzi-lo a mera condição de tudo aquilo que se odeia e que se considera o “mal” para, então, eliminá-lo. Para calar o adversário — antes de chegar à fase do extermínio —, é preciso que ele seja expropriado de sua humana complexidade, reduzi-lo ao protótipo da besta. Assim, no passado, humanos foram reduzidos “a judeus apátridas e conspiradores”. Ora, matar judeus pode chocar alguns, mas parece razoável eliminar apátridas e conspiradores. Assim, no passado, adversários políticos foram reduzidos a agentes da reação e das forças do capital. Ora, matar adversários pode chocar alguns, mas parece razoável eliminar agentes da reação e das forças do capital. No Brasil mesmo, como se sabe, simples críticos do regime foram transformados em agentes de “ideologias exóticas, que perturbam a paz”. Ora, matar críticos do regime pode chocar alguns, mas parece razoável eliminar agentes de ideologias exóticas, que perturbam a paz.
O grande diferencial da democracia, e é esta a sua exceção ética — que não se repete em nenhum outro modelo —, é a admissão da legitimidade do “outro”, de quem não pensa como penso, de quem tem entendimento diverso da realidade e tenta fazer valer as suas ideias pelo convencimento. Mas não! Nem tudo é aceitável numa democracia: é preciso coibir, por exemplo, as práticas que a solapem. Quem tenta calar os outros na base do berro, da imposição, da violência, não está exercendo um “direito democrático”, como afirma Breno Altman, mas praticando o argumento da força. O que impressiona no pensamento desse senhor não é o fato de ele ignorar isso tudo, mas o fato de ele saber disso tudo.
Muito bem, minhas caras, meus caros. A agenda de Yoani está um tanto confusa. As dificuldades criadas pelos comunofascistas só faz criar problemas adicionais. Se há pessoas dispostas — e com tempo — para expressar seu apreço pela pluralidade (não é para brigar com ninguém), a agenda conhecida é a que segue. Se eu souber de alguma alteração, informo.
– Estadão – Amanhã, quinta-feira, ela participa de um evento chamado “Conversa com Yoani” no auditório do Estadão. Os interessados devem entrar em contato com o jornal para saber como conseguir o ingresso. Entendi que é aberto ao público. Certamente há mais demanda do que lugares.
– Livraria Cultura – também nesta quinta, ela participa, às 18h, de um encontro com blogueiros na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. Será mediado pela jornalista Barbara Gancia. Não tenho detalhes sobre os blogueiros convidados para a conversa. Não! Não me convidaram — informação objetiva — nem estou reclamando. Para mim, está de bom tamanho fazer a defesa do direito que tem Yoani de expressar o seu pensamento.
– Livraria Saraiva – está previsto para esta sexta, às 16h, mas sujeito a mudanças, um bate-papo de Yoani com Gilberto Dimenstein e Eduardo Suplicy na Livraria Saraiva do Shopping Pátio Higienópolis. Farei um post específico sobre a agenda que criaram para a blogueira cubana e a tentativa de transformá-la em bonequinha de louça da suposta “abertura” do regime cubano.
A agenda, meus queridos, em suma, é a que vai acima. Reitero: eles querem pancadaria, briga, confronto, baixaria. Nós queremos liberdade. Desumanizaram Yoani, transformando-a em agente da CIA, para que possam, então, atacá-la. Não se sentem à vontade, por enquanto, para partir para a simples pancadaria (mas já começam…), como os Camisas Negras, como os arruaceiros da SA nazista… Não duvidem, no entanto, de que é esse o horizonte.
Cumpre lembrar aqui um texto do pastor protestante Martin Niemöller (1892-1984), sobre quem já escrevi aqui algumas vezes. Nos primeiros tempos, ele chegou a ser simpatizante do nazismo — como diria Breno Altman, os nazistas ainda não batiam em ninguém… Mas se deu conta do horror (Breno continua comunista ferrenho…) e passou a ser um de seus mais duros críticos. Foi mandado para um campo de concentração. Escreveu um dos textos mais conhecidos e replicados em todo o mundo, que segue abaixo — frequentemente, aliás, atribuem-no a Bertolt Brecht e, às vezes, a Maiakovski. Não, é de Niemöller.
“Um dia, vieram e levaram meu vizinho, que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram. Já não havia mais ninguém para reclamar.”
Por Reinaldo Azevedo
Suplicy e o pensamento miserável do falso bobo alegre. Ou: Estão tentando transformar Yoani em bonequinha de louça da ditadura cubana. Ou ainda: Um livro e sua contracapa mentirosa
Caros, vai o meu texto, acho, mais importante sobre Yoani Sánchez. Aqui, deixo claro que há gente tentando transformá-la numa espécie de interface entre a ditadura dos Castro e um regime quase democrático. A contracapa que fizeram para um de seus livros é indecorosa, beirando a indignidade. Vamos lá.
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Uma das expressões mais felizes criadas nos últimos tempos, e que se popularizou, é “vergonha alheia”. Sintetiza um sentimento que, antes, requeria palavras demais, não é? Como expressar aquela sensação de constrangimento caso estivéssemos na pele do outro? Embora a situação vexaminosa não nos atinja, é como se atingisse; chegamos a experimentar um desconforto até físico. A vergonha alheia é a câmera subjetiva da… estupidez alheia. Pois é… Nas vezes em que fui levado a me sentir na pele do senador Eduardo Suplicy (PT-SP), veio-me isto: desconforto, vontade de que a terra se abrisse aos meus pés, desejo de acordar de um pesadelo. Em uma palavra: VERGONHA. Em duas palavras: VERGONHA ALHEIA. Escrevi aqui dois posts sobre o pensamento detestável, asqueroso mesmo, do petista Breno Altman. Se, um dia, o seu partido exercer o poder como ele quer que seja exercido, não tenho dúvida de que ele mandará a mim e a outros tantos que pensam como eu para o paredão. Se os tempos fossem avessos a execuções sumárias (“porque pega mal”), ele nos enviaria para um paredão moral, condenando-nos ao silêncio. No regime que defendemos e com o qual ele quer acabar, Breno pode falar; no regime que ele defende, nós seríamos eliminados da história. Breno considera, em suma, que erradicar o adversário é um etapa superior de civilização. Ele tem alguma qualidade? Não chega a ser qualidade, mas uma característica menos detestável: NÃO É UM FARSANTE! Breno odeia a democracia e não esconde isso de ninguém. Breno acha legítimo calar o argumento com o berreiro — ele pratica berreiro também, como deixou claro na Globo News — e não disfarça. Ninguém tem o direito de dizer que não entendeu direito o que ele pretende. Qualquer um entende. Ele não doura a pílula. Mas e Suplicy?
A sociedade que este senhor tem na cabeça — se devidamente identificada, naquela, tudo indica, espessa bruma em que os neurônios lutam desesperadamente por uma sinapse — não é diferente da de Breno, não! Suplicy só é um pouquinho mais bondoso e pio. Dá ao acusado o direito de apresentar provas do que não fez… Ele estava naquele evento de Feira de Santana, em que acanalha fascista proibiu Yoani de falar. Nesta quarta, comportou-se como seu interrogador, na ida da blogueira cubana ao Congresso brasileiro, e, caso não se altere a agenda, tem, na sexta, um bate-papo com ela na Livraria Saraiva do Shopping Pátio Higienópolis. Gilberto Dimenstein é o outro interlocutor.
Está havendo um esforço — talvez seja da Editora Contexto (já digo a razão da minha desconfiança) — para transformar Yoani Sánchez numa espécie de boneca de louça da interface entre o regime assassino dos irmãos Castro e uma nova realidade, que seria, assim, o regime assassino dos irmãos Castro, mas com rosto mais humano. Há gente atuando para demonstrar que, se ela está aqui, aquele troço lá não é assim tão mau…
Qual era a agenda em Feira de Santana? A exibição de um filme que mostra as agressões à liberdade de expressão em regimes tão diferentes como o de Cuba e o de Honduras. Os vagabundos impediram a realização do evento. Mas lá estava Suplicy para “negociar”, então, uma mudança da agenda: em vez do filme, um debate. Entenderam? A canalha, então, já havia vencido, mas cumpria dar uma aparência de solução de consenso ao que consenso não era porque uma imposição dos brucutus. Na TV, o senador apareceu com as bochechas trêmulas, aparentemente enfrentando os seus aliados do PT e do PCdoB. Vale dizer: foi preciso apelar a um deles para proteger Yoani da fúria… deles. Naquele dia, comprovada a impossibilidade de realizar o previsto, a única saída decente era o cancelamento do evento. Até porque não houve debate. A blogueira não conseguiu falar. Aqueles dinossauros a soldo que estavam lá não deixaram.
No Congresso
No Congresso, nesta quarta, o senador petista continuou na sua saga indecente. Reproduzo trecho da reportagem da VEJA.com (em azul):
Dois parlamentares, nada interessados em saber as condições de vida de Yoani em Cuba, trataram de interrogar a convidada: Eduardo Suplicy pediu que ela pedisse o fim do embargo econômico à ilha e defendesse o fim da prisão americana de Guantánamo, em solo cubano. Glauber Braga (PSB-RJ) foi mais longe: perguntou se ela defendia a libertação de cinco cubanos presos nos Estados Unidos por espionagem. E ainda quis saber quem financia as viagens que a blogueira tem feito.
De forma tranquila, Yoani respondeu: defende o fim do embargo e a libertação dos presos para que o regime cubano tenha menos razões para justificar o próprio fracasso e desviar o foco da falta de democracia na ilha. Disse que é contra as violações supostamente praticadas em Guantánamo. E ainda explicou, detalhadamente, de onde vieram os recursos de suas viagens – de doações espontâneas e entidades como a Anistia Internacional.
Suplicy posa de amigo de Yoani, de homem tolerante, para, de fato, exercer uma intolerância em certa medida mais ferina e inteligente do aquela de Breno Altman. Exige que a blogueira se ajoelhe no milho e faça, indiretamente, juras de amor a seu país — como se isso fosse necessário — para que tenha, então, legitimidade para falar. Essa tem sido a sua prática constante. Ora, é evidente que Yoani é contra o embargo a Cuba (embora ele seja irrelevante); é evidente que ela só pode falar contra a permanência de prisioneiros em Guantánamo — e até mesmo contra a existência da base americana. Qualquer coisa que sugerisse o contrário serviria de pretexto para ser considerada agente da CIA.
Este senhor é um dos agentes da degradação dos direitos democráticos. Atenção! Yoani teria o direito de falar o que bem entendesse, ainda que fosse favorável ao embargo; Yoani teria o direito de falar o que bem entendesse, ainda que fosse favorável à existência da base de Guantánamo, com seus respectivos prisioneiros; Yoani teria o direito de falar o que bem entendesse, ainda que fosse favorável à prisão dos cinco cubanos nos EUA.
Suplicy está tentando demonstrar aos brucutus de esquerda que a cubana não é assim tão má; que ela não é uma “conservadora”, que ela não é “uma direitista”, que ela não é “uma reacionária”. EU TAMBÉM ACHO QUE ELA NÃO É NADA DISSO, MAS É UM ABSURDO QUE SE EXIJA DELA QUE PROVE NÃO SER NADA DISSO. ESPECIALMENTE QUANDO ELA TEM O DIREITO DE SER TUDO ISSO, SE QUISER, MANTENDO O DIREITO À PALAVRA! A blogueira cubana foi alvo, há algum tempo, de um delinquente francês disfarçado de jornalista chamado Salim Lamrani. Ele a entrevistou — na verdade, mais a ofendeu do que outra coisa — para demonstrar que é, sim, uma agente da CIA ou algo assim. Suplicy já cobrou de Yoani em outras circunstâncias que demonstrasse que aquele bandido intelectual estava errado, que se explicasse. EM SUMA, SUPLICY ESTÁ COLADO A YOANI PARA, NA PRÁTICA, FAZER A DEFESA DO REGIME CUBANO.
E Gilberto Dimenstein na conversa? Qual é a sua ligação com essa história toda? Quem o escalou? A Editora Contexto? Não! Não estava nem estou me oferecendo — antes que as Parcas da desqualificação comecem a vomitar… Trata-se de mais uma tentativa para, digamos, enfraquecer e edulcorar a imagem de Yoani como uma adversária do regime. O chefe do onguismo politicamente correto — divulgador, em larga medida, da mesma visão de mundo que hostiliza Yoani — vai conversar com ela por quê? Por que não um Demétrio Magnoli, por exemplo? Não, não estou sugerindo alguém da minha “igreja de pensamento”. Em matéria de pensamento, minha religião tem um só fiel: eu! Em matéria de política internacional, mais discordamos do que concordamos — aliás, é bem provável que só discordemos. Eu defendo, sim, o embargo a Cuba, ainda que ele seja irrelevante (é provável, não me lembro, que Demétrio seja contra). No que diz respeito à política americana, somos água e óleo; ao Oriente Médio e à Primavera Árabe, idem. Quando o assunto é Obama, então, a divergência vai ainda mais longe. Mas Demétrio é da área e foi uma das primeiras pessoas no Brasil a se interessar pela atuação de Yoani. O livro “De Cuba, com Carinho”, tem um posfácio de sua autoria, de 37 páginas. O que pretendem? Que Suplicy continue a fazer testes ideológicos com a blogueira e que Dimenstein a trate como uma espécie de ciclista das liberdades democráticas? Tenham paciência! “Olhem o Reinaldo, que reclama da intolerância, sendo intolerante.” Não! Olhem o Reinaldo escrevendo o que pensa, sem gritar, sem xingar, sem impedir ninguém de falar. Eu não vou comparecer à Livraria Saraiva para dirigir impropérios contra Suplicy e Dimenstein.
Yoani: cronista do cotidiano e guia turística?
Pode não parecer, mas há, então, uma patrulha original, prévia, que já buscou enquadrar a imagem de Yoani num determinado figurino para não ofender os “companheiros cubanos”. E por que acho que a Editora Contexto está nessa? Vejam esta imagem. É a contracapa do livro “De Cuba, com carinho”. Contracapas são escritas sempre pelos editores, nunca pelos autores. Vejam o que vai ali. Volto em seguida.
Por que destacar que ela é “alguém que não quer que conquistas obtidas nas últimas décadas sejam jogadas fora”??? Ora, e por que quereria? Quem seria idiota o bastante para dizer: “Ah, isso que temos aqui é bom, mas, como queremos mudar o regime, então vamos dizer que é ruim”? Yoani não é a petista de sinal trocado de Cuba. Seja lá a que conquista o texto queria se referir, trata-se de uma boçalidade. Não é a pior. Na última linha do primeiro parágrafo, a Contexto manda bala: “Mas ela não escreve sobre política”.
Não??? Dispenso-me de repetir o clichê de que tudo é política. Não preciso ser genérico assim. Reproduzo páginas de seu livro para que vocês avaliem se Yoani é, assim, mera cronista do cotidiano ou, sei lá, guia turística. Até onde acompanhei, a Contexto se encarregou de inventar uma Yoani mais palatável ao regime cubano e às esquerdas xexelentas brasileiras, embora isso tenha resultado inútil. Os brucutus não se interessam por matizes. Abaixo, reproduzo uma página do seu livro (imagem logo abaixo) e uma do posfácio de Magnoli (a seguinte). Volto para encerrar.
Voltei
Se a Contexto estiver certa e se isso não for política, é o quê? Culinária? Turismo? Um tratado sobre metafísica? A vinda da blogueira cubana ao Brasil está sendo útil para demonstrar também a nossa miséria intelectual. Em Cuba, ao menos, há quem resista à ditadura — e Yoani é uma dessas pessoas. No Brasil, embora as leis estejam aí para assegurar o direito à divergência, cada vez mais se procura a ditadura do consenso.
Por Reinaldo Azevedo
Aécio: “Quem governa o Brasil é a lógica da reeleição”
Por Gabriel Castro e Marcela Mattos, na VEJA.com:
“Setores do PT estimulam a intolerância como instrumento de ação política, tratam adversários como inimigos a ser batidos, tentam cercear a liberdade de imprensa, atacam e desqualificam os críticos, numa prática eminentemente autoritária”. Provável candidato à Presidência da República em 2014, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) fez nesta quarta-feira um discurso em que apresentou o que chamou de “treze fracassos” do PT – que comemora 33 anos de fundação.
O tucano, que é pouco afeito a discursos agressivos em plenário, resolveu ser enfático e fez críticas diretas à presidente Dilma Rousseff, sua provável adversária na eleição. “Não é mais a presidente quem governa. Hoje, quem governa o Brasil é a lógica da reeleição”, disse ele.
Os treze pontos destacados por Aécio incluíram muitas críticas à gestão da petista. Ele citou maus resultados da economia, o fracasso da Petrobras, a lentidão nas obras do governo e os dificuldades na saúde e na educação. O tucano também defendeu o legado do governo FHC: “A grande verdade é que, nesses dez anos, o PT está exaurindo a herança bendita do governo Fernando Henrique Cardoso”.
O parlamentar criticou o que chamou de “intolerância” de parte dos petistas. “Setores do PT estimulam a intolerância como instrumento de ação política, tratam adversários como inimigos a ser batidos, tentam cercear a liberdade de imprensa, atacam e desqualificam os críticos, numa prática eminentemente autoritária”.
Mensalão
Sem fazer referências diretas ao mensalão, Aécio também tratou da leniência petista com envolvidos em escândalos de corrupção: “Não falta quem chegue a defender em praça pública a prática de ilegalidades sob a ótica de que os fins justificam os meios”.
O discurso de Aécio foi criticado pelo senador Lindberg Farias (PT-RJ), que fez um aparte ao pronunciamento tucano. O parlamentar petista tratou o colega como pré-candidato à Presidência e disse que o tucano não poderia omitir as conquistas dos governos do PT. Em sua reposta, Aécio foi cauteloso sobre 2014: “Minha candidatura não está em pauta ainda. O partido é quem vai decidir”.
De forma oblíqua, o tucano também respondeu às críticas de que sua postura de oposicionista é pouco firme: “Agir como o PT agiu enquanto oposição faria com que fôssemos iguais a eles. E nós não somos. Não fazemos oposição ao Brasil e os brasileiros”.
Além de Lindberg, o senador Wellington Dias (PI), líder do PT no Senado, também respondeu a Aécio: apresentou uma lista com 45 pontos em que o PSDB falhou durante o governo Fernando Henrique Cardoso.
Por Reinaldo Azevedo
Kassab no evento do PT: “O povo vive hoje muito melhor graças a esse governo”. Reação dos petistas: uma sonora vaia
Por Diógenes Campanha, na Folha Online:
O ex-prefeito e presidente do PSD, Gilberto Kassab, foi vaiado por militantes do PT ao subir no palanque do ato de comemoração dos dez anos da sigla no comando do governo federal. Assim que Kassab foi anunciado, as vaias tiveram início. O ex-prefeito demorou alguns instantes para subir no palanque. O ruído só teve fim quando o convidado seguinte foi anunciado. Além do ex-prefeito, dirigentes de outros partidos aliados do governo foram convidados a integrar o palanque da festa. Entre eles estavam Carlos Lupi (PDT) e Alfredo Nascimento (PR), ex-ministros que foram demitidos pela presidente Dilma Rousseff durante os dois primeiros anos de seu mandato.
Ao subir na tribuna para discursar, Kassab foi novamente hostilizado. Ele enalteceu “conquistas” dos governos Lula e Dilma.
“O povo vive hoje reconhecidamente muito melhor e com melhor qualidade de vida, graças à existência desse governo”, disse. O ex-prefeito também desceu do palanque debaixo de vaias. Já os petistas que foram condenados no mensalão — José Dirceu, José Genoino e João Paulo Cunha — foram aplaudidos pelos petistas ao chegarem à cerimônia antes de seu início.
(…)
Por Reinaldo Azevedo
Na festança do PT, na presença de Dilma, Falcão pede “regulamentação da mídia”. Ou: Alguns anos de cadeia sob aplausos
Por Silvia Amorim e Sérgio Roxo, no Globo. Mais tarde volto ao assunto.
A regulamentação dos meios de comunicação no país foi apontada como “inadiável” pelo presidente nacional do PT, deputado Rui Falcão (SP), durante discurso na festa de comemoração dos 10 anos do partido na Presidência da República. A discussão sobre o assunto é antiga dentro do PT, que chegou a incluir uma proposta pontual no documento do seu 4º Congresso Nacional, em 2012.
“É inadiável o alargamento da liberdade de expressão no país. O alargamento da democracia nos meios de comunicação tal como está previsto nos artigos da Constituição e que esperam há anos por uma regulamentação”, afirmou Falcão, seguido de aplausos.
O dirigente ressaltou realizações do PT para o avanço de uma democracia social e referiu-se à gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), sem citar nomes, como “omissos neoliberais”.
Antes de começar a discursar, Falcão recebeu um recado da presidente Dilma Rousseff ao pé da orelha já quando estava à frente do púlpito. Era um pedido para que ele agradecesse a militância que estava assistindo à cerimônia por telões instalados fora do auditório porque o espaço reservado havia atingido a lotação máxima.
O ex-ministro José Dirceu, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento do mensalão, foi um dos mais festejados na festa do PT. Os deputados federais Genoíno e João Paulo Cunha, também condenados, chegaram por volta das 18h30m, com menos entusiasmo. Dirceu chegou por volta das 19h e formaram-se longas filas de petistas para cumprimentá-los.
A Juventude do PT chegou a fazer uma camiseta em defesa do ex-ministro José Dirceu, condenado pelo STF. O filho de Dirceu, o deputado federal Zeca Dirceu (PT-PR), chegou ao evento com uma delas na mão. A foto do ex-ministro está estampada na camiseta. Embaixo dela, estava escrito “inocente”. Na parte de cima, “golpe das elites”.
“Foi o pessoal da juventude que me deu”, afirmou Zeca. O deputado descartou que o seu pai tenha sido escondido no evento por não ter ficado na mesa principal. “Foi feito um palco pequeno. Não é possível comportar todo mundo. Acabou se dado prioridade a quem tem que ter prioridade, a presidenta, o ex-presidente, o presidente nacional do parido. É normal”.
Zeca disse ainda que o PT “tem sido solidário” com Dirceu. O deputado afirmou estar sofrendo com a perspectiva de Dirceu ir para a cadeia cumprir a pena de 10 anos e 10 meses, a que foi condenado. Durante a espera até o início do evento, que começou com uma hora e meia de atraso, Dirceu mal ficou sentado na primeira fila da plateia do auditório escolhido para a festa petista diante dos cumprimentos de militantes e convidados.
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Por Reinaldo Azevedo
Na democracia petista, seus crimes devem ficar sem castigo, e os adversários não têm nem mesmo direito de defesa
Se me pedissem para sintetizar a atuação essencial das esquerdas, no Brasil e mundo afora, eu o faria assim: são correntes de pensamento que se querem donas do progresso e que pretendem impor o seu pensamento ao arrepio da institucionalidade. Para elas, o arcabouço jurídico que garante direitos universais tem de ser rompido pelos grupos que se apresentam como a vanguarda das lutas sociais — elas próprias. Assim, repudiam essencialmente a sociedade de direito em benefício do que entendem ser o direito da sociedade, em nome da qual falam, ainda que não tenham representação para tanto. Como se querem as expressões naturais do povo, a pauta que defendem — o conteúdo propriamente — não tem grande importância; ela é móvel e pode mesmo ser contraditória ao longo do tempo. Isso é irrelevante. Vivem num mundo da legitimidade auto-outorgada. Vamos pensar essa concepção à luz de alguns acontecimentos recentes.
Há muito tempo eu não via tamanha manifestação de vigarice intelectual e de autoritarismo como a desse rapaz chamado Pedro Abramovay, militante petista — da corrente bom-moço-ilustrado (costumam ser os mais perigosos) — e ex-secretário nacional de Justiça. É aquele rapaz que andou tendo algumas ideias para diminuir a violência no país: descriminar as drogas, deixar soltos os pequenos (?) traficantes e prender menos bandidos… Um gênio! Aos ouvidos de certo jornalismo que não consegue ler estatísticas, isso soa como poesia. Ele se tornou o chefão no Brasil de uma entidade internacional chamada Avaaz, que faz petições online. Aquela contra a eleição de Renan Calheiros (PMDB-AL) para a Presidência do Senado fez grande sucesso — e por bons motivos. Abramovay se aproveita de um fato como esse para divulgar uma concepção moralmente dolosa do que seja democracia. Formado em direito, ex-titular da Secretaria Nacional de Justiça (!!!), deveria ter a defesa das instituições — e dos caminhos também institucionais para mudá-las — como seu norte.
Mas não! É um militante de esquerda — ainda que da esquerda chique. É evidente que não defende mais, a exemplo dos seus pares, o socialismo. Isso é coisa do passado também para eles. Os petistas se dão muito bem no mundo do capital. Só não abrem mão de ser os donos da sociedade, de substituí-la, de falar em seu nome — não abrem mão, em suma, da condição auto-outorgada de vanguardistas. E, por isso, que se danem as instituições e as leis, incluindo o direito de defesa de seus inimigos.
Abramovay quer demonizar alguém? Basta que se lance uma petição em seu site. Abramovay quer acusar a polícia de São Paulo de ter feito um pacto com o PCC? Basta que estale os dedos, e repórteres aparecem para ouvi-lo — e ele não precisa apresentar provas. Abramovay decide afirmar que quem baixou as taxas de homicídio em São Paulo foi o PCC? Basta que anuncie — e, mais uma vez, sem provas, sua acusação será publicada. E com um requinte adicional: outros “especialistas” serão convocados pelos jornalistas para opinar sobre a sua opinião.
Não, senhores! Eu não preciso concordar com Silas Malafaia — e não concordo — sobre a possibilidade de reorientar um homossexual. Mas é uma estupidez autoritária que se tente impedi-lo de dizer o que pensa. Na entrevista que concedeu a Marília Gabriela — que se conduziu com extrema correção, diga-se, discordando, sim, do interlocutor, mas de forma respeitosa —, ele não afirmou que a homossexualidade é uma doença (e poderia tê-lo feito sem que isso constituísse crime). Sustentou que essa expressão da sexualidade é de origem comportamental. Acho que ele está errado. Mas ele não é o único no Brasil e no mundo a pensar assim. Não se tem notícia de um movimento para cassar o registro profissional de um psicólogo por expressar essa convicção. Isso, sim, é uma violência absolutamente inaceitável. Mas bastou para que surgisse lá no Avaaz uma petição nesse sentido. A evidência de que se trata de intolerância e de perseguição a alguém tido como adversário está no fato de que Malafaia nem exerce a profissão; é pastor evangélico. O que se quer, no entanto, é espezinhá-lo, agredi-lo, atacá-lo.
Uma petição pública em favor de questões que dizem respeito ao público, vá lá. Pegue-se o caso de Renan. De fato, ser ele presidente do Senado ou não concerne a todos os brasileiros; é uma questão pública. E há outras boas na Avaaz. O vereador de São Paulo Andrea Matarazzo (PSDB), por exemplo, está propondo que o prefeito Fernando Haddad reveja a doação de um terreno para o Instituto Lula (uma das heranças benditas — para o PT — de Kassab) e que a área seja doada para creche. Virou uma petição. Faz sentido de novo! A questão é pública, diz respeito à cidadania. MAS REGISTRO PROFISSIONAL??? Ora, isso envolve também questões de natureza técnica. Quando é que se vão fazer petições tentando impedir “jornalistas incômodos” de trabalhar? É uma questão de tempo.
A petição em favor da cassação do registro de Malafaia permanece no ar, aberta a adesões, mas aquela contrária à punição foi retirada. Abramovay a considerou um “lobby”. Ainda que fosse, pergunto: a que pede que a punição do pastor é o quê? ENTENDAM: NA VISÃO DE MUNDO DE ABRAMOVAY, NÃO EXISTE DIREITO DE DEFESA — a não ser, suspeito, para mensaleiros… Ele está convicto de que pode dar curso a uma petição dessa natureza, mobilizando a máquina do site e sua rede de influências na imprensa sem que o outro dê um pio — não no Avaaz, ele reiterou!
Trata-se de uma manifestação absurda de assédio moral. Nos EUA e em boas democracias do mundo, Abramovay seria processado. Perderia até as calças. Se o Avaaz abriga as assinaturas de quem quer cassar o registro de Malafaia, por que não acatar, em outro documento, as dos que não querem? Nada disso! Abramovay jogou no lixo quase 70 mil manifestações porque a “comunidade”, disse ele, por maioria “democrática”, decidiu que assim seria.
Aí voltamos lá ao começo. O rapazola, embora formado em direito, integra aquelas hostes para as quais as instituições têm pouca importância. Ele se considera muito mais relevante do que as leis do país e bobagens como o direito de defesa. Alega o moço que as regras da Avaaz preveem que se retirem do ar campanhas que se opõem a seus princípios. Bem, todas as organizações tem suas regras particulares — incluindo o PCC, a Al Qaeda… A questão é saber se o site de petições se orienta segundo as regras de democracia ou é discricionário como um grupo criminoso qualquer.
Os mensaleiros
Na festa dos 10 anos do PT no poder — a coisa é uma indignidade em si —, vimos lá, alegres e fagueiros, os mensaleiros. Tiveram, como é óbvio, assegurado o direito de defesa. Todo o processo se deu ouvindo sempre o contraditório. Os petistas acusam, no entanto, o STF de ter se comportado como tribunal de exceção — porque os condenou; caso contrário, estariam chamando os ministros de grandes patriotas. José Dirceu promove Brasil afora “plenárias” contra o tribunal. Entendo: “O STF é apenas a expressão maior de um Poder da República; trata-se de uma voz meramente institucional, coisa menor. Quem essa gente pensa que é?” Já o Avaaz de Abramovay é diferente. O rapaz quer o site como a voz da sociedade civil, e ele, Abramovay, como chefe, é, então, o chefe da sociedade civil. Por isso decide quem deve viver ou morrer.
Sugiro que alguém lance no site Avaaz uma petição pedindo que a OAB casse a carteirinha de advogado de Abramovay porque, em seu mundo, inexiste contraditório. Vamos ver se isso também fere os princípios da “comunidade”.
Por Reinaldo Azevedo