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Por enquanto, duas pessoas podem comemorar o transe em que entrou o país: Marina e Lula

Publicado em 24/06/2013 21:27 e atualizado em 26/07/2013 11:51 2081 exibições
por Reinaldo Azevedo, de veja.com.br

Marina Silva apareceu ontem numa entrevista à Folha. Muito a seu estilo, afirmou que parte das pessoas ligadas à Rede — o partido que não é partido — está nas ruas, evidenciou o que chama de militância “autoral” dos que se manifestam, provou por que isso tem tudo a ver com o que pensam os marineiros e, como ela é ela, acusou outras legendas de “oportunistas” por tentarem pegar carona no movimento. Só ela e os seus, claro!, são pessoas legítimas para se ligar à causa… A tal pesquisa que a Globo encomendou ao Ibope traz este dado.

Pois é. Não sei quanto tempo Marina Silva terá no horário eleitoral gratuito. Mas se vai desenhando um cenário absolutamente favorável para ela. Se há alguém que reproduz esse espírito de aversão à política (embora seja política); de crítica aos partidos (embora ela tenha criado um só para poder se candidatar) e de um apego difuso às “causas do bem”, esse alguém, obviamente, é ela. Cada um com os seus valores, com as suas escolhas, com o seu ponto de vista. Vocês conhecem o meu. Considero isso uma péssima notícia.

No petismo
Ainda que as ruas, por enquanto, andem um tanto hostis ao PT, Lula — que gostaria, sim, de ser o candidato em 2014 — pode comemorar. O que era dado como uma absoluta impossibilidade há um mês — a sua eventual candidatura à Presidência em 2014 — é agora considerado mais do que uma hipótese plausível. Na cúpula do PT, não são poucos os que consideram que Dilma já era.

Ainda que eu possa ver algumas virtudes no movimento que está em curso, bastam, para mim, essas duas consequências para considerar que o dano pode ser bem maior do que o perigo. Vejam o perfil da amostra da entrevista do Ibope.

Os beneficiários do Bolsa Família e os pobres brasileiros não estão aí. Para que Lula vá para a praça e inicie a guerra dos ricos contra o pobres, não custa muito. “Ah, isso não cola mais…” Tomara que não!, mas me reservo o direito de duvidar.

Aécio
O discurso antipolítico e antipolítica é, obviamente, ruim para Aécio Neves (PSDB) também. Ontem, Minas foi palco de confrontos entre manifestantes e a Polícia Militar, que conta com o auxílio da Força Nacional de Segurança. Dado o modo como as coisas se fizeram, não restava alternativa. As bombas estão caindo no colo de Dilma, mas notem que as oposições silenciam porque não lhes resta muito a fazer num ambiente de repúdio “a tudo isso que está aí”.

Por Reinaldo Azevedo

 

Os ultraesquerdistas do Movimento Passe Livre, do MTST e do Periferia Ativa tentam retomar o protagonismo e agora vão levar agitação para as áreas mais pobres de SP

Inconformados com o suposto desvio conservador das manifestações, os coxinhas radicais do Movimento Passe Livre e seus aliados de esquerda do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e do Periferia Ativa decidiram, há dois dias, não convocar mais manifestações em São Paulo. Como os protestos continuaram a acontecer mesmo sem eles, então recuaram do recuo e agora estão de volta. Por enquanto ao menos, parece que vão deixar a Paulista “para a direita”. Os almofadinhas, agora, querem cair nos braços da periferia.

Com o auxílio da imprensa, transformada em sua porta-voz, a turma decidiu marcar um protesto que tem duas áreas iniciais de concentração: o Largo do Campo Limpo e a estadão do metrô Capão Redondo. Atenção para isto: os protestos vão começar às 7h, segundo informam os portais noticiosos. Se for assim, parece que a ideia é forçar uma espécie de greve junto com a manifestação. A depender das adesões e do que faça o grupo, cria-se um colapso nos transportes, e ninguém consegue se mexer.

Mas, diz o Datafolha, 66% dos paulistanos apoiam os protestos. Eu também apoio, já disse, mas não assim. Nenhuma democracia do mundo permite que a vida das pessoas — ainda que seja da minoria de 34% — seja decidida pela vontade militante de alguns grupos, ainda que suas causas sejam justas e razoáveis. A do MPL é?

Eles avisam em sua convocação que o protesto de agora é pelo “passe livre” mesmo. E escrevem: “Se, antes, diziam que baixar a passagem era impossível, a luta do povo provou que não é. Já derrubamos os 20 centavos. Podemos conquistar muito mais. O transporte só vai ser público de verdade quando não tivermos que pagar nenhuma tarifa para usá-lo”. Eu não vou dar piscadelas para essa sandice. Pouco me importa que o peso recaia sobre Fernando Haddad, que já apelidei aqui de o Supercoxinha de esquerda. A Prefeitura não é dele. Quando ele se for, o problema continua.

Ah, sim: a pauta de demonização da polícia continua. O MPL também vai pedir a sua “desmilitarização” e mais verbas para saúde e educação. Contra a corrupção e o vandalismo, até agora, o grupo não falou. Deve achar que é coisa “de direita”.

Os portais estão noticiando o serviço, ensinado a seus leitores como chegar ao local da passeata. É mais ou menos como se fosse uma excursão ao mundo dos pobres, entenderam? Uma espécie de mistura de espírito militante com espírito turístico. A depender da bagunça que essa gente faça lá no metrô do Capão Redondo, há o risco de pôr em colapso todo o sistema.

Mas nós todos já aprendemos. Se houver alguma confusão, a culpa ou é da polícia ou é de uma “minoria infiltrada”, como a Globo passou a chamar os vândalos. Jamais será de quem marcou um protesto em áreas vitais da cidade, às sete da manhã.

Faustão
Um amigo me liga e diz que Fausto Silva fez há pouco um verdadeiro manifesto em defesa das mobilizações — contra, claro!, o vandalismo. Só faltava ser a favor. Teria feito considerações em tom meio jacobino sobre a passividade do povo, a necessidade de ir às ruas e coisa e tal. Se o bicho por aqui pegar, se o pau comer pra valer, sabem como é, ele sempre poderá se solidarizar conosco lá de Miami, onde não há a hipótese de violação de direitos fundamentais com o apoio de programas de entretenimento. Há, evidentemente, uma óbvia diferença entre a defesa da civilidade nos protestos e a incitação.

Faustão teria perguntado no ar, com a plateia sempre respondendo “Nãããooo”:
- A saúde e boa?
- A educação é boa?
- A segurança é boa?
- O transporte é bom?

O discurso demagógico e populista raramente é definido pelo conteúdo, mas pelo tom. Nessas circunstâncias, a resposta seria “nãããõoo” na maioria das grandes cidades do mundo. A questão é saber se cabe a animador de auditório esse tipo de discurso e se aquele é o lugar adequado para esse tipo de debate. Não! Não estou defendendo censura, não! Só bom senso. Ele fale o que bem entender. Eu falo também.

Vinte e três de junho de dois mil e treze. Não se esqueçam de que eu disse aqui que essa aparente explosão de cidadania vai tornar o Brasil ainda mais refém do que já é hoje em dia de minorias radicais, que impõem a sua pauta mesmo sem ter representação para isso. Este será um dos temas principais do segundo capítulo da série “Por que eu digo não”.

Por Reinaldo Azevedo

 

NA FOGUEIRA: “Bandeira da nação/ homenagem à escravidão”

Vocês têm de ver este vídeo para entender por que as manifestações podem degenerar em violência. Um grupo queima a bandeira brasileira. É evidente que alguns, ali, têm orientação política — uma péssima orientação, mas têm. Outros não dominam nem o vocabulário. Cresce nos morros e nas periferias Brasil afora — este vídeo é de São Paulo — a mística de que se está a criar “fora do mundo das elites” uma cultura alternativa. ONGs, padres, organizações políticas de ultraesquerda… Essa gente tem a ambição de estar construindo “algo novo”, que seria a expressão da voz do oprimido.

O PT transformou isso numa “linguagem de resistência”, com a tola ambição de que “controla a massa”. Insufla, sim. Tem seus aparelhos na periferia, mas controle, propriamente, não tem. Vejam este vídeo. Volto em seguida.

Voltei
Palavras de ordem:
“Bandeira da nação, homenagem à escravidão.”
“Essa bandeira mata índio.”
“Chega de alegria porque a PM mata pobre todo dia.”
“Que coincidência (eles falam “conhecidência”), na classe média não tem violência.”
“Ei, reaça, sai da nossa marcha.” (já falo a respeito)

Entre as palavras de ordem, alguém diz que quem mata índio é a Dilma… Outro, com faixa, diz com voz forte: “A gente não esqueceu do Carandiru, do Pinheirinho, da Candelária”. Essa gente pode nem saber direito do que está falando, mas quem lhes soprou a pauta sabe.

Há inocentes úteis? Há, sim. Um dos rapazes nem sabe o que quer dizer “reaça” (versão reduzida de “reacionário”), tanto que ora diz “reaja”, ora “reacha” e só então “reaça”, mas de forma hesitante porque ignora o significado.

O título do vídeo, que está no YouTube, diz tratar-se de uma manifestação do Passe Livre. Não creio. Dá para perceber que é gente mais para pobre do que para rica — não são os coxinhas radicais e almofadinhas revolucionários do MPL.

Para onde vai? Não sei! O PT, os ultraesquerdistas e setores da imprensa deliram, babam de satisfação, ao ver coisas assim. Acham que é a “verdade do povo”. Houve um tempo em que se considerava, mesmo entre esquerdistas, que “feio não é bonito”. Houve um tempo em que se considerava que o desejável era que os mais pobres buscassem sair de sua condição.

E, acreditem, o Brasil avançou nesse período. Nos últimos anos, o registro mudou e a marginalidade social e a exclusão passaram a ser vistas como uma nova cultura, com valores afirmativos, de resistência. No que isso vai dar? Está aí mais uma coisa que não sei. Mas sei outras tantas. Sei, por exemplo, que isso não gera renda, não distribui renda, não resulta em ganhos coletivos, não resulta em ganhos individuais, não resulta em nada.

Isso só serve à má consciência culpada dos bacanas.

Por Reinaldo Azevedo

 

Tarso Genro investe na besteira e acusa “extrema direita” por depredações… É ? E se eu disser que pode ter começado em sua própria casa?

A TBM (Taxa de Besteira por Minuto) do Brasil não anda pequena. Mas sempre se pode contar com o petista Tarso Genro, governador do Rio Grande do Sul, para elevá-la. Em entrevista ao programa “Gaúcha Atualidade”, da radio Gaúcha, ele afirmou que as depredações Brasil afora são coisa da… extrema direita!!!

“Estou convencido de que são pessoas de extrema direita ou manipuladas por esses grupos, e estão sendo pagos por alguém, que não se sabe quem. Não são pequenas minorias, existem pelo menos mil, 2 mil pessoas que estão por trás disso. Colocar que são poucos é um desserviço”.

É mesmo? Então ele já sabe quem são. Vai ver seu serviço secreto já descobriu tudo. É fácil, Tarso! Basta sua aliada, a presidente Dilma, determinar que a Polícia Federal faça seu serviço. Quanta besteira!

A nova jornada de protestos contra as tarifas, é bom lembrar, começou pra valer em Porto Alegre, em março deste ano. Consultem os jornais locais. E FORAM COMANDADAS PELO PSOL. O PSOL criou até uma marca-fantasia para atuar nos “movimentos sociais”: o tal “Juntos”. Um representante da turma concedeu entrevista, com pompa de pensador, ao “Globo Repórter” que foi ao ar na sexta. Não se informou que se trata de uma fachada do PSOL. Ficou parecendo que o rapaz apenas quer um mundo melhor. Ele e as carmelitas descalças.

Por que lembro isso? Porque, reitero, essa nova jornada começou em março, em Porto Alegre, tendo no comando o PSOL, que tem entre os fundadores Luciana Genro, a filha de Tarso. O registro do “Juntos” na Internet traz o nome da responsável: a própria Luciana. Um dos mais ativos organizadores das manifestações de rua em Porto Alegre é o vereador do partido Pedro Ruas.

Tarso quer saber como tudo começou? Por que não começa a procurar em casa?

Por Reinaldo Azevedo

 

Vai ver, então, a “extrema direita” virou o xodó da “Gaiola das loucas e dos loucos”

Cresce a conversa estúpida, a exemplo do que disse Tarso Genro, de que movimentos de direita (ver post anterior) estariam por trás dos atos violentos nas passeatas Brasil afora. Vai ver, então, a extrema direita virou o xodó da “Gaiola dos Loucos e das Loucas” em que se transformaram algumas emissoras de TV no Brasil, que chamam de “pacífica” gente que sapateia em cima do Congresso, com tocha acesa na mão.

Extrema direita? A direita, no Brasil, já não lota uma Kombi. Imaginem, então, a extrema direita… O que praticamente não vi até agora foi esquerdista se opondo ao movimento, com medo “do povo”. Ou será que Rui Falcão, presidente do PT, recomendou que os petistas aderissem às passeatas porque quer dar uma forcinha à… extrema direita?

Segundo pesquisa Ibope, encomendada pela TV Globo, nada menos de 33% dos entrevistados nesses eventos justificam atos de vandalismo: 5% deles, sempre; 28%, só de vez em quando. Será que a extrema direita é assim tão grande?

Mas a “hipótese extrema direita” não para de ser aventada, especialmente pelos “jornalistas progressistas” do Estadão… Os extremo-direitistas teriam obrigado os petistas e outros esquerdistas a ensarilhar as bandeiras na Paulista, no dia 18.

Mentira!

Basta assistir aos vídeos para ver que foram manifestantes comuns, sem qualquer marca de tribo ou vinculação partidária. Tentam fazer de conta que os “carecas” calaram os petistas. Não foi, não! Quem os botou para correr foram pessoas que não suportam mais a corrupção.

Fico muito à vontade para escrever isso, não é? Como sabem, não apoio a forma como se dá esse movimento. E não apoio porque, no fim das contas, acho que a esquerda sairá ganhando — a petista ou alguma coisa ainda pior do que ela. Não apoio porque o método consagrado é autoritário, consagrado pelas esquerdas fascistas.

Por Reinaldo Azevedo

 

Eis aí! Dilma veio a público propor plebiscito para Constituinte exclusiva para fazer reforma política

Começou a acontecer, mais depressa do que eu temia, o que chamei de torção à esquerda do processo político. Na reunião com governadores e prefeitos de capitais, com ar abatido como nunca, Dilma falou sobre fazer um plebiscito para criar uma Constituinte exclusiva para a reforma política.

Taí… Vamos lá na rua, meter fogo em tocha e sapatear sobre o Congresso. É um convite e tanto para um “by pass” no Parlamento , sob aplauso de muita gente que deveria estar pedindo para aquela gente descer de lá.

Constituinte para reforma política? A chance de feitiçaria é gigantesca. Um dos consensos estúpidos entre os descolados é, por exemplo, o financiamento público de campanha — o que significa universalizar o caixa dois.

Volto ao assunto mais tarde. Não tem jeito! A melhor maneira de não se queimar é não brincar com fogo. Quero lembrar aos entusiasmados que uma Constituinte exclusiva, mesmo para reforma política, poderá embutir mecanismos de “controle da mídia”, ainda que voltadas para questões eleitorais.

Fica para depois.

Por Reinaldo Azevedo

 

Proposta de Constituinte é inconstitucional. Trata-se de uma tentativa de golpe bolivariano. Ou: Conforme previ, petismo tenta saída à esquerda. Não estou surpreso. Nem vocês!

Constituinte exclusiva para fazer reforma política é golpe. É evidente que se trata de uma proposta inconstitucional, que não passaria no Supremo — aos menos, espero que não. Se passasse, então seria sinal de que estaríamos no reino onde o perdão seria desnecessário porque não haveria mais pecado.

Pois é… Eu conheço esses caras e essas caras. Sei como pensam. Sei com quais categorias operam. Sei como funcionam. Tenho advertido aqui há três semanas que esse negócio de ser reverente às massas na rua acaba dando em porcaria.

Uma coisa é ser contra congressistas que não prestam. Outra, distinta, é hostilizar o Congresso. Uma coisa é criticar uma justiça lenta e ineficaz. Outra, distinta, é hostilizar o Judiciário e as leis.

A ideia de uma Constituinte exclusiva para fazer a reforma política é de Lula. E é antiga. Dilma, quando candidata, defendeu essa ideia numa entrevista ao programa Roda Viva. Não conseguiu dizer direito nem por que queria governar o Brasil, mas veio com essa história. Escrevi a respeito em julho de 2010. Felizmente, ao longo de sete anos, completados hoje, este blog se manteve no prumo e no rumo. Na sua proposta, também a reforma tributária seria feita por essa “Constituinte”. Como ela se operaria? A “Assembleia da Reforma Política” seria bicameral ou unicameral? Representaria só os cidadãos ou se tentaria garantir o equilíbrio federativo já no processo de representação? Vai saber o que se passa pela cabeça tumultuada de Dilma Rousseff. Eu sei o que se passa na cabeça da cúpula do PT: criar mecanismos para se eternizar no poder.

É um escárnio!

O Brasil passou pelo impeachment.

O Brasil passou pela crise dos anões do Orçamento, que dizimou reputações no Congresso.

O Brasil passou, e está passando ainda, pela crise do mensalão.

Ninguém falou em Constituinte. Agora, por causa de meia dúzia na rua — ainda que fossem muitos milhões —, os feiticeiros vêm falar em “Constituinte exclusiva”? Por quê? Houve algum rompimento da ordem?

Boa parte da reforma política necessária pode ser feita por legislação ordinária. É raro o caso em que se precisa de emenda, só aprovada com três quintos das duas Casas. E por que não se chega a lugar nenhum? Porque o governo não tem rumo e porque, como em jornada recente, os petistas querem impor uma reforma que o beneficie, que torne as eleições meros rituais homologatórios. Ora, Dilma não recebe em palácio esses patetas do Passe Livre por acaso.

Não acho que essa porcaria vá prosperar, mas é claro que estou preocupado. Ao mesmo tempo, fico satisfeito. Então eu não estava doido, não! Muita gente boa se perdeu nesse processo porque não conseguiu resistir ao encanto das massas na rua. Uma coisa é reconhecer — e isto eu sempre reconheci — que existem bons e enormes motivos para protestar. Outra, distinta, é não distinguir o ataque à roubalheira e aos desmandos do ataque às instituições.

Que fique claro:
– sapatear no teto do Congresso agride a Constituição;
– botar fogo no Itamaraty agride a Constituição;
– impedir o direito de ir e vir — SENHOR MINISTRO LUIZ FUX — agride a Constituição;
– promover quebra-quebras de norte a sul do país, cotidiana e reiteradamente, agride a Constituição.

Certa estupidez deslumbrada se esqueceu da natureza dessa gente. Os que estão nas ruas não obedecem a nenhum comando, mas estão lidando com forças organizadas. Daqui a pouco, lembrarei que tipo de reforma política quer o PT e por quê.

Conheço a crítica segundo a qual citar o nazismo como exemplo tende a ser inócuo porque nada se iguala aquilo e coisa e tal… Mas não dá para ignorar: parte dos liberais e dos democratas brasileiros resolveu, nestes dias, se comportar como os liberais e social-democratas da República de Weimar.

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Por Reinaldo Azevedo

 

Novo ministro do Supremo diz em entrevista por que Constituinte exclusiva para reforma política é inconstitucional

Luís Roberto Barroso, novo ministro do Supremo, e eu não pertencemos, para usar metáfora empregada por uma amiga jornalista, à mesma enfermaria. Ele está, em muitos aspectos, à esquerda deste escriba. Em matéria, no entanto, de “Constituinte ad hoc”, pensamos a mesmíssima coisa. Vejam uma entrevista recente concedida por ele ao site Migalhas, especializado em temas jurídicos.

Também ele — e escrevi isso no post anterior — lembra que se pode fazer quase tudo o que se quer em matéria de reforma política por legislação ordinária. Não há óbice constitucional nenhum! Nas suas palavras: “Se quiser fazer voto distrital misto, não há impedimento na Constituição; se quiser fazer só voto distrital — portanto, majoritário puro, não há impedimento na Constituição —; se quiser instituir um sistema de fidelidade partidária, não há impedimento na Constituição (…). Eu não vi nenhuma ideia posta no debate político que não possa ser feita, concretizada com a Constituição que nós temos ou, no máximo, com uma emenda à Constituição”.

Conforme eu queria demonstrar.

Por Reinaldo Azevedo

 

Um liberal que não se deixou seduzir pelo “povo na rua”: Ou: “Acordem enquanto é tempo!”

Rodrigo Constantino é economista. E é um liberal. É dos poucos que não cederam à tola tentação do “povo na rua”. Assistam ao vídeo.

Por Reinaldo Azevedo

 

Por que eu digo “não” 2 – O Brasil não é o Egito, e Dilma não é Mubarak. Ou: Os problemas são reais, o transe é coisa de “engenheiros de opinião”. Ou: Um terço dos manifestantes justifica depredações. É uma “minoria” grande demais! Ou ainda: Repudio que os esquerdistas do Passe Livre sejam a catraca do nosso cotidiano

Escrevi ontem o primeiro capítulo da série “Por que eu digo ‘não’”, com o subtítulo “A rebelião das massas. Ou: Dilma fala, mas o quebra-pau nas ruas continua”. Vamos à segunda parte, que começa com uma reiteração. Embora eu já tenha deixado isto claro inúmeras vezes, a questão insiste em aparecer nos comentários. Os que estranham a minha falta de entusiasmo com o movimento que está nas ruas ou jamais entenderam o que eu penso ou não compreendem o que veem. Não endosso e jamais endossarei o clamor por democracia direta ou pela instituição no país de mecanismos que a tanto conduzam se aprovados. Se e quando tal pleito sair vitorioso, estaremos todos à mercê da ditadura de minorias organizadas. E as manifestações a que assisto, com seu declarado ódio ou fastio às instituições, abrem uma vereda que nos conduz à terra do “quem grita mais chora menos”, destruindo, em vez de aprimorar, os mecanismos de representação. Isso se choca frontalmente com o que entendo por uma democracia organizada. Atenção! Parte substancial das dificuldades por que passa o país deriva do fato de que o governo está, sim, loteado entre partidos políticos, mas também está loteado, a seu modo, entre movimentos militantes. E o alarido tende a ampliar esse militantismo. Não será com o meu assentimento. Tratarei desse aspecto com mais vagar no terceiro texto. O transe por que passa o país nasce, sem dúvida, de problemas reais, mas a sua potencialização é artificial. Entendo que, longe de ser uma explosão espontânea de indignação e cidadania, trata-se, na sua fase inicial, de um fenômeno razoavelmente manejado de controle da opinião pública. Eu explico.

Vi na TV algumas senhoras e senhores já maduros, um tantinho acima do tom, a bradar: “Não esperava que fosse ver essa geração na rua! O país acordou e está reagindo!”. Epa! O Brasil não é o Egito, a Tunísia ou o Iêmen! Não é nem mesmo a Turquia, que não vive um regime democrático na acepção plena do termo. Ainda que venha sendo permanentemente agredida, ainda que viva sob permanente ataque especulativo, estamos numa democracia de direito. O tom emprestado à cobertura das manifestações, apontei aqui desde os primeiros dias, buscava mimetizar o apelo épico que a Al Jazeera, a emissora da ditadura do Catar, emprestava à mal chamada “Primavera Árabe”. As coberturas ao vivo no Brasil percorreram todos os adjetivos e exclamações do ridículo, da mistificação e da discurseira laudatória. Vocês sabem o que penso sobre o PT há muitos anos. Sabem, igualmente, o que penso sobre Dilma Rousseff, mas ela não é Hosni Mubarak ou Muamar Kadafi. Se desafiar o estado de direito numa ditadura pode até resultar em democracia (não aconteceu em nenhum país árabe ainda), o desafio ao estado de direito numa democracia acena para a ditadura. É uma questão óbvia.

Legalidade desafiada e Fux
“Mas a legalidade está sendo desafiada, Reinaldo?” Ora, as manifestações falam por si, seja pela degeneração em vandalismo, seja pela permanente agressão ao direito constitucional de ir e vir. Pior: o clima das ruas começa a contaminar o juízo de quem deveria ter juízo e de quem é, a rigor, o próprio juízo. No dia 19, o ministro Luiz Fux, do STF, concedeu uma liminar aos “companheiros” do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais, ligado à CUT, derrubando outra liminar que havia sido concedida pelo Tribunal de Justiça de Minas, que havia proibido manifestação que impedisse o trânsito de pessoas e veículos. A prevalecer a liminar de Fux, qualquer grupo pode, a qualquer hora, interromper o trânsito onde bem entender, sem prévio aviso, sem nada. Basta ir lá e pronto! O ministro só faz uma ressalva: não pode haver violência. Nesse caso, então, a Polícia Militar pode intervir. Pergunto: forçar as pessoas, porque é disto que se trata, a participar de um ato com o qual eventualmente não concordem ou impedi-las de transitar livremente constitui ou não violência? Para Fux, não! A íntegra de sua liminar está aqui. A Constituição não contém fundamentos que se negam mutuamente. Pergunto: o que Fux fez do direito de ir e vir? “Mas como as pessoas poderão protestar?” Há praças para isso. Pode-se combinar previamente com o poder público um itinerário para evitar o caos na cidade. Que nada! Fux evoca o testemunho da imprensa de que as manifestações são pacíficas e concede uma liminar que não lhes impõe nenhum limite, a não ser este: só não pode depredar. Em que país do mundo é assim? Em nenhum! É mais uma jabuticaba de Banânia.

Atenção! A prevalecer o texto de Fux, manifestantes podem impedir o trânsito que conduz a estádios ou a megaeventos, que envolvam milhares de pessoas. Se, por exemplo, no próximo Rock in Rio, um grupo de fanáticos da MPB — ou mesmo do verdadeiro rock (será que fui muito sutil?) — decidir que é o caso de obstruir a passagem da turma, a polícia poderá no máximo observar. Se não houver quebra-quebra, tudo bem! Vênia máxima, não se trata de uma liminar, mas de um engajamento — aliás, o texto do ministro chega a ter certo tom condoreiro. Há mais: juízes estão mandando soltar os vândalos que estão botando pra quebrar Brasil afora, promovem arruaça, depredam, desaparecem, a polícia os encontra e são imediatamente postos na rua.

Causas reais, tensão artificial
Saúde, educação, infraestrutura… Nada disso anda bem. Há roubalheira no país. Os corruptos estão soltos por aí. O Congresso há muito é mero caudatário do Executivo, reunindo algumas figuras pouco recomendáveis. É claro que há motivos em penca para protestar. As causas são verdadeiras. Mas a tensão a que chegou o país é matéria de engenharia de opinião pública — e, como tal, embute um discurso político que tem de ser destrinchado. E eu não me furtarei a fazê-lo, ainda que tomando algumas porradas aqui e ali. Estou acostumado.

Tudo começou com um pleito absurdo de grupelhos de extrema esquerda em São Paulo, aliados históricos do PT: querem o tal “passe livre” e passaram a ser tratados como gente séria, de respeito, que tem algo a dizer. Na quinta, dia 13, manifestantes, que já vinham fazendo protestos notavelmente violentos, desrespeitaram um acordo feito com a tropa de choque em São Paulo e avançaram a linha do combinado. A PM reagiu. Essas coisas nunca são bonitas. Decretou-se, o que é uma mentira escandalosa, que os policiais é que haviam dado início ao conflito. Cenas de exageros da polícia — e tudo indica que aconteceram — passaram a ser exibidas insistentemente nas TVs. Os grupos organizados nas redes sociais se encarregaram de espalhá-las. Os vândalos e aqueles que usaram a sua mão de obra passaram a ser tratados como os utopistas de um novo mundo. Quando a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, atendendo ao clamor, especialmente da imprensa, combinou com o Passe Livre que não haveria tropa de choque na rua, balas de borracha, bombas de gás, nada disso, e que a cidade inteira era um território livre para a manifestação, os protestos se tornaram nacionais pra valer.

As Policias Militares de todos os estados passaram a ser tratadas como as forças de Muamar Kadafi ou de Mubarak. Deu-se de barato que estavam proibidas de intervir. As escandalosamente reiteradas cenas de barbárie nas ruas passaram a ser chamadas por aquilo que não eram: EXCEÇÃO! Nunca antes na história do mundo se viu uma exceção se repetir tantas vezes. Ora, em movimentos dessa natureza, é sempre uma minoria que parte para o ataque. A questão é saber qual era a sua conexão com a maioria ou com os organizadores do evento. O MPL, por exemplo, jamais condenou o vandalismo. Nunca! Numa entrevista coletiva, seus líderes disseram-se contrários apenas à hostilidade dos manifestantes aos jornalistas — e, claro, criticaram a polícia.

Insisto neste aspecto: a Polícia Militar é sempre a primeira força de contenção quando explodem conflitos de grandes proporções. Demonizada, satanizada nas ruas, tratada como bando de aloprados, vista como aglomerado de brucutus, qual seria a consequência? Some-se a isso uma reivindicação da imprensa que foi plenamente atendida: as cidades como territórios livres — das cidades, logo se chegou às estradas. Todos os acessos a São Paulo — ou saídas, se quiserem — chegaram a ser bloqueados. O aeroporto de Cumbica, uma área de segurança, ficou isolado. Se os patriotas decidirem fazer isso durante a Copa do Mundo, Luiz Fux chamará de “democracia”…

Mas lá estavam os engenheiros de opinião pública a decretar: trata-se de uma manifestação pacífica, infiltrada por alguns baderneiros. Não! Quebrar banco, invadir loja, depredar a Assembleia Legislativa, ah, isso não podia. Mas tomar as estradas, isolar o aeroporto, impor às pessoas uma rotina de guerra, ah, isso tudo bem! Com isso Fux, por exemplo, concorda. Com isso, as TVs concordam. Chamam de “manifestação pacífica”.

As causas são reais? São! A “crise da democracia” é artificial. E eu lhes apresento uma espécie de “prova pela ausência”.

Cadê os policiais feridos?
Quantos policiais feridos vocês viram na televisão ou nos jornais? Um só! Aquele que quase foi linchado em São Paulo, no dia 11, se não me engano. Só na Assembleia Legislativa do Rio, 20 se machucaram. Não obstante, imagens de jornalistas atingidos por balas de borracha — podemos debater se elas devem ou não ser usadas — passaram a ser exibidas ou como evidência da truculência da polícia ou, sei lá, do martírio dos profissionais de imprensa. As edições têm privilegiado especialmente os atos violentos dos PMs. Não por acaso, na pesquisa encomendada pela TV Globo ao Ibope, levada ao ar ontem no Fantástico, 57% dos que participaram das passeatas consideram que a polícia agiu com muita violência. Pois é… Em, sei lá, 95% das vezes, os policiais reprimiram vândalos. Há casos de gente atingida por gás de pimenta, por exemplo, que não estava quebrando nada? Há! Exibi-los à exaustão converte a exceção em regra. Assim como a rotina das depredações era, absurdamente, chamada de exceção.

O Fantástico ontem, diga-se, entrevistou o policial Nilmar Avelino, do Rio, aquele que levou uma pedrada na cabeça e ficou estirado no chão, atacado por aquilo que parecia ser um bando de urubus. Muito bem. Seguiu-se o seguinte diálogo:
Fantástico: Você não tem mágoa de quem te fez levar esses dez pontos na cabeça?
Nilmar: 
Por que teria? De repente, ele não sabe nem o que fez. Sempre vai haver os mais exaltados. Mas acho que as pessoas ali estão reivindicando é um país melhor. Quem não sonha? Eu sonho com um país melhor.

Pergunta óbvia: o policial poderia ter dado uma resposta diferente dessa? Vamos imaginar que dissesse que tem mágoa, sim. Vamos supor que dissesse que, na próxima, se perceber que vai apanhar, vai é bater primeiro. Teria ido ao ar? Se fosse, o coitado, que já estava de volta ao serviço, seria afastado. É evidente que se trata de uma forma nada sutil de sugerir que aos policiais cabe a grandeza do perdão, como se estivessem lá para aquilo mesmo. E não estão. Policial militar não recebe para levar pedrada e apanhar de vagabundo. E não conservar mágoa não é uma superioridade moral obrigatória. NOTA À MARGEM: nenhum jornalista foi convidado a perdoar policial. Corolário: um bandido até pode merecer perdão; um PM não.

Pesquisa desmente farsa do pacifismo. Ou: A grande irresponsabilidade
Faustão, ontem, num discurso em favor da ocupação das ruas, transformando programa de auditório em comício, disse que os eventos desmentem essa história de que o brasileiro é um povo pacífico e coisa e tal. É verdade! Mas não da maneira como sugere. A pesquisa encomendada pela Globo revela que 5% dos entrevistados acham que depredações são sempre justificadas. Outros 28% acham que elas se justificam em alguns casos. Para 66%, nunca se justificam, e 1% não soube responder.

Minoria??? Em relação aos 66%, sim. Mas atenção! UM TERÇO DAS PESSOAS QUE PARTICIPAM DOS PROTESTOS JUSTIFICA AS DEPREDAÇÕES. Digamos que tenham comparecido, num número talvez subestimado, 400 mil pessoas no megaevento do Rio. Digamos que a amostragem do Ibope esteja certa e que a pesquisa reproduza a média das opiniões. Naquele dia, pelos menos 132 mil pessoas flertavam com a possibilidade de partir para o pau: 20 mil delas aceitariam isso em qualquer caso; 112 mil, só em alguns…

Destaco essa questão para dar relevo à grande irresponsabilidade que é demonizar as Polícias Militares numa situação como essa. O que querem no lugar? Se não forem eles, será quem intervir se as coisas fugirem do controle? É UM ABSURDO QUE 33% DE MANIFESTANTES ADMITAM A POSSIBILIDADE DA DEPREDAÇÃO. Quando o ministro Luiz Fux concede uma liminar que torna o Brasil inteiro território livre para manifestações, está flertando com o perigo — alheio, claro!, não com o seu próprio.

Inventar uma “Primavera Árabe” num país democrático é um despropósito. Transformar as Polícias Militares em exércitos treinados para reprimir o seu próprio povo — como se dizia das forças que sustentavam aquelas tiranias — é igualmente falso. Flertar com manifestações de descrédito às instituições é um risco. A propósito: esse tal Passe Livre tem como lema “a vida sem catraca”. Totalitários que são, querem ser a catraca da vida de milhões de brasileiros. Preço que cobram: o seu direito de ir e vir. Mas por que chegamos aqui?

Ataque às instituições e canais obstruídos
Há muito tempo já, mas há dez anos de forma sistemática, as instituições têm sido alvos de ataques especulativos. Escrevi, sem qualquer hipérbole, milhares de textos apontando as muitas vezes em que o petismo, mesmo o que está no poder, que integra o estado, dá de ombros para as leis. Existem, estão aí, mas quem se importa? A presidente Dilma Rousseff atribuiu justamente a Gilberto Carvalho a tarefa de estabelecer a tal “interlocução com movimentos sociais”, atrelando-os ao Planalto. “O que há de mal nisso, Reinaldo? Você é mesmo um reacionário!” Não há mal nenhum desde que o governo — ou, de forma ainda mais profunda, o estado — não se torne o principal promotor da desordem no país.

Ora, em que resultou e tem resultado a “interlocução” de Carvalho? O MST invade e depreda fazendas quando lhe dá na telha. Mas, é claro!, trata-se de um dos “interlocutores” de Carvalho. Meio Mato Grosso do Sul está conflagrado por causa da questão indígena, e essa é uma crise que eu ousaria dizer fabricada na Secretaria-Geral da Presidência. Nestes dez anos, com ênfase no governo Lula, nada ficou imune à depredação e ao vandalismo moral: Legislativo, Judiciário, imprensa… A oposição foi impiedosamente desqualificada, desmoralizada — e se deixou, é bem verdade, desqualificar e desmoralizar.

Notem que há um estranho casamento de agendas na praça: a extrema esquerda está lá, sim. Foi ela, diga-se, que abriu a primeira janela — e os petistas incitaram o baguncismo em São Paulo. Mas há também os que não suportam mais a rotina de incompetências e desmandos e que repudiam o petismo. Mas nem por isso se sentem representados pela oposição. E nem poderiam. Ao longo dos anos, ela se mostrou um tanto frouxa, incapaz de articular um discurso que reunisse valores alternativos aos triunfantes. Resultado: há, sim, milhões de pessoas que, embora repudiem a visão de mundo petista, não têm onde ancorar as suas frustrações.

Gilberto Carvalho tem razão ao dizer que há um certo moralismo nas ruas. É verdade! E ele se dirige contra o governo do PT, que resolveu declarar imoral a própria moral, não é mesmo? Assim, descontentamentos ficaram represados: nem havia como expressá-los por intermédio da capilaridade governista — já que os movimentos sociais estavam e estão todos cooptados, comprados pelo petismo com seus “bolsismo” e medidas de reparação disso e daquilo — nem por intermédio da oposição, que seria o canal natural por onde deveria escoar as contraditas ao discurso do poder. Um bom exemplo é a UNE. Há milhares de estudantes na rua que jamais sentiram a presença dos pelegos em seu cotidiano.

Por que digo que os problemas são reais, mas a tensão é matéria de engenharia? Porque parte deles, que assumiu a forma da urgência, é crônica. Alguns se tornaram mais agudos, é claro!, à medida que as políticas de inserção social dos últimos 20 anos — e elas existem — aumentaram o número de usuários de aparelhos do sistema público, escandalosamente ineficientes. E, então, chegamos a um busílis importante, que ficará para o terceiro capítulo desses textos, que são independentes entre si, mas conectados: a coloração que estão assumindo os justos protestos nos leva à solução ou pode criar novas e graves problemas? Direi, então, no texto de amanhã por que há o risco imenso de incidirmos na segunda hipótese. Por que a educação é sofrível? Por que a saúde é uma lástima? Por que a segurança é precária? Por que a infraestrutura está em pandarecos? Não é por causa dos estádios da Copa nem é por falta de dinheiro (acreditem!).

O caminho que se abre pela frente — e torço muito para estar errado — caminho não é. Há um risco razoável de que esse militantismo sem alvo, ou de muitos alvos, crie novos e severos embaraços, maiores do que aqueles que já estão aí. De resto, meus caros, por melhores que fossem ou que sejam os propósitos, nunca vi nada de bom sair do desrespeito sistemático às leis e da agressão permanente a direitos fundamentais.

Eu quero de volta o meu direito de ir e vir e de planejar o meu dia sem ter de consultar a agenda de manifestações do MPL ou sei lá quem. Eu não posso aceitar que cada grupo organizado, por mais justo que seja, se assenhore das garantias constitucionais, apesar da liminar do ministro Luiz Fux — que jamais terá problemas para ir e vir. Se for o caso, reivindico, então, o meu direito de minoria. Os liberais que podem estar vendo no que está em curso uma nova aurora podem acordar abraçados a um Tirano de Siracusa, só que sem o amor pela sabedoria.

Texto originalmente publicado às 7h02

Por Reinaldo Azevedo

 

Governo quer plebiscito aloprado no dia 7 de setembro ou 15 de novembro deste ano; Constituinte exclusiva teria 65 membros

Por Gabriel Castro, na VEJA.com:
O plebiscito sugerido pela presidente Dilma Rousseff para realizar uma reforma política no país poderia ser realizado em 7 de setembro ou 15 de novembro deste ano. Essas foram as datas sugeridas durante a reunião da presidente com prefeitos de capitais e governadores, nesta segunda-feira, no Palácio do Planalto. Dessa forma, a eventual eleição da assembleia poderia ocorrer em outubro do ano que vem, juntamente com as eleições gerais. A constituinte seria formada por 65 pessoas, de acordo com a proposta de Dilma.

O encontro desta segunda-feira terminou com a aprovação, por unanimidade, de um pacto sobre os cinco pontos levantados pela presidente Dilma Rousseff em resposta aos protestos que recentes – o plebiscito é um desses temas. Os outros são a responsabilidade fiscal, o transporte público, a saúde e a educação. No encontro da presidente com os governadores e prefeitos ficou acertada a formação de quatro grupos de trabalho para analisar temas específicos e propor soluções concretas. “Um grupo de trabalho vai concretizar os encaminhamentos sobre a reforma política. Mas quem vai decidir sobre isso, em última instância, é o Congresso”, afirmou o ministro da Educação, Aloizio Mercadante. Os outros grupos tratarão de propostas para a mobilidade urbana, saúde e educação.

A presidente Dilma Rousseff deve se reunir ainda nesta semana com representantes do Legislativo para tratar da pauta discutida, já que os cinco temas dependem da aprovação de propostas pelo Congresso, como a destinação de 100% dos royalties do pré-sal para a educação. “A partir da posição tomada em nome das três esferas do Executivo brasileiro, nós vamos ter agora uma tratativa junto aos nossos congressistas para podermos dar concretude àquilo que foi explicitado e pactuado”, afirmou a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti.

Repercussão
O governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT), afirmou que a constituinte não deve ficar presa aos partidos organizados: “Vou defender a ideia de que seja uma assembleia paralela e que nós possamos ter candidaturas avulsas”, afirmou ele, após o encontro. Já o prefeito de Curitiba, Gustavo Fruet (PDT), disse que a redução das tarifas do transporte público, um dos temas em pauta na reunião, depende de uma análise detalhada do custo dos transportes: “Se nós não tivemos clareza quanto ao que compõe a tarifa , vamos ficar discutindo só a questão do preço”, afirmou ele.

Na reunião desta segunda-feira, que durou cerca de três horas, a presidente Dilma fez a fala inicial e depois passou a palavra para alguns de seus ministros. O prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, falou em nome dos gestores municipais. Os governadores Geraldo Alckmin (SP) Raimundo Colombo (SC), Omar Aziz (AM), André Pucinelli (MS) e Eduardo Campos (PE) foram escolhidos para apresentar as reivindicações de suas respectivas regiões. Depois, abriu-se a discussão sobre os temas propostos pela presidente.

Por Reinaldo Azevedo

 

Abaixo, uma síntese das propostas feitas por Dilma Rousseff

Abaixo, segue reportagem der Laryssa Borges e Gabriel Castro, da VEJA.com, com a síntese das propostas apresentadas por Dilma Rousseff.

A presidente Dilma Rousseff anunciou na abertura do encontro com os governadores e prefeitos, no Palácio do Planalto, que pedirá um plebiscito seguido de uma Constituinte, para a realização de uma reforma política no país. Dilma pediu aos governantes um pacto com cinco pontos, que serão debatidos durante a reunião da tarde desta segunda-feira. São eles:

1) responsabilidade fiscal para garantir a estabilidade da economia;

2) convocação de um plebiscito sobre reforma política e alteração na legislação para que o crime de corrupção se torne hediondo;

3) pacto pela saúde, com a criação de novas vagas para médicos e a contratação de profissionais estrangeiros;

4) investimento de 50 bilhões de reais em mobilidade urbana para transportes, com metrô e ônibus;

5) mais recursos para a educação, repetindo a destinação de 100% dos recursos dos royalties do petróleo para a educação.

“Quero, nesse momento, propor um debate sobre a convocação de um plebiscito popular que autorize o funcionamento de um processo constituinte específico para fazer a reforma política que o país tanto necessita. O Brasil está maduro para avançar. (…) Devemos também dar prioridade ao combate à corrupção de forma ainda mais contundente do que já vem sendo feito em todas as esferas. Nesse sentido, uma iniciativa fundamental é uma nova legislação que classifique a corrupção dolosa como equivalente a crime hediondo, com penas muito mais severas”, afirmou.

Em uma tentativa de responder aos crescentes protestos que tomaram as ruas nas últimas semanas, a presidente repetiu o tom do pronunciamento da última sexta-feira de que é preciso “ouvir a voz das ruas”, mas defendeu a lei e a ordem contra a ação de “arruaceiros e vândalos”, responsáveis por atos violentos e confrontos com a polícia. “Reafirmo o meu compromisso de ajudá-los para garantir paz e tranquilidade às nossas cidades”, disse. “Mas repito que estamos ouvindo as vozes das ruas, que pedem mudanças. Só elas podem nos impulsionar a andar ainda mais rápido.”

A presidente também voltou a tocar no tema da corrupção: “Devemos também dar prioridade ao combate à corrupção de forma ainda mais contundente do que já vem sendo feito em todas as esferas. Nesse sentido, uma iniciativa fundamental é uma nova legislação que classifique a corrupção dolosa como equivalente a crime hediondo, com penas muito mais severas”.

Saúde
Dilma defendeu mais uma vez a “importação” de médicos estrangeiros para ampliar a oferta de serviços de saúde nos rincões do país. Atualmente, 1,79% dos médicos que atuam no Brasil são estrangeiros. Como a proposta tem ampla rejeição na classe médica, Dilma afirmou que seria “uma ação emergencial, localizada, tendo em vista a grande dificuldade que estamos enfrentando para encontrar médicos”. “Quando não houver a disponibilidade de médicos brasileiros, contrataremos profissionais estrangeiros para trabalhar com exclusividade no SUS. Não se trata nem de longe de uma medida hostil ou desrespeitosa aos nossos profissionais.”

Ela também disse ser preciso acelerar os investimentos já contratados em hospitais, Unidades de Pronto Atendimento (UPA) e unidades básicas de saúde para ampliar a adesão de hospitais filantrópicos a programas de trocam dívidas por mais atendimentos e incentivar a ida de médicos para cidades e regiões no interior do país.

Transporte
A presidente falou em uma mudança na matriz do sistema sistemas, com o aumento das redes de metrô, trens leves e corredores de ônibus, e anunciou a liberação de 50 bilhões de reais para empreendimentos de mobilidade urbana.

Mais cedo, o ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, havia dito que o governo dispõe de 88,9 bilhões de reais para a aplicação nesse setor. Desses, 30 bilhões já haviam sido contratados. Dilma também decidiu criar um Conselho Nacional de Transporte Público, com participação da sociedade civil. E disse que o governo está disposto a isentar da PIS e da Cofins o óleo diesel dos ônibus e a energia elétrica consumida por trens e metrô.

Educação
A presidente voltou a pedir urgência na aprovação do projeto que destina 100% dos royalties do pré-sal para a educação. “Confio que os senhores congressistas aprovarão esse projeto que tramita no legislativo com urgência constitucional”, disse. Dilma prometeu que seu governo vai redobrar os esforços pela formação e valorização dos professores.

Por Reinaldo Azevedo

 

Mayara Vivian, a heroína! Ela não tem voto, mas tem convicção! E Hotimsky, um especialista veterano em políticas públicas, o Rimbaud da catraca

A presidente Dilma Rousseff se encontrou hoje com todos os governadores e prefeitos de capitais. Somavam-se ali milhões de votos. Ninguém apareceu no principal noticioso do país. Sabem como é: como é impossível ouvir 27 governadores e 26 prefeitos, então ninguém mostra a cara. Nesse caso, escolhe-se, sei lá como chamar, a isonomia federativa: todos os governadores são iguais: quem governa um estado com 42 milhões de habitantes e quem governa um com menos de 500 mil. É um critério.

Já em matéria de Mayara Vivian, aí a coisa é diferente. Embora não tenha sido eleita por ninguém; embora as ruas já estejam com uma agenda bem mais ampla do que a “tarifa zero”, a moça, tudo indica, se tornou uma referência do processo político brasileiro. É assim que entendi o fato de ter ganhado espaço no Jornal Nacional para defender a tal tarifa zero — “ou mais próxima disso”. Ah, bom!

Não que o Passe Livre tenha se encontrado com Dilma para ouvir alguma coisa. Ouvir pra quê? Foram lá para ensinar. Marcelo Hotimsky, este rapaz que vocês veem acima, tem 19 anos e estuda filosofia. Se ele ainda não domina todos os mestres do pensamento — ou melhor, os reles do pensamento —, uma coisa é certa: é um especialista em transporte. Por isso coube a ele fazer uma síntese da reunião com a presidente:
“Não ficamos satisfeitos, foi uma abertura de diálogo importante, mas vimos a Presidência completamente despreparada. Não apresentaram uma pauta concreta para mudar a realidade do transporte no país”.

É isso aí. A imprensa está coalhada de pensadores a saudar a falência da democracia representativa. O poema “Tabacaria”, de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), é um dos meus textos prediletos, em qualquer gênero. Encontro lá:
(…)
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
(…)

Fernando Pessoa não era de nada! Nestes dias, o mundo é, sim, para quem sonha que pode conquistá-lo, mesmo não tendo razão. É o que explica a Mayara Vivian no Jornal Nacional. É o que explica a fala doutoral do, como é mesmo?, Hotimsky. Esse é o filósofo que se negou a condenar os atos de vandalismo porque, disse ele, trata-se de “revolta popular”.

Pouco me importa o que dizem os especialistas os mais renomados e experimentados. Pouco me importa que demonstrem por A + B que a tarifa zero levaria o sistema de transportes ao colapso. Eu confio em Mayara Vivian. Eu confio em Hotmisky, o estudante de filosofia de 19 anos. Rimbaud revolucionou a poesia com 16, 17 anos. Ele revoluciona os transportes públicos com 19. É o Rimbaud da catraca.

Aliás, no caso de uma Constituinte exclusiva, conto com a dupla. Até porque eles já deixaram claro que o transporte público é só um instrumento de luta em favor da superação do capitalismo. E já anunciaram os próximos passos, na semana passada, também no Jornal Nacional: fim do latifúndio agrário e urbano. Finalmente a democracia está superando a necessidade de povo, eleitores, partidos, eleições… Pra quê? 

Por Reinaldo Azevedo

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Fonte:
Blog Reinaldo Azevedo (VEJA)

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1 comentário

  • Paulo Roberto Rensi Bandeirantes - PR

    Sr. João Olivi, há quanto tempo não? Estou vivo e, de volta, para externar meus tristes sentimentos. Sr. João, um dos dicionários da língua mãe, diz que um dos significados da palavra corrupção é:”adulteração das características originais de algo”.

    Quando alguém diz: (.) Sou a presidenta de todos os brasileiros, dos que se manifestam e dos que não se manifestam. A mensagem direta das ruas é pacífica e democrática.

    Ela reivindica um combate sistemático à corrupção e ao desvio de recursos públicos. Todos me conhecem. Disso eu não abro mão.

    O texto não está dissonante com o contexto? Isto não é uma forma de corrupção? Pois, não está falseando “as características originais de algo?” ....” E VAMOS EM FRENTE ! ! ! “...

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