Os que produzem riqueza (agricultores) são alvos da fúria dos que produzem discursos

Publicado em 30/09/2013 15:20 e atualizado em 17/02/2014 11:47
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por Reinaldo Azevedo, de veja.com.br

Os que produzem riqueza são alvos da fúria dos que produzem discursos

O Banco Central divulgou nesta segunda a sua expectativa do PIB deste ano: baixou o crescimento de 2,7% para 2,5%. Crescimento da economia é aquela área na qual Guido Mantega costuma fazer previsões com margem de erro de até 2 pontos — a realidade sempre empurra para menos.

Pois bem: quem pode livrar o país de números ainda mais constrangedores? Como tem sido rotina nos últimos anos, é o setor agropecuário — o saco de pancadas predileto dos bem-pensantes brasileiros. Escreve Mauro Zafalon na Folha desta terça:
A queda na estimativa poderia ser pior se o desempenho da agropecuária não tivesse surpreendido. Ainda que representando apenas cerca de 5% do PIB, o setor se destaca no crescimento, passando de 8,4% para 10,5%. O resultado se explica por dois pilares: volume e preços. O setor vem de uma boa safra e se prepara para uma –se o clima ajudar– ainda maior. Os efeitos desse cenário favorável dentro da porteira se espalham pelos demais segmentos industriais e comerciais que dão suporte à atividade agropecuária. A regra abrange a maioria dos itens. Uns estão com um bom volume de produção; outros, além do volume, têm também bons preços. Há exceções, mas não o suficiente para impedir que o setor agropecuário sustente o PIB global neste ano.
(…)

Retomo
Tem sido essa a rotina do Brasil há já um bom tempo. Como vocês sabem, os “ruralistas” costumam ser muito malvistos por certos setores minoritários e barulhentos. Apanham de todo mundo: das esquerdas, dos verdes, dos índios, da imprensa, de atores e atrizes “progressistas”, de fanáticos do aquecimento global, do Bono Vox, do Sting…

Em suma: este é um dos únicos países do mundo em que os que produzem riquezas são alvos da fúria dos que produzem discursos.

Por Reinaldo Azevedo

 

EUA, Obama, Tea Party, governo paralisado, apocalipse etc e tal… Com a devida vênia, excelências, mas vou discordar. Ou: Democracia pra quê? Ou ainda: será que os EUA precisam da pistolagem partidária brasileira?

Vamos percorrer caminhos difíceis porque os fáceis são fáceis. Muito bem! Se o mundo parece pensar, unanimemente, que os republicanos, nos EUA, são uns sabotadores da democracia e que o Tea Party está além da fronteira do que pode fazer um grupo de oposição, eu, por meu turno, começo a pensar uma de duas coisas: a) ou estamos, então, diante de uma nova expressão do Mal Absoluto — e, portanto, essa gente tem de ser banida da política em nome da democracia, ou b) há um evidente exagero nas críticas e uma incompreensão dos instrumentos que fornece a própria democracia para a luta política. No parágrafo seguinte, tem início uma digressão que, não obstante, nos aproxima mais do tema.

Olhem o mundo. Não fui ticando no mapa-múndi caso a caso, mas suponho que democracias verdadeiras, dignas desse nome, ainda são uma minoria. Parcela considerável do planeta vive sob ditaduras religiosas — islâmicas, para ser mais preciso (não há, nessa modalidade, outras, de credo distinto). Outro tanto, especialmente na África, está submetido a regimes de força de caráter étnico, que nada tem a ver com a cor da pele, é bom que fique claro: são negros oprimindo negros. E há ainda tiranias que vestem uma máscara ideológica, como e o caso da China. Se usarmos o critério das populações, a maioria da humanidade ainda vive sob regimes de força.

No chamado mundo democrático (ou quase), uma nova forma de autoritarismo se espraia. A América Latina abriga as suas expressões mais rombudas — bolivarianismo e lulo-petismo, distintos entre si, mas combinados —, mas não tem o monopólio desta modalidade de ódio à democracia de que vou tratar. Em que consiste? Escolhas ideológicas, políticas, que remetem à esfera dos valores e, muitas vezes, dos direitos individuais são tratadas como imperativos categóricos, matéria de bom senso, desdobramento óbvio de leis naturais, matéria de civilidade. Opor-se a elas deixa de ser, vá lá, uma escolha ou opção erradas, mas uma sabotagem, uma forma de perversidade, uma manifestação de atraso, de preconceito, de reacionarismo, incompatíveis com a suposta disposição da humanidade para o bem, para o belo e para o progresso. “Dê um exemplo, Reinaldo.” Pois não! Pegue-se, por exemplo, a política de cotas raciais nas universidades brasileiras. Tenta-se fazer crer que é impossível discordar da medida se não for por maus motivos; elas seriam um ponto inscrito numa trajetória rumo ao bem. Querem outro? Há um trabalho intenso de lobbies organizados para que a descriminação das drogas se transforme numa evidência caída da árvore dos acontecimentos, que não atenderia a nenhum outro interesse que não o bem da humanidade.

É normal e é parte do jogo que os defensores de uma determinada proposta tentem, digamos assim, naturalizar as suas escolhas. O que não é aceitável — e isto, precisamente, agride a democracia — é que a divergência, especialmente quando dentro das balizas da legalidade e do estado democrático e de direito, seja satanizada como coisa de sabotadores. Nesse caso, sob o pretexto de se defender o bem, o que se faz é satanizar a própria democracia. Fim desta digressão e voltemos ao caso em espécie.

De volta aos EUA
O governo americano está, noticia-se, “paralisado” porque a maioria republicana da Câmara não conseguiu chegar a um consenso com a maioria democrata do Senado (mais Barack Obama) sobre a elevação do teto da dívida federal. Vamos ver. Há uma grande diferença entre, eventualmente, lastimar a decisão dos republicanos, especialmente da sua ala mais dura, o Tea Party, e agredir, como tenho lido, o que considero a essência mesma do jogo democrático. Não seria, então, o caso de questionar se agiu certo o legislador primordial quando atribuiu ao Congresso a competência para dizer “sim” ou “não” a essa elevação, com as suas fatais consequências num caso e noutro? O que é que está errado nos EUA, segundo os que se desarvoram com o impasse? A, vá lá, intransigência dos republicanos ou o modelo?

Se alguém disser que é o modelo, vou discordar frontalmente, mas considero uma posição intelectualmente aceitável, embora perigosa. Ainda que eu conteste tal opinião, acho compreensível que se defenda que matéria orçamentária deva ser monopólio do Executivo. Se, no entanto, me disserem que nada há de errado com o modelo, e sim com os republicanos, aí sou obrigado a classificar tal opinião de intelectualmente inaceitável porque contrária aos princípios que ela própria enuncia. Se cabe ao Congresso dizer “sim” ou “não” à elevação do teto da dívida, descarte-se como absurda a suposição de que só o “sim” é aceitável. Ora, a condenação em princípio da posição adotada pelos republicanos não pode conviver com a defesa do modelo sem que o analista incorra numa hipocrisia. As coisas não são assim porque eu quero; são assim porque um analista está obrigado a pensar segundo critérios racionais e lógicos. “Está?” Claro que sim! Ou vá abrir um tenda para ler Tarô.

Sim, conheço
Sim, conheço todas as consequências da chamada “paralisação” do governo e tenho lido o que isso pode significar de custo para a economia do país, para os americanos em particular e para o mundo no geral. Mas cabe uma outra pergunta importante: esse impasse foi fabricado apenas pelos republicanos e deve ser especialmente jogado nas costas do Tea Party? Barack Obama, o presidente dos EUA, não responde, em parte por isso? Basta ler o noticiário para saber que sim. “Ah, mas não é aceitável que os republicanos usem o programa de assistência à saúde proposto pelo presidente como moeda de troca!” Por que não é?

Vamos pensar um pouco em Banânia… A seguir nesse ritmo, em breve, ainda seremos levados a concluir que o que falta mesmo nos EUA é, deixem-me ver, um PMDB, um PR, um PSD, um PP, um PROS (?), um outro PQQ qualquer, com o qual o Poder Executivo possa “negociar” — ou, se quiserem que eu coloque as coisas em termos mais justos: vai ver falta a Obama um sistema político que possa ser comprado, não é mesmo?

Ora, se agiu com sabedoria o legislador americano quando delegou ao Congresso a tarefa de dizer “sim” ou “não” à elevação da dívida, nessa sabedoria estava inscrita a possibilidade de se dizer “não”. “Ah, não venha você com legalismos, quando o governo federal está parado!” Eu não venho com legalismo nenhum! Comparece ao debate com a lei e com o direito que a oposição tem de fazer oposição. A democracia americana segue sendo, em muitos aspectos, exemplar — inclusive na garantia da alternância de poder, o que as ditaduras e protoditaduras repudiam — porque se garante o direito à divergência e porque os Poderes da República exercem plenamente as suas prerrogativas.

Aqui e ali, chego mesmo a ler que uma conspiração de direitistas brancos está tentando desestabilizar o governo do negro Obama. É um argumento que fica abaixo da linha da vulgaridade. Na última vez em que o governo federal parou, o presidente era o branquelo Bill Clinton. Trata-se de uma acusação ridícula. A força da democracia americana está no exercício de prerrogativas. No Brasil em particular, estamos acostumados a um Congresso que ou vive de joelhos ou vive fazendo “negócios” com o Executivo. Também estamos acostumados a uma oposição que quase se obriga a pedir desculpas quando contesta o Executivo, tendo de provar que não é sabotadora. Não é de estranhar que republicanos e Tea Party deixem, por aqui, tanta gente chocada.

Para encerrar
Mais de uma vez, apontei o caráter, digamos, terceiro-mundista de Barack Obama. E, como deixei claro então, essa observação nada tinha a ver com com a cor de sua pele, com a sua origem e tolices afins. O lado bananeiro do presidente americano se traduz justamente na sua disposição de satanizar a oposição, de transformar a divergência numa expressão de sabotagem. Segundo a sua turma, a resistência dos republicanos se deve a questões meramente ideológicas…

Errado. A resistência dos republicanos, concorde-se ou não com ela, se deve ao fato de que são congressistas, de que exercem uma prerrogativa e de que representam, como Obama, uma fatia do eleitorado. E isso só quer dizer que o Poder Executivo, nos EUA, terá de negociar com o Poder Legislativo. Na Venezuela, na Bolívia, no Equador, na Nicarágua, em Cuba, na China e na Rússia, para citar alguns casos, nada disso é necessário.

Por Reinaldo Azevedo

 

Black blocs, os novos ídolos de Caetano, botam pra quebrar no Rio. E um texto espantoso publicado no “Globo Online”. Será que chegará o tempo em que teremos de fazer “mea-culpa” pelo apoio dado à democracia?

Os ídolos de Caetano Veloso botaram para, literalmente, quebrar no Rio, nesta segunda. Já chego lá. Antes, algumas considerações.

A greve dos professores da rede municipal há muito ultrapassou o limite de qualquer racionalidade, de qualquer razoabilidade. Já não há mais estratégia de negociação, a não ser o “quanto pior, melhor”, que é o horizonte escatológico dos grupelhos de esquerda que aparelham sindicatos, especialmente o de algumas categorias ligadas ao serviço público. As entidades representativas de professores, Brasil afora, costumam ser porosas a esse tipo de militância. A categoria se considera, antes de mais nada, agente de “conscientização” — seja lá o que isso signifique. O resultado é um desastre, também educacional. Na capital fluminense, os grevistas se tornaram uma espécie de grupo de resistência daquele movimento “fora Cabral” — absurdo nos próprios termos e antidemocrático. Ele foi eleito. Não chegou ao poder por meio de um golpe. Tenho de lembrar aqui que, durante uns bons anos, fui dos poucos, pouquíssimos, na imprensa a criticar com dureza o governador do Rio, especialmente a sua política de segurança pública, que caiu nas graças de alguns deslumbrados — parte deles, diga-se, agora desama Cabral. Saiu de moda. Virou sapato velho. Mas o meu ponto agora é outro.

O pau comeu nesta segunda porque os black blocs, aqueles que, segundo Caetano Veloso (ele não vai se desculpar?), “fazem parte” (de quê, “velho baiano”?), resolveram ser o braço armado do protesto dos professores — na verdade, do grupo da viração composto de militantes do PSOL, do PSTU e do PT e que falam em nome da categoria. Cada um escreva o que bem entender. Eu leio o que está escrito e digo o que acho. O Globo Online publica uma reportagem espantosa a respeito. Depois que o jornal tornou público aquele mea-culpa sobre o apoio das Organizações Globo à ditadura militar, parece que até as fronteiras entre o legal e o ilegal, entre o violento e o pacífico, entre o certo e o errado se esvaneceram. Leio, por exemplo, o que segue (em vermelho). Prestem atenção ao que vai em destaque:
(…)

Policiais militares e cerca de 200 manifestantes entraram em confronto constantemente, provocando violência dos dois lados e depredação nas ruas e avenidas do entorno, começando os principais incidentes em torno das 20h30m na Avenida Rio Branco. Depois de participarem de um comício, um grupo de 300 pessoas saíram (sic) em passeata pela Rio Branco. Em frente ao Theatro Municipal, uma agência do banco Itaú teve vidraças quebradas, culminando no estopim (sic) para a confusão.

Os PMs correram para prender os manifestantes que apedrejaram o banco, mas foram cercados por uma multidão e foram impedidos. Houve uma briga generalizada, com militares usando cassetetes nos manifestantes, que revidaram com pedras, paus e socos. Pelo menos um manifestante foi preso durante o tumulto, e o Batalhão de Choque da PM na Avenida Rio Branco usou uma bomba de gás lacrimogêneo para dispersar manifestantes que estavam na Avenida Almirante Barroso.
(…)

Comento
Então ficamos sabendo que houve “violência dos dois lados”. Que feio! Mas, segundo o texto, o que “culminou no estopim” foi a depredação de uma agência bancária. Posso estar errado, mas parece que a “violência dos dois lados” poderia ser mais bem traduzida assim: vândalos resolveram depredar patrimônio privado e público (como se verá), e a Polícia Militar teve de agir, cumprindo o seu papel. Apenas a ação dos depredadores merece ser classificada de “violência”; a polícia tentou foi impor a ordem — uma das razões por que é paga pelo contribuinte fluminense. Mais: ainda cumprindo a sua obrigação, os PMs seguiram no encalço dos vândalos, mas “foram cercados”, não é isso? Em nenhuma democracia do mundo, policiais são tratados desse modo sem reagir. Se acontece, então é porque se vive na anarquia. Não vou explicar aqui os motivos. Quem não souber a razão que vá cantar lá na freguesia do PSOL ou do PSTU. Policiais não “usam cassetetes em manifestantes”. Não sei que diabo é isso. Segundo o relato, eles estavam cercados, e isso quer dizer que poderiam até ser linchados. Assim, por óbvio, os ditos “manifestantes” não estavam “revidando com pedras, paus e socos”, mas atacando os policiais — se revide havia, era dos PMs.

Não estou pegando no pé dos repórteres que redigiram o texto, não! Ocorre que o que vai acima é menos do que um relato, do que uma reportagem, do que sinal do espírito do tempo. Há textos que estão escritos antes mesmo de os fatos acontecerem. Isso é cada vez mais presente na imprensa brasileira, onde a Polícia Militar costuma estar errada, muito especialmente quando está certa. Em que democracia do planeta policiais são cercados por uma multidão e atacados com paus e pedras sem que haja consequências funestas? A que propósito atende esse tipo de abordagem? Sigo com um pouco mais do texto do Globo Online.

Antes de dispersar, o grupo ateou fogo em sacos de lixo e houve focos de incêndio na esquina da Rua México com a Almirante Barroso, e também na Avenida Graça Aranha. Em seis caminhonetes, o Batalhão de Choque saiu em busca dos arruaceiros, no Centro da cidade. O Corpo de Bombeiros apagou os fogos em todos os sacos de lixo. Por volta das 21h15, policiais jogaram bombas de gás lacrimogêneo e manifestantes correram na direção do Cine Odeon. Os PMs fizeram um cordão de contenção ao redor do prédio. Enquanto o comércio era fechado, quem estava nos bares e no Odeon gritava palavras de ordem e chamavam os policiais no local de covardes. A partir das 22h, a Avenida Rio Branco foi liberada em toda a extensão.

Em seguida, os black blocs se refugiaram na Rua Alcindo Guanabara, onde os professores estavam concentrados para aguardar a assembleia da categoria, marcada para as 10h desta terça-feira. A polícia lançou uma bomba de gás contra os black blocs, intoxicando e dispersando os professores. Um rapaz que atirou pedras contra policiais foi detido, mas logo em seguida foi liberado. Ele carregava consigo uma pequena quantidade de maconha. Advogados da OAB no local argumentaram que não havia provas dele ter sido o responsável pelas pedras e que a quantidade de entorpecente não era suficiente para efetuar uma prisão.

Comento
Um dia, quem sabe?, advogados da OAB do Rio ainda comparecerão à manifestação para proteger também os policiais, não é? Afinal, oito deles saíram feridos dos confrontos em razão da, como é mesmo?, “violência dos dois lados”. O maconheiro — ooops! Perdão, Excelência Usuário de Substância Considerada Entorpecente e Ilegal pelo Estado Autoritário — que jogou pedra contra os PMs logo foi protegido por um dos doutores de plantão, que decidiram, sabe-se lá com base em que bibliografia e em que noção de direito, que seu papel é proteger arruaceiros. Se o dito-cujo, então, porta uma quantidade de mato, aí, meus caros, a chance de ele ser elevado à condição de herói aumenta enormemente.

Espero que não chegue o tempo em que tenhamos de fazer um mea-culpa pelo apoio dado à democracia. Já estamos quase lá.

Por Reinaldo Azevedo

 

Gerdau, que conhece o governo por dentro, dá nota entre 3 e 4 para a governança no Brasil

Os petistas inventaram um inimigo terrível chamado “mídia”. E o que é essa tal “mídia”. Geralmente é constituída por veículos de comunicação e por jornalistas que publicam notícias que os “companheiros” não gostam de ler. Se os fatos insistem em desmentir as versões oficiais, então resta denunciar conspirações as mais exóticas.

Muito bem. Dilma convidou o empresário Jorge Gerdau para comandar a Câmara de Gestão e Planejamento do Governo Federal, um órgão de assessoramento direito da Presidência da República. Leiam o que informa Márcio Prates no site da revista Exame, Volto em seguida.

Há dois anos e meio à frente da Câmara de Gestão e Planejamento do Governo Federal – instância criada dentro da administração Dilma para melhorar a governança pública do país – o empresário Jorge Gerdau deu hoje a sua nota para qualidade da administração pública nacional: qualquer coisa entre 3 e 4. Com ele, concordaram todos os demais debatedores presentes no EXAME Fórum, que acontece hoje na capital paulista para discutir formas de aumentar a produtividade brasileira. Uma questão que perpassa, inevitavelmente, pela qualidade dos serviços públicos. Segundo Gerdau, o quadro não é nada animador nos 39 ministérios do Governo Dilma. Quase todos foram analisados pela Câmara para saber o nível de unidade sobre objetivos e planos de longo prazo.

“No setor privado, querendo ou não, o sistema de governança é quase diariamente debatido. Mas em quase nenhum desses 39 ministérios nós sabemos onde queremos chegar”, afirmou o empresário. Gerdau não estava sozinho em seu diagnóstico desolador, mas outros debatedores lembraram que há algumas (poucas) razões para não perder a esperança. “Existem ilhas de boas práticas dento do governo. Precisamos buscar o que tem de bom e replicar isso. Queremos um projeto de governança para o Estado brasileiro a médio e longo prazos”, afirmou o presidente do Tribunal de Contas da União, Augusto Nardes.

Travas ao desenvolvimento
O chefe do TCU aproveitou a discussão para rebater as acusações feitas por membros do governo federal de que o Tribunal é parte do problema pela baixa execução de obras no Brasil. Segundo ele, por exemplo, das 1.153 obras conduzidas pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) em certo período, apenas seis foram paralisadas pelo TCU. “Fizemos levantamento que 53% das obras não têm projeto básico e executivo. Culpar o TCU é buscar um bode expiatório sobre o problema da gestão. É esse o grande nó para o desenvolvimento do Brasil hoje”, opinou Nardes.
(…)

Voltei
Acredito que a presidente Dilma tenha escolhido para comandar a tal Câmara de Gestão uma pessoa de confiança. Não estive presente ao seminário, mas creio que a nota dada por Gerdau, bem abaixo da média para alguém “passar de ano” — ou “passar de mandato”, ironizaria eu —, não se restrinja ao governo federal. Segundo entendi, ele está se referindo ao padrão de governança no Brasil.

Ainda assim, é evidente que o centro do seu desalento é mesmo o governo federal. Assim, os céticos ou descontentes com as críticas feitas pela tal “mídia” têm um motivo adicional e tanto para crer em Gerdau: ele está lá dentro. Pelo visto, não poderá dizer como Júlio César: “Fui, vi, venci”. Se, a esta altura, dá uma nota entre três e quatro, poderia dizer: “Fui, vi, fui vencido”. O mau Brasil, infelizmente, ganhou a parada. Tenho cá pra mim, mas isso é lá com ele, que o próprio Gerdau não deve ver motivos para continuar. Fazer o PT aderir à racionalidade não é nem fácil nem difícil. É apenas inútil.

Por Reinaldo Azevedo

 

Lula diz que será a “metamorfose ambulante” de Dilma e sugere estar arrependido por alguns nomeações que fez para o STF. Certamente não está se referindo a Toffoli e Lewandowski…

Lula está assanhado de novo. E, como de hábito, resolveu usar a imprensa para… atacar a imprensa. Sabe que funciona. O Supremo também não escapou de uma observação indecorosa. Já chego lá.

 O ex-presidente concedeu uma entrevista ao Correio Braziliense. Depois de dizer, na semana passada, que “está no jogo para a desgraça de alguns”, agora afirma querer ser a “metamorfose ambulante” de Dilma. Nas suas palavras:
“Eu não quero estar na coordenação, eu quero ser a metamorfose ambulante da Dilma. Estou disposto. Se ela não puder ir para o comício num determinado dia, eu vou no lugar dela. Se ela for para o Sul, eu vou para o Norte. Se ela for para o Nordeste, eu vou para o Sudeste. Isso quem vai determinar é ela”.

Aquele que, na aparência, se faz de militante raso, humilde, que só quer colaborar, continua a se colocar, na verdade, como tutor da presidente. Também respondeu ao buchicho de que ainda pode vir a ser candidato. E o fez assim: “Se houver alguém que se diz lulista, e não dilmista, eu o dispenso de ser lulista. Eu não estou pedindo que as pessoas gostem dela. Eu quero que as pessoas a respeitem na função institucional e saibam que o PT está lá para apoiá-la.” Não sei se as pessoas devem procurar se proteger mais das críticas ou dos elogios de Lula. Definitivamente, o Apedeuta tem um modo muito próprio de demonstrar apreço e admiração, não é? Se não gostam, que, ao menos, a respeitem… Entenderam?

Lamentou que o PSB tenha saído do governo, mas deixou claro que não considera irreversível a candidatura de Eduardo Campos. Deu uma cutucadinha em Marina Silva, reconhecendo que ela tem o direito de criar sua legenda: “Tem de ter coragem de dizer que é partido, não tem de inventar outro nome, dizer que não é partido, é uma rede. É partido e vai ter deputado, como todo partido”. Até ele pode, de vez em quando, dizer uma coisa certa.

O indecoroso
A fala mais indecorosa ficou mesmo reservada ao Supremo Tribunal Federal. Disse que, com as informações que tinha à época, indicaria os nomes que indicou. Mas… Leiam: “[hoje] Eu teria mais critério. Um presidente recebe listas e mais listas com nomes”. Já é um disparate que um ex-presidente da República comente a composição da corte suprema do país. Mais estúpido ainda é que dê a entender que hoje faria de modo diferente.

Vamos ver. Quatro dos ministros indicados por Lula seguem na Corte: Joaquim Barbosa, Dias Toffoli, Cármen Lúcia e Ricardo Lewandowski. Nomeou outros que já se aposentaram: Eros Grau, Cezar Peluso, Ayres Britto e Menezes Direito (morto). Desses quatro, um participou apenas do comecinho do julgamento do mensalão (Peluso), e outro, de boa parte dele (Britto). Grau e Direito não deram motivos para chateação. Quando o chefão dá sinais de arrependimento, certamente não está se referindo a Dias Toffoli e a Ricardo Lewandowski. Por que estaria? Deve considerá-los dois gênios da raça. As restrições, então, só podem valer para Cármen Lúcia (mas não muito) e, obviamente, Joaquim Barbosa, considerado um “traidor”, mesma pecha que os petistas usam para classificar Britto, já aposentado, e Luiz Fux (este já nomeado por Dilma), feito agora o relator dos embargos infringentes. Ministro bom no Supremo é aquele que diz “sim, senhor!”.

Com a boca torta de sempre, voltou a classificar o processo do mensalão de um “linchamento feito pela imprensa brasileira”. E por intermédio de qual instrumento Lula diz e populariza as suas bobagens? Ora, por intermédio da… imprensa brasileira!

Eis aí. O Nhonhô Supremo da República já começou seu trabalho de boca de urna.

Por Reinaldo Azevedo

 

PT privatiza “Minha Casa Minha Vida” e usa verba do programa para beneficiar militantes. Na lambança, há de tudo: improbidade administrativa, ofensa à Constituição e crime eleitoral

Jamais atribuí ao PT algo que o partido não tivesse feito. Nunca foi preciso fantasiar sobre teorias conspiratórias para criar um bicho-papão. Até porque, quando o partido está na área, não resta ao cronista muito espaço para imaginação. No mais das vezes, os petistas surpreendem só porque conseguem ir além dos juízos mais severos que possamos fazer a respeito deles. O diabo é sempre mais feio do que se pinta. Reportagens publicadas no Estadão neste domingo (aquiaqui e aqui) provam, sem margem para dúvidas, que o programa “Minha Casa Minha Vida”, em São Paulo, transformou-se num instrumento de luta política. Onze das doze entidades cadastradas para receber repasses do governo federal e gerir a construção de casas são comandadas pelo PT; a outra é ligada ao PCdoB. Juntas, elas administram uma bolada de R$ 238,2 milhões. Pior: essas entidades criam critérios próprios para selecionar os beneficiários das casas, que não constam das disposições legais do “Minha Casa Minha Vida”. Vamos ver.

O governo federal, por meio do Ministério das Cidades, seleciona entidades — o único critério é haver uma militância organizada — que passa a gerir fatias milionárias de recursos para a construção das casas. E como é que esses grupos administram o dinheiro? Leiam trecho (em vermelho):
Os critérios não seguem apenas padrões de renda, mas de participação política. Quem marca presença em eventos públicos, como protestos e até ocupações, soma pontos e tem mais chance de receber a casa própria. Para receber o imóvel, os associados ainda precisam seguir regras adicionais às estabelecidas pelo programa federal, que prevê renda familiar máxima de R$ 1,6 mil, e prioridade a moradores de áreas de risco ou com deficiência física. A primeira exigência das entidades é o pagamento de mensalidade, além de taxa de adesão, que funciona como uma matrícula. Para entrar nos grupos, o passe vale até R$ 50. Quem paga em dia e frequenta reuniões, assembleias e os eventos agendados pelas entidades soma pontos e sai na frente.

Ou por outra: as entidades petistas privatizam o dinheiro público e só o distribuem se os candidatos a beneficiários cumprirem uma agenda política. Atenção! O MST faz a mesma coisa com os recursos destinados à agricultura familiar. A dinheirama vai parar nas mãos de cooperativas ligadas ao movimento, e as que são mais ativas politicamente são beneficiadas. Não houvesse coisa ainda mais grave, a simples cobrança da taxa já é um escândalo. Essas entidades, afinal, passam a cobrar por aquilo a que os candidatos a uma casa têm direito de graça. É claro que isso fere o princípio da isonomia.

Mas esse não é, reitero, o aspecto mais grave. Observem que o eventual acesso, então, a uma moradia passa a ser privilégio de quem se dedica a um tipo muito particular de militância política — gerenciada, como é evidente, pelos petistas. Assim, o que é um programa do estado brasileiro passa a beneficiar apenas os que estão sob o guarda-chuva de um partido político. O Ministério das Cidades diz que não pode interferir na forma como essas associações se organizam. Entendi: então o governo lhes repassa o dinheiro — e elas podem, se quiserem, jogar a Constituição e as leis no lixo. Parece-me escandalosamente claro que, ao tolerar essa prática, os responsáveis pela pasta incorrem em vários parágrafos da Lei de Improbidade Administrativa — isso para começo de conversa.

Haddad
As indicações passam a ser arbitrárias. E contam, como não poderia deixar de ser, com o apoio do prefeito Fernando Haddad. Em agosto, ele assinou um decreto em que estabelece que essas entidades poderão indicar livremente os beneficiários do programa. E não pensem que é pouca grana, não! É uma bolada! Leiam mais um trecho:
A maior parte das entidades é comandada por lideranças do PT com histórico de mais 20 anos de atuação na causa. É o caso de Vera Eunice Rodrigues, que ganhou cargo comissionado na Companhia Metropolitana de Habitação (Cohab) após receber 20.190 votos nas últimas eleições para vereador pelo partido. Verinha, como é conhecida, era presidente da Associação dos Trabalhadores Sem Teto da Zona Noroeste até março deste ano – em seu lugar entrou o também petista José de Abraão. A entidade soma 7 mil sócios e teve aval do Ministério das Cidades para comandar um repasse de R$ 21,8 milhões. A verba será usada para construir um dos três lotes do Conjunto Habitacional Alexius Jafet, que terá 1.104 unidades na zona norte.
No ano passado, Verinha esteve à frente de invasões ocorridas em outubro em prédios da região central, ainda durante a gestão de Gilberto Kassab (PSD), e em pleno período eleitoral. Em abril, foi para o governo Haddad, com salário de R$ 5.516,55. A Prefeitura afirma que ela está desvinculada do movimento e foi indicada por causa de sua experiência no setor.
Outra entidade com projeto aprovado – no valor de R$ 14 milhões –, o Movimento de Moradia do Centro (MMC), tem como gestor Luiz Gonzaga da Silva, o Gegê, filiado ao PT há mais de 30 anos e atual candidato a presidente do diretório do centro. Com um discurso de críticas à gestão Kassab e de elogios a Haddad, ele também nega uso político da entidade. “Qualquer um pode se filiar a nós e conseguir moradia. Esse é o melhor programa já feito no mundo”, diz sobre o Minha Casa Minha Vida Entidades.

Campanha eleitoral
Como se vê, esses “movimentos” são tão independentes quanto um táxi. Atuaram abertamente durante a campanha eleitoral em favor de Fernando Haddad e contra a gestão anterior. E é certo que, além da apropriação de dinheiro público, do possível crime de improbidade, da agressão a direitos fundamentais garantidos pela Constituição, tem-se também o crime eleitoral. Leiam:
Nas eleições do ano passado, pelo menos três vereadores petistas – Juliana Cardoso, Nabil Bonduki e Alfredinho – tiveram o apoio de entidades de moradia para obter a vitória nas urnas. Também do partido, o deputado federal Simão Pedro e o estadual Luiz Cláudio Marcolino tiveram com o apoio de líderes dos sem-teto nas eleições de 2010.
“Nas últimas eleições nós fizemos campanha para o Nabil (Bonduki), mas eu gosto mesmo e tenho simpatia é pela Juliana (Cardoso)”, afirma Vani Poletti, do Movimento Habitação e Ação Social (Mohas), com sede na região de Cidade Ademar, na zona sul da capital. Ela afirma estar insatisfeita com o fato de o PP do deputado federal Paulo Maluf ter ficado com a Secretaria Municipal de Habitação. “O movimento esperava que fosse o Simão Pedro.”

Retomo
Simão Pedro, é? É o atual secretário de Serviços da Prefeitura de São Paulo. Não custa lembrar: é ele o amigão e ex-chefe de Vinicius Carvalho, o chefão do Cade, que conduz aquela estranha investigação sobre a Siemens. Um rapaz sem dúvida influente…

Entenderam agora por que os companheiros querem tanto o financiamento público de campanha? Os demais partidos ficariam obrigados a se contentar com o que lhes coubesse de um eventual Fundo. Com os petistas, no entanto, seria diferente. Além do apoio da máquina sindical — proibida, mas sempre presente —, a legenda continuaria livre para usar recursos públicos, por intermédio dessas entidades, para fazer campanha eleitoral.

O caso está aí. Não há dúvida, ambiguidade ou mal-entendido. Um partido está usando dinheiro público em seu próprio benefício e manipulando as regras de um programa federal para que ele beneficie apenas os seus “escolhidos”.

Com a palavra, o Ministério Público. O que é isso senão a criação de um estado paralelo, de sorte que os mecanismos de decisão deixem de obedecer a critérios republicanos e se submetam à vontade de um partido? Pensem um pouquinho: de outro modo e com outros meios, também o mensalão não foi outra coisa. Em São Paulo (e duvido que seja muito diferente Brasil afora), o “Minha Casa Minha Vida” virou propriedade privada das milícias petistas.

Por Reinaldo Azevedo

 

Parem com isso, senhores jornalistas! Vai que Rui Falcão decida trabalhar!

Jornalistas, às vezes, têm cada uma! Leio no Estadão desta segunda esta notícia. Volto em seguida.

Voltei
Que bom! Vai que Rui Falcão decida ser o mais assíduo… Como ensina um bom amigo, há pessoas cujo rendimento é inversamente proporcional ao trabalho, entenderam? Ainda que eu possa, vá lá, lamentar o desperdício de dinheiro público, melhor não insistir. A cada vez que ele falta, preenche-se uma lacuna…

Por Reinaldo Azevedo

 

Apocalípticos ressuscitam a expressão “aquecimento global” e aposentam “mudanças climáticas”: não tinha o mesmo peso escatológico. Ou: Posso fazer algumas contas? Ou ainda: Um especialista pra chamar de seu — e não sou eu!

Alguns amigos, gente que gosta sinceramente de mim, costuma recomendar que eu não entre em determinados temas. Dizem que só rendem desgaste; afinal, vão contra a “doxa” ou o “espirito do tempo”. Mas então existimos, os jornalistas, para referendar tudo o que há? Um desses temas é o “aquecimento global”, expressão que foi ressuscitada, depois de ter sido substituída por “mudanças climáticas”.

Ocorre que o apelo publicitário e escatológico — no sentido teológico da palavra — de “mudança climática” é muito inferior ao de “aquecimento global”. Este último desperta no imaginário o temor de que a Terra vá mesmo derreter se a gente não fizer alguma coisa. Seu horizonte apocalíptico é muito mais forte. O outro era fraquinho, não mobilizava o medo — e houve até quem começasse a considerar os aspectos positivos da “mudança”: poderia ser favorável à produção agrícola em alguns lugares, facilitaria o trânsito de navios no polo Norte do planeta… Então que se recupere o original: o “aquecimento global” está de volta. E com força!

“Lá vem você, que não entende nada de clima…” É verdade! Mas entendo um pouco de linguagem religiosa e sei fazer algumas contas. Nessa área, costumo acompanhar o pensamento de Richard S. Lindzen, sobre quem já escrevi aqui algumas vezes. Ele entende. É professor de Meteorologia do Massachusetts Institute of Technology. As pessoas têm todo o direito de achar que, no MIT, só existem picaretas. Eu tenho o direito de achar que não. Lindzen não é um “cético”. É só um cientista sério que afasta a hipótese apocalíptica. Ele era o coordenador do capítulo científico do Terceiro Relatório de Avaliação do IPCC, em 2001. Seus “colegas” publicaram, então, conclusões sem o seu conhecimento. Como não é um embusteiro, demitiu-se.

Quem quiser contestações científicas as mais detalhadas contra os apocalípticos tem em Lindzen um bom caminho. Leio agora em reportagem da VEJA.com que o novo relatório da ONU amplia de 90% para 95% a possibilidade (ou certeza…) de que o aquecimento global seja mesmo produzido pelo homem. E, noto, o Apocalipse de São João voltou a ameaçar a humanidade.

De novo: quem quer contestação com minudências científicas deve recorrer a Lindzen. Ele tem um currículo respeitável. Eu me atenho a algumas circunstâncias que são ditadas pela lógica — ou falta dela. O IPCC, como é sabido, passou por um processo de desmoralização — e por bons motivos. Suas previsões catastrofistas de curto prazo não se realizaram, e surgiram evidências de que cientistas falsificavam dados para não perder o financiamento de pesquisas. Agora eles estão de volta anunciando que seus métodos de análise são bem mais severos e precisos. Certo! Como a esmagadora maioria da humanidade confiava nos anteriores, resta-lhe confiar neste também. Leio, por exemplo, o que segue na reportagem da VEJA.com (em vermelho):

“Como resultado, o IPCC baixou — um pouco — sua previsão de aquecimento global para este século. Enquanto o relatório de 2007 previa que esse aumento na temperatura iria ficar entre 1,1 e 6,4 graus Celsius, o novo relatório afirma que a temperatura deve subir entre 0,3 e 4,8 graus Celsius — o que está longe de ser tranquilizador.”

VAMOS FAZER CONTA?
No modelo anterior, a diferença entre a elevação mínima estimada (1,1) e a máxima (6,4) era de 482%. No novo modelo, muito mais preciso, segundo se informa, vejam que maravilha: a elevação mínima é de 0,3, e a máxima, de 4,8 — uma variação de 1.500%. Entenderam? O modelo teria se tornado mais preciso, isso forçou os apocalípticos a baixar as previsões, mas a diferença entre o mínimo e o máximo aumentou estupidamente: de 482% para 1.500%. Deve ser o único modelo matemático no mundo que, ao aumentar o espaço da incerteza, reivindica o estatuto de “modelo mais preciso”.

O “reconhecimento”
Reproduzo outro trecho da reportagem de VEJA.com (em vermelho):
A principal controvérsia do relatório, no entanto, deve ser mesmo o hiato constatado no aquecimento global. Segundo o texto de 2007, a Terra vinha passando por um aquecimento linear nos últimos 50 anos, aumentando 0,13 grau Celsius por década. Os cientistas, no entanto, haviam falhado em perceber que, desde 1998, essa tendência havia sido interrompida — o que serviu de forte munição para os críticos do IPCC.

Hoje, o painel reconhece o hiato, afirmando que, entre 1998 e 2012, o aquecimento global caiu para apenas 0,05 grau Celsius por década. No entanto, os cientistas preveem que a taxa deve voltar a subir nos próximos anos. Segundo eles, hiatos de dez ou quinze anos nas mudanças climáticas são comuns, e o que deve ser levado em conta para traçar tendências devem ser períodos mais longos de tempo.

Voltei
Notem que não se trata apenas de uma revisão, mas, quando menos, da admissão de um erro estúpido — e as malandragens denunciadas fazem supor que era, digamos, um erro metódico. Num modelo em que “zero vírgula alguma coisa” pode representar o fim do mundo, é preciso que se note, então, que haviam superestimado o aquecimento por década em… 160% (de 0,05 para 0,13) — e isso, claro, na hipótese de que o 0,05 não seja um, digamos, novo engano.

O novo relatório, como se vê, vai aumentar a certeza dos cientistas, mas ampliando o intervalo do palpite, com uma redução das grandezas, menos num item: o nível do mar. Afinal, é preciso trazer de volta o risco da tragédia. Em 2007, previa-se que ele subiria de 18 cm a 59 cm até 2100 (227% de variação) — em seu filme, Al Gore previu 6 metros!!! Agora, a coisa piorou: a estimativa vai de 26 cm a 82 cm (215%). O mínimo teve uma majoração de 44,4%, e o máximo, de 40%.

Concluo
Eu só faço algumas contas que me deixam um tanto espantado num modelo em que, insisto, índices de “zero vírgula alguma coisa” significam a diferença entre a sobrevivência e o fim da Terra. Como o modelo é chamado “matemático”, parece que a matemática é importante. Mas não sou, obviamente, referência em matéria de contestação científica. Já Richard S. Lindzen é.

E agora volto ao começo. Uma economia bilionária, trilionária, sei lá eu, já se formou em torno desse negócio de aquecimento global. Que importância tem, no balanço geral, um jornalista fazer algumas contas? Não escrevo com a finalidade de mudar o mundo, de ganhar adeptos ou de impor uma agenda. Logo, não sou ideólogo, guru ou político. Só faço algumas continhas e noto que, com modelo “matemático” com essa precisão, em vez de chegar à Lua, o homem teria ido parar na casa do chapéu. Já os “especialistas” e fanáticos do aquecimento, reitero, briguem com Lindzen (entre outros), não comigo. Provem que é ele o idiota. 

Por Reinaldo Azevedo

 

Marina e a resposta simples, clara, certa, mas de outro mundo

O jornalista americano H.L. Mencken dizia que, para todo problema complexo, há sempre uma solução clara, simples e errada. A frase é muito boa, à altura do seu brilho. Mas talvez se possa dizer algo mais. E se, para alguns problemas complexos, existirem, por exemplo, soluções claras, simples, certas, porém inexequíveis? Pensem um pouquinho: essa segunda possibilidade consegue ser um tantinho mais pessimista do que aquela aventada por Mencken. “Mas uma resposta inexequível é uma resposta?” No terreno das hipóteses, é. Se, no entanto, inexistirem condições materiais de executá-la, então é nada.

Marina Silva participou nesta segunda, por videoconferência, do “Exame Fórum 2013 – Como Aumentar a Nossa Produtividade” (veja programação), promovido pela revista Exame, editada pela Abril. Falou logo depois do senador Aécio Neves, pré-candidato do PSDB à Presidência da República. Segundo a ex-senadora, que tenta tornar viável o “não-partido” Rede, “fóruns como esse são possibilitadores de um debate, mas não apenas cada um fazendo diagnóstico e apresentando um amontoado de propostas. Dsso somos capazes todos. Estamos precisando de um novo acordo político, que não seja nas bases da situação pela situação e da oposição pela oposição.”

Como discordar de certas evidências? Há coisas que já não mais dividem; apenas unem. É fato que a Terra é redonda, por exemplo, e que gira em torno do Sol, não o contrário. Assim, é provável que Marina esteja certa ao dizer que um “novo acordo político” nos faria bem. Mas o que é um “novo acordo político”? Não tenho a menor ideia, ela não tem, ninguém tem. Apelando apenas à lógica elementar, sou tentado a achar que, se fosse fácil, já teria sido feito.

Marina é uma eficiente criadora de palavras e categorias. A questão é saber a que servem. Afirmou: “Todo mundo se compromete com a reforma e depois a única reforma que faz é a do compromisso que tinha feito. É por isso que o sociólogo não foi capaz de fazer a reforma politica, o operário não foi capaz de fazer a trabalhista.” Tá. Se o “sociólogo” não fez uma coisa, e o “operário” não fez a outra, teria, então, chegado a hora da… da o quê? Que categoria Marina criou para si mesma?

Se diz que nem “sociólogo” nem “operário” conseguiram fazer isso e aquilo, é evidente que está a sugerir que a respectiva condição de cada um criou embaraços. Mas quais? Marina sabe que alguma resposta precisa ser dada, e ela ensaia: “As promessas que são feitas poderiam ser cumpridas, mas, como se repetem a cada quatro anos, é bom ficarmos atentos para pensar em como fazer isso na forma de um acordo, em que cada um que esteja à frente do processo governamental tenha de seguir essa ações.”

“Acordo”? Qual acordo? Estamos falando, de novo, daquela velha tese do “pacto social” — ou que nome tenha? A dificuldade dessa ideia reside no fato de que o objetivo a ser alcançado costuma ser condição para a sua realização, entenderam? Para que se chegue a uma solução que contemple as respectivas demandas das partes envolvidas, é preciso que as partes envolvidas concordem de antemão com a definição da agenda. E a coisa começa a girar em falso.

Não espero que uma liderança política dê uma receita pronta de como arrumar o Brasil ou algo assim. Mas me parece que é preciso cobrar um pouco mais de precisão do diagnóstico. Não entendi o que Marina quis dizer. Também acho que o mundo fica melhor com pessoas de boa-vontade. Mas, com isso, dá para fundar uma boa, virtuosa e necessária igreja. Em política, quer dizer o quê?

Por Reinaldo Azevedo

 

Depois de 15 anos, taxa de analfabetismo volta a crescer no Brasil

Por Cecília Ritto, na VEJA.com. Volto no próximo post.
Pela primeira vez em quinze anos, o índice de analfabetismo cresceu no Brasil. É o que mostra a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada em 2012 e divulgada nesta sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O índice de pessoas de 15 anos de idade ou mais que não sabem ler nem escrever subiu de 8,6% em 2011 para 8,7% no ano passado. Isso significa que no período de um ano, o país “ganhou” 300.000 analfabetos, totalizando 13,2 milhões de brasileiros. A tendência de queda, que se mantinha desde 1997, estacionou, despertando a atenção dos pesquisadores do IBGE, que agora se debruçam em busca de explicações. “Ainda estamos verificando o que levou a essa variação, já que o porcentual vinha caindo há tanto tempo”, diz Maria Lucia Vieira, coordenadora da pesquisa e gerente do IBGE.

Com a lupa sobre cada região brasileira, o que se observa é que o Nordeste foi o principal responsável por elevar a taxa nacional – é onde moram 53,8% de todos os analfabetos do país, ou 7,1 milhões. No mesmo período de um ano, o índice local passou de 16,9% para 17,4%. No Centro-Oeste, também houve crescimento, de 6,3% para 6,7% entre 2011 e 2012. Já no Sudeste, os números estão estagnados, enquanto o Norte e o Sul conseguiram manter a redução. “O analfabetismo tem endereço no Brasil: está concentrado na população mais velha e nordestina”, frisa Maria Lucia.

O alagoano José Carlos Vieira dos Santos, de 54 anos, se encaixa no perfil observado pelo IBGE. Morador da cidade de Murici, começou a trabalhar aos 14 anos no corte de cana. Não teve tempo de frequentar a escola e chegou à idade adulta sem qualquer intimidade com as letras. “Ele escreve o nome todo, devagar, e se aborrece porque tem dificuldade”, conta a mulher, Maria Cícera Guedes, da mesma idade, que cursou até a 5ª série do Ensino Fundamental (hoje 6º ano). Dos quatro filhos do casal, a mais velha largou a escola ainda na 1ª série. Atualmente com 30 anos, também não sabe ler nem escrever.

Maria lamenta. Diz que tem o sonho de ver os filhos concluindo os estudos. Mas apenas o de 18 anos lhe dá esperanças. No 2º ano do Ensino Médio, é o único com disposição de conquistar o diploma. Os outros dois irmãos, de 16 e 21 anos, ainda frequentam as salas de aula do primário. “Vejo muita coisa errada por aqui – drogas, por exemplo. Coloquei meus filhos no colégio para que aprendessem alguma coisa e ficassem longe da rua”, diz a matriarca da família que exemplifica bem outra constatação do estudo: a dificuldade dos adultos em ultrapassar a barreira do analfabetismo.

Idade
Foi na faixa dos 40 aos 59 anos o crescimento mais representativo de analfabetos no país, de 9,6% para 9,8%. Uma das possibilidades é de que este grupo esteja mais crítico em relação ao conceito de analfabetismo. Por alfabetizado, o IBGE entende ser uma pessoa com condições de ler e escrever um bilhete simples. Mas a maioria dos analfabetos do país ainda tem 60 anos ou mais – eles são 3,2 milhões. Priscila Cruz, diretora executiva da ONG Todos pela Educação, enfatiza que a idade adulta é a mais resistente à escolarização. “Essas pessoas procuram o ensino só quando querem, e se tiverem tempo e disposição.”

Cícero Custódio, morador de Lagoa do Ouro, interior de Pernambuco, engrossa as estatísticas. Assim como Santos, foi levado pelo pai ainda criança, aos 7 anos, para o trabalho na roça. Pisou na escola pela primeira vez somente aos 30 anos, ficou 15 dias, aprendeu a escrever o nome e viu a instituição fechar as portas. Até hoje, aos 63, não teve outra oportunidade. “Entendo as letrinhas muito pouco. Não sei fazer as palavras, nem juntar as letras para ler. Fico enrascado nisso aí”, explica. Fez questão de matricular os seis filhos na escola, mas não viu nenhum chegar ao Ensino Médio. “A maior ajuda que os pais podem dar é apoiando os estudos.”

Escolarização
Entre os mais jovens, o índice de analfabetismo é drasticamente menor – apenas 1,2% dos 15 aos 19 anos, por exemplo -, o que pode indicar uma redução no futuro das taxas entre os mais velhos. O gargalo, neste caso, fica por conta do Ensino Fundamental, incompleto para 33,5% da população com 25 anos ou mais (que exclui os grupos em processo de escolarização). É o caso de Ionácio Santana, carioca de 37 anos, pai de doze filhos, morador da favela do Vidigal e conhecido na praia de Ipanema pela barraca em frente à Rua Farme de Amoedo, onde aluga cadeiras e vende bebidas.

Gostava de estudar, garante. Chegou à 6ª série do Ensino Fundamental (hoje 7º ano), até que desistiu para viver o sonho de ser jogador de futebol. Entrou para o profissional da Ponte Preta e os juniores do Botafogo. Mas a carreira não foi adiante, e ele admite arrependimento da escolha que fez no passado. “Toda vez que empurro um carrinho de mão para carregar material de obra, lembro da minha irmã avisando que era melhor eu estudar. A escola era muito boa. A professora acordava cedo para ajudar trinta alunos a serem alguém na vida.”

Para não repetir o erro com os filhos, Nélio, como é conhecido, mantém sete deles na escola. Até o caçula, de 10 meses, está prestes a entrar na creche. “Se com estudo está difícil, imagina sem. Com os meus filhos, eu sou duro”, afirma ele, revelando que também tem planos de retomar os estudos, no próximo ano. Entre os motivos, está o carro que comprou há pouco tempo mas não pode dirigir, porque precisa passar pela prova teórica exigida para tirar a carteira de motorista.

A Pnad 2012 traz também dados positivos, como a redução no índice de analfabetos funcionais (capazes de ler e escrever mas com dificuldades de interpretação do texto). Entre a população com 15 anos de idade ou mais, 18,3% tem menos de quatro anos de estudo completo, o equivalente a 27,8 milhões de brasileiros. O número é significativo, mas representa uma queda de 2,1 pontos porcentuais em relação a 2011, quando eles eram 20,4% do total. As regiões Norte e Nordeste ainda apresentam as maiores taxas de analfabetismo funcional, de 21,9% e 28,4% respectivamente.

Futuro
A situação geral, porém, é preocupante. O país está se distanciando da meta firmada com a Organização das Nações Unidas (ONU): diminuir o índice de analfabetos para 6,7% até 2015. Faltam dois anos, portanto, para fazer ler e escrever cerca de 3 milhões de pessoas. Mas o governo não tem se esforçado para atingir o objetivo. A diretora executiva da ONG Todos pela Educação, Priscila Cruz, alerta para o fato de que, neste sábado, o país completa mil dias sem um Plano Nacional de Educação, responsável por nortear políticas públicas pelos próximos dez anos. “O não avanço é sempre um retrocesso em educação”, critica.

Por Reinaldo Azevedo

 

Há três anos, apontei aqui a tendência que resultaria no aumento do analfabetismo: governo ignorou o assunto, e a petezada partiu pra porrada, como sempre… Eis aí!

O Brasil teve um grande ministro da Educação. Seu nome: Paulo Renato Souza. Foi, mais de uma vez, alvo da máquina de destroçar reputações criada pelo PT, por intermédio, no caso, de seu braço sindical. Em junho de 2011, por ocasião de sua morte, escrevi aqui um post sobre os números da educação brasileira, desfazendo alguns mitos. O décimo item da minha lista era este, que reproduzo na íntegra (em azul):

“10 – Cresceu o número de analfabetos no país sob o governo Lula – e eu não estou fazendo graça ou uma variante do trocadilho. Os números estão estampados no PNAD (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios), do IBGE. No governo FHC, a redução do número de analfabetos avançou num ritmo de 0,5% ao ano; na primeira metade do governo Lula, já caiu a 0,35% – E FOI DE APENAS 0,1% ENTRE 2007 E 2008. Sabem o que isso significa? Crescimento do número absoluto de analfabetos no país. Fernando Haddad sabe que isso é verdade, não sabe? O combate ao analfabetismo é uma responsabilidade federal. Em 2003, o próprio governo lançou o programa ‘Brasil Alfabetizado’ como estandarte de sua política educacional. Uma dinheirama foi transferida para as ONGs sem resultado – isso a imprensa noticiou. O MEC foi deixando a coisa de lado e acabou passando a tarefa aos municípios, com os resultados pífios que se veem.”

Retomo
É isso aí. Com base nos dados no PNAD, apontei, então, que caía o ritmo da redução de analfabetos, o que estava a indicar o constante aumento do número absoluto de analfabetos. Mantida a tendência, é claro que acabaria acontecendo o que agora se verifica: haveria um aumento da taxa — pela primeira vez em 15 anos. É matemática, não tem jeito. Os “companheiros” podem até achar que essa ciência só existe para sabotar seus propósitos, mas a gente sabe que não é assim.

O dado, que reproduzi no texto de novembro de 2011, já estava num artigo que escrevi em agosto de 2010. Três anos depois, o fatal acontece.

Notem: quando, então, naquele agosto de 2010, apontei que havia a tal redução da queda do analfabetismo, eu não o fazia porque, afinal de contas, não comungo — e não comungo mesmo, com todo o direito que tenho! — dos valores petistas (ou da falta deles). Eu o fiz porque era um dado da realidade, haurido dos números oficiais.

Alguns abestalhados acharam que se tratava apenas de má vontade, uma forma de negar os formidáveis avanços obtidos pelos companheiros na educação. Já então Fernando Haddad estava sendo treinado para vir a ser um “líder” no petismo. Deu no que deu. Imaginem o escândalo que não se faria nas redes sociais e na máquina de propaganda das esquerdas e assemelhados se uma reversão dessa natureza tivesse se dado num governo tucano.

Analfabetismo universitário
No ano passado, a ONG Ação Educativa e o Instituto Paulo Montenegro divulgaram dados sobre o Alfabetismo Funcional (Inaf) segundo a escolaridade. O quadro é este.

Em 2001/2002, 2% dos alunos universitários tinham apenas rudimentos de escrita e leitura. Em 2010, essa porcentagem havia saltado para 4%. Vale dizer: 254.800 estudantes de terceiro grau no país são quase analfabetos. Espantoso? Em 2001/2002, 24% não eram plenamente alfabetizados. Um número já escandaloso. Em 2010, pularam para 38%. Isso quer dizer que 2.420.600 estudantes do terceiro grau não conseguem ler direito um texto e se expressar com clareza. É o que se espera de um aluno ao concluir o… ensino fundamental!

Concluo
Sim, meus caros, o diabo é invariavelmente mais feio do que se pinta — ou não seria o diabo, mas outra coisa de menor malignidade. Aquela taxa lá do alto, que aumentou, é do analfabetismo mesmo, a parte do Brasil que forma a sociedade ágrafa. Caso se leve em consideração o analfabetismo funcional, aí é que a gente se defronta com uma parte do Brasil real que o discurso ufano-triunfalista esconde.

Nas democracias convencionais, exemplos escandalosos de ineficiência, como o que se vê acima, costumam ser levados para as campanhas eleitorais. É o certo. “Você prometeu fazer e não fez etc.” É um direito da sociedade confrontar intenções com gestos. No Brasil jabuticaba, como tenho tratado aqui há tempos, não só inexiste um grande partido conservador que seja alternativa de poder (única democracia da Terra com essa característica) como inexistem forças políticas capazes de fazer essa cobrança. Ao contrário: todas as campanhas eleitorais, da oposição ou da situação, exploram o Brasil grande, o Brasil que vai pra frente, o ninguém segura este país.

Algumas drogas perigosas atentam contra o nosso futuro: o ufanismo sem lastro é uma delas.

Quando apontei a redução do ritmo da queda de analfabetismo, algo deveria ter sido feito. Já estaria dando resultado. E deveria não porque fui eu a apontar, claro!, mas porque eram números extraídos de dados oficiais. Mas quê… Fernando Haddad saltou do Ministério da Educação (“o melhor ministro da históriadestepaiz”, segundo Lula) para a Prefeitura de São Paulo. Ele tinha uma grande tarefa a cumprir: prometer o Arco do Futuro e, no presente, devolver o Centro de São Paulo aos traficantes e consumidores de crack. “O que uma coisa tem a ver com outra?” Só estou evidenciando como o processo político brasileiro, por um conjunto de razões que não cabem neste artigo, premia a ineficiência.  

Por Reinaldo Azevedo

 

Mais uma conquista do PT – Brasil registra déficit fiscal pela primeira vez desde 2001

Na VEJA.com:
O Brasil registrou em agosto seu primeiro déficit primário desde o início da série histórica, em 2001. O déficit de 432 milhões de reais acumulado em agosto significa que o governo não conseguiu economizar recursos para engordar o montante necessário para pagar os juros da dívida em 2013. Segundo o Banco Central, que divulgou a nota, o déficit foi causado pelos maiores gastos com a Previdência. Contudo, pesou também a queda da arrecadação de impostos.

O resultado foi bem pior que o esperado por analistas, cuja mediana apontava para saldo positivo de 1,85 bilhão de reais. Em julho, o país havia registrado superávit primário de 2,287 bilhões de reais. Em 12 meses até agosto, a economia feita para pagamento de juros foi equivalente a 1,82% do Produto Interno Bruto (PIB), longe da meta do governo para o ano, de 2,3%. No acumulado dos primeiros oito meses, o esforço fiscal está em 1,72% do PIB.

Curiosamente, nesta segunda-feira, o BC e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, emitiram declarações afirmando que o cumprimento da meta de superávit não é necessário para reduzir o endividamento público. Segundo Mantega, o governo tem sido capaz de reduzir o endividamento sem cumprir a meta cheia. O ministro fez tal afirmação em evento organizado pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Já o BC declarou que um superávit “amplo” não é necessário no Relatório Trimestral de Inflação divulgado nesta segunda.

O déficit primário em agosto foi causado pelo resultado negativo de 55 milhões de reais do governo central, formado pelo governo federal, BC e Previdência Social. Em agosto, as contas públicas foram afetadas pelo início do pagamento do 13º salário a aposentados e pensionistas, aumentando o rombo da Previdência que, segundo o BC, ficou em 5,733 bilhões de reais. O resultado apurado pelo BC é bem pior do que o divulgado pelo Tesouro Nacional na sexta-feira, que mostrava um superávit primário de 87 milhões de reais do governo central — valor considerado baixo, porém, ainda no campo positivo. Ainda segundo o BC, os estados e municípios tiveram déficit de 174 milhões de reais no mês passado, enquanto que as empresas estatais tiveram saldo negativo 203 milhões de reais.

O BC informou ainda que o déficit nominal – receitas menos despesas do governo, incluindo pagamento de juros – ficou em 22,303 bilhões de reais no mês passado, enquanto a dívida pública representou 33,8% do PIB, ante 34,1% em julho, e chegou a 1,573 trilhão de reais. Em dezembro de 2012, a dívida estava em 35,2% do PIB. No acumulado do ano, o superávit primário soma 54,013 bilhões de reais, sendo 37,441 bilhões de reais feitos pelo governo central e 16,774 bilhões de reais economizados por Estados e municípios. A meta cheia de superávit primário para este ano era de 155,9 bilhões de reais, ou cerca de 3,1% do PIB, mas o governo já reduziu a meta a 2,3%, ou 111 bilhões de reais. Isso significa que, para cumprir a meta, o governo terá de economizar em apenas quatro meses o mesmo valor economizado ao longo de todo o ano.

Os resultados fracos até agosto também foram resultado do baixo dinamismo da receita, afetada pelo mau desempenho da atividade econômica do país, e altos gastos com custeio da máquina pública.

Por Reinaldo Azevedo

 

Crescimento: margem de erro de Mantega, por enquanto, é de 1,5 ponto para menos… Mãe Dinah teria feito melhor, estou certo disso

Em novembro do ano passado, durante a 32ª reunião do Fórum Nacional da Indústria, em São Paulo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, previu que a economia brasileira cresceria 4% neste ano. Neste segunda, o Banco Central resolveu ajustar suas estimativas à realidade e afirmou que deve ser, no máximo, de 2,5%. Que se note: não aconteceu nada de extraordinário, nada que estivesse fora do radar de um analista — ou de um governante — prudente. Se o BC não está chutando alto demais, há quem diga que sim, Mantega errou em imodesto 1,5 ponto. É uma pena que a margem de erro foi para menos, não? Imaginem como seria bom a gente ter um ministro da Fazenda do tipo pessimista: prometeria 4% de crescimento e entregaria 5,5%… Mas esse tipo de gente, a política brasileira ainda não produziu. Mesmo essa hipótese seria temerária: o país não teria infraestrutura para crescer isso tudo. Assim, o otimista e errado Mantega ao menos nos protege do colapso que seria produzido pela incompetência do próprio governo — um verdadeiro herói. Não sei se alguém andou consultando a Mãe Dinah no fim do ano passado. Se o fez, estou certo de que ouviu uma projeção mais realista. Leiam texto na VEJA.com.
*
O Banco Central reduziu nesta segunda-feira, por meio de seu Relatório Trimestral de Inflação, a previsão de crescimento da economia brasileira em 2013 para 2,5%. O relatório anterior da autoridade monetária projetava alta de 2,7% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro ao final deste ano. Ao justificar sua decisão, o BC lembrou que o PIB registrou expansão de 1,5% no segundo trimestre deste ano, acima das previsões de analistas, mas afirma que indicadores como a produção industrial e a confiança de empresários mostram que a economia deve registrar desaceleração no terceiro trimestre. Contudo, a autoridade monetária prevê uma retomada no ritmo do crescimento nos três últimos meses deste ano.

Apesar de detectar menor ritmo da atividade econômica, a autoridade monetária destacou que houve aceleração sobre 2012 e que o “cenário central contempla ritmo de atividade doméstica mais intenso neste e no próximo ano, ou seja, uma trajetória de crescimento, no horizonte relevante para a política monetária, mais alinhada com o crescimento potencial”.

O BC também avalia que o governo da presidente Dilma Rousseff vai entregar, no final de 2013, uma inflação próxima da que foi verificada em 2012. A projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para o final do ano recuou de 6% para 5,8%, no cenário de referência. Em 2012, segundo ano do governo Dilma, o IPCA fechou em 5,84% e em 6,5% em 2011, no primeiro ano do seu mandato. Ao longo de 2013, o presidente do BC, Alexandre Tombini, e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, prometeram em várias ocasiões uma inflação menor em 2013 do que em 2012. A queda da inflação este ano também foi uma promessa da presidente Dilma.

Expectativas
Mesmo com o recuo, a estimativa do IPCA ao final deste ano está ainda muito distante do centro da meta de inflação estabelecida pelo próprio governo, de 4,5%. Pelas novas projeções do BC, o IPCA no último ano do governo da presidente Dilma, em 2014, permanecerá ainda em patamares elevados, em 5,7%, acima da estimativa anterior, de 5,4%. Para o IPCA acumulado em 12 meses até o terceiro trimestre de 2015, já no próximo governo, o BC projeta uma inflação de 5,5%.

“Em momentos como o atual, a política monetária deve se manter especialmente vigilante, de modo a minimizar riscos de que níveis elevados de inflação, como o observado nos últimos doze meses, persistam no horizonte relevante para a política monetária”, afirma o BC. Em agosto, o IPCA fechou em 0,24%, após registrar alta de 0,03% em julho. Em 12 meses até o mês passado, o índice de inflação oficial desacelerou para 6,09%. “Nos próximos meses, a evolução dos índices de preços ao consumidor deverá refletir, de um lado, o efeito da recente depreciação cambial, e de outro, o efeito base da progressiva eliminação do impacto das elevadas taxas mensais de inflação no segundo semestre de 2012″, diz o documento.

Por Reinaldo Azevedo

 

O Agosto da economia brasileira

Na VEJA.com:
O governo central (formado pelo governo federal, Banco Central e Previdência Social) registrou superávit primário de 87 milhões de reais no mês passado, no pior resultado para meses de agosto da série iniciada em 1997, informou o Tesouro Nacional nesta sexta-feira. Superávit é a economia feita pelo governo para pagar os juros da dívida. O valor significa uma queda de 97,7% em relação a julho, quando o superávit foi de 3,77 bilhões de reais. O resultado de agosto ficou dentro do intervalo projetado por analistas (de 1,8 bilhão de reais a um valor positivo de 3 bilhões de reais), mas abaixo da mediana projetada, de superávit de 250 milhões de reais.

O resultado, influenciado pelo elevado déficit de 5,733 bilhões de reais na Previdência Social, só não foi deficitário porque o governo antecipou dividendos de bancos estatais para fechar a conta do mês no balanço positivo. Em agosto, a receita líquida totalizou 73,271 bilhões de reais enquanto a despesa ficou em 73,184 bilhões de reais. No acumulado dos oito primeiros meses do ano, a economia feita para o pagamento dos juros da dívida pública acumula saldo positivo de 38,474 bilhões de reais, apresentando uma queda de 28,2% em relação ao mesmo período do ano passado.

Já as despesas do governo central subiram 12,5% no acumulado de janeiro a agosto frente um ano atrás. As receitas tiveram alta de 8,1%, conforme os dados do Tesouro Nacional. Os recursos arrecadados com concessões no mês passado somaram 876,1 milhões de reais. No acumulado de janeiro a agosto de 2013, as receitas com concessões totalizaram 6,984 bilhões de reais.

Dividendos
O Banco Nacional de Desenvolvimento, Econômico e Social (BNDES) pagou o maior valor de dividendos em agosto, 1,725 bilhão de reais. A Caixa foi responsável pela transferência à União de 1,2 bilhão de reais e o Banco do Brasil, de 1,135 bilhão de reais. Em agosto, as receitas do Tesouro foram reforçadas com a transferência de 4,814 bilhões de reais em dividendos. Se não houvesse essa entrada de recursos, o resultado seria de déficit. No acumulado de janeiro a agosto, os dividendos recebidos pela União somam 12,578 bilhões de reais, queda de 22% sobre o mesmo período do ano passado.

Cai o esforço fiscal
De acordo com dados divulgados pelo Tesouro, o esforço fiscal do governo central caiu de 1,86% do Produto Interno Bruto (PIB) de janeiro a agosto de 2012 para 1,23% do PIB no mesmo período deste ano. Em outro dado ruim, o investimento público acumulado até agosto atingiu 42,1 bilhões de reais com queda de 0,8% em relação ao ano passado. Os dados fiscais continuam mostrando uma dinâmica de gasto público elevado, investimento estagnado e aumento do risco de descumprimento da meta fiscal.

A meta de superávit primário para o setor público consolidado (governo central, Estados e municípios) era de 155,9 bilhões de reais, equivalente a 3,1% do PIB, mas foi reduzida para 2,3% diante da previsão do governo de descontar 45 bilhões de reais em gastos com desoneração e investimento. Contudo, o mercado é cético quanto a esse cumprimento e prevê que o superávit real não deverá passar de 1,5% do PIB.

Do total da meta ajustada, o governo central responde por 63 bilhões de reais e se comprometeu a economizar mais 10 bilhões de reais para compensar eventual descumprimento do objetivo de superávit de 47,8 bilhões de reais dos governos regionais.

Por Reinaldo Azevedo

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Fonte: Blog Reinaldo Azevedo (VEJA)

1 comentário

  • Adauto Donizetti Pozza Coimbra Piraju - SP

    Os que produzem riqueza (agricultores) são alvos da fúria dos que produzem discursos.

    Sr. Reinaldo,concordo plenamente com o comentário.

    Acrescento, minhas palavras: O Produtor Rural (ou Homem do Campo) não é reconhecido/valorizado pelos que moram no meio urbano.

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