A última de Dilma Bolada… E o deserto de ideias...

Publicado em 11/10/2013 16:24 e atualizado em 17/02/2014 14:08
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por Reinaldo Azevedo, de veja.com.br

A última de Dilma Bolada… E o deserto de ideias

Dilma Bolada, o alter ego descolado de Dilma Rousseff, parece que continua no comando. No Rio Grande do Sul, ela concluiu que, atrás de uma criança, há sempre um cachorro. O que pretendeu dizer com aquilo permanece um mistério, e duvido que vá ter tradução algum dia. Nesta segunda, ela esteve em Itajubá, em Minas, estado de origem de Aécio Neves, um dos pré-candidatos do PSDB à Presidência. E voltou a refletir em voz alta — e, tudo indica, sem o planejamento do marketing. Afirmou o seguinte, segundo transcreve o Estadão Online:
“Tudo o que as pessoas que estão pleiteando a Presidência da República querem é ser presidente. Eu sou presidente e não fico tratando… Para mim não é problema a eleição agora (…). Acredito que, para as pessoas que querem concorrer ao cargo, elas têm de se preparar, estudar muito, ver quais são os problemas do Brasil. Eu passo o dia inteiro fazendo o quê? Governando.”

Ai, ai…

A revelação certamente mais surpreendente, se a gente se atém apenas ao sentido das palavras, é mesmo esta: “Tudo o que as pessoas que estão pleiteando a Presidência da República querem é ser presidente”. Em si, trata-se de uma tolice. Mas é preciso ir um pouquinho além. O que vai nessa tautologia ultrapassa o limite da bobagem e expõe uma cultura política autoritária.

Há nisso um eco inequívoco de Lula. Desde que ele chegou ao poder, em 2003, trata a Presidência da República com uma espécie de recompensa natural, à qual o PT teria direito por ser… o PT! Sendo ele quem é no partido, mais de uma vez, tratou o cargo como se fosse mesmo matéria de justiça histórica — como se o Brasil lhe devesse essa recompensa. Lula já fez isso no passado: “Olhem, o Serra está querendo o que nos pertence… Olhe, o Alckmin está querendo o que nos pertence…”. Nesta segunda, foi a vez de Dilma.

O que ela pretende caracterizar com essa fala é que todas as críticas de que possa ser alvo derivam do fato de que “há gente querendo o meu [dela] lugar”. Ora, numa democracia, é assim mesmo que funciona: as oposições se organizam para tentar conquistar o poder, que está com os adversários. Com essa fala aparentemente besta, mas metódica, o que se pretende é demonizar os críticos, que seriam, então, meros oportunistas, tentando tomar o que a ela pertence por direito.

Há também a evidente desqualificação dos adversários, que não teriam estudado o Brasil o bastante e estariam, depreende-se, despreparados para governar. Aécio Neves reagiu com uma nota: “A presidente Dilma é sempre muito bem vinda a Minas, como é natural da hospitalidade mineira, mesmo não tendo, mais uma vez, trazido respostas para importantes demandas do nosso Estado que estão sob responsabilidade do governo federal. (…) Se não tivesse se afastado por tantos anos de Minas, a presidente, e não a candidata, talvez estivesse apresentando respostas a essas demandas”. Marina Silva ironizou: “Acho que ela dá um conselho muito bom porque aprender é sempre uma coisa muito boa. Difícil são aqueles que acham que já não têm mais o que aprender e só conseguem ensinar”.

Pois é… Uma resposta tem um desnecessário sotaque regional — e a disputa, não custa lembrar, é nacional. Marina também não é o melhor exemplo, e deu mostras disso de sábado retrasado para cá, de pessoa disposta a aprender. Dilma, por seu turno, está em franca campanha eleitoral faz tempo — como evidencia de modo escancarado o programa “Mais Médicos”… A sucessão já está aí, florescendo num impressionante deserto de ideias.

Por Reinaldo Azevedo

 

Campos tenta minimizar os desastres causados por Marina junto aos produtores rurais, que são a âncora da economia brasileira

Marina Silva estava havia um dia no PSB e já saiu atirando contra o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), até então aliado de Eduardo Campos. E deixou clara a sua hostilidade ao agronegócio, setor que serviu de âncora da estabilidade da economia brasileira e, mesmo na instabilidade, impede que o país vá para o buraco. O bicho pegou. Nesta sexta, Campos tentou minimizar o prejuízo dessa sua aliança que, por enquanto, parece bastante empenhada em… dispensar aliados. Leiam o que informa Natuza Nery e Márcio Falcão, na Folha. O título acima, claro!, é meu.
*
Com objetivo de aparar a primeira aresta criada após a aliança com Marina Silva, o governador Eduardo Campos (PSB-PE) procurou representantes do agronegócio para explicar o “efeito Caiado” e sua união política com a ex-ministra do Meio Ambiente. Segundo a Folha apurou, Campos buscou mostrar que sua aproximação com os “sonháticos” não o transforma em adversário do agronegócio, um dos vetores do crescimento da economia este ano.

Para desfazer o mal-estar, ele disparou telefonemas a ruralistas influentes para reafirmar compromissos com o setor. Conversou com presidentes de associações, parlamentares e ex-ministros da Agricultura, entre eles Roberto Rodrigues e Francisco Turra. O esforço indica que o desgaste com o episódio foi assimilado pela cúpula socialista após Marina exigir que o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), “inimigo histórico” de seu grupo, deixasse o time de apoiadores do PSB.

Um dos mais ativos integrantes da bancada ruralista no Congresso, ele foi um dos primeiros a declarar apoio à candidatura Eduardo Campos, mas acabou “demitido” da condição de aliado e cabo eleitoral após o ingresso da ex-senadora no PSB. Preterido, disse que sua exclusão significava veto ao agronegócio. Ontem, cinco entidades nacionais divulgaram notas em defesa do congressista. A Sociedade Rural Brasileira afirmou “não entender a intolerância e hostilidade da ex-ministra com os produtores rurais e seus representantes políticos”. A Associação Brasileira dos Criadores de Zebu chamou a ex-senadora de “injusta” com as causas defendidas pelo setor.

Já a Associação Brasileira dos Produtores de Soja sustentou que a declaração de Marina Silva denota visão míope e atrasada da realidade do campo, e a Federação dos Plantadores de Cana do Brasil declarou que “entristecem declarações sem motivos contra o agronegócio”.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

 

Marina se transformou na estrela da aliança; turma de Campos tentar esfriar ânimo dos “marineiros”

(leia primeiro o post anterior)
Marina Silva e Eduardo Campos fizeram uma aliança, como se sabe. E, à diferença do que se noticiou inicialmente, não está definido que será ele o candidato à Presidência. Se ela continuar com o dobro das intenções de voto, permanecendo em segundo lugar na disputa, será a candidata do PSB. Digamos que, por qualquer razão, a candidatura de Dilma Rousseff se esfarele ou que, no curso dos meses, simulações de segundo turno indiquem uma vitória de Marina. Não tenham dúvida: o candidato do PT será Lula, que, como ele mesmo disse, “está no jogo”. E, nesse caso, Campos está definitivamente fora da disputa. Assim, a possibilidade de Marina ser o nome do PSB em 2014 era um dado da equação desde o acordo. Só que há um porém: o combinado é que seria ele, não ela, a grande estrela da aliança. E isso não está acontecendo.

Marina, como de hábito, vai com muita sede ao pote. Sei que não parece, mas vai. Tem ainda o dom de atrair os holofotes. É evidente que Campos ficou a reboque. Chegou-se a saudar, por alguns instantes, a sua habilidade e coisa e tal, mas passou logo. Só se fala em Marina. Já no segundo dia, ela mandou pelos ares um aliado do governador em Goiás, o deputado Ronaldo Caiado (DEM). Há três dias, Walter Feldman, neomarineiro, demonstrava inconformismo com o fato de o PSB, em São Paulo, pretender se alinhar com Geraldo Alckmin — a legenda pertence à base de apoio ao governador.

Os marineiros, em suma, começaram a hostilizar os aliados de Campos.

Na entrevista (post anterior) concedida a Laryssa Borges, da VEJA.com, o ex-ministro Fernando Bezerra, que vai coordenar o programa de governo do PSB, tenta pôr as coisas no eixo, reiterando que o candidato do partido é, sim, Campos. Também garante que Marina não tem poder para vetar alianças. A entrevista se faz necessária em razão do estresse dessa primeira semana. Marina ser vista também como candidata incomoda Campos e aliados muito menos do que a sem-cerimônia com que ela e seus partidários começaram a entrar na economia interna do partido.

Isso não é novo. Marina fez o mesmo no PV. Passada a eleição, decidiu simplesmente apear toda a antiga direção da legenda em nome da “renovação” — e contou com o apoio entusiasmado de setores da imprensa. Daqui a pouco, ela e os seus migram para a “Rede”. Se Campos e os pessebistas não tomarem cuidado, restarão com um partido desconjuntado.

Os dois vão ter de voltar à prancheta para resgatar os termos iniciais da aliança: a) qualquer um pode ser o titular da chapa; b) tudo será feito para tornar viável o nome dele; c) ele, Campos, tem a condução do processo.

Depois, é só combinar com os russos.

Por Reinaldo Azevedo

 

Pesquisa Datafolha: direita e centro-direita são a maioria relativa no Brasil, mas não têm em quem votar

O Brasil é a única democracia do mundo que não tem um partido conservador — se quiserem, “de direita” — viável. Única quer dizer exatamente isto: é uma experiência que não se repete em nenhum outro lugar. Todos os partidos se dizem de esquerda ou centro-esquerda ou, como tem virado moda, coisa nenhuma. Entrou para o anedotário político o PSD de Gilberto Kassab, que não é “nem de direita, nem de esquerda, nem de centro”. A Rede, de Marina, repete essa mesma ladainha, mas aí naquele plano etéreo em que ela flana com suas metáforas sobre sustentabilidade: “nem de situação nem de oposição, mas posição”. O que isso significa? Nada, ora essa! Mas parece ser uma coisa danada de profunda.

Há, sim, no Brasil políticos conservadores — que seriam classificados como “de direita” na Europa, nos EUA e até no Chile, aqui bem perto. Estão em todos os partidos — até no PT. Se a gente fosse botar as coisas na ponta do lápis, Antonio Palocci, como gestor público, certamente tomou mais medidas “de direita” — ou “conservadoras” — do que o tucano José Serra, que continua a ser, no entanto, alvo dos furiosos do PT. A salada partidária no Brasil é grande. E a indefinição ideológica também. Em artigo recente sobre os 25 anos da Constituição, publicado pela Folha, Serra, aquele que os petistas dizem ser “de direita”, mas que sempre esteve mais à esquerda, escreveu algo interessante ao se referir aos confrontos ideológicos na Constituinte:

“Não por acaso, os dois “lados” – esquerda e direita – , com a cumplicidade de sucessivos governos, foram e continuam sendo integrantes ativos do mais consolidado de todos os partidos brasileiros: a Fuce – Frente Única Contra o Erário e a favor das corporações de interesses especiais. Ninguém é mais falsamente de esquerda do que ela. Ninguém é mais falsamente de direita do que ela. Ninguém, a exemplo dela, é tão objetivamente contra os interesses do Brasil e dos brasileiros. Aliás, não é esse o partido mais consolidado e hegemônico do Congresso, 25 anos depois?”

Retomo
Acho a observação boa. O que se convencionou chamar de “direita” no Brasil adora um cartório e uma “Bolsa BNDES”, não é mesmo? O tema é vasto. Faço essas considerações porque a Folha desta segunda traz reportagem sobre pesquisa feita pelo Datafolha identificando a ideologia dos brasileiros. Em seguida, cruzam-se esses dados com a possível opção de voto em 2014. Vejam isto.

Ideologia

Como se vê, o Brasil tem uma maioria relativa de pessoas que se identificam com a centro-direita ou com a direta. Os claramente de direita são quase o triplo dos claramente de esquerda. Não é mesmo impressionante que não exista um partido que vocalize seus valores? Por que não? Ainda se escreverá muito a respeito aqui. Vejam agora como votam essas correntes de opinião.

Ideologia e voto

Como se nota, a variação é pequena. Como se explica? Cuidaremos disso ao longo dos dias. 

Critérios
Quais são os critérios para identificar a ideologia? A reportagem do jornal explica:
Para identificar e fazer os agrupamentos ideológicos dos eleitores, o Datafolha faz um conjunto de perguntas envolvendo valores sociais, políticos e culturais, como a influência da religião na formação do caráter das pessoas e o entendimento sobre as causas da criminalidade. As questões com opiniões mais divididas foram a que tratava da hipótese de pena de morte e a que avaliava a importância dos sindicatos. Metade dos entrevistados (50%) respondeu que não cabe à Justiça matar alguém, mesmo que a pessoa tenha cometido um crime grave, posição mais associada a valores de esquerda.Outros 46% disseram que a pena de morte é a melhor punição para crimes graves, ideia mais ligada à direita. Sobre os sindicatos, 48% responderam que eles servem mais para fazer política do que para defender os trabalhadores (direita). Já para 47%, eles são importantes para defender os interesses dos trabalhadores (esquerda).

Comento
O critério é válido, sim, mas não é perfeito. A esmagadora maioria dos conservadores católicos que conheço se opõe, por exemplo, à pena de morte, que é, como se sabe, aplicada com dedicação e método em países oficialmente comunistas. Nessas horas, há sempre o risco de se identificar o humanismo como um fundamento da esquerda, o que é uma afronta aos fatos.

Em todo caso, creio que a distribuição ideológica no Brasil obedece mais ou menos a esse padrão. É o que se vê e se ouve nas ruas. Vale dizer: há muitos anos, parte considerável do eleitorado brasileiro é órfão de representação. O eleitorado de direita e centro-direita vota na esquerda e na centro-esquerda porque, afinal de contas, não tem em quem votar. De resto, é preciso ser um rematado idiota para considerar que o PSDB é um partido “de direita”. Pode até ser que, sem opção, muitos eleitores de direita acabem escolhendo o mal menor, já que não encontram na política aquela que seria a sua representação natural.

Por Reinaldo Azevedo

 

Ainda esquerda e direita — Esquerdismo é ideologia sim. No mais das vezes, aquilo a que se chama “direita” é só bom senso aplicado

Vamos falar mais um pouquinho sobre direita e esquerda. Nesta manhã, escrevi um post sobre a pesquisa Datafolha. A versão online do jornal publicou as perguntas que permitiram fazer a classificação que vai da esquerda à direita. Vejam. Volto em seguida (se preciso, clique na imagem para ampliá-la e facilitar a leitura).

pergunrtas direita e esquerda

Retomo
Há, já observei, o risco — nesse questionário e em qualquer outro que busque quantificar a população segundo a ideologia — o risco de se confundirem as pessoas generosas com a esquerda, e as mais, digamos assim, severas com a direita. Huuummm… Há uma possibilidade, nesta vereda que abro, de haver um pouco mais de “conservadores” — de direitistas — no Brasil do que aponta a pesquisa. Por quê?
Peguemos as afirmações sobre a posse de armas:
Este seria o primado da esquerda:
Devem ser proibida, pois ameaça a vida de outras pessoas.
Este seria o primado da direita?:
Arma legalizada deve ser um direito do cidadão para se defender

Notem: a arma, qualquer que seja o contexto e o pretexto, efetivamente ameaça a vida de outras pessoas. Esta condição é imanente ao objeto. A rigor, ela existe para isso mesmo. Tendo a achar que essa obviedade deita sua sombra sobre a questão, e a pessoa que responde a questão acaba expressando mais o seu bom sentimento e o seu cuidado do que a suja opinião. Vamos a um exercício? E se a definição da direita fosse esta?
“Arma legalizada deve ser um direito do cidadão; o que é preciso é proibir a arma ilegal”.

Penso que o resultado seria outro. Aliás, o resultado já foi outro. E quem tomou a decisão foi o eleitorado brasileiro. Em 2005, realizou-se o referendo das armas, lembram-se? O que se perguntava? Literalmente:
“O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”.

A campanha começou, e o “Sim” era acachapante. Nunca antes tantas celebridades e tantos decolados se reuniram e favor de uma causa. Bastou ao “não” lembrar que a proibição, por óbvio, acabaria retirando a arma das mãos dos não-bandidos, já que o bandido, por definição, não se preocupa com a legalidade da arma. Diante dessa evidência e dada a incompetência do Estado para impedir a POSSE ILEGAL DE ARMAS, o “não” virou o placar espetacularmente. Saldo final: 59.109.265 rejeitaram a proposta (63,94%), contra 33.333.045 (36,06%) que a aprovaram.

A questão da proibição de armas, portanto, quando aplicada à realidade, quando vista nas suas consequências práticas, empurrou a maioria — quase dois terços — para o que seria uma posição “de direita”. Se é de direita ou não, é preciso ver. Uma coisa é certa: era apenas matéria de bom senso. Ou desarmar os não-bandidos altera a condição dos bandidos?

Tome-se um outro tema espinhoso, como o da migração. A resposta obviamente simpática, “humanista”, é a de que ela contribui para o desenvolvimento e a cultura. Perguntem, no entanto, aos moradores de Brasiléia, no Acre, que sofre uma verdadeira invasão de haitianos em situação ilegal, para ver qual é a opinião. Aposto que a esmagadora maioria dirá que “pobres que migram acabam criando problemas para as cidades”. Isso nada tem a ver com xenofobia, racismo ou discriminação de qualquer natureza. Trata-se apenas de um fato.

O mundo como fato e o mundo como ideia
Chama-se, muitas vezes, de “pensamento de direita” ou “pensamento conservador” o que é nada além de bom senso. Nesse sentido, ideologia, esta sim, é a engenharia social a que se dedicam as esquerdas, ao tentar impor um ponto de vista ancorado em convicções e crenças que insistem em desafiar a realidade. Uma questão, para mim, é emblemática: a criminalidade
Viés de esquerda:
“A maior causa é a falta de oportunidades iguais para todos (36%)”
Viés de direita
“A maior causa é a maldade das pessoas (61%)”
Não gosto da palavra “maldade”. Ela me parece reducionista em excesso. E se as respectivas formulações fossem estas?
Viés de esquerda
“A pessoa não pratica crime porque quer, mas porque não teve melhores oportunidades”
Viés de direita
“Praticar crime é uma escolha; mesmo com uma vida difícil, o certo é se esforçar para vencer na vida”.

Corto a mão — a direita, que é a melhor — se a alternativa “de direita” não chegar a uns 90%. Notem, no entanto, que a opinião “de direita”, mesmo na formulação dada, é amplamente majoritária. A razão é simples, gente! O salário médio pago no Brasil é inferior a R$ 1.800. O pago a universitários (só 17% da mão-de-obra) é de R$ 4.135,06. O dos não-universitários (82,9%) é de R$ 1.294,70. Este pode ser um país rico, mas composto de uma esmagadora maioria de pobres. Onde mora o sujeito que recebe menos de R$ 1.300 por mês? Os esquerdistas do complexo PUCUSP podem não saber — a maioria só conhece pobre de ouvir falar —, mas esse trabalhador sabe que a delinquência é uma escolha, EM QUALQUER CLASSE SOCIAL, não uma necessidade. E sabe porque ELE PRÓPRIO DECIDIU SER DECENTE, APESAR DAS DIFICULDADES.

Estou sustentando que a afirmação de que a pobreza induz a criminalidade é, ela sim, ideologia — uma construção artificial que busca, num primeiro momento, explicar a realidade, tentando, em seguida, substituí-la. Já a afirmação de que é criminoso quem quer, quem decide ser (não se trata de  “maldade”), não é um artifício para explicar o mundo: é um dado da experiência.

“O Reinaldo está afirmando que ser direitista não é ideologia, que isso é uma tendência normal das pessoas, e que que ideologia mesmo é só a esquerda?” Não! Se o Reinaldo quisesse afirmar isso, ele afirmaria isso — ainda que o mundo gritasse o contrário. Estou afirmando, sim, que há uma tendência para demonizar como “coisa de direita” — o que é tomado como sinônimo de anti-humanismo — certas evidências dadas pela experiência.

Encerro com a questão sobre drogas. As esquerdas — no Brasil ao menos — tendem a afirmar que as drogas devem ser liberadas porque, como se lê no questionário, é o usuário que arca com as consequências (George Soros também acha isso…). Ora, basta circular no centro das grandes cidades para saber que a conta é paga por toda a sociedade — e é uma conta crescente, à medida que cresce o discurso da medicalização do problema, com essa mesma sociedade sendo chamada a arcar com os custos das “opções” feitas pelos “usuários” que se tornaram “doentes”.

Se a ideologia ainda é uma espécie de jogo de ocultamento, em que um pensamento, orientado por algum ente de razão — partido, por exemplo —, tenta se sobrepor à evidência dos fatos, então as opiniões da esquerda, com raras exceções, é que merecem essa denominação. Aquelas que são atribuídas “à direita”, na maioria das vezes, são apenas matéria de bom senso. Não fosse assim — e por exemplo, a criminalidade fosse uma consequência das carências sociais —, o Brasil não teria 50 mil homicídios por ano, mas 200 mil. Nos últimos anos, a Região Nordeste cresceu a taxas superiores às do resto do Brasil. Relativamente, ficou menos pobre. E a violência cresceu estupidamente. A afirmação de que a carência induz a violência é ideologia. A constatação de que isso é falso está no mundo dos fatos.

Por Reinaldo Azevedo

 

Se os adversários forem Aécio e Campos, Dilma vence no 1º turno. O jogo da sucessão não está jogado. Vejam por quê

Publiquei anteontem aqui uma notinha simples, sem ilação ou sugestão de qualquer natureza, mas bastou para deixar assanhados alguns paranoicos. Esta:

SEGUnDOS

Como se vê, lembrava o óbvio: na disputa presidencial de 2014, por enquanto, os segundos são considerados os primeiros. E não é a assim? A Folha traz na edição deste sábado uma pesquisa eleitoral realizada nesta sexta, depois do estrepitoso anúncio da aliança entre Marina Silva e Eduardo Campos. Se a eleição fosse hoje e caso se confirmem os candidatos dados como favoritos em seus respectivos partidos, Dilma vence a eleição no primeiro turno, com 42% dos votos, contra 21% de Aécio e 15% de Eduardo Campos.

Nos outros três cenários, ela teria de disputar a segunda etapa. O pior para a presidente é aquele que conjuga José Serra como candidato do PSDB (20%) e Marina Silva como o nome do PSB (28%). Nesse caso, Dilma teria 37%. O melhor cenário para Marina é aquele em que o candidato tucano é Aécio. Ela chega a 29%, quase o dobro do melhor desempenho de Eduardo Campos (15%).

Dilma vence todos os seus adversários no segundo turno. O melhor para ela é Campos (54% a 28%). O segundo melhor é Aécio (54% a 31%). Contra Serra, o resultado seria 51% a 33%. A mais competitiva é Marina (47% a 41%). 

O jogo está apenas começando
A eleição ainda está muito longe. Os números darão início agora a um jogo de xadrez. Vamos ver. Marina tem quase o dobro (29%) das intenções de voto de Eduardo Campos no cenário em que o tucano Aécio Neves é o candidato — o que boa parte dos tucanos considera, hoje, o mais provável. Digamos que essa distância e as proporções se mantenham, de modo que o cenário aponte para uma vitória da petista no primeiro turno. Afirmem os peessebistas o que quiserem, tendo a duvidar que seja Campos o candidato. Nesse caso, parece que o nome de Marina se torna irresistível. Já está mais do que claro que a cabeça da chapa não está definida.

Se tudo convergir para Marina, há o risco de Aécio ficar em terceiro lugar e, pela primeira vez desde 1994, o PSDB não ter um nome disputando o segundo turno. Não seria uma boa estreia como candidato à Presidência, especialmente porque não se poderá reclamar que o PSDB tomou uma decisão tardia. A lógica do jogo indica que a (re)entrada de Marina no jogo recoloca no tabuleiro o nome de Serra.

É claro que as circunstâncias são bastante especiais. Marina está sendo tratada por boa parte da imprensa como uma espécie de reinvenção da cidadania e da política. Em muitos aspectos, reeditam-se procedimentos antes dispensados apenas a Lula, no tempo em que ele era um líder da oposição, tido como puro e autêntico, ainda não corrompido pelo jogo do poder. Até parecia que ele disputava coisa diferente dos demais — como parece agora, no caso da ex-senadora.

Mas que se note: em agosto, quando não estava associada a Campos, Marina já tinha 26% das intenções de voto — ele aparecia com 8% (Dilma tinha 35%, e Aécio ficava com 13%). Fosse a candidata agora, teria 28% (quando Serra é o nome tucano) ou 29%, quando Aécio. Não é um ganho significativo. O governador e o próprio Aécio se beneficiam bastante com a sua saída quando aparecem como os indicados de seus respectivos partidos. O mineiro fica com 21%, e o pernambucano com 15%. Mas Dilma também cresceu: de 35% para 42%. Isso sugere que os votos de Marina, caso ela fique fora do pleito, se distribuem mais ou menos igualmente entre os demais.

PT pode comemorar moderadamente
O PT pode comemorar. Mas moderadamente. Pode porque, desde a aluvião de junho, não havia mais cenário em que Dilma vencesse no primeiro turno. Com a Rede fora da disputa, essa possibilidade existe de novo — hoje. A comemoração há de ser moderada porque, se Marina seguir com o dobro das intenções de voto de Campos, a candidata será ela, não ele. E, nesse caso, não dou como fechado o cenário do PSDB — aliás, nem o próprio Aécio.

Por Reinaldo Azevedo

 

PCC mantém ativa ordem para matar Alckmin; leia e ouça diálogo em que o PCC mandou votar no PT

O PCC tem seus afetos e seus desafetos. Do governador Geraldo Alckmin, por exemplo, o partido do crime não gosta. E agora fica claro que a organização mantém ativa a ordem de matar o governador. E já mandou, em 2006, que seus aliados votassem no PT, mais especificamente em José Genoino. Leiam o que vai no Estadão Online. Volto depois.

Por Marcelo Godoy:
O Primeiro Comando da Capital (PCC) decretou a morte do governador Geraldo Alckmin. Interceptações telefônicas mostram que pelo menos desde 2011 a facção planeja matar o governador de São Paulo. O Estado teve acesso ao áudio de uma interceptação telefônica na qual um dos líderes do PCC, o preso Luis Henrique Fernandes, o LH, conversa com dois outros integrantes da facção. O primeiro seria Rodrigo Felício, o Tiquinho, e o segundo era o integrantes da cúpula do PCC, Fabiano Alves de Sousa, o Paca.

A conversa ocorreu no dia 11 de agosto de 2011, às 22h37. Paca questiona os comparsas sobre o que deveriam fazer. Em seguida, manda seus comparsas arrumarem “uns irmãos que não são pedidos (que não são procurados pela polícia) e treinar”. O treinamento para a ação seria para fazer um resgate de presos ou para atacar autoridades.

No meio da conversa, surge a revelação. LH diz que o tráfico de drogas mantido pela facção está passando por dificuldades. E diz: “Depois que esse governador (Alckmin) entrou aí o bagulho ficou doido mesmo. Você sabe de tudo o que aconteceu, cara, na época que ‘nois’ decretou ele (governador), então, hoje em dia, Secretário de Segurança Pública, Secretário de Administração, Comandante dos vermes (PM), estão todos contra ‘nois’.” Em escutas recentes, a ordem de matar o governador foi novamente mencionada por membros do PCC.

Voltei
Agora vamos ver o dia em que o PCC mandou votar no PT.  José Genoino, então candidato ao governo de São Paulo, recorreu à Justiça para tentar tirar do ar o texto que vai abaixo, publicados por VEJA na edição de 16 de agosto de 2006 e reproduzidos na VEJA.com. Na campanha eleitoral de 2006, o PSDB não levou ao horário eleitoral gratuito as gravações. Bem, é dispensável dizer que eu as teria levado, sim! Afinal, Lula acusava o governo de São Paulo de não cuidar direito da segurança pública. E que se lembre: 2006 foi o ano em que o PCC praticou atentados terroristas em São Paulo.
*
Desde o primeiro ataque massivo do PCC em São Paulo, espalhou-se a notícia da existência de gravações telefônicas que revelariam uma suposta ligação da máfia dos presídios com políticos do PT. VEJA teve acesso a uma série de diálogos entre membros da organização criminosa, interceptados pela polícia, contendo referências ao PT e ao PSDB. Neles, fica evidente a simpatia do PCC pelo PT, bem como a aversão da organização pelo PSDB (foi na gestão tucana, em 2003, que o estado de São Paulo implantou em alguns presídios o temido RDD – Regime Disciplinar Diferenciado, que prevê isolamento rigoroso e é odiado pelos detentos). Nenhuma das conversas às quais VEJA teve acesso, no entanto, comprova a existência de elo entre o PT e o PCC.

“É XEQUE-MATE, SEM MASSAGEM”

Conversa entre dois integrantes não identificados do PCC interceptada às vésperas de um dos ataques em São Paulo

A: A chapa esquentou pra nóis, hein, irmão.

B: Por quê?

A: Olha o salve do dia aqui. Geral aqui, que eu acabei de pegar com o Cara Branca: “Todos aqueles que são civil, funcionário e diretores e do partido PSDB: xeque-mate, sem massagem. E todos os irmãos que se (incompreensível) será cobrado com a vida. Salve geral, dia 12/6?. Peguei ele meio-dia.

B: Fé em Deus. Você tá aí na quebrada, irmão?

A: Tô aqui na quebrada. Vem pra cá que nós vamos puxar esse bando. Eu vou arrumar um menino bom pra nóis derrubar esse baguio aí, tio.

B: Então, é o seguinte, irmão: vou ver se dá pra mim ir hoje praí.

A: Então, se não der, arruma umas ferramentas (armas) aí. Nem que seja uns oitão. Pra gente juntar o baguio aí e sair no bonde aí.

B: Tá. Firmeza

“É PRA ELEGER O GENOINO”

Maria de Carvalho Felício, a “Petronília”, então mulher de José Márcio Felício, ex-líder do PCC, transmite ao preso José Sérgio dos Santos, a quem chama de “Shel”, orientação repassada por um líder da organização sobre as eleições de 2002

Maria de Carvalho Felício: Ele mandou uma missão pro Zildo (piloto-geral de Ribeirão Preto). Vamos ver se o Zildo é capaz de cumprir.

José Sérgio dos Santos: Tá bom. Você quer passar pra mim ou dou particularmente pra ele?

Maria: Não, não. Ele quer festa (ataques) até a eleição. E é pra eleger o Genoíno. E, ser for o caso, ele vai pedir pro pessoal mandar as famílias não irem nas visitas pra votar, entendeu? Ele falou que um dia sem visita não mata ninguém. Ele falou: “Fica todo mundo sem visita no dia da eleição pra todo mundo votar pro Genoíno”.

Santos: Não, mas isso… Acho que todo mundo… A maioria das mulher de preso… Vai votar no Al? Nunca.

Maria: Então, é pra pedir isso. Se, por exemplo, a mulher vai, daí a mãe, a irmã tudo vota pro Genoíno. Se só a mulher que vota, então essa mulher não vai na visita e vota no Genoíno. É pra todo mundo ficar nessa sintonia: Genoíno.

Santos: E é dali que vem, né?

Maria: Isso. É o (incompreensível)

Santos: Tá bom.

Maria: Tá bom, então?

Santos: Tô deixando assim um boa-tarde aí. Se cuida agora. Vai descansar.

Arremato
Por que o PCC quer matar Alckmin e manda votar em petistas? Os bandidos devem ter seus motivos. Abaixo, segue o link em que vocês podem ouvir as gravações. Peço moderação nos comentários.

Para ouvir a gravação, clique aqui.

Por Reinaldo Azevedo

 

“Não vamos nos intimidar”, diz Alckmin sobre ameças do PCC

Em Veja.com:

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), disse nesta sexta-feira, em Mirassol, interior paulista, que não se intimidará diante das ameaças da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). “Os bandidos dizem que as coisas ficaram mais difíceis para eles, pois eu quero dizer que vão ficar ainda mais. Nós não vamos nos intimidar.”

Investigações do Ministério Público Estadual mostram que a facção criminosa planejou a morte do governador e de outras autoridades. O jornal O Estado de S.Paulo teve acesso ao áudio de uma interceptação telefônica na qual um dos líderes do PCC, Luis Henrique Fernandes, conhecido como LH, conversa Rodrigo Felício, o Tiquinho, e Fabiano Alves de Sousa, o Paca, ambos também integrantes da facção.

“Depois que esse governador entrou aí o bagulho ficou doido mesmo. Você sabe de tudo o que aconteceu, cara, na época que ‘nóis’ decretou ele, então, hoje em dia, secretário de Segurança Pública, secretário de Administração, comandante dos vermes (Polícia Militar), estão todos contra ‘nois’.”, diz o preso LH. De acordo com os promotores, a facção criminosa se refere a “decretar a morte” do governador.

O diálogo ocorreu em 11 de agosto de 2011, às 22h37.

As investigações dos promotores do Grupo Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) começaram em 2009 e resultaram na denúncia de 175 integrantes do PCC. O MP também pediu à Justiça a internação de 32 presos no Regime Disciplinar Diferenciado – a cúpula da facção atualmente está no presídio de segurança máxima de Presidente Venceslau.

Por Reinaldo Azevedo

 

Vocês têm de assistir a este vídeo. São os aliados, agora oficialmente admitidos, dos líderes sindicais dos professores do Rio. O que diria o juiz Laroca?

Caetano black bloc

Abaixo, há um vídeo sobre a ação dos black blocs no Rio, na segunda. Segundo Caetano Veloso, eles “fazem parte”. A liderança dos professores agora admitem oficialmente que eles são seus aliados. Segundo um dos dirigentes, quem provoca tumulto é mesmo a polícia…

Também não posso me esquecer da intervenção de Wadih Damous, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB. Ele participou da passeata e disse que estava lá para garantir que os policiais não cometessem excessos. Por incrível que pareça, apenas três pessoas foram presas. Nem sei se continuam na cadeia. É possível que alguém da OAB já tenha ido lá para soltá-las. 

O que diria o juiz Laroca, aquele que negou a liminar de reintegração de posse da Reitoria da USP? Referindo-se aos vândalos que invadiram o prédio a marretadas, afirmou o meritíssimo, num uso muito particular da língua: “Outrossim, frise-se que nenhuma luta social que não cause qualquer transtorno, alteração da normalidade, não tem força de pressão e, portanto, sequer poderia se caracterizar como tal”.

O que se vê abaixo é um exemplo e tanto de “transtorno” e “alteração da normalidade”. Logo, segundo o pensamento de Laroca, tem “muita força”. Fosse, então, luta armada, aí seria força total, né?


Por Reinaldo Azevedo

 

“Companheiros” nunca conseguiram tomar conta da Receita Federal como gostariam; agora, surge uma grave acusação

Há uma área do Estado brasileiro em que os “companheiros” nunca conseguiram pôr a mão como gostariam: a Receita Federal. É a burocracia mais estável do Estado brasileiro e a mais infensa a interferências de natureza política. Mas sabem como é… Nem ela consegue resistir à caneta presidencial. Caio Marcos Cândido, subsecretário de Fiscalização, deixou ontem o cargo, informam David Friedlander e Mariana Carneiro, naFolha, fazendo uma grave acusação. Em mensagem publicada no correio interno do Fisco, acusou a existência de ingerência externa no órgão. “Há algum tempo estava incomodado com a influência externa em algumas decisões, com prevalência em algumas vezes, sob meu ponto de vista, de posições menos técnicas e divorciadas do melhor interesse. Assim, melhor voltar para casa com a certeza do dever cumprido e de ter combatido o melhor combate”.

Que ingerência seria essa? A reportagem informa:
“A gota d’água teria sido as condições especiais oferecidas às multinacionais brasileiras no pagamento de tributos atrasados, em lei sancionada pela presidente Dilma. As empresas foram autuadas pela Receita para pagar, com multa, o Imposto de Renda e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) de lucros obtidos no exterior, mas questionavam a cobrança na Justiça. Ontem, o governo publicou uma lei que perdoa multas e juros dessas empresas, caso paguem à vista. Elas também poderão usar créditos fiscais para quitar suas dívidas. Essas condições, antecipadas pela Folha na semana passada, são consideradas incomuns por auditores e tributaristas. São ainda mais favoráveis do que as oferecidas em 2009, quando a economia brasileira se retraiu em decorrência da crise externa. A medida azedou o clima na Receita, apurou a Folha. Entre tributaristas, ficou a impressão de que o governo está recorrendo a medidas extremas para aumentar a arrecadação a qualquer custo.”

Retomo
A acusação feita por Cândido, ainda que no ambiente dos seus pares, é muito grave. Em países normais, isso logo mobilizaria o Congresso Nacional, em especial a oposição. Em Banânia, tenderá a ficar por isso mesmo. Carlos Alberto Barreto, secretário da Receita, afirmou em nota que Cândido saiu por razões pessoais. “Qualquer ilação de que o pedido de exoneração teria fundamento em supostas ingerências externas à Receita Federal é equivocada e desconectada da realidade.”

Não há ilação nenhuma, secretário! Há uma acusação feita por alto funcionário do órgão.

Por Reinaldo Azevedo

 

Campos conhece, até agora, o lado fofo de Lula. Agora vai experimentar o outro…

O governador Eduardo Campos conheceu, até agora, o lado fofo de Lula. Desconhece o bruto — ou o conhece, mas contra adversários comuns. Reportagem da Folha desta sexta informa que o ex-presidente se reuniu com Dilma por cinco horas no Palácio do Planalto para traçar uma estratégia: isolar Eduardo Campos. A ideia é impedir que partidos da base governista façam alianças com o PSB.

Informa a reportagem:
“Lula acreditava que o governador de Pernambuco pudesse recuar de sua pré-candidatura ao Planalto caso não decolasse nas pesquisas. Por isso, chegou a pedir que o PT mantivesse o diálogo com ele mesmo depois que o PSB entregou os cargos no governo, no final de setembro. Segundo interlocutores, após a filiação de Marina, o ex-presidente passou a considerar o PSB como oposição. O ex-presidente aponta como prioridade a consolidação de alianças regionais com outros partidos da base de Dilma, como PMDB, PR e PTB.”

Por Reinaldo Azevedo

 

PSB agora dá sinais de que pode optar pela traição também em SP. É um jeito de ver o mundo… Ou: Turma de Campos-Marina já pode vencer o PT no campeonato de arrogância

Pois é… Os campos-marineiros parecem estar mesmo com o rei — ou a Santa da Floresta — na barriga. Vai fazer uma semana amanhã que Eduardo Campos e Marina Silva anunciaram uma aliança, e o PSB já reúne o PSB e o… E mais ninguém! A Rede, como a gente viu, ainda é mais imaginação do que fato. O partido não conseguiu se organizar nem sequer para obter as assinaturas. Mas o grupo já atua com uma arrogância invejável. Nesse sentido, os petistas, mesmo com a máquina de que dispõem, estão se mostrando um tantinho mais humildes. Dilma Rousseff já deixou claro que está preocupada. Lula, o chefão do partido, reuniu-se ontem com ela para cuidar dos próximos passos. Segundo entendi (ver post das 13h01), os “companheiros” estão cuidando de ter ainda mais aliados.

O PSB, agora que se juntou com a força telúrica de Marina Silva, está fazendo o contrário. Está jogando fora os que já tem. Campos já protagonizou um papelão com o deputado Ronaldo Caiado, possível candidato do DEM ao governo de Goiás. Entusiasta de primeira hora da candidatura do governador de Pernambuco à Presidência, Caiado, que é um político decente, goste-se ou não de suas ideias, levou um chute gratuito de Marina, referendado por Campos — com quem mantinha uma conversação política franca e aberta. Certo! Se Marina chega, Caiado tem de ser expulso! Ela o acusa, sem fundamento nos fatos, sem nada, de “inimigo do trabalhador rural”. Eis Marina. Herdou do petismo o sestro de atirar primeiro e perguntar depois.

Agora, chegou a vez de São Paulo. Eu já tinha ouvido nos bastidores um zunzunzum. Estava praticamente certo que o PSB fecharia com a candidatura de Geraldo Alckmin à reeleição — e Campos, então, era apontado como o possível candidato do PSB à Presidência. Mas, agora, há Marina. São Paulo é certamente um estado mais ecologicamente correto do que o Acre dos irmãos Viana, onde Marina é poder — participa dele por intermédio de aliados — há muitos anos. Mas também em São Paulo o PSB parece que fará a opção pela traição virtuosa.

O deputado federal Walter Feldman, eleito pelo PSDB, hoje da Rede, mas filiado ao PSB, concede uma impressionante entrevista a Ranier Bragon, da Folha. Reproduzo trechos:

Folha – O sr. pretende se candidatar ao governo de São Paulo contra o Alckmin?
Walter Feldman –
Eu sei que o Eduardo e a Marina têm conversado um pouco sobre as candidaturas regionais. E, quando falam em candidatura em São Paulo, é natural o meu nome aparecer. Eu estou ali, sou político, e participamos de todo o processo. Agora, não conversei ainda nada sobre isso com o Márcio França. Não poderia dizer uma coisa qualquer que não passasse pelo Márcio.

A própria Marina disse que o sr. é um possível candidato ao governo.
Não nego que já conversamos, ela me perguntou o que eu achava e eu aí disse a ela que achava bom que a gente começasse a conversar sobre isso depois da criação da Rede.
(…)
A tendência da Rede e do PSB é ter uma candidatura própria?
Eu prefiro falar do ponto de vista teórico. Hoje Rede e PSB, leia-se Eduardo e Marina, constituem uma terceira via para Brasil, consistente, competitiva. Sendo São Paulo o Estado que é, é evidente que tem que haver uma avaliação dessa dimensão no Estado. Evidente que o caminho que estava sendo trilhado antes dessa aliança [apoio a Alckmin] tem que ser aprofundado, refletido.

Retomo
Entendi. Quando, então, Eduardo Campos se julgava um candidato inviável, aí o palanque com o PSDB lhe parecia bom. Agora que se teria constituído a “terceira via”, não mais. Pois é… Um pouco de humildade — se for o caso, em nome da terceira via — não faria mal nenhum a essa turma. Mal correu os metros iniciais da maratona, já acha que pode ir descartando aliados como quem estivesse no comando de uma máquina formidável. Reitero: até os petistas estão sendo mais cuidadosos.

Isso me surpreende? Nem um pingo! Num dos textos que escrevi no sábado, quando os dois anunciaram a união, havia isto aqui (vai a imagem):

PSB são paulo

Encerro
Só não considerei que Campos entregasse a condução desse assunto aos “marineiros”. Com menos de uma semana de aliança, o PSB está mais isolado do que antes. Isso é que é confiar nos milhões de votos de Marina, não é mesmo?

Por Reinaldo Azevedo

 

Ronaldo Caiado, a primeira vítima – “Eduardo Campos dispensou o meu voto e o setor rural”

Por Natuza Nery e Márcio Falcão, na Folha:
O deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), um dos representantes e defensores do agronegócio no Congresso, considera-se uma espécie de primeira vítima da união firmada entre Eduardo Campos (PSB-PE) e Marina Silva. Vetado publicamente pela ex-senadora, ele desabafou em entrevista à Folha. “Eu botei o pé na calçada e um carro a 300 Km/h me atropela. Não deu nem para ver [a placa]“.

Folha – O sr. foi rifado?
Ronaldo Caiado – Eduardo Campos me recebeu em Pernambuco, em sua residência. Assumi, em março, a candidatura dele à Presidência. Fui o único do meu partido, um dos poucos do Brasil [naquele momento]. Ele disse que iríamos sair do duelo [governo/oposição], dessa política de identificar inimigo para ser eleito e prometeu trazer todas as tendências.

Está magoado?
Decepcionado, um balde de água fria. Não temos mais como estar juntos em Goiás. Não vou ter o pé em duas canoas. Quando conversei com Eduardo, não havia esse preconceito. Não imaginei esse gesto agressivo da ex-senadora. Essa tese de inimigo histórico é política talibã.

Haverá consequências?
É espantoso alguém querer pleitear a Presidência e ter essa visão tão excludente do setor, nacionalmente o maior pilar da economia. Como vou conviver com uma chapa de candidato a presidente que é preconceituosa com o setor primário [agronegócio]? Eu sempre fui muito coerente, mas nunca intolerante. Hoje, não sei identificar se o candidato é Eduardo ou Marina.

O sr. ainda votaria nele para presidente?
[Silêncio] Não. Dispensou meu voto e está excluindo o setor que represento. Não tenho como me posicionar favorável a candidato que diz: Olha, existe aqui uma barreira para o produtor rural’. Senti nele uma posição tíbia. Não o reconheço. Não foi a Marina quem aderiu ao Eduardo, foi ele quem aderiu à Marina.
(…)
O sr. colocou algum veto à Marina no sábado?
Eles telefonaram para mim eufóricos de alegria. Eu disse que não tinha preconceito.

E depois, o que houve?
Não sei se foi uma virose, uma bactéria [risos]. Sábado me ligaram até para dizer que o governador futuramente me queria ministro da Agricultura. Veja, eu não estou desenhando algo que não quis ver, não. Eu botei o pé na calçada, e um carro a 300 Km/h me atropela. Não deu nem para ver [a placa].

Por Reinaldo Azevedo

 

Para Lula, papel de jornalista é servir de policial do regime petista. E ainda: Foi ele quem chamou pobre que recebe Bolsa Família de vagabundo. E é possível provar

Embora ninguém consiga entender direito o que querem Marina Silva e Eduardo Campos, vejo muita gente dar certo suspiro de alívio, como se houvesse um sopro renovador na política. Ele é, a meu ver, enganoso (ainda teremos muito tempo para tratar do assunto), mas entendo os motivos. Ainda que Lula continue a ser o político mais popular do Brasil e pudesse se reeleger presidente no primeiro turno, há um crescente cansaço com sua ladainha. O programa de TV do PSB, diga-se, explorou essa sensação. O próprio Eduardo Campos sintetizou: “Chega de dizer que no passado já foi pior”. Isso, convenham, pode ser uma síntese da pregação de Lula. O ex-presidente participou, nesta quinta, do encerramento da 3ª Conferência Global de Combate ao Trabalho Infantil, promovido pela OIT (Organização Internacional do Trabalho), órgão ligado à ONU. É evidente que convidar alguém como ele para discursar num evento como esse implica dar um viés partidário, de política local, ao que deveria ser, como diz o nome, um acontecimento global. E o homem estava num daqueles dias em que foi pródigo, generoso mesmo, nas bobagens. Ficou claro por que ele e seus tontons-maCUTs odeiam tanto a imprensa livre. Lula nunca entendeu para que serve e qual é o papel dos jornalistas. Demonstrou isso mais uma vez.

Referindo-se ao trabalho da imprensa, afirmou:
“Você [Tereza Campello, ministra do Desenvolvimento Social] foi criticada agora porque clonaram 80 carnês do Bolsa Família. Em vez de a manchete do jornal ser uma crítica aos clonadores, era uma crítica dizendo que tinha fraude no Bolsa Família. Se tivessem roubado um banco, dizia: ‘assaltante rouba banco’. Como foi assaltante roubando o Bolsa Família, é o Bolsa Família que tem problema. Nós estamos acostumados a tomar bordoada e eles sabem que temos casco de tartaruga, somos teimosos e estamos no caminho certo”.

A afirmação tem casco, sim, mas não é de tartaruga, um bicho meio mal-encarado, convenham, mas que não escoiceia ninguém nem emite estranhos zurros à guisa de pensamento. Se aparecem fraudes no Bolsa Família, está entre as atribuições da imprensa denunciá-las ou, quando menos, noticiar a sua existência. A comparação com o banco é estúpida. Dificilmente um assalto poderá ser atribuído a mecanismos ineficientes de controle, menos ainda, por razões óbvias, a uma manejo fraudulento de uma política pública. Ainda assim, caso a imprensa constate que a segurança da agência é ineficaz ou errada, isso será notícia.

Lula finge ignorar a dimensão pública do trabalho da imprensa. Gostaria que jornalistas se comportassem como meros policiais do regime petista: dada uma falcatrua qualquer, o jornalista se concentraria, então, nos erros do “bandido”, ignorando as falhas da administração que eventualmente facilitaram a ação de larápios. Há mais: a depender do caso, o bandido em questão e os próprios gestores estão associados, em conluio. Pior ainda: larápios e gestores públicos podem estar unidos a um partido político, e a safadeza pode fazer parte de um projeto de conquista do Estado, como foi o caso do mensalão, o maior escândalo — VIU, MINISTRO BARROSO? — da história da República. Tratou-se, como se sabe, de uma tentativa de golpe nas instituições.

O principal papel do jornalista que se respeita, senhor Luiz Inácio, não é caçar bandido. Isso é tarefa da polícia. Um jornalista deve é se ocupar de corrigir as instituições, segundo as regras estabelecidas pelo estado democrático e de direito. É por isso que não pode se contentar apenas com a crítica ao pé de chinelo que fez isso ou aquilo. Mas essa, claro!, é a visão que Lula tem da imprensa depois que chegou ao poder, em 2003. Quando ele estava na oposição, jamais reclamou do jornalismo, que sempre, com raras exceções, lhe puxou o saco. Ele mesmo já disse, num rasgo de lucidez, certa feita, que ele próprio era produto da imprensa livre. E é! Mesmo quando dizia bobagens cabeludas em economia, política e o que mais fosse, era tratado como uma força da natureza, um pensador original, o portador de uma verdade revelada.

O ombudsman
O líder político que gostaria que jornalistas se comportassem como meros policiais também resolveu ser ombudsman da imprensa. Afirmou:
“Quero confessar que eu tinha a impressão de que esse evento estava proibido para a imprensa porque um assunto dessa magnitude, com os resultados extraordinários conquistados por muitos países do mundo e pelo Brasil, mereceu menos atenção do que qualquer outro assunto banal do noticiário brasileiro. É uma pena que, muitas vezes, as coisas sérias não são tratadas com seriedade, é uma pena que as coisas banais, as coisas secundárias, sejam tratadas de forma quase sensacionalista.”

“Coisa séria” é tudo aquilo que serve ao propósito de Lula e de seu partido. “Sensacionalismo” é a notícia que não é do seu interesse. O petismo gasta muitos milhões do dinheiro público para alimentar o sistema oficial de comunicação e para pagar a rede suja que presta vassalagem ao petismo. Fazem isso assegurando que representam a novidade e que todo o resto é a chamada “velha mídia”. Por que, então, não conseguiram tornar influente assunto tão relevante? Se a “velha mídia” não está com nada, como querem os petistas, deixem-na, então, em paz e regozijem-se com seus próprios meios, não é mesmo?

A grande farsa
Lula só consegue articular um discurso imaginando que há um inimigo à espreita. Voltando a seu esporte predileto, que é brincar de arranca-rabo de classes, referiu-se nestes termos ao Bolsa Família:
“O que dá para os ricos é investimento e, para os pobres, é gasto, a ponto de dizerem na minha cara que nós estávamos criando [com o Bolsa Família] um exército de vagabundos”.

O primeiro a dizer que os programas de bolsas deixavam os pobres vagabundos foi Lula. E o fez de maneira explícita, arreganhada. No vídeo abaixo, ele aparece dois momentos: exaltando o Bolsa Família, já presidente da República, e no ano 2000, quando chamava os programas de assistência direta (como o Bolsa Família) de esmola. Vejam.

Pobre vagabundo
Mas foi bem mais explícito. Nos primeiros meses como presidente, Lula era contra os programas de bolsa que herdou de FHC. Ele queria era assistencialismo na veia mesmo, distribuir comida, com o seu programa “Fome Zero”, uma ideia publicitária de Duda Mendonça, que ele transformou em diretriz de governo. Deu errado. O Fome Zero nunca chegou a existir.

Já demonstrei isso aqui. No dia 9 de abril de 2003, com o Fome Zero empacado, Lula fez um discurso no semiárido nordestino, na presença de Ciro Gomes, em que disse com todas as letras que acreditava que os programas que geraram o Bolsa Família levavam os assistidos à vagabundagem. Querem ler? Pois não!

Eu, um dia desses, Ciro [Gomes, ministro da Integração Nacional], estava em Cabedelo, na Paraíba, e tinha um encontro com os trabalhadores rurais, Manoel Serra [presidente da Contag - Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura], e um deles falava assim para mim: “Lula, sabe o que está acontecendo aqui, na nossa região? O povo está acostumado a receber muita coisa de favor. Antigamente, quando chovia, o povo logo corria para plantar o seu feijão, o seu milho, a sua macaxeira, porque ele sabia que ia colher, alguns meses depois. E, agora, tem gente que já não quer mais isso porque fica esperando o ‘vale-isso’, o ‘vale-aquilo’, as coisas que o Governo criou para dar para as pessoas.” Acho que isso não contribui com as reformas estruturais que o Brasil precisa ter para que as pessoas possam viver condignamente, às custas do seu trabalho. Eu sempre disse que não há nada mais digno para um homem e para uma mulher do que levantar de manhã, trabalhar e, no final do mês ou no final da colheita, poder comer às custas do seu trabalho, às custas daquilo que produziu, às custas daquilo que plantou. Isso é o que dá dignidade. Isso é o que faz as pessoas andarem de cabeça erguida. Isso é o que faz as pessoas aprenderem a escolher melhor quem é seu candidato a vereador, a prefeito, a deputado, a senador, a governador, a presidente da República. Isso é o que motiva as pessoas a quererem aprender um pouco mais.

Notaram a verdade de suas palavras? A convicção profunda? Então…

No dia 27 de fevereiro de 2003, Lula já tinha mudando o nome do programa Bolsa Renda, que dava R$ 60 ao assistido, para “Cartão Alimentação”. Vocês devem se lembrar da confusão que o assunto gerou: o cartão serviria só para comprar alimentos?; seria permitido ou não comprar cachaça com ele?; o beneficiado teria de retirar tudo em espécie ou poderia pegar o dinheiro e fazer o que bem entendesse?

A questão se arrastou por meses. O tal programa Fome Zero, coitado!, não saía do papel. Capa de uma edição da revista Primeira Leitura da época: “O Fome Zero não existe”. A imprensa petista chiou pra chuchu.

No dia 20 de outubro, aquele mesmo Lula que acreditava que os programas de renda do governo FHC geravam vagabundos, que não queriam mais plantar macaxeira, fez o quê? Editou uma Medida Provisória e criou o Bolsa Família? E o que era o Bolsa Família? A reunião de todos os programas que ele atacara em um só. Assaltava o cofre dos programas alheios, afirmando ter descoberto a pólvora. O texto da MP não deixa a menor dúvida:
(…) programa de que trata o caput tem por finalidade a unificação dos procedimentos de gestão e execução das ações de transferência de renda do Governo Federal, especialmente as do Programa Nacional de Renda Mínima vinculado à Educação – “Bolsa Escola”, instituído pela Lei n.° 10.219, de 11 de abril de 2001, do Programa Nacional de Acesso à Alimentação – PNAA,criado pela Lei n.° 10.689, de 13 de junho de 2003, do Programa Nacional de Renda Mínima vinculado à Saúde – “Bolsa Alimentação”, instituído pela medida provisória n.° 2.206-1, de 6 de setembro de 2001, do Programa Auxílio-Gás, instituído pelo Decreto n.° 4.102, de 24 de janeiro de 2002, e do Cadastramento Único do Governo Federal, instituído pelo Decreto n.° 3.877, de 24 de julho de 2001.

Compreenderam? Bastaram sete meses para que o programa que impedia o trabalhador de fazer a sua rocinha virasse a salvação da lavoura de Lula. E os assistidos passariam a receber dinheiro vivo. Contrapartidas: que as crianças frequentassem a escola, como já exigia o Bolsa Escola, e que fossem vacinadas, como já exigia o Bolsa Alimentação, que cobrava também que as gestantes fizessem o pré-natal! Esse programa era do Ministério da Saúde e foi implementado por Serra.

E qual passou a ser, então, o discurso de Lula?

Ora, ele passou a atacar aqueles que diziam que programas de renda acomodavam os plantadores de macaxeira, tornando-os vagabundos, como se aquele não fosse rigorosamente o seu próprio discurso, conforme se vê no vídeo e voltou a repetir nesta quinta.

Encerro
Seria, de fato, muito bom que a política brasileira deixasse de ser refém dessa empulhação, dessa conversa mole. Não creio, infelizmente, que isso possa se dar com a dupla Marina-Eduardo Campos (sim, claro, volto ao tema) e vejo que a oposição ainda está sem discurso e sem eixo. O programa do PSB, no entanto, acerta ao captar certo clima de enfaro, de saco cheio mesmo, com essa ladainha lulista. Este senhor emburrece o debate político com sua conversa mole para desmemoriados.

Por Reinaldo Azevedo

 

CENSURA PRÉVIA E DEMAGOGIA – Caetano, Chico, sei lá quem… Nossos heróis morreram de uma overdose de realidade. E ainda: Ruffato, o novo candidato a herói

Caetano black bloc

Coitado do Caetano Veloso! Ele é capaz de compreender o alcance até estético da truculência fascista e anônima dos black blocs, mas é contra a publicação de biografias que não sejam autorizadas pelos biografados ou seus descendentes. Não só. Acha que, quando autorizada, o biografado tem de ser remunerado. Agressão à liberdade de expressão? Nãããooo!!! Se o texto for publicado graciosamente na Internet, aí tudo bem! Caetano, então, só não reconhece o direito autoral do biógrafo, do pesquisador, do escritor, do jornalista… E faz essa defesa, para escândalo da lógica, no bojo de uma lei que defende o… direito autoral!

É bem verdade que nem ele nem os demais artistas que estão com ele nessa patuscada se pronunciaram. A porta-voz dessa nova frente de censores é Paula Lavigne, ex-mulher de Caetano e chefona do tal movimento “Procure Saber”. A lista de apoiadores da patranha é grande — há gente lá de que nem eu nem ninguém nunca ouvimos falar. Nem precisavam ser tão ciosas de sua intimidade, que já está naturalmente resguardada pela irrelevância. Mas há também cabeças coroadas da MPB: Chico Buarque (não há causa autoritária que este senhor não endosse, e faz tempo!), Milton Nascimento, Roberto Carlos (o que censura até livro sobre a Jovem Guarda), Djavan. Digam-me: alguém, alguma vez, se interessou em conhecer detalhes da vida de Djavan? Nem quando ele cantou “Mais fácil aprender japonês em braille/ do que você decidir se dá ou não”, eu me interessei em quebrar a metáfora para tentar entender o que ele quis dizer…

É o fim da picada! A Constituição brasileira, que acaba de fazer 25 anos, assegura a ampla liberdade de expressão em dois artigos: o 5º e o 220. Mas o Artigo 20 do Código Civil exige a autorização prévia para a publicação de biografias. Com base nele, juízes têm determinado o recolhimento de livros, o que é coisa própria de ditaduras, não de democracias. Os tais artistas, que se reuniram para mudar a lei dos direitos autorais (nem vou entrar no mérito neste texto), passaram a defender, de quebra, a manutenção da restrição — a palavra final acabará sendo do Supremo.

“Ah, então você defende que qualquer um possa escrever qualquer coisa sobre qualquer pessoa, sem restrições?” É evidente que não! Existem leis para coibir e para punir a injúria, a calúnia e a difamação. E elas não valem apenas para o que é divulgado na imprensa. Alcançam também os livros. Se um biógrafo incorrer numa dessas faltas, que arque com o peso do Código Penal — além de eventuais ações indenizatórias na área cível. Por que diabos precisamos de uma lei que, na prática, permite até mesmo a censura prévia?

A culpa deles, as nossas culpas
Pois é… Há muito tempo eu enrosco com os nossos “cantores” e, de maneira geral, os nossos “artistas” e “celebridades” que opinam sobre tudo e qualquer coisa. O mais eloquente deles é mesmo Caetano Veloso. Não há assunto no plano material ou espiritual sobre o qual ele não tenha uma opinião, que costuma ser acatada pela imprensa como o “magister dixit”. O mesmo se diga sobre áreas do conhecimento: estética, ciências, filosofia, religião… Se Caetano falou, falado está. Só ele? Não! Na campanha eleitoral de 2010, Chico Buarque, por exemplo, deu uma abalizadíssima opinião sobre política externa — segundo ele, o governo tucano falava grosso com a Bolívia e fino com os EUA. Hoje que falamos grosso com os EUA e fino com a protoditadura boliviana, ele deve estar feliz.

A ditadura militar ainda nos faz muito mal, sim. Mas de um modo muito mais amplo do que supõem alguns. Além dos problemas que lhe eram intrínsecos — e eu os conheço de perto porque tomei muita borrachada —, há um outro, que perdura na cultura brasileira. Pouco importava a bobagem que dissesse, ou que ainda diga, o idiota de plantão, logo ele era, e é, alçado ao panteão dos pensadores se, afinal, estivesse, ou esteja, se manifestando contra “a ditadura”. Assim, opor-se ao regime militar se tornou uma espécie de selo de qualidade do pensamento.

E o mecanismo se renova. Como a ditadura já vai ficando distante de nós, novas “causas” vão juntando novos idiotas, que pontificam com a autoridade dos sábios sobre os mais variados assuntos. A profundidade da ignorância que exibem chega a ser comovente. Ou não vimos, não faz tempo, um grupo de artistas globais a proclamar a maior quantidade de besteiras jamais reunidas num só vídeo sobre a usina de Belo Monte? Nada escapou: história, física, geografia, matemática… Tudo falecia diante da ignorância propositiva, convicta, sincera!

Não me desviei do assunto. Vocês verão que não! Por que estamos, de algum modo, surpresos com a defesa que aqueles artistas fazem da censura? Porque, no Brasil (não é só aqui, mas, por aqui, é mais!), artista logo ganha o estatuto de pensador. Mais do que isso: sua glossolalia ideológica — e eles não têm a obrigação de ser especialistas na área — logo é tomada como uma expressão de uma política alternativa. Querem um exemplo? Caetano Veloso, Chico Buarque e Wagner Moura têm uma receita para o Rio: Marcelo Freixo. Freixo é do PSOL, o partido que comanda a greve dos professores do Rio em parceria, agora admitida, com os black blocs. Boa parte da chatice de boa parte do cinema nacional decorre do fato de que cineastas costumam ter mais programas de governo na cabeça do que boas ideias para… cinema.

Não! Não estou aqui a advogar que cada um deva ficar no seu quadrado. Ao contrário da turma do “Procure Saber”, eu sou um árduo defensor dos Artigos 5º e 220 da Constituição. Só estou aqui a afirmar que precisamos parar com essa mania de achar que artistas carregam a iluminação política. Eles serão bons ou maus, iluminados ou não, apenas na arte que fazem. É o que interessa. Caetano é uma besta política E eu gosto de várias músicas suas, não é de hoje. Há reinterpretações que fez, como a de “Fera Ferida”, de Roberto Carlos (outra besta política), que são magistrais. Só não se deve levar a sério o que ele pensa como ser político. No caso e no momento, este senhor, em companhia de outros, está defendendo a censura.

Lá vou eu...
Mas a gente não aprende — e isso vale também para a imprensa. Nunca li um livro de Luiz Ruffato. Embora a minha área original de interesse seja a literatura, tenho dedicado meu tempo à política. Meu interesse pela literatura fincou morada no século 19, com raras exceções. Não porque eu seja chique demais. Não sou! É que cansei dos truques dos contemporâneos, geralmente mais ocupados com o “modo de dizer” o nada do que com o algo a dizer, mais ocupados em expor a própria alma do que as almas deste vasto mundo. E esse pode não ser o caso de Ruffato — logo, não expresso um juízo de valor sobre a sua obra.

Mas lamento o discurso que fez em Frankfurt. E não apenas porque há reducionismos que não resistiriam a um cotejo mínimo com a história e com os fatos. Lamento porque o domínio que o levou a ter aquele palco privilegiado foi, até onde sei, a sua produção literária, não o aporte que ele possa agregar em matéria de leitura sociológica ou histórica sobre o Brasil — matéria em que demonstrou ser de uma anemia profunda.

Pouco me importa se a sua fala constrangeu também Marta Suplicy e Michel Temer, políticos que não estão entre os meus prediletos. Pouco me importa se também os petistas são gostaram de seu discurso — afinal, imagina-se ainda, lá fora, que o Brasil está prestes a ser uma Suíça. Pouco me importa que seu destempero verbal tenha desagradado também às esquerdas — esquerdistas não são, necessariamente, o oposto privilegiado a qualificar as minhas opiniões; na verdade, o que eles acham do mundo me interessa muito pouco.

O que não faz sentido é um escritor brasileiro, ainda que fosse um novo Machado de Assis, aproveitar um evento sobre livros para fazer um discurso político como um arauto da nacionalidade a anunciar: “Isto é o Brasil”. Para que o fizesse, precisaria estar munido de uma força representativa que, obviamente, não tem. E poucos se dão conta de que, então, o seu desabafo, ou que nome tenha, foi também um primor do autoritarismo. “Ah, o Reinaldo e as esquerdas criticando juntos…” O Reinaldo fala o que quer e não se importa com o que os outros falam — à esquerda, ao centro, à direita… Ruffato denunciou, por exemplo, um certo genocídio de índios… Só se for aquele que os tupis promoveram contra… outros índios!

Volto ao ponto central
Artistas valem pela arte que produzem, qualquer que seja ela. Escrevo isso até em defesa do que há de bom na obra de Caetano Veloso e de outros tontos que estão com ele na empreitada censória. E cabe também a nós tratar com mais cuidado o domínio da política, que é onde se cuida de questões como direitos individuais e liberdade de expressão. Durante um largo tempo, tomamos como pensadores profundos gente que não ia além da opinião ligeira, da idiossincrasia ou do rancor convertido em norte ético.

No que concerne às biografias, encerro tomando emprestada uma observação da jornalista Mônica Waldvogel no Twitter. A restrição pela qual lutam esses artistas não vai proteger apenas as suas respectivas vidas (irrelevantes — esse adjetivo é meu, não dela). Ela resguardaria também a biografia de torturadores, de assassinos, de malfeitores. Um biógrafo ou jornalista, vejam vocês, teria de pedir tanto a Roberto Carlos e Caetano Veloso como a Fernandinho Beira-Mar e Marcola a autorização para narrar a sua saga.

De certo modo, é bom que esse debate esteja em curso. Expõe de forma dramática o atraso mental daqueles que um dia foram feitos heróis da resistência. E é bom que esses heróis morram de uma overdose de realidade. Só não devemos começar a erigir outros…

Por Reinaldo Azevedo

 

AINDA A CENSURA: Ou: Para que servem os artistas? Ou ainda: Há coisas que não são nem de direita nem de esquerda. São apenas erradas e inúteis

Caetano black bloc

Escrevi ontem um post sobre a defesa que artistas estão fazendo da censura, ainda que tentem emprestar à sua tese roupagem mais nobre. Mas fui adiante. Critiquei a mania que há no Brasil de considerar o artista um pensador, seja ele cantor, escritor, pintor… Sou, já disse, um defensor radical das garantias dos Artigos 5º e 220 da Constituição. Cada um diga e escreva o que quiser e responda por isso. Precisamos, isto sim, é de uma Justiça mais célere para desagravar quem for eventualmente agravado. Não dá é para flertar com a censura. Muita gente reclamou, acusando-me, o que é estúpido e absurdo, de querer impedir a manifestação dos artistas. Quem sabe ler entendeu direito o que escrevi: disse apenas, neste particular, que um artista vale por sua arte, não por suas opiniões. O que há de tão exótico ou de errado  nisso?

Temos outra mania ainda: chamar compositor de MPB de “poeta”. Muitas vezes, o bardo em questão rima de modo obsessivo verbos no infinitivo, não lhe ocorrendo nenhum outro recurso mais, como direi?, complexo. Vira “poeta” por causa de sua “mensagem” libertadora… Literatura, prosa ou poesia, é língua cultivada. Demanda labor. É produto, sim, da cultura mais lapidada, como qualquer outro domínio da estética. Ainda que o artista saiba esconder, com diria Olavo Bilac (lá vou eu citar alguém injustamente demonizado pelos modernistas), os “andaimes do edifício”, quem se dedica a interpretar o que ele faz dá-se a uma fruição que não é mero exercício do gosto ou da satisfação. Também apela à inteligência.

Então não pode haver um grande artista popular sem cultivo intelectual? A resposta não é simples. Pode e não pode. Mas explico o paradoxo. O grande achado na arte popular costuma ser a reprodução, quase sempre acidental, de um valor cultivado pelas elites intelectuais. Estas apreciam, e não vai demérito nenhum nisto, menos a “verdade” que chega do povo do que o valor influente entre seus iguais. Vamos de Cartola:
Queixo-me às rosas,/
Mas que bobagem!/
As rosas não falam./
Simplesmente as rosas exalam/
o perfume que roubam de ti.

Cartola tinha ouvido, claro!, daí as assonâncias nas paroxítonas: “bobagem/ falam/ exalam” (a rima final tem menos importância no ritmo do que aquela repetição). Mas, parece, o encantador da letra está mesmo na desmetaforizaçãoà moda Alberto Caeiro, que Cartola, é bem provável, desconhecia (ao menos quando a compôs):
Mas as flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram coisas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

As rosas não falam, e as flores não sentem. É a desconstrução do clichê, do senso comum e da literatice que chama a atenção do esteta tanto num texto como no outro, muito mais do que os sentimentos que evocam. Ama-se em Cartola um valor que pertence às elites cultivadas e chega a parecer espantoso que tenha sido um homem do povo a realizar tal feito. Mesmo a valorização por que passou o lixo estético do rap nos segundos cadernos e nos programas “inclusivos” da TV aberta — penso, Deus do céu!, em Regina Casé (aquela que foi estatizada pela CEF…) — tem muito pouco a ver com as verdades soberbas do povo — até porque povo não é categoria de pensamento, não é categoria política, não é categoria estética, não é categoria sociológica, não é categoria ética… A rigor, o povo é uma abstração, não existe como coisa em si. Existem as pessoas, estas sim! Convertê-las em “povo” corresponde a lhes surrupiar uma identidade em nome de um conceito que pode confortar apenas o pensador de plantão. Adiante! O que se valoriza no rap?

A rima? O ritmo? A melodia? A língua cultivada? O quê? A resposta é uma só: quase invariavelmente, o que se aprecia naquela “coisa” é o simulacro de luta de classes, a luta contra a injustiça, a verdade eterna dos oprimidos — ou que nome se queria emprestar ao troço. Eis aí: esse é um valor “popular”? Uma pinoia! Quem atribui virtudes redentoras a esses apelos são intelectuais (subintelectuais, quase sempre) de classe média e das elites. Gente pobre e honesta, com raras exceções, dá valor ao trabalho, ao estudo, à luta para subir na vida. Povo gosta de competição. Quem fala em luta e cooperação entre iguais é submarxista do miolo mole, que, no mais das vezes, já veio ao mundo com o traseiro voltado para a lua… 

Mas retomo
Sinto que me distanciei um tantinho da questão, me empolguei com aspectos particulares do debate. Retomo o fio. Artistas não têm de ser tomados como pensadores. Até porque se pode ser ou injusto com a obra ou irresponsável com o pensamento. A visão política de Ezra Pound era detestável, mas não a sua poesia. Céline e Wagner eram antissemitas asquerosos, mas importam a literatura de um e a música do outro. Fernando Pessoa era uma besta política e se mostra, a cada dia, um poeta maior. Todos esses entrariam na cota dos “reacionários”. Máximo Gorki era um pulha de esquerda, mas um bom escritor. A ideologia supervalorizou a obra de Gabriel García Márquez e puniu estupidamente o imenso Jorge Luis Borges.

Cada um deles, como artista, deve valer apenas por aquilo que produziu no domínio de sua obra. E nenhum deles deve ser visto como uma referência de leitura de mundo. Eram poetas, prosadores, músicos etc. Sei o quanto apanhei quando afirmei que Niemeyer era metade gênio (o arquiteto) e metade idiota (o ser político). Só corrijo uma coisa: era um inteiro gênio e um inteiro idiota. Foi uma gritaria dos diabos. Nota: tomei pancada tanto de quem achava que ele era gênio nos dois domínios como de quem o considera idiota (e autoritário) em ambos. O que eu fazia ali? Atrevia-me, diante do morto, a lembrar todas as coisas estúpidas que  já havia afirmado em política: da defesa dos crimes de Stálin ao apoio às Farc, Niemeyer viveu o bastante para endossar as piores barbaridades. Mas eu admiro profundamente a sua obra. Mais do que atacá-lo, eu, de fato, estava reivindicando que o domínio da estética fosse preservado de sua ética política capenga — para dizer o mínimo. Os furiosos partiram, com estupidez impressionante, para cima de mim.

Caetano Veloso, Roberto Carlos, Chico Buarque, Milton Nascimento… À sua maneira (Roberto bem menos), foram tomados como “pensadores” do Brasil. E eles são apenas cantores, compositores… É até possível que nem se deem conta do tamanho de sua irresponsabilidade.

Para encerrar
Um tonto afirmou, imaginem só!, que tentei “censurar” (o sentido das palavras anda cada vez mais esvaziado) o discurso de Luiz Ruffato em Frankfurt. Não poderia nem que quisesse. Já foi feito, os ecos já estão em toda parte. Errado! Eu disse que não gostei. Eu o considerei demagógico, desinformado e fora do lugar. Convidaram um escritor para falar e se ouviu a voz, malgrado as suas intenções, de um político equivocado. O problema principal do discurso de Ruffato é que a política saiu rebaixada porque ele não tem um domínio competente do assunto, e a literatura, que é a sua área, perdeu uma chance de se firmar como fala autônoma. A minha restrição nada tem a ver com o viés, se de direita, se de esquerda. Há coisas que não são nem uma coisa nem outra; são apenas erradas e inúteis. De resto, um dos maiores autores de todos os tempos, Paulo (o apóstolo), já disse a coisa definitiva: há o tempo de falar como menino e o tempo de falar como gente grande.

Por Reinaldo Azevedo

 

“País tem o direito de saber a verdade”, diz editor da Record

Caetano black bloc

Por Manoella Barbosa, na VEJA.com:
Nem só de negócios se fazem as discussões da Feira do Livro de Frankfurt. Mais ligada ao Brasil do que ao mercado internacional (…), a controvérsia das biografias não autorizadas tomou parte das conversas e discussões do evento. De um lado, estão os músicos que, sob a égide da empresária Paula Lavigne, querem vetar a publicação de livros sem aval prévio dos personagens retratados ou de seus herdeiros, e, de outro, parcelas significativas da sociedade, que veem na ação uma tentativa de asfixia da democracia. Entre estes, estão, naturalmente, já que figuram entre os mais atingidos pela censura, os representantes do mercado editorial.

“É absurda essa ideia do veto a biografias não-autorizadas”, diz Sérgio Machado, presidente da Record, editora responsável pela publicação de biografias de Fernando Pessoa, de José Paulo Cavalcanti Filho, e de José Dirceu, de autoria do jornalista Otávio Cabral, de VEJA, entre outras. “É claro que o biografado tem o direito de se manifestar caso constate algum tipo de injúria, difamação ou inverdade em uma obra feita a seu respeito. Mas, para isso, ele conta com o sistema judiciário. Existe um aparato judicial que não o deixará desamparado.”

Em Frankfurt desde o último domingo, Machado reconhece o direito à privacidade, mas também sublinha o direito à informação e lembra que aqueles que escolhem a “vida dos holofotes” precisam estar preparados para um interesse maior da sociedade sobre a sua vida. E que um cidadão tem o “direito de conhecer a verdade” sobre o seu país e a cultura que o circunda. Verdade que pode ficar longe de um livro autorizado – chapa-branca.

Nesta quarta-feira, o tema pautou a palestra do escritor paranaense Laurentino Gomes, autor dos livros de divulgação histórica 1808, 1822 e 1889. Ele disse se sentir “ameaçado” com o cerceamento à produção de livros-reportagens. Também nesta quarta, a ministra da Cultura, Marta Suplicy, se reuniu com parte da delegação brasileira na feira para se informar sobre a opinião dos escritores a respeito do tema. (…)

Em muitos países, como Estados Unidos e França, não é preciso obter autorização de personagens retratados ou herdeiros para publicar um livro. Quem se sentir ofendido com o texto pode procurar a Justiça. Casos diferentes são países como a Rússia de Putin, onde o controle da informação é excessivo.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

 

De vez em quando, até Obama pode estar certo

Lá vou eu na contramão… Parece uma obsessão, mas juro que não. Foi divulgado nesta quinta o tal Relatório do Comitê para Proteção de Jornalistas (CPJ), coordenado por Leonard Downie Jr., ex-diretor-executivo do “Washington Post”. Está escrito lá que, desde 2009, seis funcionários do governo e dois prestadores de serviço foram processados criminalmente pelo governo Obama por vazar informações confidenciais à imprensa. E isso faria, então, desta gestão a mais hostil à imprensa em muitos anos. Entre os prestadores de serviços, está o delinquente Edward Snowden, que, segundo seu pai, já está aprendendo russo para arranjar um trabalho. Imagino em que área…

Não simpatizo com Barack Obama. Não vou elencar aqui de novo os motivos. Eu o considero demagogo, desastrado e, na relação com o Congresso, autoritário. Em política externa, é uma lástima. A única coisa certa que fez foi não atacar a Síria — sei que um monte de gente discorda, mas os fatos, parece, estão me dando razão. Já escrevi dezenas de textos expressando o meu desagrado.

Mas, no caso em questão, esperavam o quê? Punir funcionário que, tendo o dever do sigilo, vaza informação não é autoritarismo, mas obrigação. Isso não tolhe o trabalho da imprensa coisa nenhuma — desde que não se tente punir o jornalista também. Sim, houve caso de tentativa de espionar repórteres. Aí não dá. Mas o vazador, uma vez identificado, tem de arcar com as consequências do risco que decidiu correr. Só faltava o Estado ser conivente com o seu ato.

A presença de Snowden nessa lista, lamento, a desmoraliza. Acho Obama muito ruim, sim, mas não por isso. Cada um no seu quadrado. O do governo é impedir e punir vazamentos. Errada, vênia máxima, é a esculhambação no Brasil. Por aqui, até apuração preliminar da Polícia Federal, que, às vezes, nem resulta em inquérito, vira notícia. As informações são muitas vezes pinçadas com propósitos claramente político-partidários. O sigilo em certos temas, não custa lembrar, também é reguardado e garantido por leis democráticas. É um mau motivo para criticar Obama.

Por Reinaldo Azevedo

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Fonte: Blog Reinaldo Azevedo (VEJA)

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