O Rio se tinge com o verde do Exército para leiloar campo do pré-sal; Petrobras abre o bico e quer mudar modelo de exploração qu

Publicado em 15/10/2013 17:42 e atualizado em 17/02/2014 15:07
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por Reinaldo Azevedo, de veja.com.br

O Rio se tinge com o verde do Exército para leiloar campo do pré-sal; Petrobras abre o bico e quer mudar modelo de exploração que PT considerava inegociável. Ou: E os gringos não estão loucos para “roubar” as nossas riquezas… Que pena!

Pipoca: não tentem arrancar o

Pipoca: não tentem arrancar o “pré-sal” dela. Rosna muito! Ninguém tasca!

Parte do Rio está nesta segunda sob o controle de forças federais, especialmente o Exército. Sim, ainda que numa circunstância um tantinho diferente, como já notei aqui, a presidente Dilma Rousseff, do PT, repete o então presidente da República de 1995 — FHC, do PSDB — e chama os soldados. A diferença é que a Federação Única dos Petroleiros, ligada à CUT, uma das promotoras da greve do setor e adversária do leilão do campo de Libra, é aliada desse governo e se opunha àquele. PSOL, PSTU e outros ultraesquerdistas se reúnem numa outra federação e também tentam impedir o evento. Ainda que eu registre aqui, com certa ironia, que Dilma recorre a um procedimento como antes já se fez nestepaiz, não critico a coisa em si, não. Tem de chamar as Forças Armadas mesmo. Estou doido para saber se vai haver black blocs, desta vez, tentando furar o bloqueio. Mas isso não é a coisa mais interessante que está em curso, não.

O leilão do Campo de Libra, que se pretende um dos maiores do mundo, se dá num climão meio borocoxô, sem muito ânimo. Os primitivos de extrema esquerda estão vociferando por aí que gananciosos capitalistas internacionais querem o nosso petróleo, querem roubar tudo de nós. Infelizmente, não! É o contrário. Há o risco de um só consórcio se apresentar, justamente o formado pela Petrobras e pelas chinesas CNPC e CNOOC. Um outro, liderado pela Shell, em parceria com a indiana ONGC e a francesa Total, não estava conseguindo se viabilizar. Eu já falei sobre a Pipoca, uma das cadelinhas aqui de casa, certo? De vez em quando, ela “rouba” um pregador, um pedaço de casca de tangerina, um papel de bala. Leva para a casinha dela, deita em cima e vira uma fera de assustadores três quilos e meio. Rosna para quem passar perto. Mensagem: “Você está querendo este meu pregador, né? Este meu papel de bala? Não dou, é meu! Venha pegá-lo se for capaz”. Ela não é existencialista, como um beagle… Ninguém quer o papel de bala. Mas rosnar é de sua natureza.

O Brasil é um pouquinho melancólico. Há uma informação importante numa reportagem da Folha desta segunda, de Valdo Cruz e Denise Luna. Transcrevo um trecho:

O leilão de hoje do campo de pré-sal de Libra, na bacia de Santos, pode ser o primeiro e último em que a Petrobras participa como operadora única e dona obrigatória de pelo menos 30% do consórcio vencedor. Segundo a Folha apurou, a própria estatal já manifestou o desejo de rediscutir o modelo para torná-lo, pelo menos, opcional. Ou seja, de acordo com a conjuntura da empresa, ela poderia abrir mão dos direitos atuais. O problema é que, para técnicos da estatal, o que pode ser considerado um “privilégio” num dado momento torna-se um “peso” em situações como a atual, em que a empresa enfrenta dificuldades de caixa para bancar seu plano de investimento de US$ 236,5 bilhões. O próximo leilão do pré-sal está previsto para ocorrer só em dois ou três anos, segundo a diretora-geral da ANP (Agência Nacional do Petróleo), Magda Chambriard.

Retomo
A Petrobras, nas mãos dos petistas, está comendo o pão que a mistificação amassou. Encerrou 2010 devendo R$ 118 bilhões; em junho deste ano, já devia R$ 249 bilhões — parte desse rombo decorre de a empresa importar gasolina a um preço superior ao de venda no mercado interno. Como a economia degringolou, é preciso segurar o preço dos combustíveis para que a inflação não dispare. E então voltamos às fotos. No dia 21 de abril de 2006, durante a inauguração da Plataforma P 50, em Campos, Lula repetiu o gesto de Getúlio Vargas, em 1952, e sujou as mãos de petróleo. O populista marcava o início da extração no Brasil; o petista comemorava a suposta autossuficiência do Brasil. Pois é… Ainda não chegou.

Foi o modelo de concessão, que então vigia, que permitiu ao país avançar. Os petistas inventaram que só o de partilha, tendo obrigatoriamente a Petrobras como operadora, é que garantiria a riqueza em nossas mãos. Patacoada. Por determinação constitucional, tudo que há no subsolo pertence ao estado brasileiro. Ocorre que esse modelo, com esse grau de ingerência estatal, está afastando os investidores e impondo à Petrobras um investimento incompatível com a sua situação.

Mas como eles deitaram e rolaram em cima disso, não? Num outro post, publico um vídeo em que a então candidata Dilma dizia o que faria com o crack. No vídeo abaixo, ela se refere ao petróleo e à Petrobras e reduz a história da empresa, até ali, a “carne de pescoço”. Dilma dizia que o sistema de concessão, que os tucanos defendiam, era “entreguismo”. Chamava o pré-sal de “bilhete premiado”. Pensava o que agora dizem os petroleiros, contra os quais chamou o Exército. Parecia que mundo estava saindo aos tapas para vir roubar o petróleo do pré-sal, como se ele estivesse logo ali… Ninguém está se estapeando por isso, como se vê, e a Petrobras, nesse particular, abriu o bico. Vejam.

O palanque aceita qualquer tolice. Pior para o país quando ela é bem-sucedida.

Por Reinaldo Azevedo

 

A era do coletivismo individualista. Ou: Um vira-lata

Até, acho, o 1968 francês, os que tinham, deixem-me ver como chamar, “sede de justiça” e se mostravam dispostos a punir os maus para recompensar os bons encontravam no marxismo um abrigo seguro. Mesmo, ou muito especialmente, para os que entendiam não mais do que os rudimentos da teoria, aquilo emprestava um grande conforto. Afinal, os “camaradas” forneciam uma explicação convincente, embora fosse falsa, para o mundo como ele é e apontavam um futuro redentor. Melhor ainda para as mentes aflitas: diziam como chegar lá. Um partido organizaria a classe operária, que representava as forças que conduziriam a amanhãs sorridentes. Nesse desenho, a função do intelectual de classe média era ajudar a construir esse ente.

Isso acabou. Ninguém mais acredita na classe que traz em si a forma do futuro. A esquerda se fragmentou, entregando-se a subjetivismos extremados, a particularismos, a uma curiosa mistura de individualismo exacerbado com fúria coletivista. Como isso se revela? Ora, grupos de pressão têm a certeza de que suas demandas precisam se realizar para que a humanidade, então, dê um salto de qualidade. No fim das contas, quase sempre, seus motivos são egoísticos ou corporativistas, mas elas mesmas precisam acreditar que falam em nome da sociedade.

Na área de comentários, várias pessoas que tentaram emplacar aqui a defesa da invasão do Instituto Royal falavam coisas como “o povo está despertando”… O povo? Cadê o povo? Sem vacinas e antibióticos, os pobres morrerão primeiro, não é? Porque lhes faltam condições adequadas para uma vida saudável. Os micro-organismos sabem disso… O mundo é hoje, na expressão de uma amiga, “um supermercado de causas”. Pegue aquela que o faz feliz! Não se trata mais de organizar uma classe para a revolução ou, vá lá, o assalto ao poder. Não! O que se quer é impor como norma o que é valor para um grupo. À sua maneira, já escrevi aqui, o socialismo se pautava por aspirações universais — ainda que seus líderes fossem mentirosos patológicos e que a teoria fosse uma farsa.

O espantoso é que os grupelhos de agora são mais obscurantistas. Vejam o caso dos beagles. Usar animais em pesquisas não é matéria de escolha. E uma imposição da nossa civilização — da qual, diga-se, muitos podem querer apear. O que não é possível é exigir que outros façam o mesmo. Mas quê… As minorias, na era da afirmação das identidades e dos particularismos, entendem que a reação contrária a suas pretensões não é um ponto de vista diverso, mas legítimo. Ao contrário: ou se está com eles ou se está contra o bem.

Cotó
Um dos textos deste blog de que mais gosto é sobre um cachorro.. Foi escrito no dia 31 de outubro de 2011. Alguns se perguntarão: “Como pôde o Reinaldo escrever isso e agora defender que animais sejam usados em pesquisas?”. Terei de responder assim: o que eu gostava em Cotó — e ainda hoje me vem um nó na garganta quando penso nele e quando leio meio próprio texto — é que ele me humanizava. Um jeito bom de amar os bichos é permitir que eles nos façam melhores na relação com outros humanos. Segue o meu texto.

Um vira-lata

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Um dia ele apareceu na vilinha, não se sabe de onde. Já chegou adulto, meio labrador, meio lata, com o rabo cortado. Alguns o chamaram, então, “Cotó”. Outros o tinham por “Martim”, jamais consegui saber em razão de que marca. Estava por ali, entre as casas, havia bem uns 12 anos. Os “cachorristas”, dadas algumas características, lhe atribuíam entre 15 e 18 de vida. Contrariava a máxima de que cachorro de muitos donos morre de fome. Ele não! Estava sempre bonito, garboso, saudável.

Livre, sua simpatia era objeto de disputa. Cotó era personagem das nossas férias, dos nossos fins de semana, de muitos dos nossos momentos de alegria. No último sábado, saiu para não voltar. Não dava mais pra ele. Os rins tinham parado de funcionar. Já não conseguia mais se alimentar. Só lhe restava a dor. Dor silenciosa, respiração ofegante, cansaço extremo. Foi levado ao veterinário. Um primeiro remédio o fez dormir, e outro pôs o ponto final.

Os dias podiam ser instáveis; o céu, temperamental; o sol, incerto; a temperatura, variável. Mas Cotó restituía todas as nossas esperanças de dias melhores. Era o portador da memória daquele lugar. Mais do que qualquer um de nós, sabia que um vento podia enegrecer o céu ou, então, abri-lo num azul largo e ancestral.

É provável que voltasse sempre em busca de comida — não aceitava nada que não fosse carne ou derivado, o luxento! —, e a gente confundisse aquilo com afeto. Mas quem se importa? Quem é tão vaidoso a ponto de inquirir os reais motivos de um cachorro?

Às vezes ele interrompia a minha leitura ou outra coisa qualquer que estivesse fazendo. Postava-se à minha frente. Encarávamo-nos, então, com camaradagem. “E aí, meu? O que é que manda?” Ele se aboletava por ali, descansava o focinho entre as patas, fechava os olhos devagar e parecia me dizer: “Isso vai se repetir para sempre. A vida pode ser assim, mansa…” E, por alguns segundos, minutos talvez, eu conseguia não pensar em nada, não querer nada, não me importar com nada. Dois camaradas satisfeitos, silenciosos, ocos de anseios, como a paisagem, como a seqüência dos dias, como o marulho mais ao fundo.

Cotó tinha a generosidade das coisas certas. Enquanto estava por ali, era como se nunca tivéssemos sido mais jovens, nunca tivéssemos sido mais saudáveis, nunca tivéssemos sido mais ágeis, nunca tivéssemos sido mais otimistas, nunca tivéssemos sido mais viçosos. Naquela pequena vila, ele nos dava a ilusão da eternidade e alimentava as nossas esperanças.

Morreu Cotó, e o tempo nos invadiu. Terei de aprender a amar outra narrativa na mesma paisagem, da qual ele não é personagem. Eu devo ter imaginado — acho que sim, não estou bem certo — que me viriam os netos e que ele continuaria por ali a atestar que nem tudo nos foge pelos vãos dos dedos, aos poucos, sem nem mesmo um suspiro audível.

Isso não é política, como vêem. É que Cotó tomou seu rumo. Lá se foi ele, sem consultar ninguém, como sempre, dono do seu nariz.

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Por Reinaldo Azevedo

 

Ainda a censura: não seja intelectualmente desonesto, Marcelo Rubens Paiva!

Marcelo Rubens Paiva, colunista do Estadão, escreveu um artigo no sábado contra a censura às biografias. No mérito, está certo. Na argumentação, nem tanto. As alusões que faz a Freud e Sófocles, por exemplo, evidenciam, e não há mal nenhum nisto desde que o sujeito não cite, que não leu nem um nem outro. Ouviu falar. Se leu, não entendeu. Mas eu ficaria, por princípio, com a parte boa. Marcelo, como Reinaldo, também se opõe à censura. Se eu tivesse apenas isso a dizer — isto é, se achasse que o artigo só é um pouco ignorante nas referências —, não escreveria nada. Se Marcelo tem importância, é para seus leitores. No debate que considero relevante, ele não conta. Deixaria pra lá. Ocorre que há em seu texto um parágrafo que me diz respeito, de uma impressionante desonestidade intelectual. Mais: o autor é de uma covardia exemplar ao omitir os nomes dos líderes da luta em favor da censura. Por incrível que possa parecer, ele prefere, e não é a primeira vez, dar bordoada em mim. Vamos lá.

Marcelo é contra a censura e demonstra, ainda que de um modo um tanto malandro se confrontado com os fatos, que tudo o que se disse contra Lula e FHC, por exemplo, não impediu que ambos fossem eleitos e reeleitos. A observação seria até sagaz se estivéssemos mesmo diante de coisas equivalentes. Os tucanos nunca tentaram censurar a imprensa. Os petistas ainda tentam. Onde Paiva vê um empate nos fins, há uma grande diferença nos meios. Os tucanos não montaram uma rede suja na Internet, financiada por estatais, para proteger amigos e atacar inimigos.

O autor critica a tese da censura, mas não toca nos nomes de Chico Buarque e Caetano Veloso, Sabem como é… Os “progressistas” não brigam entre si. Não! Preferiu atacar Reinaldo Azevedo que, nesse caso, e talvez só nesse caso, está do mesmo lado. Mais do que isso. O texto contra a censura que que mais circulou nas redes sociais, goste Marcelo ou não, foi escrito por mim. Mas o que disse ele? Referindo-se a boatos e a falsas notícias, escreve:

“Homossexual? Muitos escondem. Raí se mudou para a casa do apresentador Zeca Camargo. Logo logo, assumirão a relação. Adotarão um filho? Aids? Milton Nascimento e Ney Matogrosso têm, segundo uma revista extinta da maior editora do País. Que já afirmou que fui “meio” viciado em cocaína, quando eu apresentava um programa para adolescentes, cujo blogueiro tem certeza de que pertenço à facção criminosa dos Petralhas, apesar de muitos tuiteiros me acusarem de vendido, já que me filiei ao PIG, Partido da Imprensa Governista, para quem trabalho há décadas, o que envergonharia meu pai. Leitores do mesmo blogueiro dizem que na verdade sou um coitado maconheiro que bateu a cabeça numa pedra e, além de paraplégico, fiquei xarope.”

A maior editora do país é a Abril. O termo “petralha”, já dicionarizado, foi cunhado por mim. Como explico até em livro, “petralha” não é sinônimo de “petista”, mas de petista que justifica o roubo em nome do povo. Nunca afirmei que Marcelo é um deles, embora, admito, ele leve jeito. Vamos lá.

Em sete anos de blog, escrevi breves passagens de que ele era personagem secundária  três vezes apenas:
1 – No dia 28 de maio de 2011, ele aparece num trecho de reportagem da Folha, que transcrevo no post, que trata da marcha da maconha. Ele estava presente ao evento.

2 – No dia14 de setembro de 2011, falei sobre ele porque, na verdade, ele é que havia se referido a mim. Numa entrrevista à revista TPM, afirmara sobre sua página na Internet: “Sou militante. No blog, sou o Reinaldo Azevedo de esquerda”. No meu post, com humor, afirmei que eu era o seu John Malkovich. Nessa entrevista, diz: “Hoje, as mulheres tomam mais a iniciativa, mas parece que elas levam a sério, se apaixonam. Antes, você transava com a amiga, a namorada de amigo, era uma coisa mais solta”. Observei em meu texto: “Transar com namorada de amigo como expressão de uma ‘coisa mais solta’? Acho que nunca fui Marcelo Rubens Paiva, nem quando era de esquerda”.

3 – No dia 5 de abril deste ano, eu o critiquei por exigir que Geraldo Alckmin se retratasse porque um auxiliar seu teria negado a prática de tortura durante a ditadura militar. Em primeiro lugar, não negou. Em segundo: ainda que tivesse negado, indaguei se Marcelo pediu que Lula se desculpasse por ter Delfm Netto, que assinou o AI-5, entre seus conselheiros.

De volta a seu parágrafo desonesto
Tenho, admito, uma grave falha de formação: nunca li nada de Marcelo — nem “Feliz Ano Velho”, lançado em 1981. Eu tinha 20 anos à época, e as minhas preocupações passavam a quilômetros da literatura confessional, por mais qualidade que eventualmente tivesse. Não conheço as circunstâncias do acidente que deixou o autor paraplégico. Também não vou parar para pesquisar. Se tinha fumado maconha ou não, ignoro. Lembro-me que o livro virou uma febre até entre meus alunos — eu dava aula em cursinho pré-vestibular. Por tudo o que eu ouvi, dados os comentários, pareceu-me então, e talvez eu estivesse errado, uma bobajada meio alienada. Eu era trotskista. Via com maus olhos o que me parecia um destampatório trágico-sentimental. Isso, reitero, é memória de época, não juízo sobre um livro que não li e, creio, não lerei.

Não posso responder por aquilo que pensam todos os leitores. Na quinta-feira, por exemplo, este blog teve quase 353 mil páginas visitadas; na sexta, quase 218 mil. Não tenho como saber — ele ainda tem blog? — o que pensam a meu respeito os leitores de Marcelo. Depois de o autor escrever um parágrafo malandro como aquele, posso imaginar.

Não preciso que meus leitores achem Marcelo um “xarope”. Isso, afirmo eu mesmo, mas não porque ele tenha batido a cabeça numa pedra. Na edição comemorativa dos 45 anos da “VEJA”, da “maior editora do país”, ele assina um texto. Acho que a revista fez bem em convidá-lo. Por que não? Não li seu artigo, mas aposto na pertinência do convite. O meu blog está hospedado no site dessa revista, não de outra.

Paiva é um xarope, sim, mas um xarope ideológico. Não fosse assim, teria ao menos lembrado em seu texto o nome dos defensores entusiasmados da censura. Em vez disso, me ataca de modo sorrateiro, pretendendo, adicionalmente, ligar leitores desta página ao preconceito contra pessoas com deficiência física (ou “necessidades especiais”, como é preciso dizer hoje em dia).

Tiro n’água, Marcelo! Este é um blog que defende a vida humana na sua plenitude. E o faz com desassombro. E em todas as etapas dessa humanidade. Nesta página, rapaz, não se pergunta se o coração já bate, se a espinha dorsal já está formada, se já é possível sentir dor… Nada disso. Aqui se respeita a vida do homem sem transigir, Marcelo. Isso, claro, também compõe o perfil de um “reacionário”, não é mesmo? Progressista, hoje em dia, é ficar arbitrando sobre a morte…

São aliados ideológicos seus, Marcelo, que pretendem manter a lei que censura livros. Eu sou apenas o autor do libelo CONTRA a censura que foi lido por mais gente. Admito que, nesse caso, sou mais livre do que você, não é? Posso escrever sem o receio de ferir meus companheiros.

Quanto a você ser ou não um petralha, pergunto: você acha que, a depender das circunstâncias, é compreensível que os companheiros roubem dinheiro público? Se for para o alegado bem do Brasil, você considera que isso é desculpável? Acredita que foi a direita que forçou os petistas a fazer o mensalão e que, de outra forma, o país seria ingovernável? Em suma: você acha que, de vez em quando, é mesmo preciso enfiar a mão na merda, como disse o filósofo Paulo Betti?

Se a resposta for “sim”, você, Marcelo, não apenas parece um petralha, mas é um petralha.

Em sete anos, este é o quarto texto em que me refiro a Marcelo Rubens Paiva. Para ser um “Reinaldo Azevedo da esquerda”, é preciso um pouco mais de coragem e de apego aos fatos.

Por Reinaldo Azevedo

 

“ReinaldoXXXXXXXX na cascuda!” Ou: Pode pensar e até latir com fofura. Rosnar não pode!

Na área de comentários sobre essa questão da invasão do Instituto Royal, vocês encontrarão muitas vezes isto aqui: “ReinaldoXXXXXXXX na cascuda!”

Isso significa que o comentário não foi publicado porque:
a) o autor está defendendo a invasão do laboratório;
b) o autor decidiu partir para o xingamento;
c) o autor está fazendo ameaças (nesse caso, faço uma cópia, com IP e hora do envio).

É proibido defender invasão aqui?
“É proibido fazer a defesa da invasão de prédios públicos e privados no seu blog, Reinaldo?” É! Ninguém entra na minha página para defender crimes. Se tentarem defender a pedofilia, veto. Se tentarem defender o consumo de drogas ilícitas, veto. Se tentarem defender o tráfico de órgãos, veto. Se tentarem defender clínicas de aborto, veto também.

Mas é perfeitamente possível defender mudanças na lei sobre isso ou aquilo, embora eu possa combater ferrenhamente determinadas posições.

É proibido discordar “do dono do blog”?
“É proibido discordar do dono do blog”, como querem alguns? Perguntem a todos os defensores da pesquisa com embriões humanos, à qual me opus e me oponho, e ficará claro que não. Perguntem aos defensores da permissão para o aborto de anencéfalos, à qual me opus, e ficará claro que não. A divergência civilizada, que não implique, reitero, a apologia do crime, é aceita e publicada, sim.

Mas recuso de maneira clara e explícita os que tentam usar o meu blog para defender atos delinquentes, sob o pretexto de que se trata de uma “luta”. Não é assim que entendo a dita “isenção jornalística”. Este blog não é isento a ponto de aceitar o pensamento daqueles que gostariam que existisse uma lei que proibisse o blog. Entenderam ou preciso desenhar?

Para dar um exemplo da estupidez (parte do texto vocês terão de deduzir; segue com a gramática original): “Coragem falta a voce seu bunda mole que fica ai escondido atras da mesa com o (#@&!+) na mao escrevendo essas baboseiras nazistas vai arrumar quem queira enfiar uma (#@&!+) nessa tua (#@&!+) ja se (#@&!+)!! !ja caiu tua mascara nazista!!” É mais um que é louco por beagles. Ele só não tem muito respeito por humanos dos quais discorda… Esses idiotas já ouviram falar de Mengele? Ele fazia “experiências” em gente, não em bicho. Os nazis, diga-se, eram muito ligados à natureza. Gostavam do verde e dos bichinhos — o que não significa que ecologistas e defensores de animais tenham pendor nazista. Mas significa, sim, que uma coisa e outra, por si, não qualificam ninguém moralmente.

É essa gente que reclama por ter seus comentários recusados aqui. Confundem este blog com o de alguns delinquentes, que, para conseguir trânsito, têm de permitir qualquer coisa. Aqui não! Vivo chutando o traseiro desses caras. Vivo lhes recomendando os blogs daqueles que me detestam. Não adianta! Não saem daqui. Como digo sempre, o ódio é mais fiel do que o amor.

A partir de amanhã, esses “ReinaldoXXXXXXXX na cascuda!” só aparecerão, como de hábito, quando escapar um comentário inaceitável, com posterior exclusão. Decidi, por enquanto, aplicar essa marca aos comentários que incorrem em uma, em duas ou nas três hipóteses elencadas acima para que vocês tenham ideia da marcha da insensatez. Posso assegurar aos decentes que eles não fazem ideia do que são capazes esses supostos amigos dos cães e da humanidade.

Ah, sim: os que me xingam e ameaçam ainda não disseram se abrem mão de vacinas e antibióticos. Acho que não. Trata-se, então, da expressão da covardia associada à incoerência.

Esses que estão a vociferar porque seus respectivos comentários foram excluídos podem tentar se manifestar como pessoas civilizadas — ou como beagles fofinhos . Nesse caso, serão publicados. Ou por outra: pensar pode; permito até alguns latidos fofinhos. Rosnar e tentar morder, ah, isso não pode.

Por Reinaldo Azevedo

 

De cachorros e tucanos. Ou: Fernando Capez sabe tratar cão como gente e gente como cão

De todas as tolices que dizem a meu respeito — felizmente, também há coisas boas —, há uma que me irrita um tantinho porque, como costumo dizer, distorce tanto o que penso como o que eles pensam: a que me identifica com os tucanos, com o PSDB. Conheço a origem da patacoada e vocês também: é coisa do JEG, do Jornalismo da Esgotosfera Governista, financiada por estatais. Ainda que eu quisesse, ainda que eu sentisse a necessidade de me identificar com uma legenda, ainda que considerasse essencial escolher um grupo em que ancorar meu pensamento, não seria, definitivamente, o PSDB o meu abrigo. Há pessoas decentes lá, sim. Há gente que admiro e respeito — também as há no PMDB; até no PT há pessoas de coluna ereta… “Qual legenda seria?” Nenhuma. Inexiste um partido liberal-conservador no Brasil. “Por que você não cria?” Porque não tenho nem disposição nem tempo. Porque a minha praia é escrever o que penso e não criar táticas e estratégias para ter o controle das políticas públicas — é essa a tarefa legítima das políticos. A minha tarefa, não menos legítima, e dizer se eles erram ou acertam; é dizer se os agentes sociais erram ou acertam… “Segundo quais critérios?” Ora, os meus — que, como sabem, sempre são muito claros.

Mas volto ao ponto. Enviam-me aqui um discurso que o deputado estadual Fernando Capez, do PSDB de São Paulo, fez na Assembleia Legislativa sobre os atos criminosos praticados no Instituto Royal. Foi na sessão de ontem, antes dos novos atos terroristas deste sábado. Raramente alguém foi tão irresponsável e disse tanta bobagem em tão pouco tempo. Trata-se de uma fala populista e oportunista, que busca pegar carona no clamor das redes sociais.

Se quiserem ouvir a coleção de impropérios, o vídeo segue abaixo. Os hidrófobos que estão tentando encher o meu saco na área de comentários já têm seu novo herói. Vejam aí. Volto depois.

Retomo
Trata-se de uma fala covarde — e não adianta o deputado vir com chiliques. Não dou a mínima. Esse é um mau uso da imunidade parlamentar. Capez só se manifesta com tamanha estupidez porque sabe que não pode ser processado pelos dirigentes do instituto. O deputado os chamou de “bandidos”. Bandidos, meu senhor, são aqueles que, neste sábado, botaram fogo num veículo da PM e em dois de uma emissora de TV. O deputado falou em animais maltratados e tal. Cadê as imagens dos cães mutilados e cegos, como se diz? O deputado diz que os donos do laboratório deveriam ter sido presos em flagrante. É? Sob qual acusação? Presos deveriam ter sido aqueles que invadiram uma propriedade privada, destruíram um trabalho de pesquisa sério, depredaram o laboratório e puseram em risco, de resto, a saúde da população. O deputado, com a coragem dos covardes — não, eu não tenho imunidade parlamentar —, incita a fúria dos já furiosos contra uma empresa que nem está sendo processada por crime nenhum. Ainda que estivesse, a prática seria criminosa. O deputado resolve pegar carona numa manifestação obscurantista, que agride, de fato, os fundamentos da pesquisa científica.

O que ele tem em mãos além de ilações e da acusação não comprovada — na verdade, já desmentida — feita por bandidos supostamente bem-intencionados? Diz este senhor que qualquer um pode invadir uma propriedade se souber que lá dentro se pratica um crime. Pois bem: cadê a comprovação do crime? Trata-se de um dos discursos mais vergonhosos jamais feitos na Assembleia Legislativa.

Capez, Capez… Sob o pretexto de defender cachorros, este senhor demonstra que pode jogar no lixo a reputação de seres humanos sem hesitar um segundo. Está, no fim das contas, cuidando da eleição no ano que vem.

Quem trata cão como gente e gente como cão se define moralmente.

Desafio
Desafio este senhor a, nesta segunda, abrir mão de sua imunidade parlamentar para que seja obrigado a provar em juízo as acusações que fez contra os donos do Instituto Royal.

Por Reinaldo Azevedo

 

Quer saber por que sair quebrando tudo por aí pode ser legítimo? Um pensador explica em entrevista ao Globo…

Você quer saber qual é a metafísica política que explica a desordem que está nas ruas? Então você precisa saber o que pensa Ciro Oiticica. Esse ideólogo de um novo Brasil tem 25 anos. Concedeu uma entrevista ao Globo Online, que o trata, deixem-me ver, como se fosse uma espécie de Schopenhauer das ruas. No momento em que seu pensamento atinge o sublime, ele justifica, ainda que possa não se dar conta disso, o comportamento da SA, a tropa de assalto do nazismo. Como, Reinaldo? Eu explico. Numa entrevista bastante amigável, em que, reitero, se confere a Oiticica o status de pensador, há este momento magnífico:

Atos de depredação representam você? Você acredita que eles tenham alguma legitimidade?
Nas ruas, todos representam a si mesmos. Toda manifestação política de insatisfação, desde que não atente contra a integridade física e a dignidade, tem minha simpatia. O sentimento de revolta é legítimo. Quanto às depredações, é sua aceitação política que definirá a legitimidade. E ela tem crescido à medida que as instituições negam o caminho do diálogo.

Comento
Entenderam? Não há atos condenáveis em si (a não ser um; já chego lá). Tudo depende da aceitação política ou não. Se parcelas consideráveis da população acharem que o certo é quebrar tudo, Oiticica acha que a prática se justifica. Se não, então não. Ele só não gosta de ataques “à integridade física” e “à dignidade”. Ah, bom! Não machucando ninguém, tudo certo! “Então é diferente da SA nazista, como você disse.” Errado! Os canalhas de Ernst Röhm, inicialmente, quebravam coisas. Só agrediam pessoas caso estas tentassem impedi-los. Alias, até que nazistas agredissem fisicamente os judeus, demorou um tempo. Eles começaram por bani-los do serviço público, dos bancos, da medicina, depois da universidade… Aí resolveram confiná-los… O resto da história é conhecida.

“Apelar ao nazismo sempre desmoraliza a crítica porque nada se compra àquilo…” Atenção! EU NÃO ESTOU COMPARANDO AS VÍTIMAS DA VIOLÊNCIA QUE VAI NAS RUAS AOS JUDEUS. Eu estou comparando as justificativas morais dos violentos à dos nazistas. Está claro? Esse negócio de que só é ato violento o que machuca pessoas é uma das canalhices que andam por aí. De resto, é uma afirmação falsa. Jornalistas estão, no mais das vezes, impedidos de trabalhar. Se forem descobertos, apanham. Dezenas de policiais já foram feridos pelos brucutus.

Você pode estar curioso, a esta altura, para saber a pauta do pensador. A entrevista esclarece. Leiam.
Há muitos que acreditam que os protestos mais recentes não têm bandeiras definidas, não têm reivindicações claras. Na sua opinião, isso é verdade?
A profusão de demandas não significa que não sejam claras. A questão da CPI dos Ônibus, desmilitarização da polícia, democratização da mídia, educação pública, gastos com a Copa, Museu do Índio, entre muitas outras, são bandeiras bem definidas e têm reivindicações trabalhadas.

Retomo
“Democratização da mídia”, como vocês sabem, corresponde a submeter a imprensa a uma espécie de Departamento de Censura dos militantes políticos. Já o “Museu do Índio” é uma espécie de pequeno delírio coletivo, incompreensível, acho eu, para quem não vive no Rio. Quanto à desmilitarização da Polícia, dizer o quê? O rapaz concede uma entrevista em que não condena, muito pelo contrário, a ação dos black blocs, que, uniformizados, agem em tropa e têm até grito de guerra. Oiticica quer desmilitarizar a Polícia para que vândalos, então, tenham o monopólio da militarização.

É em nome da “isenção” que se publica isso? Então tá.

Por Reinaldo Azevedo

 

O balcão de negócios do ministro da Saúde de Lula

Por Gabriel Mascarenhas, da VEJA.
O deputado federal Saraiva Felipe (PMDB-MG) foi ministro da Saúde de Lula entre 2005 e 2006. Nenhuma realização significativa marcou sua passagem pelo cargo. Para Saraiva, no entanto, não foi um tempo perdido. Incorporou contatos valiosos que fez na burocracia — e os tornou rentáveis, segundo ele mesmo diz. Presidente do PMDB mineiro, Saraiva transformou seu quinto mandato num dos mais chocantes balcões de negócios de que se tem notícia. Seu foco de atuação é a indústria farmacêutica.

VEJA teve acesso a uma gravação em que Saraiva, com toda a sem-cerimônia possível, abre o jogo a um interlocutor que o procurou, supostamente, para que ele ajudasse um laboratório que queria fornecer medicamentos para o Programa Farmácia Popular: “Tem dois tipos (de trabalho): ‘Você me ajuda e, se der certo, eu te dou não sei o quê; e a outra forma é como eu trabalho para a Interfarma e a Hypermarcas: ‘Nós damos uma ajuda mensal e você, diante das demandas, encaminha aqui e ali ”. Numa palavra, Saraiva assume sem meias palavras que topa um mensalão.

A gravação, feita em Belo Horizonte, é de fevereiro deste ano. Nela, Saraiva promete ao interlocutor, que se apresentou como emissário de um grande laboratório, abrir as portas do Ministério da Saúde e da Anvisa.
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Para ler a continuação dessa reportagem compre a edição desta semana de VEJA noIBA, notablet ou nas bancas.

Por Reinaldo Azevedo 

 

Mais terrorismo em São Roque. Vândalos incendeiam também a liberdade de imprensa. Setores do jornalismo são, em parte, culpados pela barbárie

Quando a gente pensa que já se chegou ao limite da estupidez, constata-se que não. Sempre se pode ir adiante. Neste sábado, houve novas ações de terrorismo em frente ao Instituto Royal, em São Roque, interior de São Paulo. Um grupo estimado em 200 pessoas, sob o comando dos black blocs, botou fogo em um veículo da PM e em dois da TV TEM, afiliada da TV Globo. Não sei se alguém foi preso. Ainda que tenha sido, a Justiça logo manda soltar. Eu entendo: entre, de um lado, a lei associada à ciência que salva vidas humanas e, de outro, a defesa terrorista dos animais, não vejo por que um juiz deva hesitar. É claro que deve ficar com a segunda alternativa para não queimar a reputação nas redes sociais.

Podem chiar à vontade. Não dou a mínima. Nesse blog, vagabundos que agem dessa maneira não serão jamais chamados de “manifestantes”. Manifestantes, certos ou errados, têm opiniões, causas, visão de mundo e dão um jeito de expressá-los e de tentar convencer outras pessoas. Mas o fazem de forma pacífica.

Incendiar um carro da PM, num regime democrático, corresponde a uma agressão ao estado democrático e de direito. Incendiar veículos da imprensa significa uma agressão grave à liberdade de expressão.

Não vou cansar de repetir esta verdade insofismável, incontornável: importantes setores da imprensa são, em grande parte, responsáveis por este estado de coisas. Cederam à pressão organizada por malucos nas redes sociais, que se comportam como juízes da lei, da imprensa e dos fatos. O jornalismo, no mais das vezes, acaba sendo cordato com os terroristas. No fim das contas, há quem acredite que não se deve expressar muita indignação quando dois carros de uma emissora são incendiados porque isso seria uma forma de corporativismo. O terror, em suma, acabou se tornando “um lado” respeitável, a ser ouvido.

O vocabulário a que a imprensa pode recorrer é asqueroso. Terrorista é chamado de “manifestante”; invasão de um laboratório pode ser tratada como “ocupação”; roubar animais vira “recolher”.

Mais um pouco, e já ninguém chamará o garçom ou o maître para dizer, educada e discretamente, que o cozinheiro exagerou no sal ou que o tofu (carne nunca!) não está no ponto (seja lá como se prepare isso…). Não! O negócio é lançar o prato contra a parede, dar um murro na boca do atendente, fazer um comício, botar fogo no restaurante, documentar tudo com um celular e depois postar o filme nas redes sociais em nome dos clientes indignados. A imprensa, fiel a seus compromissos éticos — ser isenta, apartidária e independente —, ouvirá um lado, ouvirá outro lado, sugerirá que o melhor é a paz, mas compreenderá, também, o lado dos exaltados, decretando que esse negócio de civilização e barbárie é mera questão de ponto de vista.

Por Reinaldo Azevedo

 

Você aí! Antes de babar no Facebook e no Twitter em defesa dos bandidos que invadiram o laboratório, quero lhe falar dos bichos que sua saúde já matou

Aquelas pessoas que invadiram o Instituto Royal, depredaram o laboratório, destruíram pesquisa e roubaram os animais são criminosas. Apenas isso. A imprensa, mais uma vez, está fazendo outro-ladismo, como se, nesse caso, houvesse duas verdades, o bom senso no meio, equidistante das posições extremas. Trata-se de uma mentira, de uma falácia. Há apenas um lado sensato nisso tudo.

Houvesse evidências de maus-tratos dos animais, vá lá; houvesse indícios de que estavam sendo submetidos a procedimentos injustificados e injustificáveis, daria para compreender a mobilização — jamais a invasão e a depredação; isso é crime em qualquer hipótese. Mas não há nada disso. Ao contrário. O que se sabe até agora aponta que lá trabalham pessoas sérias, que fazem um serviço que é do interesse de todos nós, inclusive daqueles imbecis que protagonizaram a pantomima violenta, com a participação de uma subcelebridade, que se tornou notória, quando tinha um programa de televisão, pela parvoíce. Não conseguiu ficar nem na Rede TV… Se ninguém ainda tentou contratá-la, eis a hora.

Que tempos estes, em que os covardes permitem que prosperem os idiotas. O sujeito que eventualmente está lendo este texto pronto a verter a baba hidrófoba, responda para si mesmo, não para mim: a) vai abrir mão de tomar remédios quando ficar doente?; b) vai abrir mão de vacinar os filhos que tem ou que um dia terá; c) se e quando um ente querido cair vítima de algum mal, vai tentar convencê-lo a recusar o tratamento que lhe for dispensado?

Você aí, que está pronto a dizer cretinices no Facebook e no Twitter. Sim, você, moça saudável, com todos os dentes. Você, rapagão cheio de saúde, que logo mais vai pra balada. Sabem quantas drogas foram testadas em beagles, macacos, ratos, gatos, coelhos, porquinhos-da-índia e outras fofuras para que vocês pudessem exibir tanta saúde? Para que a mamãe de vocês — a mãe hipotética, a mãe simbólica — não morresse de câncer de mama ou de útero; para que o papai não morresse precocemente de câncer na próstata; para que a vovó pudesse chegar com saúde aos 80 anos?

Não sabem? Então parem de perder seu tempo e vão estudar! Essa ferramenta que você têm aí na mão não serve apenas para que expressem seus sentimentos, seus rá, rá, rá, seus kkkkk e outras glossolalias. Também serve ao estudo, à pesquisa, à reflexão. Há uma enorme diferença entre torturar os bichinhos e usá-los para testar medicamentos. Não há um só país do mundo que não recorra a esse expediente.

Vi ontem uma senhora na TV. Parece ser uma das organizadoras do ato criminoso. Com a convicção de que só os ignorantes são capazes, dizia que já há maneiras de testar medicamentos sem recorrer aos animais. É mesmo? Quais? A lei que temos, que protege os bichos, já beira o temerário. Criminaliza o uso dos bichos nos testes científicos caso exista um meio alternativo. A questão é saber quem define isso. O militante? O delegado de polícia? O promotor? Por que diabos, afinal, cientistas, professores, profissionais gabaritados submeteriam os bichos a eventuais sofrimentos inúteis. Seria porque eles são pessoas más, à diferença dos invasores do laboratório, que seriam, então, pessoas boas?

E o Ministério Público?

Não é possível que profissionais sérios e que empresas que fazem um trabalho honesto vivam sob o signo da suspeição porque alguns malucos decidiram que não aceitam mais que animais sejam usados pela ciência. O promotor Wilson Velasco Júnior, atenção!, abriu inquérito em dezembro de 2012 — há quase um ano — para apurar as denúncias de maus-tratos no Instituto Royal. Até agora, ele não chegou a nenhuma conclusão? O MP tem competência legal e recursos para recorrer a especialistas, que podem tirar as dúvidas dos promotores. Uma perícia no laboratório teria bastado para demonstrar que tudo estava nos conformes. Mas quê…

Coisas assim acabam acontecendo porque, enquanto dura um procedimento como esse, é evidente que a empresa fica sob suspeição e se transforma em alvo potencial de trogloditas. Agora diz o doutor que eventuais provas foram danificadas pelos terroristas. É patético! Anos de pesquisa podem ter se perdido ali. Se alguma droga foi ministrada aos cães para testar reação, sem o cuidado dos especialistas para minimizar eventuais efeitos adversos, podem é ficar doentes. Vale dizer: esses caras não prestam nem para proteger gente nem para proteger cachorro.

A condescendência de vários setores ditos formadores de opinião com o baguncismo que chegou às ruas em junho está dando nisso aí. Ninguém mais quer conversa. Se acha que está certo, vai e invade, ocupa, quebra, põe fogo. Em junho, havia gente com tocha acesa na mão, a sapatear no teto do Congresso. Outros depredavam o Itamaraty. Jornalistas de TV chamavam aquilo de “manifestação pacífica”, embora perturbada por alguns “infiltrados”. Sei…

Os canalhas que hoje partem para o pau, para a ação direta, para a depredação têm a certeza absoluta — e não sem razão — de que encontrarão pela frente uma imprensa compreensiva, cordata, amiga, que se pela de medo das redes sociais. Vai que alguém fale mal da emissora no Facebook e no Twitter… Boa parte do jornalismo se tornou refém de delinquentes. 

Com o laboratório destruído, com anos de pesquisa jogados no lixo, tendo de enfrentar trogloditas reacionários, fascistoides, apesar de tudo isso, os representantes do laboratório é que estavam, de algum modo, na defensiva.

Mais uma vez, os bandidos foram transformados em heróis, e as vítimas é que tiveram de se explicar. Isso está virando uma rotina. Podem apostar: não vai acontecer nada com eles. Ninguém será condenado nem preso. Estamos indo de uma barbárie a outra sem passar pelo estágio da civilização.

Por Reinaldo Azevedo

 

Eu exijo que seres humanos passem a ser tratados por aquilo que são: animais! Eu exijo que uma criança tenha a mesma importância de um beagle!

Snoopy penando

Quem vai nos salvar dos nossos salvadores?

Eis uma pergunta que, em algum momento, teremos de responder. A esta altura, creio que todos vocês já leram a história dos ditos “ativistas” — essa é uma das palavras mais cretinas empregadas pela imprensa brasileira: o contrário seria o quê? Passivistas? Do que estamos a falar? — que invadiram o laboratório Royal, na cidade de São Roque, em São Paulo, para libertar cães da raça beagle e coelhos. Sim, os bichos estavam lá para o teste de novas drogas farmacêuticas etc. Os defensores dos animais fizeram, sem nenhum fundamento aparente, denúncias de maus-tratos. Como não havia caminho legal para interditar o trabalho do laboratório — que, tudo indica, segue todas as normas técnicas —, agiram como virou moda nesses dias, especialmente de junho pra cá: invadiram o laboratório, depredaram as instalações, libertaram os animais, deixaram sem refrigeração amostras que podem ter custado anos de pesquisa… E tudo porque eles se opõem ao uso de animais em experimentos farmacêuticos.

Laboratório depredado depois da ação de trogloditas disfarçados de amantes dos animais

Laboratório depredado depois da ação de trogloditas disfarçados de amantes dos animais

É claro que eles têm um argumento forte, que remete ao coração, precisamente naquela parte do nosso coração que rejeita todos os alertas do cérebro. Sim, existe. O dito órgão era considerado o centro das emoções humanas em passado remoto porque é o primeiro a dar um sinal físico de que nos deixamos abalar. Por isso o coração está ligado, na língua, ao pensamento: saber algo “de cor” quer dizer, literalmente, saber com o coração (em latim, “cor”). Em francês, a associação é ainda mais explícita. Repetir algo de memória é fazê-lo “par couer”. Mais um pouco: em “coragem”, também está a palavra “coração”. NOTA À MARGEM: hoje em dia, as escolas ou não ensinam nada ou recorrem ao rap (funk e outras coisinhas) para tentar atrair a atenção dos alunos. A grande revolução seria a etimologia… Mas é mais fácil transformar a sala de aula numa espécie de “Esquenta” da Regina Casé… Sigo.

Vejam esta foto de autoria de Avener Prado (a exemplo das outras deste post), da Folhapress. É um dos cãezinhos resgatados.

cão - laboratório

O quê? Vocês acham que também não me comove? Vocês acham que também o meu coração não exibe sinais de pensamento? Ora… Assim como Drummond lembrava que vemos o nosso queixo no queixo de nossos filhos, encontro ali o olhar da Pipoca e da Lolita, as cadelinhas aqui de casa. Pior ainda quando é um beagle.

A gente tende a humanizar os bichos, especialmente os mamíferos — exceção feita àqueles associados a pestes (na Índia, há seitas que protegem os ratos, que são divinizados). Essa raça em particular tem, assim, um certo ar reflexivo, quase filosófico… Está mais para Sêneca do que para Marilena Chaui, né? Há uma certa fatalidade triste em seu olhar, estoica mesmo, uma coisa, assim, “let it be”. Não por acaso, Snoopy, o cão-filósofo, é um beagle. Falamos com esses bichos. Eles abanam a cauda, obedecem a alguns comandos, vêm nos consolar — assim imaginamos — quando estamos tristes. Nas noites de frio, quando a Pipoca decide dormir, vem bater à porta do meu escritório para que eu vá cobri-la. Eu vou. Converso com ela.

Snoopy 2

Mas Pipoca ainda não é tão nossa irmã como os macacos, que, costumo dizer, não têm alma por um voto. Estivesse a Divina Providência com apenas 10 membros, como já ocorreu no nosso Supremo, e teria dado empate. “In dubio, pro anima”… Ocorre, meus caros, que animais são usados para testar remédios e vacinas no mundo inteiro. Muitos daqueles trogloditas amorosos que depredaram o laboratório Royal só não carregam a marca indelével da poliomielite porque alguns animaizinhos experimentaram antes a prevenção, testada depois em humanos.

Podemos achar isso uma barbaridade. Podemos achar isso uma crueldade. Nosso coração pode ficar trincado de dor. Mas é assim que se salvam vidas. É assim que a humanidade sobreviveu — inclusive para amar os animais. A “alma” de um cão não é superior à alma de um rato. Ou é? É a cultura que hierarquiza amorosamente os animais, como evidenciam os ratos e as vacas da índia. Se recusamos as experiências com beagles (fiz uma pesquisa razoável para saber por que eles estão entre os mais usados em laboratório; tudo faz sentido), por que não com todos os outros bichos?

Santo Deus! Usar os bichos para testar vacinas e remédios é o caminho para não usar humanos — nesse caso, os limites éticos são muito mais estreitos. Existem, sim, experiências que só podem ser feitas com pessoas. Hoje em dia, elas assinam um termo de compromisso, evidenciando que têm consciência de que se trata de um experimento. No geral, aceitam o desafio pacientes de doenças incuráveis que levarão à morte num prazo não muito longo ou de doenças crônicas que implicam grande sofrimento.

Os métodos
Li que havia até black blocs em São Roque — ou idiotas fantasiados de black blocs, sei lá. Ainda que fosse verdade que o laboratório estivesse a maltratar animais — o que se constatou é que tudo por lá parecia de acordo com as regras —, essa gente cometeu um crime: contra a propriedade privada, contra a ciência, contra a segurança da própria comunidade. Eles lá sabiam se poderiam liberar algum agente patogênico na sua ação troglodita?

Sou um cachorrista juramentado. Mas desconfio muito da moral e da ética de quem gosta mais de bicho do que de gente, mais de mato do que de gente, mais “da natureza” do que de gente. Olhem quantas crianças pobres estão nas ruas, pedindo para ser libertadas da indigência, das drogas, do abandono. Não estou sugerindo que esses dispostos as adotem, não. Tanto furor militante, no entanto, poderia ser usado em favor do ser humano, não contra ele.

A defesa dos animais, por meio de atos violentos, é uma das formas que tomou a militância em nosso tempo. O fim do comunismo fez um mal filho-da-mãe, acreditem!, aos hormônios da juventude. Antes, quando se tratava de mudar o mundo, pediam-se logo justiça e igualdade. Agora, exigem-se liberdade para os beagles, transporte de graça, descriminação das drogas, fim dos automóveis… A luta de classes busca um jeito de se manifestar, coitada…

Amostras que deveriam estar refrigeradas se perderam: esses obscurantistas podem liquidar num ato com anos de pesquisa

Amostras que deveriam estar refrigeradas se perderam: esses obscurantistas podem liquidar num ato com anos de pesquisa

Proposta de Código Penal
Por que afirmo que o amor excessivo aos animais pode expressar um certo desprezo pela humanidade? Lembram-se daquela comissão formada por José Sarney para revisar o Código Penal? Então. Leiam estes três artigos produzidos pelos sábios:
Artigo 132:
Art. 132. Deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao desamparo ou em grave e iminente perigo, ou não pedir, nesses casos, o socorro da autoridade pública:
Pena – prisão, de um a seis meses, ou multa.
Parágrafo único. A pena é aumentada de metade, se da omissão resulta lesão corporal grave, em qualquer grau, e triplicada, se resulta a morte.

Leiam, então, o que vai no 393
Art. 393. Abandonar, em qualquer espaço público ou privado, animal doméstico, domesticado, silvestre ou em rota migratória, do qual se detém a propriedade, posse ou guarda, ou que está sob cuidado, vigilância ou autoridade:
Pena – prisão, de um a quatro anos.

Agora, o Artigo 391:
Praticar ato de abuso ou maus-tratos a animais domésticos, domesticados ou silvestres, nativos ou exóticos:
Pena – prisão, de um a quatro anos.
§ 1o Incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos.
§ 2o A pena é aumentada de um sexto a um terço se ocorre lesão grave permanente ou mutilação do animal.
§ 3º A pena é aumentada de metade se ocorre morte do animal.

Comparem os delitos e as penas. É evidente que, nos artigos acima, uma tartaruga (também há uma aqui em casa…) ou um beagle valem muito mais do que você, leitor.

É claro que me oponho a qualquer forma de tratamento cruel dispensado aos animais. É evidente que também me chocam vídeos publicados na Internet em que pessoas aparecem espancando bichos… Mas vamos com calma. Lembro-me de um em que uma senhora, visivelmente descompensada, aparecia maltratando um cãozinho. Inaceitável, sim. Sua vida virou um inferno por algum tempo. Vá lá, aquilo não se faz. Ocorre que começou uma corrente pregando nada menos do que a… PENA DE MORTE para a dita-cuja. Outros diziam: “Sim, merece morrer”. Ou ainda: “Se estou lá, mato essa doida…”.

Um mundo em que um ser humano morto, mesmo culpado, é melhor do que um cão vivo e “inocente” é um mundo que está moralmente do avesso.

Encerro
O que vai acontecer com os invasores do laboratório? Orgulhosos de seu feito, eles posaram para fotos. Se, amanhã, eles se opuserem a testes para se chegar à vacina contra o vírus HIV, ainda assim nós os consideraremos humanistas?

E agora para encerrar mesmo: eu me opus, e me oponho ainda — para escândalo de muitos; lamento, não consegui vencer o óbice ético —, à liberação de experiências com embriões humanos. Exijo, sim, que a nossa espécie mereça, quando menos, o respeito que se vem dispensando aos animais, mas entendo que somos um pouco mais do que isso… Progressistas que são, estou certo de que os defensores de beagles acham que sou um reacionário por isso.

Por Reinaldo Azevedo

 

A Simone ficou brava e acha que devo me apresentar em lugar de um beagle. Como não sei latir nem abanar a cauda, ela me quer testando remédios

As várias faces de um cretino perigoso: este é Daniel Andreas San Diego. Ele pode matar pessoas para proteger bichos

As várias faces de um cretino perigoso: este é Daniel Andreas San Diego. Ele pode matar pessoas para proteger bichos

Ai, meu Deus!

A Internet é bacana pra caramba, né? Mas tem, como tudo, um lado chatinho. Um deles é a gente ser “descoberto” por pessoas como uma tal “Simone”, que me envia o seguinte sobre o texto que escrevi a respeito da invasão do laboratório Royal (segue como veio, com uma gramática, digamos, beagle…):

“Pois, acho que fizeram pouco e o Reinaldo é um reacionário e a grande maioria desse país são hipócritas, porque assassinar criaturas inocentes é muito fácil, quero ver fazerem isso nos seus filhos, quer cura para a sua doença, então seja cobaia desses laboratórios e se você sobreviver ao experimento, gostaria de saber como foi a experiência!!!!”

Retomo
Viram? É gente assim que os black blocs da vida mobilizam, podem crer (quando eu era criança, dizia-se “podiscrê”!).

A Simone está lá escrevendo besteiras no seu computador porque, certamente, tomou a vacinas contra pólio, a tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba), a tríplice bacteriana (difteria, tétano e coqueluche), porque toma antibióticos quando algum agente patogênico, meio atrapalhado, a confunde com um de nós…

A Simone acha é pouco. A Simone quer é quebrar mais. A Simone agora só vai se tratar com mel e própolis. Mas vai ela mesma buscar os favos, depois de convencer as companheiras abelhas.

Entendi. Já que Roberto Carlos voltou a ser comentado nestes dias, a Simone nunca mais foi a mesma depois da música que o Rei da Censura dedicou às baleais, com versos magníficos como estes:
“(…)
E as baleias desaparecendo, por falta de escrúpulos comerciais…
Eu queria ser civilizado como os animais….”

Simone já atingiu o ideal de Roberto Carlos.

Outros ainda dizem que o Royal não faz remédio coisa nenhuma. Um deles afirma se testa lá é “batom para a vaca da sua mulher”. Hein? Minha mulher usa batom. Mas tira na hora da função. Aquele coisa meio gordurenta me incomoda… “Você não gosta de batom, é?”, desconfia Paula Lavigne, a suspicaz… 

As causas têm lá seus ideólogos, sabemos. Mas só sobrevivem e se tornam populares com o concurso dos idiotas.

Gente que é contra o uso de animais pela indústria farmacêutica e por cientistas — seguindo os princípios éticos que regulam a prática, é claro — não deveria jamais tomar um remédio da chamada alopatia — incluindo a anestesia em caso de cirurgia e de tratamento dentário. Só homeopatia e hipnose.

Por que dar atenção à Simone? Porque ela é uma legião. Há questões que são complexas, admito. É difícil entender que não se deve, por exemplo, indexar salários porque a correção contínua do ganho, segundo a taxa de inflação, rouba dinheiro do trabalhador em vez de beneficiá-lo. É o tipo de coisa que contraria o senso comum. Até porque não é menos verdade que uma inflação renitente, sem correção nenhuma, também empobrece o coitado.

Mas como é que a Simone não consegue entender que ou se testam remédios e vacinas em bichos ou se os testam em seres humanos? Se a Simone não quer que seja naqueles, então será nestes. Se ela não consegue compreender isso, começo a duvidar que consiga atravessar a rua em segurança ou levar o sorvete à boca sem o risco de acertar a testa.

Sustentando-se apenas nos membros inferiores, em posição vertical, é perfeitamente possível entender que defendo, sim, o uso de animais, desde que respeitadas as regras — tudo indica ser o caso do laboratório Royal. E não defendo apenas para que eu e os meus nos livremos ou nos curemos de doenças.

Também se beneficiam as criancinhas pobres da África — que, infelizmente, arrancam menos lágrimas dos contemporâneos do que os beagles. Beneficia-se a espécie. Mas a Simone quer é quebrar mais. Com um computador na mão. Sou capaz de jurar que ela também é contra a indústria farmacêutica e o capitalismo. Sempre com um computador na mão.

Dá para entender por que Daniel Andreas San Diego é um dos terroristas mais procurados pelo FBI. Como Simone, ele também acha que a depredação de laboratórioe é pouco. Ele decidiu explodir bombas em empresas que realizam testes com animais. San Diego acha que não há mal nenhum em matar pessoas quando se trata de proteger bichos. San Diego é um humanista destes tempos animalisticamente corretos.

Por Reinaldo Azevedo

 

Parem as máquinas! Paulo Betti contra o leilão do pré-sal: “Que cena infame e vil… Meu Deus! Meu Deus! Que horror!”

Tá, eu confesso certas coisas da minha biografia. Eu sei de cor “O Navio Negreiro” desde os nove anos. Meio gordinho, de óculos, declamando “Navio Negreiro”. Eu também tirava boas notas.“Huuummm…”, dirão os inimigos. Mas nada disso deixou sequelas. Não adianta Paula Lavigne tentar arrancar alguma confissão deste escriba. Não sofria bullying. Posava de malandro driblando a vigilância da escola pra fumar. Era o meu contato com o “fundão”. “É CDF, mas fuma…” Os erros compõem nossa vida com a mesma importância dos acertos. Os meus desejos de justiça nasceram junto algum apreço pela estética, como se vê. Mudou com o tempo o meu pendor condoreiro. Mas não vou falar de poesia. É que o verso de Castro Alves pipocou na minha cabeça ao ver um sujeito se esgoelando na televisão:

“Que cena infame e vil… Meu Deus! Meu Deus! Que horror!”

Não tinha, admito, gravidade nem remotamente parecida com o “sonho dantesco” descrito por Castro Alves. Era só o ator Paulo Betti, falando em nome da FUP (Federação Única dos Petroleiros), contra o leilão do campo de Libra. É uma propaganda (“comercial”, se dizia quando eu era criança) de TV. Lá está o homem, escandindo todas as sílabas, num estilo que lembra Enéas Carneiro, mas sem barba e de topete, a anunciar que o leilão significa a entrega das nossas riquezas a estrangeiros gananciosos.

“Que cena infame e vil… Meu Deus! Que horror!”

Esse rapaz não é aquele que, em 2006, na campanha pela reeleição de Lula, referindo-se ao mensalão, deixou inscrita uma frase que jamais vai se descolar de sua biografia — na hipótese de que alguém se interessasse por ela: “Não dá para fazer [política] sem botar a mão na merda”. Ao que emendou, então, Wagner Tiso, o Espinosa dos arranjos: “Não estou preocupado com a ética do PT. Acho que o PT fez um jogo que tem que fazer para governar o país”.

Pergunta: Betti aceitou o papel “de grátis”, como diz o povo, ou houve ao menos uma ajuda de custo? Ele fala aquelas coisas vergonhosas por pragmatismo argentário ou por convicção mesmo? Uma coisa depõe contra a moral; a outra, contra a inteligência.

Só para deixar a coisa completa, leitor amigo: o diabo é diabo porque é velho, não porque é sábio. A única vantagem de envelhecer é ter uma memória mais longa — para quem a conserva. Betti era militante petista, sim, desde a década de 80. Em julho de 2001, no entanto, a Folha publicava este texto (fragmento em vermelho):

Militante devotado do Partido dos Trabalhadores desde os anos 80, o ator e diretor Paulo Betti, 48, admite votar no candidato tucano à sucessão do presidente Fernando Henrique Cardoso. Sem constrangimento aparente, Betti integrou a comitiva presidencial que ontem visitou a metalúrgica Bardella, em Sorocaba, cidade natal do ator. Betti, que capta recursos para rodar o filme “João de Camargo”, foi convidado pelo cerimonial do Palácio do Planalto.

Nas últimas três eleições presidenciais, o ator declarou apoio a Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas descartou um quarto voto no petista. “Nunca lhe neguei voto, mas Lula jamais foi assistir a uma peça minha”, afirmou. FHC também nunca o prestigiou, mas o ator considera-o mais interessado em cultura do que o presidente de honra do PT. “Com Fernando Henrique posso conversar sobre literatura, antropologia e sociologia. É chato falar com quem só se interessa por futebol”, disse.
(…)

Retomo
Cinco anos depois, lá esteve ele a fazer considerações sobre meter a mão na merda. Agora, aparece estrelando a campanha búcefala da FUP. Tudo em nome, estou certo, da literatura, da antropologia e da sociologia.

PS – Ninguém vai perguntar para Chico Buarque, Caetano Veloso e Djavan o que eles pensam sobre o leilão do Campo de Libra?

Por Reinaldo Azevedo

 

Caetano e Wagner Moura, os amiguinhos de Freixo, assinam manifesto em apoio à absurda greve comandada pelo PSOL

Querido leitor,

não tenho bola de cristal, não. “Eles” é que são muito previsíveis. Num dos primeiros artigos que escrevi sobre os censores Caetano Veloso, Chico Buarque e os amigos dos amigos, afirmei que um dos males do Brasil é tomar artistas e celebridades como pensadores. Lê-se lá:

“Por que estamos, de algum modo, surpresos com a defesa que aqueles artistas fazem da censura? Porque, no Brasil (não é só aqui, mas, por aqui, é mais!), artista logo ganha o estatuto de pensador. Mais do que isso: sua glossolalia ideológica — e eles não têm a obrigação de ser especialistas na área — logo é tomada como uma expressão de uma política alternativa. Querem um exemplo? Caetano Veloso, Chico Buarque e Wagner Moura têm uma receita para o Rio: Marcelo Freixo. Freixo é do PSOL, o partido que comanda a greve dos professores do Rio em parceria, agora admitida, com os black blocs. Boa parte da chatice de boa parte do cinema nacional decorre do fato de que cineastas costumam ter mais programas de governo na cabeça do que boas ideias para… cinema.”

Pois bem!

“Artistas” decidiram assinar um manifesto de apoio aos professores que estão em greve no Rio — uma minoria, é bom deixar claro. Entre os signatários, encontram-se os seguintes especialistas em educação e finanças públicas:
– Caetano Veloso
– Wagner Moura
– Marisa Monte
– Leandra Leal
– Fernanda Abreu
– Thayla Ayala

Tem gente aí de que nunca ouvi falar. Não sei se canta, sapateia, chuleia, caseia ou prega botão. Se o manifesto diz que existe, então acredito.

Eis aí. Caetano Censor Black Bloc e Warner Moura são propagandistas de Marcelo Freixo, do PSOL — mas ainda acabarão fechando com Lindbergh Farias, do PT. É só questão de tempo. O PSOL é quem comanda a greve dos professores, cada vez mais minoritária e radical, com o auxílio luxuoso da gangue mascarada que sai quebrando tudo por aí.

Atenção! A cidade do Rio tem hoje um dos melhores planos de carreira para professores do Brasil — se é que não é o melhor. É um escândalo, um acinte e uma violência que os sindicalistas mantenham uma greve que tem um único e real prejudicado: o aluno pobre. Os que, na lista acima, têm filhos certamente os mantêm em escolas privadas, que custam os olhos da cara. Mas sabem como é… Caetano, segundo o próprio, ainda não decidiu se é ou não anticapitalista; Moura já deixou claro que seu negócio é mesmo o socialismo…

Eis aí. Caetano, Moura e outros resolveram dar mais uma forcinha para o PSOL, que comanda a greve desastrada do Rio, a invasão da Reitoria da USP em São Paulo e compõe a ala mais, digamos, entusiasmada da greve dos petroleiros.

Aguarda-se para hoje a apoio das estrelas à invasão do Instituto Royal. Caetano está pensando se deve posar fantasiado de beagle.

Por Reinaldo Azevedo

 

Lembram-se quando o PT conseguia paralisar um leilão de privatização com uma liminar lá de Surucucu do Norte? Então…

A Advocacia-Geral da União mobilizou, informa Lauro Jardim, 300 advogados para ficar de plantão na segunda-feira, quando ocorre o leilão do Campo de Libra. Lá vou eu com as máximas de Dois Córregos, uma terra de sábios — sou apenas aprendiz: “Gato ruivo, quem usa cuida”. Significado: quem é especialista em patranha — e em petralha, emendo eu — tem mais é de se precaver, né? Qual era a tática do PT e de seus penduricalhos, como CUT, durante os leilões de privatização ocorridos no governo FHC? Entravam com uma tempestade de ações judiciais para suspender os leilões, com pedidos de liminar, em várias partes do país.

Um juiz federal de Surucucu do Norte conseguia paralisar um leilão que ocorria no Rio ou em São Paulo. Os petistas têm experiência no assunto. O governo sambou miudinho. Assim, como a gente nota, Dilma recorre às experiências vividas no governo FHC para enfrentar seus próprios companheiros de esquerda — e começou pelo mais básico: chamou o Exército.

Por Reinaldo Azevedo

 

Chico Buarque joga a toalha. Ou: “Troca” feita pelas estrelas do “Procure Saber” é pior do que as do baixo clero em Brasília

Vamos botar os devidos pingos nos “is”, não é? Como se diz lá em Dois Córregos, “quem fala a verdade não merece castigo”. Os artistas queriam mudar todo o sistema que envolve o Ecad, arrecadação de direitos autorais etc. É um direito deles. Precisavam da adesão do nome forte, do símbolo, do “primus inter pares”: Roberto Carlos. Ele topou. Mas impôs uma condição: a mobilização contra a Adin (Ação Direta de Inconstitucionalidade) que pede que o Artigo 20 do Código Civil — o que permite o veto às biografias — seja declarado inconstitucional pelo Supremo. E, bem, ele é escancaradamente inconstitucional!

Até dou de barato que, pensando no rico dinheirinho — e não há mal nenhum em querer uma justa remuneração por seu trabalho —, os medalhões não tenham se dado conta de que estavam, sim, endossando a censura. Pensaram só nos seus umbigos estrelados, como se as massas estivessem enlouquecidas, querendo saber intimidades da vida do próprio Chico, de Djavan e de Caetano Veloso.

Paula Lavigne, como é de seu estilo, logo assumiu a liderança da “batalha”, com a sua sensibilidade costumeira e os pensamentos delicados de que é capaz. Deu no que deu. O preço da adesão de Roberto Carlos à luta por direitos autorais foi, ora vejam!, a defesa da censura. Certamente o chamado “baixo claro” no Congresso é capaz de coisas mais edificantes.

Chico Buarque finge conversar só com os deuses olímpicos, mas não é burro. Percebeu o rombo que essa história está abrindo em sua reputação. Caetano Veloso vai dar combate por mais tempo. Lauro Jardim, meu colega aqui na VEJA.com, escreveu outro dia que resistiria a fazer trocadilhos com as músicas de nossos iluministas. Vou ceder à tentação. Chico agora decidiu recuar do seu “Cale-se” , que compôs em parceria com Gilberto Gil, outro proibicionista. Caetano talvez volte ao seu “É proibido proibir”. Lembrar essas coisas, com efeito, é um recurso fácil, mas confronta esses senhores com a sua própria obra e com a mensagem de “liberdade” que chegaram a encarnar. A de Chico, justiça se lhe faça, sempre foi suspeita. Não se pode ser um cubanófilo e um defensor das liberdades individuais ao mesmo tempo, não é? Chico, como sabe toda gente, é amigo dileto de um regime que prende intelectuais, que prende jornalistas, que prende homossexuais, que prende pessoas por delito de opinião. Assim, a liberdade não é, para ele, o que é para um liberal, por exemplo: um valor inegociável, acima da justiça. E está acima da justiça por uma razão singela: com liberdade, pode-se reivindicar justiça. Os estados autoritários pretendem inverter essa lógica: oferecem a sua noção particular de justiça desde que o indivíduo abra mão de sua liberdade.

A Folha publica na edição desta sexta uma entrevista sua, concedida a Lucas Neves, em Paris. Destaco alguns trechos de sua fala. Volto em seguida.
“Posso não estar muito bem informado sobre as leis e posso ter me precipitado, mas continuo achando que o cidadão tem o direito de não querer ser biografado, como tem o direito de não querer ser fotografado ou filmado.”
“Me pareceu [ênfase] que era um direito. E parece que não. Então tá bom: então vai se criar um outro tipo de situação. As biografias serão automaticamente liberadas, e os biografados poderão recorrer à Justiça para receber uma indenização que parece que não é significativa. Ou, quem sabe, para até retirar o livro de circulação.”
“[No caso do Roberto] Ele pode não querer que se fale de um casamento, de algum problema da infância. São problemas que não são levados pelo artista ao público, que ele toma o maior cuidado,quer preservar para si. Acho respeitável. Agora, se a lei tá errada, se eu tô errado, tudo bem. Perdi.”

Comento
Sim, está terrivelmente desinformado. Em todas as democracias do mundo, inclusive na França, onde ele de fato mora, inexistem mecanismos de censura prévia, como há no Brasil. E os autores de biografias respondem na Justiça por eventuais danos que possam causar à imagem dos biografados.

No fim das contas, aquele que é tido por alguns como o grande pensador brasileiro agora dá de ombros para a questão e faz de conta que estava num jogo de pelada com seus amigos. Em pauta, nada menos do que a liberdade de expressão no país. Banal e irresponsável.

Por Reinaldo Azevedo

 

Paula Lavigne para Dilma Rousseff!

A presidente Dilma não gostaria de contratar Paula Lavigne como marqueteira de sua campanha? Estou na maior torcida! A contribuição desta senhora em favor da boa causa é estupenda! Ninguém, como Paula, conseguiu provar que Paula estava errada, prestando, assim, um enorme serviço à verdade. Na campanha de Dilma, seria um golaço da oposição!

Por Reinaldo Azevedo

 

A larga estupidez de Paula Lavigne no “Saia Justa”

O programa “Saia Justa”, do GNT, convidou a empresária Paula Lavigne, presidente (!) do grupo “Procure Saber” e ex-mulher de Caetano Veloso, para falar sobre a polêmica das biografias. Quem assistir ao programa verá que esta senhora não sabe o que fala. A sua ignorância só não supera a sua arrogância e a sua truculência. Entre outras bobagens, tratou como valores equivalentes um artigo do Código Civil, o 20, que permite que biografados ou seus familiares interditem um livro, e os artigos 5º e 220 da Constituição, que asseguram a liberdade de expressão e vetam qualquer forma de censura. Ora, só existe uma Ação Direta de Inconstitucionalidade no STF porque se aponta justamente a inconstitucionalidade desse Arrigo 20. Se assim decidirem os ministros do Supremo, fim de papo. Para ser didático, dona Paula: a Constituição pode declarar sem efeito um dispositivo do Código Civil, mas um dispositivo do Código Civil não pode declarar sem efeito uma garantia constitucional. Entendeu ou quer um desenho?

O debate prosseguia. Paula tentava desesperadamente arrumar um argumento. Dizia que ela e seu grupo estavam injustamente sendo acusados de censores, sem conseguir explicar, no entanto, por que aquilo que defendem não é, afinal de contas, censura. Pouco se lhe dá que a tal lei impeça, como tem impedido, de se contar parte da história do Brasil e que inexista restrição parecida em qualquer democracia do mundo. E daí? O Brasil atrasado pode lhes parecer um bom lugar quando se trata de defender o que consideram seus próprios interesses.

A jornalista Barbara Gancia é uma das integrantes do “Saia Justa”. Fez o que as pessoas razoáveis fazem nas democracias. Combateu a censura, citou os dispositivos constitucionais e lembrou que existem leis para punir abusos. Sem saída, Paula Lavigne apelou.
— Barbara, você é gay assumida, né?
— Sou.
— Qual é o nome da sua namorada?
— Marcela.
— Ela não vai se ela vai se sentir bem vendo eu perguntar isso, é disso que estou falando, você não está entendendo na teoria e agora viu na prática como é ruim ter a privacidade invadida!.

Retomo
Paula Lavigne é vulgar e preconceituosa. E o é, como diz uma das minhas filhas, num “nível novo”, que pode escapar a uma análise mais ligeira. Vamos lá. Agora parte da minha biografia: Barbara é minha amiga há 21 anos. Nunca escondeu o que não tinha de ser escondido. Nesses anos, jamais vi alguém, por mais que a detestasse ou que estivesse furioso com suas opiniões, recorrer à sua sexualidade para tentar vencer o debate, como se fosse um argumento eficiente. Querem a evidência incontornável de que se tratou de preconceito? É simples: se Barbara fosse heterossexual, o diálogo seria impossível, não é? Imaginem:
— Barbara, você é heterossexual assumida, né?
— Sou.
— Qual é o nome do seu namorado?
— Paulo.
— Ela não vai se ele vai se sentir bem vendo eu perguntar isso, é disso que estou falando, você não está entendendo na teoria e agora viu na prática como é ruim ter a privacidade invadida!.

É asqueroso! No mundo de dona Paula Lavigne, os gays devem ser menos livres para ter opiniões do que os heterossexuais, ou ela logo quer saber qual é o nome do “namorado” ou da “namorada”… O mais patético é que Barbara respondeu o que lhe foi perguntado sem constrangimento, mas Paula insistiu em ver ali a suposta violação incômoda de uma intimidade — violação que não havia porque não se cuidava de nenhuma informação secreta. Mas ainda não cheguei ao fundo do pântano ético desta senhora.

Digamos, só para efeitos de pensamento, que a homossexualidade de Barbara fosse um segredo guardado a sete chaves, bem como o nome da sua namorada. Ora, quem é que estava a falar no programa como a guardiã do “direito à intimidade”? Entendo. Paula só estava tentando ser didática e sagaz.

Não é a primeira vez
Trinta anos depois, essa gente aprendeu muito pouco. Em 1983, furioso com uma crítica que Paulo Francis lhe fez, Caetano, ex-marido de Paula Lavigne e um dos entusiastas da censura, chamou o jornalista de “bicha amarga” e “bonecada travada”. Nos recentes embates que tive com ele, lembrei a baixaria. Caetanotentou se explicar, e a emenda saiu bem pior do que o soneto. Segundo disse, a parte negativa da caracterização era “travada”, não “bicha”. Ah, bom! Paula Lavigne acha que Barbara Gancia não poderia jamais ter aquela opinião sendo gay. E Caetano acha que uma bicha só é digna se for “destravada”. Poderia ser dito de outro modo: “Já que é bicha, que seja destravada”. Não sei se ele tem exigências também voltadas os heterossexuais.

O mesmo Caetano, descontente com um texto de Mônica Bergamo, colunista da Folha, sobre autorização para Maria Bethania captar patrocínio pela Lei Rouanet, resolveu especular sobre a vida privada da jornalista, acusando-a de “parceira extracurricular” com um colega. Escrevi sobre o despropósito. A Lei Rouanet é um instrumento público de fomento à cultura. Saber quem tem e quem não tem acesso à vantagem é de interesse do conjunto dos brasileiros. Mas o cantor tomou a coisa como pessoal. E ainda escreveu: “Pensam o quê? Que eu vou ser discreto e sóbrio? Não. Comigo não, violão.” Em suma: Caetano acha que não precisa “ser discreto e sóbrio” com a vida de pessoas privadas, mas quer uma lei que censure a biografia de pessoas públicas.

Num embate recente com Mônica no Twitter, Paula Lavigne mandou ver esta delicadeza:

Paula Lavigne Mônica Bergamo

Ela se desculpou, e parece que a jornalista aceitou as desculpas. Não estou aqui a tomar as dores de ninguém. Mônica sabe se defender — assim como Barbara. Estou é evidenciando um estilo.

Sei o quanto me custa de aporrinhação e de xingamentos os mais estúpidos as críticas que faço á chamada “Lei que pune a homofobia”. Trata-se, em muitos aspectos, de mais uma agressão à liberdade de expressão sob o pretexto de defender uma minoria. Precisamos é que as leis que existem para punir todas as formas de agressão sejam devidamente aplicadas. E com celeridade — inclusive as que coíbem os crimes contra a honra.

O que me espanta ao relatar esses casos é ver a ligeireza com que esses “descolados” — que jamais serão chamados de “homofóbicos” — podem recorrer à sexualidade desse ou daquele ou a supostos aspectos da vida privada de desafetos para tentar vencer um debate sobre temas que são de interesse público. Se há coisa que não me interessa — e desconfio que interesse a bem pouca gente — é a vida venturosa de Caetano Veloso, de Djavan ou de Chico Buarque. Espantoso é que esses senhores, sob o pretexto de preservar a sua intimidade, defendam uma lei já tornada obsoleta pela Constituição, que permite, e isto é inegável, até a censura prévia.

Paula Lavigne, no seu estilo sem limites, em conversa com O Globo, afirmou que Barbara teria pedido ao GNT que cortasse trechos do programa. Estranhei. Telefonei para Barbara.
— Você pediu isso?
— Reinaldo, eu vou fazer uma cópia da mensagem que enviei ontem para a Mariana Koehler, que é a diretora do Saia Justa.
Minutos depois, chegava ao meu celular a mensagem que Mariana recebeu na noite de terça-feira. Assim:
“Bom dia, flor:
Não se preocupe comigo na hora de editar, tá tudo tranquilo, faça o que for melhor pro programa. Confio 100% no seu bom senso. Manda bala e vamos em frente!”

É MAIS SEGURO PARA A HUMANIDADE QUE PAULA LAVIGNE TENTE CENSURAR BIOGRAFIAS. IMAGINEM SE ELA FOSSE UMA BIÓGRAFA…

Encerro lembrando que esses patriotas costumam reclamar ainda da imprensa brasileira. Com raras exceções, o jornalismo que se pratica no Brasil preserva, sim, a intimidade de personalidades públicas — inclusive dos artistas. É claro que, de vez em quando, aparecem um Lula ou outro para protestar. O agora ex-presidente ficou furioso quando a imprensa noticiou que a Gamecorp, empresa de Lulinha, um de seus filhos, recebeu um aporte de R$ 5 milhões da então Telemar. Segundo o petista, tratava-se de “assunto privado”. Errado! A Telemar era detentora de uma concessão pública e tinha como sócio o BNDES. Se ela dá dinheiro para a empresa do filho do presidente da República, a notícia é do interesse de todos os brasileiros.

Lula, Chico Buarque e Caetano Veloso acham que biografia boa é biografia autorizada. Estão a um passo de achar que jornalismo bom é jornalismo autorizado.

Se não é assim, Paula Lavigne logo pergunta:
— Você é gay, né?

Texto publicado originalmente às 5h26

Por Reinaldo Azevedo

 

A covardia de Chico Buarque: quando não restar mais nenhum argumento, ataque a Globo. Os idiotas costumam zurrar de satisfação!

Este post tratará da incrível covardia intelectual de Chico Buarque e demonstrará o truque vigarista a que recorre para defender um ponto de vista autoritário, estúpido. Mas, antes, é preciso fazer algumas considerações.

Chico não é tema novo neste blog. Por ocasião do Prêmio Jabuti, que ele costumava ganhar por inércia — não escrevia o melhor romance, mas o melhor livro… —, a coisa pegou fogo. Sei o quanto me custou o embate. Os “amigos de Chico”, que formam uma verdadeira legião, poderosa como os demônios, estão em toda parte e tentaram me esmagar. Mas, como diria Lula, tenho o couro duro (ele, na verdade, falou “casco”; cada um na sua, né?). A coisa, no entanto, era de tal sorte ridícula que o Prêmio Jabuti mudou, conforme, diga-se, eu defendia. Agora, o “melhor livro” tem de ser escolhido entre os melhores de cada categoria. O debate não era literário. Nada tinha a ver com a qualidade do escritor Chico Buarque, embora eu considere sofrível a prosa do bom letrista. Um dos que saíram em sua defesa foi Caetano Veloso, num texto em que me chamou de “Ronaldo Azevedo”. Respondi. Agora, os dois estão juntos numa nova empreitada: em defesa da censura prévia.

Sim, Caetano é aquele senhor que se fantasiou de black bloc e posou para um fato. Em texto, chegou a dizer que eles “fazem parte” — preferiu omitir o complemento nominal, no seu estilo “cogitus interruptus”. Andamos batendo boca. Ele lá no Globo. Eu aqui. De novo, não se cuidava da qualidade do seu trabalho. Gosto de várias músicas de Caetano. Com o tempo, tornou-se um grande cantor. O talento para isso e aquilo não torna os artistas imunes à crítica quando decidem dar opinião fora da sua especialidade. A opinião estupida sobre isso e aquilo, igualmente, não compromete a qualidade de sua obra. Não acho Chico um péssimo romancista porque ele se diz de esquerda. Não gosto é daquela dita “prosa poética”, mas esse particular não tem importância agora.

Não pretendo usar a questão da censura para demonstrar que eu estava certo nos embates que mantive com ambos no passado. A defesa que a dupla passou a fazer da censura expõe, no entanto, a bolha de alienação da realidade e, sim!, de autoritarismo em que viviam. Ai de quem, pouco importava o tema, se atrevesse a contestá-los. Como dois aiatolás do pensamento, expediam as suas fatwas — especialmente Caetano, que é mais histriônico, mas, à sua maneira, intelectualmente mais honesto. Chico costuma arrumar alguns braços que dão porradas em seu lugar. É mais sorrateiro, como constatei no caso do Prêmio Jabuti.

O adversário de qualquer um deles, pobrezinho!, quase sempre estava fadado ao ridículo. Ou lhe pespegavam a pecha de ressentido e invejoso ou, como aconteceu comigo, de “reacionário” e “direitista”. Logo, se alguém é uma dessas duas coisas, ou as duas, como pode estar certo? Ainda que sustente que dois mais dois são quatro, deve haver algo de suspeito nisso. Afinal, se a matemática, para a direita e para a esquerda, segue sendo a mesma, resta no ar a suspeita da trapaça, não é mesmo?

Nesse episódio lamentável da defesa que passaram a fazer da censura, há, sim, aspectos positivos. Em primeiro lugar, essas estrelas colaboraram para dar ao caso uma visibilidade que, de outro modo, talvez não tivesse — em parte, devemos ser gratos à espantosa inteligência de Paula Lavigne e à elegância com que argumenta. Em segundo lugar, consolida-se uma verdade, na contramão de uma estupidez que sempre me incomodou no país: nossos artistas não devem ser tomados como nossos filósofos; menos ainda como nossos guias morais. Devemos amá-los, detestá-los ou ignorá-los por aquilo que produzem. Em terceiro lugar, sólidas reputações do chamado “progressismo” deixaram finalmente claro que mundo têm em mente e qual seu horizonte de uma sociedade livre. Tudo isso, creio, pode ser didático. Em quarto lugar, e agora falo de um ambiente que conheço mais de perto, noto que caiu a ficha, como se diz, de muitos jornalistas, que integravam a turma do gargarejo dessas celebridades-intelectuais. É bem verdade que já existem por aí candidatos a ocupar, no futuro, o lugar dos aiatolás atuais. Wagner Moura será, um dia, como Chico Khomeini e Caetano Khamenei. Se o ator diz que o PSOL é legal, a despeito do desastre que essa gente produz na educação da cidade do Rio, os socialistas da Zona do Sul, com vista para o mar, não ousam contestar. Se preciso, ajoelham-se diante da figura do deputado estatual Marcelo Freixo, o que vê o caos passar na janela e dá uma de Carolina, como se seu partido não fosse um dos promotores da desordem.

Muito bem. Começo a voltar da digressão que fiz. Chico Buarque escreveu um artigo no Globo em que faz a defesa escancarada da censura, expondo experiências pessoais que, segundo se entende, devem ser tomadas como argumentos. Chega a ser constrangedor. Não há ali uma só ideia que possa ao menos ser combatida porque não há ideia nenhuma. O texto vai se desenvolvendo em torno do nada. Aí lhe bateu uma iluminação: “Por que não atacar a Globo no jornal o Globo?” Além de mostrar a sua suposta independência, desperta a solidariedade dos estúpidos, num momento em que os defensores da censura estão perdendo a batalha.

Escreve ele:
“Nos anos 70 a TV Globo me proibiu. Foi além da Censura, proibiu por conta própria imagens minhas e qualquer menção ao meu nome. Amanhã a TV Globo pode querer me homenagear. Buscará nos arquivos as minhas imagens mais bonitas. Escolherá as melhores cantoras para cantar minhas músicas. Vai precisar da minha autorização. Se eu não der, serei eu o censor.”

Retomo
No mundo inteiro, inexiste uma emissora do tamanho e da importância relativa da Globo que esteja tão à esquerda, qualquer que seja o tema. Trata-se, obviamente, da esquerda aggiornada, que deixou o socialismo pra lá. Nem a China se preocupa mais com isso, certo? Cuida-se hoje é da chamada esfera de valores. A emissora fez uma cobertura absolutamente simpática aos movimentos de rua; adere, sem recusar o proselitismo, a todas as causas das minorias (nas novelas, programas de entretenimento e jornalismo) e trata com franca hostilidade opiniões consideradas “conservadoras” ou “reacionárias”. Suas novelas esbarram no mau gosto do didatismo à moda realismo socialista — mas, reitero, com esse viés inclusivo. Ou não se viu até merchandising pró-aborto e contra a internação de viciados na novela das 21h? Para arremate, não custa lembrar que as Organizações Globo tornaram público um mea-culpa pelo apoio dado à ditadura militar.

Cadê a Globo “reacionária”? Ocorre que esse fantasma precisa existir para que os pterodáctilos tenham uma causa. Se não for para controlar a Globo, “controlar a mídia” por quê e para quê? Aliás, desconfio que, sob o comando petista, ela seria um tantinho mais, como direi?, conservadora. Ocorre que atacar a emissora é o último refúgio de quem já não tem mais argumento.

Desculpas a peso de ouro
Se é verdade que houve o tal banimento de Chico da Globo na década de 70 (não pesquisei para saber se a emissora se redimiu disso também), cumpre observar, então, que, antes de pedir desculpas pelo apoio dado à ditadura, a empresa pediu desculpar ao próprio Chico. E na forma de um contrato que, à época, se dizia milionário. Refiro-me ao programa “Chico & Caetano”, que foi ao ar entre e 25 de abril a 26 de dezembro de 1986, com roteiro do sempre excelente Nelson Motta.

Chico Buarque poderia ter dito um sonoro “não” ali, não é mesmo? Afinal de contas, tecnicamente, o Brasil ainda era um ditadura — a mesma ditadura, mas já esculhambada, por cujo apoio a Globo se penitenciou depois. Mas ora, ora… Ao “esquerdista” Chico pareceu, certamente, inteligente e útil ter um programa no horário nobre da emissora. Os vídeos estão no Youtube. Abaixo, segue o do primeiro, a que vocês poderão assistir mais tarde se quiserem.

Caetano canta, a partir dos 6min35s, uma de suas mais belas canções: “Milagres do povo”. Há lá coisas como:
“Quem é ateu e viu milagres como eu
Sabe que os deuses sem Deus
Não cessam de brotar, nem cansam de esperar
(…)
E o povo negro entendeu que o grande vencedor
Se ergue além da dor
(…)”

Há Nietzsche e Fernando Pessoa misturados aí. Como há Shakespeare diluído em “Pedaço de mim”, de Chico, como me alertou meu amigo Carlos Marchi. Querem ver (não está no vídeo acima)?
Chico
“Leva o vulto teu
que a saudade é o revés de um parto,
a saudade é arrumar o quarto
do filho que já morreu.”

Shakespere
“Grief fills the room up of my absent child,
Lies in his bed, walks up and down with me,
Puts on his pretty looks, repeats his words,
Remembers me of all his gracious parts,
Stuffs out his vacant garments with his form.”

Ou
“Dor enche o quarto de meu filho ausente,
deita em sua cama, anda a meu lado,
sua graça assume, sua fala repete,
me faz lembrar todos os seus encantos,
preenche as roupas ocas com sua forma.”

Que grande e notável pensador se saiu este rapaz! Com a censura ainda em funcionamento, aceitou um programa na Globo e deixou para trás as suas mágoas. Aos comunistas amigos, deve ter deixado claro que, como é mesmo?, não “era pelos 20 centavos”, mas em nome da causa. Em 2013, com o Brasil vivendo, a despeito das suas convicções, é bem verdade, uma democracia plena (ele gosta é do regime cubano), este senhor vem brandir o fantasma de uma Globo que já não existe para defender um procedimento, a censura, que era uma das marcas justamente daquele regime de exceção contra o qual ele criou algumas metáforas.

Chico & Caetano poderiam ter continuado a, deixem-me ver como escrever, verter Pessoa, Nietzsche e Shakespeare também para quem sabe assoviar. Em vez disso, resolveram defender a censura virtuosa. Há de pesar em suas respectivas biografias. 

Texto publicado originalmente às 2h38

Por Reinaldo Azevedo

 

Durou pouco. Eu sabia. Os baderneiros do Rio já estão à solta. Lei existe! O que falta é coragem. Ou: Querem provar que certos estão os que mandam as lei à “zerda”

Lá vou eu com mais uma dos dois-correguenses. Não dou ponto sem nó. Quando defendi que os bandidos mascarados que são presos fossem enquadrados na Lei de Segurança Nacional, sabia que a acusação de crime de “formação de quadrilha ou bando” dificilmente é aceita pelos juízes. Fica fácil descaracterizar: “Senhor Bandoleiro 1, Vossa Senhoria (canalha que depreda bens públicos e privados merece respeito no Brasil) conhece o Senhor Bandoleiro 2, o Senhor Bandoleiro 3 e o Senhor Bandoleiro N?”. Não, meritíssimo! Ele não conhece. Não, meritíssima, eles não se conhecem. Eles só se juntam para quebrar tudo a cada manifestação. O conluio se dá de outra maneira. Não há propriamente uma organização. “Então está todo mundo solto.”

E assim será. De volta às ruas, na próxima manifestação, o 1, o 2, o 3 e o N se juntam de novo. Mas, claro!, eles não formam uma quadrilha. São, como diria o poeta Gonçalves Dias em “I Juca Pirama”, apenas “troços guerreiros” (atenção: lê-se “trôço”, com o “o” fechado”; não digo o que é; quem consultar no dicionário não esquece mais). Leiam trecho do que informa a Folha Online. Volto em seguida.
*
Após determinar a liberação de 22 pessoas presas na manifestação da última terça-feira no Rio, a Justiça mandou soltar mais 31 pessoas na tarde desta sexta-feira (18). Com a decisão sobe para 53 o número de manifestantes presos e autuados no crime de formação de quadrilha que tiveram liberdade concedida. Todos são maiores de idade.

A juíza do caso, que antes havia endurecido e substituído a prisão dos acusados de flagrante para provisória, voltou atrás e determinou a liberdade dos 31 presos. Em sua decisão, publicada na tarde desta sexta-feira, a juíza Cláudia Pomarico, da 21ª Vara Criminal, afirmou que não é possível provar que os presos formavam de fato uma quadrilha e nem que tenham sido eles os responsáveis por depredações verificadas durante a manifestação.

“A lei e a jurisprudência exigem que se tenham indícios suficientes de autoria e materialidade para a conversão da prisão em flagrante em preventiva. A materialidade pode se encontrar fundamentada nos danos sofridos pelos patrimônios públicos e particulares. Porém, a autoria está esvaziada, na medida em que não se pode afirmar coerentemente que as pessoas detidas foram as responsáveis pela prática dos crimes noticiados. Diga-se ainda que aos detidos foi imputado o crime de associação criminosa, previsto no artigo 288, paragrafo único, do código penal. Tal delito não se pode comprovar numa situação flagrancial, pois para sua prática exige-se estabilidade e ato isolado não configura estabilidade, tampouco vínculo entre os associados e permanência”, afirma a juíza.

Na quinta-feira, outra juíza já havia determinado liberação de outros 20 presos autuados em flagrante por formação de quadrilha, dano ao patrimônio público, roubo e incêndio. Daniela Alvarez Prado, juíza da 35ª Vara Criminal, interpretou que, por não terem antecedentes criminais e pelo fato de a polícia não ter explicado em detalhes nos autos do processo quem teria cometido qual crime, eles não deveriam permanecer presos.

“Em prestígio aos princípios fundamentais constitucionais do direito à liberdade e da presunção de inocência, tão caros a um Estado de direito democrático, o processo penal pode seguir seu rumo respeitando a instrução e o resultado final sem implicar na máxima agressão que é o aprisionamento”, afirma a magistrada no despacho.

Os presos que agora tiveram liberdade decretada fazem parte do grupo que foi preso nas escadaria da Câmara Municipal por volta das 23h30 da terça-feira. Um cerco policial deteve todos que estavam na escadaria. A reportagem estava presente no momento da detenção. As pessoas que estavam nas escadarias não participavam de depredações no momento da detenção. Os detidos na ocasião formaram dois grupos, levados para duas delegacias diferentes em ônibus da polícia.
(…)

Voltei
Existe algo de errado com leis que permitem que gente assim fique solta? Acho que sim. É o que dizem o bom senso e o senso comum. Mas há uma penca de doutores a afirmar que não, né? Como o Brasil, com o concurso desses sábios, é o paraíso da justiça, então eles devem estar certos…

A cada dia, tenta-se provar por A mais B que, no país, agem bem os que mandam as leis à zerda.

Por Reinaldo Azevedo

 

Tribunal nega prisão imediata no caso PCC; associações de juízes criticam o que chamam “pressão”

Leiam o que informam Chico Siqueira, Luciano Bottini Filho e Marcelo Godoy, no Estadão Online. Voltarei ao tema de madrugada.
O desembargador Ivan Marques, da 2.ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça (TJ), negou nesta quinta-feira, 17, o recurso que garantiria a decretação imediata da prisão preventiva dos 175 denunciados pelo Ministério Público Estadual (MPE) como integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC). Os promotores pediram a decretação da prisão dos investigados, até porque 62 deles estariam em liberdade e cometendo crimes para a facção. A Justiça, no entanto, entendeu que não havia urgência na medida.

Com a recusa de conceder efeito imediato ao pedido do MPE, a Justiça agora deve demorar meses até uma nova análise do pedido de prisão preventiva dos acusados – o que só vai ocorrer quando o TJ julgar o recurso em sentido estrito apresentado pela promotoria. As reiteradas decisões do Judiciário de negar a decretação preventiva dos acusados flagrados na megainvestigação que durou três anos e meio e mapeou o crime organizado em São Paulo abriram uma crise entre os juízes e os promotores paulistas.

Cerca de 200 juízes, de diversas comarcas do Estado, assinaram uma “nota de apoio” ao juiz Thomaz Correia Farqui, da 1.ª Vara de Presidente Venceslau. Farqui foi o juiz que rejeitou o pedido de prisão. Após a publicação do caso, o juiz e seus familiares passaram a ser hostilizados nas redes sociais. Promotores de Justiça criticaram a decisão do magistrado. A Associação Paulista dos Magistrados (Apamagis) e a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) também divulgaram notas de apoio ao juiz.

“É uma pressão indevida sobre o juiz. Os instrumentos democráticos foram utilizados no julgamento e não cabe a promotores decidir sobre pedidos de prisão”, disse o juiz Renato Soares de Melo Filho, um dos magistrados que assinaram a nota. Nela, eles denunciam “a utilização de meios indiretos de pressão sobre juízes para que decidam de acordo com um ou outro interesse de relevo, bem como com a tentativa de depreciação de juízes que decidam o contrário a tais interesses”.

O presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), Nelson Calandra, divulgou nota na qual diz que “a AMB repudia quaisquer atitudes tendentes a causar clamor social para coagir ou constranger um magistrado no seu livre convencimento, com tentativas de desacreditar decisão judicial fundamentada e estritamente técnica, proferida no exercício da independência funcional do Magistrado”. Em outra nota, a Apamagis diz que o juiz foi vítima de “ataques virulentos” e que aos juízes que decidiram sobre a questão “seria cômodo e fácil jogar para a plateia, agindo de acordo com a vontade popular”.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

 

No país do PCC, do Comando Vermelho e dos 50 mil homicídios por ano, tenham mais cuidado com o justo medo da população, senhores juízes!

A Justiça de São Paulo, por intermédio do desembargador Ivan Marques, da 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça (TJ), negou o recurso que garantia a decretação imediata da prisão preventiva de 175 pessoas denunciadas pelo Ministério Público como membros do PCC. Até que a questão possa ser examinada de novo, podem se passar alguns meses. Nas redes sociais, a Justiça está levando muitas bordoadas. As associações de juízes, todas de caráter sindical, reagiram. Já volto ao ponto. Antes, algumas considerações.

Pode haver gente que repudie tanto quanto repudio a ação populista de juízes; mais do que eu, acho difícil. Nestes dois últimos dias, por exemplo, afirmei que a tentação de ceder ao clamor não exatamente das ruas, mas de minorias organizadas, havia chegado ao STF. Censurei duramente o ministro Luiz Fux por ter concedido uma liminar contra a suspensão do pagamento de professores grevistas da rede estadual do Rio. Também lamentei que uma juíza tivesse declarado sem efeito a sessão da Câmara de Vereadores que aprovou o plano de carreira dos docentes cariocas — liminar já cassada. Reagi com estupefação ao meritíssimo que negou liminar de reintegração de posse da Reitoria da USP, invadida a marretadas por vândalos disfarçados de alunos. Estudante usa caneta. Para escrever, não para furar o olho da legalidade democrática.

São apenas três exemplos de uma série de decisões polêmicas, que me parecem tendentes a ajustar as leis ao berreiro da militância. E, ainda que isso me faça um conservador empedernido (que bom!), acho que, na democracia, o berreiro militante é que tem de se ajustar à lei — se não for boa, que se organizem para mudá-la. Muito bem! Dito isso, faço agora uma distinção fundamental: uma coisa é juiz ceder a pressões, o que não deve fazer; outra, muito distinta, é achar que as pressões, exercidas nos marcos do regime democrático, são inaceitáveis. Aí não! Aí não dá! Aí os senhores juízes hão de me perdoar, mas preciso lhes fazer uma recomendação elementar: acostumem-se a viver numa democracia. Antes de voltar ao ponto inicial, uma segunda consideração que me parece relevante.

Confesso que tenho certa dificuldade de admitir que um juiz possa pertencer a um sindicato — ainda que esse ente venha na forma de uma associação. O Judiciário tem, na prática, a última palavra. Os meritíssimos têm de ancorar as suas decisões em códigos legais, mas sabemos o que pode a largueza interpretativa. Há sempre um quê de necessariamente discricionário no voto ou na decisão de um juiz, não é mesmo? O direito não é uma ciência exata. Quando um juiz integra uma associação, isso me causa um incômodo intelectual, ainda que possa entender seus motivos. Como pode ser um “coletivo” quem, por natureza, deve atender apenas ao apelo da própria consciência — sempre tendo as leis como guia? Mas as associações existem, estão por aí aos montes. Há até uma que se intitula “Juízes pela Democracia” — como se pudesse haver uma pela ditadura…

De volta ao PCC
Leio no Estadão:
“As reiteradas decisões do Judiciário de negar a decretação preventiva dos acusados flagrados na megainvestigação que durou três anos e meio e mapeou o crime organizado em São Paulo abriram uma crise entre os juízes e os promotores paulistas. Cerca de 200 juízes, de diversas comarcas do Estado, assinaram uma nota de apoio ao juiz Thomaz Correia Farqui, da 1ª Vara de Presidente Venceslau. Farqui foi o juiz que rejeitou o pedido de prisão. Após a publicação do caso, o juiz e seus familiares passaram a ser hostilizados nas redes sociais. Promotores de Justiça criticaram a decisão do magistrado.”

Pois bem. A Associação Paulista dos Magistrados (Apamagis) e a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) divulgaram notas de protesto em defesa do juiz. Também o presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), Nelson Calandra, se manifestou: “A AMB repudia quaisquer atitudes tendentes a causar clamor social para coagir ou constranger um magistrado no seu livre convencimento, com tentativas de desacreditar decisão judicial fundamentada e estritamente técnica, proferida no exercício da independência funcional do Magistrado”.

Pois é…

As notas de repúdio são dirigidas, num primeiro momento, ao Ministério Público Estadual. Alguns de seus membros expressaram inconformismo, mas sem muito alarde. O troço pegou fogo mesmo foi nas redes sociais. Há coisas que as pessoas comuns — as que acordam cedo todos os dias, trabalham, recolhem impostos e pretendem voltar em segurança para as suas respectivas casas — não entendem. Por que se recusa, por exemplo, uma operação de busca e apreensão na casa de alguém flagrado ao telefone operando para o partido do crime? Deve haver alguma razão técnica para isso. Mas sabemos que nessa ciência não exata do direito, pode haver “motivo técnico” tanto para uma coisa como o seu oposto. Assim, contra o crime organizado, entendo que o dever moral é tomar a decisão que proteja a sociedade. O caso dos embargos infringentes deixou isso tudo muito claro.

As manifestações dessa pletora de associações de juízes não se voltam apenas contra o inconformismo de promotores. Elas parecem querer esconjurar também os protestos das pessoas nas redes sociais. Ai não dá! Há 50 mil homicídios por ano no Brasil, senhores juízes. O crime dá mostras de que está sempre muitos passos à frente da polícia e da própria Justiça — que é, sim, lenta. É normal e, mais do que isso, desejável que os brasileiros manifestem o seu inconformismo.

Não endosso, é evidente, pressões e fulanização. Se o juiz foi hostilizado, é lamentável. Ocorre que a organização criminosa está aí, tentando ditar ordens para as autoridade e fazendo ameaças. Ainda que juízes não tenham sido eleitos pelo povo, também têm um caráter representativo, não é? Eles existem para que a gente não tenha de resolver tudo no braço.

Eu lamentei, por exemplo, profundamente o conteúdo do voto de Celso de Mello, decano do Supremo, no caso dos embargos infringentes. Mas aquela é a maneira como ele entende que deva ser exercido o aparato legal, e não há o que fazer a respeito. O que repudiei no seu voto foi menos o conteúdo do que o tom. Celso de Mello chamou de “pressão inaceitável” o que era nada além de direito democrático: discordar da decisão de um juiz. Nas democracias, decisões judiciais têm de ser cumpridas. Mas só as ditaduras proíbem que sejam debatidas. Ou por outra: no regime democrático, decisão judicial se cumpre e se discute.

Em vez de se perderem em bate-bocas infrutíferos, as associações de juízes poderiam ajudar a esclarecer onde exatamente está o defeito da denúncia dos promotores, que impede que se decrete a prisão preventiva dos que foram acusados de pertencer ao PCC. A investigação está malfeita? Houve algum erro formal incontornável? As evidências colhidas impedem que se aplique esse recurso? O mal de entidades de caráter sindical é que a “luta” sempre assume uma perspectiva corporativista, deixando de lado o principal. As evidências que vieram a público contra muitos denunciados parecem bastante fortes. Então não são? Isso tudo é coisa de leigos? Devemos entender de modo diferente aqueles diálogos ao telefone? Qual é o ponto? Não há mal nenhum no fato de a sociedade querer entender. Ou há?

Juiz não tem de ser satanizado, demonizado, fulanizado, pressionado, nada disso… Mas que os juízes sindicalistas tenham em mente que, na democracia, a expressão do inconformismo é só o exercício de um direito. Os meritíssimos são e devem ser livres para julgar. Mas o indivíduo, que paga a conta e em nome do qual eles exercem a sua função, não só pode como tem a obrigação de dizer o que pensa.

Descabido, nesse caso, é censurar uma população acuada por 50 mil homicídios por ano.

Por Reinaldo Azevedo

 

Dilma repete FHC e faz a coisa certa: com greve dos petroleiros, chama o Exército, agora para garantir leilão do pré-sal

Pois é… Tudo conforme o óbvio. FHC convocou o Exército em 1995 porque refinarias estavam ocupadas, e o país estava ameaçado de paralisia, com crise de abastecimento etc (ver post anterior). Hoje em dia, estamos ainda longe disso. Mas há o leilão do campo de Libra na próxima segunda. Os petroleiros ameaçam impedir a sua realização, o que seria muito ruim para o Brasil e para a Petrobras. E Dilma fez o quê? Ora, repetiu o FHC de 1995 e decidiu chamar o Exército para garantir a segurança do leilão.

Nunca elogio Dilma? Olhem que mentira! Estou elogiando agora. A presidente fez a coisa certa. Dado o clima que anda por aí, com amplos setores da imprensa e da Justiça flertando com a bagunça e chamando quadrilheiros e bandos de “manifestantes”, chamar o Exército é só uma questão de prudência.

 

Informa a VEJA Online:
Para garantir a realização do leilão da área de Libra, na segunda-feira, o governo federal encaminhará ao Rio tropas da Força Nacional de Segurança e militares do Exército. O Ministério da Defesa realiza, na tarde desta quinta-feira, uma reunião para definir o efetivo das forças e a estratégia adotada para a segurança do leilão, o primeiro de uma área na região do pré-sal.
A licitação ocorrerá em um hotel na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. Há no governo uma preocupação quanto à “exacerbação” das manifestações populares que questionam a realização do leilão. O pedido de reforço na segurança foi feito pelo governo do Rio à Presidência da República no último dia 11 de outubro.
A operação das forças federais será coordenada pelos Ministérios da Defesa e da Justiça, a quem está subordinada a Força Nacional de Segurança. A previsão inicial é que as tropas atuem por um período de 24 horas, no dia da realização do leilão. Não está descartada a possibilidade de reforço da Marinha e até da Aeronáutica.

Encerro
É isso aí. Nos limites da lei, os ditos petroleiros são livres para se manifestar. O Estado, como é de todos e não de uma corporação, tem de garantir as decisões tomadas pelo governo, eleito legitimamente para… decidir. Fim de papo.

Por Reinaldo Azevedo

 

A greve dos petroleiros, o PT, o PSOL e os dinossauros. Ou: Sem voto, o PSOL sempre está onde o caos e o atraso se anunciam

Vocês viram que os petroleiros decidiram deflagrar uma greve com ocupação de plataformas refinarias, bloqueio de estradas. Sei. Então vamos a alguns detalhes que fazem a diferença. Os petroleiros têm hoje duas federações: a tradicional FUP (Federação Única dos Petroleiros), ligada à CUT, que é petista, e a FNP (Federação Nacional dos Petroleiros), que foi fundada em 2010 e, atenção!, é comanda pela turma do PSOL. São filiados à FNP os seguinte sindicatos: Sindipetro AL/SE, Sindipetro-LP, Sindipetro-PA/AM/MA/AP e Sindipetro-SJC. Quem lhe garante efetivo poder se fogo é o primeiro: esse “LP`” quer dizer “Litoral Paulista”. Se a FUP é ligada ao petismo, a FNP é filiada à CSP-Conlutas, central sindical comandada por PSOL e PSTU. E isso explica ao menos uma das reivindicações dos petroleiros, justamente a mais estúpida: a suspensão do leilão de Libra.

Assim, entendam o seguinte: a petista FUP decidiu se juntar à psolenta FNP para não ser, como se dizia no meu tempo, superada pela esquerda. A FNP acusa a FUP de pelega. E só porque o mundo é engraçado, e a estupidez é a mais imodesta das arrogâncias — e, pois, não têm limites —, há grupos ainda à esquerda do PSOL e do PSTU que já acusam a própria FNP de desvio conservador… O mais inteligente deles ainda acusará Lênin de reacionário e contrarrevolucionário… Sigamos.

Fosse pela vontade da FUP apenas, não haveria a palavra de ordem contra o leilão de Libra. O que o PT queria nessa área já conseguiu: mudar o regime de concessão pelo de partilha. Foi uma toca que já se mostrou infeliz, mas que garante, na cabeça dos petrossauros, o controle sobre o petróleo — o de concessão garantiria igualmente porque a questão é constitucional, mas não entro agora em minudências. Existir, como se faz agora, a suspensão do leilão porque isso seria entregar as riquezas nacionais ao capital internacional é uma estupidez rematada. Muito bem: se o Brasil não pude contar com capital estrangeiro — sempre em associação com a Petrobras — para explorar o pré-sal, vai contar com o quê? Só com recursos próprios? Não só deixaríamos, como país, de receber investimentos como ainda teríamos de torrar dinheiro do Tesouro no custeio da exploração (se houvesse tecnologia, claro).

Trata-se de uma reivindicação à altura da sofisticação do pensamento de PSOL e PSTU. A FUP entrou nessa sem entusiasmo. Prefere se concentrar no pedido de reajuste, de 16,5%.

Memória
O PT instrumentalizou os petroleiros na sua luta insana contra o governo FHC. Em 1995 , organizou uma greve, por intermédio da CUT, que ameaçou parar o país. O governo teve de recorrer a forças federais para impedir o caos. No site da CUT, ainda se encontra esta maravilha de texto, publicado em 2010, por ocasião dos 15 anos da greve. Leiam. Volto em seguida.
*
Há 15 anos, no dia 3 de maio, os petroleiros iniciavam a mais longa greve da história da categoria. Uma greve de 32 dias, que tornou-se o maior movimento de resistência da classe trabalhadora à política neoliberal e entreguista do PSDB e do DEM (então PFL). Uma greve que foi fundamental para impedir a privatização da Petrobrás e, assim, evitar que Fernando Henrique Cardoso aplicasse no Brasil o mesmo receituário que levou a Argentina à falência, principalmente, em função das privatizações de todas as estatais de energia e petróleo.

Durante a greve de maio de 1995, os petroleiros resistiram às manipulações e repressões do governo e à campanha escancarada da mídia para tentar jogar a população contra a categoria. Milhares de trabalhadores foram arbitrariamente demitidos, punidos e enfrentaram o Exército, que, a mando de FHC, ocupou com tanques e metralhadoras as refinarias da Petrobrás. A FUP e seus sindicatos foram submetidos a multas milionárias por terem colocado em xeque os julgamentos viciados do TST, que decretou como abusiva uma greve legítima e dentro da legalidade. Além de ter impedido a privatização completa da Petrobrás, como queriam os tucanos e demos, a greve de maio de 95 despertou um movimento nacional de solidariedade e unidade de classe, fazendo ecoar por todo o país um brado que marcou para sempre a categoria: “Somos todos petroleiros”.
(…)

Voltei
O texto se assenta numa mentira essencial. Jamais houve esforço, intenção ou manifestação tênue que fosse em favor da “privatização da Petrobras”. Era só uma mentira que servia à luta política. A terrível “repressão” a que se refere a CUT consistia num conjunto de medidas para impedir que os petroleiros paralisassem o país. Se a greve de agora tomar a mesma proporção, é o que fará o governo Dilma. Mas duvido um pouco. A esta altura, a FUP deve estar empenhada em dar um jeito de manter o movimento, mas não muito…

O PSOL, o caos e a falta de voto
Encerro chamando a atenção dos leitores para uma questão: o PSOL não tem voto, como se sabe. Mas conta com alguns queridinhos da imprensa, como Marcelo Freixo, Chico Alencar e Jean Wyllys. No movimento sindical e no movimento estudantil, é possível ser poderoso sem voto. Basta tomar o aparelho em eleições viciadas, a que comparecem apenas militantes.

É por isso que a legenda está por trás do caos promovido no Rio pelo sindicato dos professores, da invasão da Reitoria da USP e, agora, da greve dos petroleiros. Nesse caso, os petistas estão juntos, sim, mas quem garante a alaheavy metal da mobilização é o PSOL.

Por Reinaldo Azevedo

 

Maria do Rosário quer tirar do ar um site de humor para continuar a ser uma piada que se leva a sério

A ministra Maria do Rosário, dos Direitos Humanos, quer agora censurar um blog de humor. Mais do que isso: ela quer tirá-lo do ar, sob o pretexto de que propaga notícias falsas. Ocorre que a graça da pagina está em, escancaradamente, fabricar falsas notícias, que, não obstante, podem não ser notícias falsas… Uma delas, como disse aqui, dá conta de que há americanos tentando fugir para a Cuba. Nem Maria do Rosário, uma cubanófila, deve acreditar nisso, não é?

Recebo uma mensagem do autor da página. Ele se assina “Joselito Müller”, que é também o nome do blog. Disse já ter se oferecido para fornecer seus dados à ministra, poupando, assim, o trabalho da Polícia Federal. Joselito cita um episódio que define, como nenhum outro, quem é Maria do Rosário. Lembram-se daquela onda de boatos sobre o fim do Bolsa Família, que levou milhares de pessoas a agências da CEF para sacar o benefício? O que escreveu a ministra no Twitter? Isto:

Maria do Rosário twitter

Retomo
Deixo de lado a concordância analfabeta “Boatos deve ser…” Penso na irresponsabilidade de uma ministra de estado, que sai acusando a oposição sem se dar conta de duas questões essenciais:
1: uma autoridade de Estado tem de ser responsável e não pode acusar antes que se faça a devida investigação;
2: o que a oposição ganharia com o episódio quando ficasse evidente que se tratava de uma mentira?

Bem, a investigação foi feita, e a Polícia Federal concluiu que a responsabilidade era da própria Caixa, que mudou, sem prévio aviso, a data de pagamento do benefício para uma parcela enorme de assistidos, gerando a confusão. A oposição, obviamente, não tinha nada com aquilo.

Ninguém foi punido.
Maria do Rosário não se desculpou.

Entendo. A ministra dos Direitos Humanos quer tirar do ar um site de humor para que ela continue a ser uma piada que se leva a sério. Espero que ela não queira me punir por eu propagar o que ela certamente considera uma “falsa notícia”, mas que posso assegurar ser a minha “opinião verdadeira”.

Por Reinaldo Azevedo

 

Preparem-se: Lula convocou a Al Qaeda eletrônica…

Leiam o que informa a Folha:
O PT escalou seu principal garoto-propaganda para estimular sua militância a intensificar a atuação na internet. O partido divulgou ontem um texto em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pede que petistas utilizem as redes sociais para defender o governo. A carta foi distribuída para cerca de 500 mil endereços de e-mail cadastrados no site do PT com o título “Lula enviou uma mensagem para você”. Também foi publicada na página do ex-presidente no Facebook.

No texto, Lula diz que a mobilização pela internet deve compensar, segundo ele, a ausência de espaço para o discurso petista na imprensa, alvo constante de críticas do ex-presidente. “Não devemos ficar apenas reclamando que não temos espaço em outras mídias. Vamos utilizar essa ferramenta fantástica que é a internet para falar do nosso projeto, mostrar o que já fizemos e, claro, ouvir críticas, sugestões”, afirma.

Lula pede que os internautas participem das páginas do PT nas redes sociais, criem seus próprios vídeos e textos e aconselha que todas as informações sejam checadas antes da publicação. “Não vamos colaborar com a criação de uma série de informações e acusações falsas que têm surgido na rede”, diz.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

 

Estou disponível para o partido “para o que der e vier”, diz Serra

Por Márcio Falcão, na Folha Online:
Descartando sua aposentadoria da política, o ex-governador José Serra (São Paulo) indicou nesta quinta-feira (17), mais uma vez, que está disposto a concorrer à Presidência em 2014. Serra afirmou que está “disponível para o que der e vier” e criticou o PSDB por ter antecipado o debate sobre a sucessão presidencial. Presidente do PSDB, o senador Aécio Neves é apontado como presidenciável tucano, mas o grupo ligado a ex-governador paulista insiste em sua candidatura e chegou a pedir prévias para a definição do candidato do ano que vem.

Questionado se ainda se considera pré-candidato ao Planalto em 2014, o tucano preferiu deixar no ar. “Isso pode dar margem a outras interpretações. Estou disponível para o partido para o que ser e vier”, disse. “Eu não me aposentei da política, muito pelo contrário. Aliás sou contra a aposentadorias prematuras, precoces”, completou.

Serra afirmou ainda que a definição sobre a corrida presidencial dentro do PSDB será em 2014. “A questão do PSDB, anunciada pelo Aécio, vai ser decidida em março”, disse. “Tudo foi exageradamente antecipado”.
(…)
Adotando discurso de candidato, o tucano centrou críticas ao governo Dilma. “O índice de aprovação do governo de Dilma é baixo para quem está no comando do processo”. De acordo com Serra, nas pesquisas há quase um empate entre provar e desaprovar a presidente. “Essa posição é mais desconfortável do que na primeira eleição”, afirmou.

Por Reinaldo Azevedo

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Fonte: Blog Reinaldo Azevedo (VEJA)

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