Conselhos Populares: Chico Alencar, do PSOL, admite saudades dos “soviets” comunistas

Publicado em 16/07/2014 11:42 e atualizado em 11/08/2014 14:24 1277 exibições
por Rodrigo Constantino, de veja.com.br

Chico Alencar, do PSOL, admite saudades dos “soviets” comunistas

Heil Stalin!

Heil Stalin!

O Congresso brasileiro, que merece duras críticas e sérias reformas, mas não ser substituído por “conselhos populares”, deu sinal de vida ontem, ao aprovar caráter de urgência na votação do projeto que derruba o Decreto 8.243 da presidente Dilma, com viés claramente bolivariano. A votação, porém, só deve ocorrer após o recesso.

Foi uma experiência interessante ver os discursos na tribuna ontem. Os petistas e os partidos mais ainda à esquerda aplaudiam o decreto, posando de grandes democratas por clamar por mais democracia ainda, como aquela “existente” na Venezuela. Do outro lado, tivemos belos discursos contra essa tentativa golpista e populista de usurpar o poder dos parlamentares, destruindo a democracia representativa.

Alguns deputados falaram abertamente e sem rodeios sobre o que está em jogo, lembrando, como já fez esse blog, que os tais conselhos eram os “soviets” da antiga União Soviética. Esperidião Amin resolveu provocar o deputado do PSOL, Chico Alencar, dizendo que viu um brilho em seus olhos quando o termo “soviet” foi mencionado. Alencar, então, confirmou, dizendo que era mesmo para achar lindo aquilo do ponto de vista histórico.

Diga-me quem admiras que te direi quem és! Esperar o quê de quem defendeu com unhas e dentes o terrorista assassino Cesare Battisti, foragido da justiça italiana? Nas metas oficiais do PSOL, consta inclusive o termo “soviet” como meio para combater o “neoliberalismo”. Essa gente é saudosista dos tempos de Lênin e Stalin!

Ou seja, o PT estava ao lado de stalinistas ontem, tentando vetar a votação do projeto que derruba o Decreto 8.243, que essa esquerda jurássica aplaude. De um lado, aqueles que falavam português e defendiam a democracia representativa; do outro, aqueles que falavam “presidenta” e enalteciam a foice e o martelo, a tal “democracia direta”, o bolivarianismo, o modelo venezuelano.

Acho curioso – e ao mesmo tempo sintomático da negligência e passividade dos tempos modernos – que muitos repitam por aí que esquerda e direita não mais existem, e que combater o socialismo ou o comunismo é coisa de paranoico da direita (ops, contradição evidente, já que direita e esquerda não existem mais) preso nos tempos da Guerra Fria. Nada mais falso, como podemos ver.

Quem está preso nos tempos da Guerra Fria são justamente esses petistas e seus companheiros do PSOL e PCdoB, que defendem, em pleno século 21, aberrações que foram responsáveis pela morte, miséria e escravidão de milhões de pessoas. Repetir que o comunismo acabou, ignorando que comunistas não só ainda existem, como alguns estão no poder e no Congresso, é fazer o jogo deles, bancar o inocente útil.

Chico Alencar e seu PSOL são provas disso. Por trás de uma simulada simpatia, jaz o desejo de resgatar aquilo que se perdeu na União Soviética, aquela coisa “linda” chamada comunismo. Não bastaram as cem milhões de vidas inocentes ceifadas no altar dessa nefasta ideologia?

Rodrigo Constantino

 

CorrupçãoCulturaEconomiaLiberdade Econômica

Nova Zelândia e Brasil: Breves lições do país menos corrupto do mundo

Por Eduardo Marques, publicado no Instituto Liberal

Em abril de 2014, resultado de estudo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação mostra que, entre 30 países, o Brasil é o que menos retorna serviços públicos ao contribuinte em relação aos impostos recolhidos. Igualmente preocupante foi o relatório de 2013 da Transparency International  – Organização Não-Governamental com sede em Berlim, na Alemanha, que tem como foco o combate à corrupção – que apontou o Brasil na 72° posição, dentro de 177 países, no índice de percepção de corrupção pela população. De acordo com os métodos de avaliação da organização, ficaram empatados na posição de “país menos corrupto do mundo” Dinamarca e Nova Zelândia.

Mesmo com um modelo assistencialista e um Estado de grande alcance, países nórdicos tradicionalmente mostram altos níveis de transparência no setor público e, consequentemente, baixa corrupção. O que torna curioso o resultado do levantamento é o fato de um país relativamente desconhecido como a Nova Zelândia, sempre à sombra de seu vizinho – a também ex-colônia britânica, Austrália –, trazer índices tão surpreendentes. Talvez nem tão curioso assim, afinal, os neozelandeses também ocupam a 4° posição no índice de liberdade econômica da Heritage Foundation em 2013.

Quanto à sua estrutura estatal, sobressaem-se da trajetória da Administração Pública neozelandesa as inúmeras reformas administrativas implementadas, até a consolidação do modelo atual: mesmo com 29 ministérios, há uma administração pública gerencial, de estrutura enxuta, altamente transparente, mecanismos burocráticos otimizados, foco na eficiência dos serviços públicos assumidos e, o mais importante de tudo, impessoalidade, traduzida em uma clara separação entre Administração e Política – característica fortalecida em governos liberais. Outro fator importante é a rigorosa observância ao que conhecemos como princípio da economicidade – tratam-se os recursos públicos como absolutamente escassos, visando o máximo aproveitamento dos mesmos, considerando o serviço público como seu produto final e o contribuinte como cliente do mais alto padrão de exigência.

É inegável que os fatores mais significativos para o atual padrão administrativo da Nova Zelândia sejam de índole histórica, política, sociológica e geográfica. Contudo, certos elementos nada mais são que boas fórmulas e escolhas acertadas em termos de institutos jurídicos e organização do Estado. Exemplo disso é uma das implementações da States Service Act of 1912 – uma das maiores referências do país em termos de reforma administrativa – a States Service Comission (SSC): entre outras funções, este ministério centenário é responsável pela uniformização da política pública de pessoal estatal – ou seja, a determinação de diretrizes para todo o funcionalismo público. Com foco neste âmbito, a SSC evita abismos salariais entre carreiras (sempre considerando também a realidade da iniciativa privada), além de priorizar e padronizar sistemas meritocráticos para ascensão funcional dos servidores. Isso reflete de forma muito positiva na produtividade dos servidores públicos, evitando a atuação sindical abusiva e, de outro lado, impedindo que o ente estatal favoreça determinadas carreiras a despeito de outras por razões políticas.

States Service Comission é uma amostra do que deu certo e pode nos servir de modelo, claro, sem ignorar nossa realidade e com as devidas adaptações. Além de preencher posições tão preocupantes em rankings relacionados à eficiência dos serviços públicos e transparência, em pleno século XXI o Brasil ainda demonstra fortes resquícios do período colonial na condução da máquina pública, como nepotismo, paternalismo e patrimonialismo. Diante disso, exemplos atuais e pragmáticos de “como fazer melhor” são tão importantes, afinal, já é de conhecimento geral que a Administração Pública brasileira é extremamente resistente em termos de reformas que melhorem a atuação do Estado, em especial quando a otimização redunde em sua necessária diminuição.

Para saber mais: http://www.ssc.govt.nz/public-service-centenary 

Tags: Eduardo MarquesNova Zelândia

 

ComunismoDemocraciaSocialismo

Definindo bolivarianismo: a aula que o professor Marco Aurélio Garcia fingiu ter cabulado

Professor Garcia, ícone da podridão ideológica do PT

Professor Garcia, ícone da podridão ideológica do PT

Já comentei aqui as rusgas entre Marco Aurélio Garcia e Ricardo Ferraço, após entrevista deste às páginas amarelas da Veja, acusando o primeiro de “chanceler de fato” do governo Dilma. Hoje foi a vez de o advogado Fernando Tibúrcio Peña colaborar com o “debate” em artigo publicado no GLOBO. No fundo, trata-se de um belo corretivo aplicado com sutileza em Garcia, que tentou vencer o debate no grito, sem ter razão.

Marco Aurélio Garcia, professor aposentado pela Unicamp, é um dos principais representantes do pensamento revolucionário de Gramsci no Brasil. Pode-se dizer que é mesmo o ideólogo gramsciano no Palácio. Apenas para refrescar a memória dos leitores, essa é a linha comunista que pretendia substituir as táticas mais belicosas de Lênin no Ocidente, para chegar ao mesmo destino – ditadura do “proletário” – pelas vias democráticas, subvertendo todas as instituições.

Ápice da cara de pau, Garcia alegou que seu crítico não definira o conceito de bolivarianismo e que vivia preso na época da Guerra Fria, mas são os próprios bolivarianos que pretendem resgatar “o que se perdeu na Guerra Fria”, ou seja, o socialismo, ainda que numa versão “do século 21″. Tibúrcio Peña, então, resolveu ilustrar o que seria bolivarianismo com exemplos práticos, para ajudar o professor Garcia em sua compreensão da coisa:

Quando vi a presidente Dilma Rousseff assinar o decreto que disciplina a criação dos conselhos populares, tive a impressão de que houve sim, muito diferente do que diz o professor Marco Aurélio, uma certa influência bolivariana. Sei que o diabo andou por ali, mas não saberia dizer com segurança que cara tem o diabo.

[...]

Então, decidi sistematizar as características que moldam o bolivarianismo, como parte de uma atrevida experimentação com o fim de estabelecer as bases para um futuro conceito. As mais evidentes talvez sejam a dificuldade dos seus líderes para se desapegarem do poder e a formação de uma nova elite nos seus respectivos países.

[...]

Hoje, além do presidente venezuelano Nicolás Maduro, discípulo de Hugo Chávez, outros três presidentes latino-americanos se autoproclamam bolivarianos: Evo Morales, Rafael Correa e Daniel Ortega. Manuel Zelaya, o caudilho hondurenho que o Brasil acolheu em sua embaixada em Tegucigalpa, outro bolivariano confesso, não é mais presidente (em que pese o intento frustrado de sua mulher, Xiomara, para tentar ressuscitar o zelaísmo). Foi apeado do poder por um golpe de Estado que teve como estopim as suas manobras para alcançar um segundo mandato, uma iniciativa tão aterradora para a Constituição de seu país, a ponto de sujeitar Zelaya a perder a cidadania hondurenha.

O autor continua elencando as práticas autoritárias dos outros, todas convergindo para o mesmo fim: perpetuação no poder custe o que custar, ainda que transformando a democracia apenas em um simulacro, uma farsa. E conclui: “Personagens de uma América Latina populista. Companheiros dos convescotes do Foro de São Paulo. Amigos do professor.”

Se, ainda assim, o professor Garcia tiver dificuldades para compreender o que é bolivarianismo e por que a proposta de “participação popular” do PT produz tantos calafrios nos legítimos democratas, então basta resumir ainda mais em uma equação extremamente simples: bolivarianismo = modelo venezuelano atual = miséria total, violência descontrolada e autoritarismo. Ou, ainda mais curto e grosso: bolivarianismo = ditadura esquerdista.

Rodrigo Constantino

 

CulturaDemocracia

Democracia é mais do que futebol. Ou: O estado é laico no campo também

Sei que futebol é mais do que “apenas um esporte” no Brasil. É a “paixão nacional”, a marca de nossa identidade como povo, o tecido social que une diferentes classes em prol de uma mesma paixão. Mas confesso ficar incomodado quando vejo que ele ganha proporções demasiadas por aqui, assumindo o controle da vida de muita gente.

Em nosso país, a verdade é que o futebol parece uma religião, e a predominante. Nada contra no âmbito individual: cada um faz o que quer com a própria vida e escolhe os próprios deuses para cultuar. O risco, claro, é a exploração disso por parte dos governantes, dos oportunistas de plantão.

O iluminismo conseguiu, em parte, separar o estado da religião, criando o estado laico. Alguns podem alegar, com razão, que o pêndulo exagerou para o outro lado e, hoje, muitos acham que isso significa um estado antirreligioso. Mas o fato é que foi uma conquista liberal traçar uma linha divisória entre fé divina e coisas públicas.

Se isso é mesmo verdade, e se estou certo na premissa de que o futebol é como uma religião por aqui, então parece óbvio que precisamos estender a laicidade estatal aos estádios. A tentação de abusar desse “pão & circo” será grande demais para os governantes, especialmente os populistas.

Vide a própria Dilma e seu ministro falando em aumentar a intervenção estatal no futebol. Vide o uso político dos colunistas esportivos como os da ESPN Brasil, que fazem proselitismo ideológico e campanha partidária o tempo todo explorando a paixão popular pelo esporte.

Esse foi o tema da coluna de João Pereira Coutinho hoje na Folha. O colunista português achou um exagero o uso das expressões para definir a nossa derrota: “humilhação”, “massacre”, “tragédia”. O que mais o chocou foi a reação de David Luiz, literalmente arrasado por não poder dar ao povo sofrido ao menos essa alegria no campo. Diz Coutinho:

E regresso a David Luiz: em lágrimas e com candura extrema, o zagueiro só desejava dar alegria ao seu povo. Pelo menos, no futebol.

Errado, rapaz: não é você quem tem obrigação de dar alegria ao povo. Muito menos de carregar sobre os ombros, como acontece em regimes ditatoriais, os caprichos de qualquer governo.

O futebol ajudou a definir a identidade do Brasil. Mas, no século 21, uma democracia plena é mais que futebol: é educação, saúde, prosperidade econômica, liberdade individual.

Se os brasileiros têm motivos para chorar, esses motivos estão fora dos estádios.

Minha torcida por nosso futebol vai até onde eu começo a crer que ele está afetando negativamente as outras coisas, que julgo mais importantes. Quer dizer que se o Brasil tivesse sido o campeão estaria tudo uma maravilha, o povo estaria feliz da vida, e essa alegria contagiaria o restante, fazendo as pessoas esquecerem seus verdadeiros problemas? Haveria então mais chance de Dilma ser reeleita? Sobre isso, escrevi ontem em minha página do Facebook:

As duas maiores altas da bolsa hoje: Eletrobras (+4,9%) e Petrobras (+4,5%). Vazou alguma pesquisa eleitoral mostrando queda acentuada de Dilma após derrota humilhante na Copa? Se for isso, devo um pedido de desculpas a uma parcela grande dos meus leitores, que criticou minha tentativa de separar política e futebol para torcer pela seleção. Talvez o Brasil não esteja mesmo preparado para tal avanço civilizatório. Tanto que a turma de lá, do PT, fez de tudo antes para se apropriar do “sucesso” da Copa e da seleção, e agora tenta sair de fininho após a humilhante derrota. Se o 7×1 da Alemanha ajudar mesmo a retirar o PT do poder, eu vou sempre CELEBRAR essa vitória avassaladora. Vou até comprar uma camisa oficial com as cores do Mengão para recordar com louvor aquele dia. Mas ainda é cedo para dizer. Aguardemos no local…

Pois é: aguardemos. Se o Brasil mostrar que o estado ainda não é laico, que não passamos por nosso iluminismo, que não está separado da religião das chuteiras, e que os resultados futebolísticos exercem grande influência nas urnas, então lamento, mas vou sempre colocá-lo muito abaixo da política.

Pois uma coisa é ter uma alegria passageira com a vitória da seleção; outra, bem diferente, é ter a tristeza permanente de uma péssima qualidade de vida, com extrema insegurança, escolas e hospitais públicos terríveis, transporte público caótico, etc.

A prioridade é avançar com nossa democracia e garantir nossas liberdades, ambas as coisas ameaçadas pelo projeto lulopetista de poder. O futebol deveria estar completamente separado da política. Enquanto a tentação autoritária do poder político de usar o futebol como expressão nacionalista extrema existir, e o povo não mostrar maturidade para separar as coisas, então serei incapaz de torcer por nosso futebol.

Viva a Alemanha! Xô, Dilma!

Rodrigo Constantino

 

Democracia

Dissecando a Copa

Por João César de Melo, publicado no Instituto Liberal

Desde bem antes, as críticas foram justas, mas os temores não.

Foram justas as críticas sobre os custos dos estádios em relação às tantas carências de infraestrutura do país.

Foram injustos os temores de que haveria caos nos acessos aos jogos, brigas nos estádios e falta de organização. Injustos porque ignoraram que estavam previstos esquemas especiais nas cidades dos jogos, da decretação de feriados à oferta de linhas especiais de transporte; e que o público nos estádios seria composto por indivíduos, não por torcidas organizadas.

A Copa do Mundo aconteceu exatamente como previsto por qualquer pessoa livre de ranços ideológicos. Foi apenas um grande evento esportivo que acontece periodicamente há quase um século, organizado por uma empresa que, queiram ou não, sabe fazer o que se propõe – um campeonato de futebol.

Os “Legados da Copa” são:

1 – A entrega de uma pequena parte das obras de infraestrutura prometidas;

2 – Os estádios que, se forem administrados pela iniciativa privada, serão utilizados também para outros eventos;

3 – O entendimento por parte da classe política de que hoje, cada passo, gesto, desvio e lorota têm repercussão por toda a sociedade através internet, e que para um político ser aplaudido por um público que não seja seus militantes, ele terá que realmente fazer algo além de discursos e promessas;

4 – A derrota da seleção tirou 90% do discurso populista do PT. Infelizmente, num país tão pobre e corrompido intelectualmente como o Brasil, só mesmo uma desilusão no futebol para fazer a sociedade abrir os olhos e ver que não vive no paraíso no qual pensa viver, nem que as coisas estão sendo construídas neste sentido.

A pior coisa da Copa não foi a vergonhosa derrota da seleção nem os absurdos superfaturamentos das obras, mas sim o PT incitando publicamente a distinção racial e social como forma de se defender das críticas e das vaias que estão longe, muito longe de serem injustas.

Esta Copa expôs claramente que indivíduos convivem em harmonia mesmo com todas as diferenças que possam ter entre si. As festas nas ruas reuniram milhões de pessoas, ricos e pobres, negros e brancos, vestindo as mais diversas camisas, mas nem por isso querendo matar uns aos outros. Os poucos casos de violência foram causados quando grupos de torcedores se organizaram. Ou seja: enquanto indivíduos se respeitam, grupos tendem a desafiar uns aos outros.

A lição que devemos levar é que a sociedade deve ser moldada para se reconhecer como um agrupamento de indivíduos, não de grupos ou classes; e que o papel do Estado não é o de incitar a distinção de grupos, mas sim o de impedir que isso ocorra, possibilitando que todos se enxerguem e se comportem apenas como indivíduos.

Tags: Copa do MundoJoão César de Melo

 

Felipão, o professor de gestão de Dilma, por José Nêumanne (de O Estado de S. Paulo) 

Técnico e presidente usaram pátria, hino e bandeira para chutar a vida real para escanteio

Dilma Rousseff disse, em 1.º de julho de 2013, que seu governo tinha o “padrão Felipão”, em resposta a uma pergunta sobre se seus ministros tinham “padrão Fifa”. Referia-se ao ex-técnico da seleção brasileira Luiz Felipe Scolari após reunião ministerial depois da vitória sobre a Espanha por 3 a 0 no Maracanã, onde ela seria vaiada várias vezes domingo, na final da Copa, antes e ao entregar a taça ao capitão alemão, Philipp Lahm. A comparação tinha sido feita na temporada de protestos nas ruas em que o povo exigiu “padrão Fifa” para a gestão pública federal, nada exemplar. Apesar de ter escolhido o treinador como modelo, ela não foi entregar a Copa das Confederações ao time que ele treinou. Um ano e 13 dias depois, tendo o mesmo time sofrido hecatombes inéditas nos jogos finais da “Copa das Copas”, ela o relegou ao ostracismo para se refugiar no verso de um samba de Paulo Vanzolini (“levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”) e na criatividade (“a derrota é a mãe de todas as vitórias”).

Dilma não atuou na seleção nem a treinou. Não é também dirigente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Mas não resiste a recorrer ao dito esporte bretão para parecer simpática. Nascida em Minas, comemorou a conquista da Libertadores da América pelo Atlético Mineiro em 2013 em redes sociais. “Congratulo (sic) com toda a torcida do Atlético pela conquista do título. Eu sou torcedora do Atlético e, quando criança, ia com meu pai a muitos jogos do Galo no Mineirão”, postou. Não faltou quem nos mesmos veículos lembrou que 1) como nasceu em 1947, tinha 18 anos e, portanto, não era criança, quando o estádio foi inaugurado; e 2) que o pai morrera em 1962, três anos antes de sua inauguração.

Consta que Clio, a deusa da história, é irônica. Pelo visto, os deuses do futebol também. Em 8 de julho o estádio foi palco da derrota mais humilhante que o Brasil sofreu na história, ao perder de 7 a 1 na semifinal da Copa. Dela o técnico saiu como padrão de incompetência, e não de excelência.

Nenhum torcedor dotado do mínimo de bom senso teria apostado pesado no time de Scolari na Copa: ganhou da Croácia com a ajuda do juiz, empatou com o México contando com muita sorte e ao vencer Camarões passou para as oitavas de final contra o Chile, e não contra a Holanda, por absurdos erros do árbitro, que anulou dois gols legítimos dos mexicanos no jogo de estreia contra os africanos. A trave nos últimos segundos da prorrogação e no último pênalti carimbou o passaporte para as quartas de final contra a Colômbia, que nunca foi páreo para a canarinha nos melhores momentos dela e nos piores desta. O Brasil ficou entre os quatro melhores com a ajuda da sorte e de apito amigo.

Mas na véspera da semifinal contra a temida Alemanha a presidente resolveu apostar todas as fichas de chefe de governo e de Estado e de candidata à reeleição no “padrão Felipão” de excelente gestão. A página oficial da Presidência da República na internet, usada na campanha eleitoral com uma sem-cerimônia só comparável à do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ao desconhecer o fato, divulgou sua “conversa” com internautas sobre a Copa. Chamou os adversários de “urubus”, condenou o “pessimismo indevido” de um sujeito oculto chamado imprensa, vulgo “mídia golpista”, e adotou como mascote de palanque o craque Neymar, cuja dor, ao ser atingido por um jogador do time que fora menos violento do que o Brasil no jogo, segundo ela, “feriu o coração de todos os brasileiros”. Para completar, sem se dignar a explicar o significado do gesto nem da expressão, copiou do astro do Barcelona o “é tóis”, paródia criada por ele para o “é nóis” dos corintianos, com a letra T formada pelos braços e pelo cotovelo. E enquanto a torcida lhe fazia eco gritando o nome do ídolo ferido, os alemães impingiram à seleção mais campeã das Copas a pior goleada em semifinais do torneio.

Felipão, fiel a seu padrão de embromation, mal consumado o desastre, elogiou o próprio trabalho, lembrando que seu “grupo” – sua “família”, ou seja, as vítimas de suas doses patéticas de autoajuda – foi o primeiro a chegar a uma semifinal desde a Copa em que ele mesmo treinou o time campeão, em 2002, há 12 anos. O auxiliar técnico Carlos Alberto Parreira comprometeu o respeitável currículo de campeão mundial de 1994 lendo na entrevista a carta de uma fã que elogiou a preparação do time de um esporte cujos fundamentos ela própria dizia desconhecer.

Antes de o “padrão Felipão” ser submetido a outro vexame na disputa pelo terceiro lugar contra a Holanda na arena Mané Garrincha, com o nome de um gênio do tempo em que nosso futebol tinha cara e vergonha, os bombeiros do Planalto correram para salvar a chefe do incêndio. Descalçaram-lhe as chuteiras e ela pôs de novo o capacete de chefe de obras, para jogar espuma sobre a tentativa canhestra de barganhar o sucesso da seleção por votos na eleição. Apelaram até para o óbvio: “Futebol e política não se misturam”. Fez-se isso com desleixo idêntico ao de estropiarem a frase de Nelson Rodrigues “a pátria em chuteiras” por outra, que só adquiriu nexo após o vexame: “a pátria de chuteiras”. Dilma e seu professor (assim os pupilos chamam seus técnicos) usaram pátria, hino e bandeira para chutar a realidade para escanteio.

Dilma ainda contribuiu para o besteirol de político ignorante em esporte ao atribuir o chamado mineiratsen à exportação dos melhores jogadores nacionais para o exterior. O uso da palavra exportação, cabível para médicos cubanos, mas não para nossos craques, omite as evidências de que a seleção atuou em nível similar ao dos campeonatos locais por absoluta incapacidade de dirigentes que se recusam a aprender como se joga nos mercados que hoje vencem. E de governantes que perdoam as dívidas monstruosas acumuladas por estes bancando papagaios de pirata para ganhar votos, perdendo o pudor e as Copas.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pág.A2 do Estado de S. Paulo na quarta-feira 16 de julho de 2014)

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Blog Rodrigo Constantino (VEJA)

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