Dilma: Economia pífia em dia de entrevista pífia. É um assombro!...

Publicado em 21/09/2014 10:56 e atualizado em 29/02/2020 21:53 3067 exibições
por Reinaldo Azevedo e Augusto Nunes, em veja.com

Economia pífia em dia de entrevista pífia. É um assombro!

A presidente Dilma Rousseff concedeu uma entrevista ao programa jornalístico Bom Dia Brasil, da Rede Globo (leia post). Karl Marx definia Lassale,  um desafeto teórico, como um “caos de ideias claras”. Na conversa com os jornalistas da TV Globo, Dilma se mostrou um caos de ideias confusas. Às vezes, o raciocínio se perdia. Fazer o quê? Cada um segundo a sua natureza.

Pouco depois de a entrevista ter ido ao ar, na manhã desta segunda, vieram a público as projeções semanais do chamado boletim Focus, do Banco Central. A previsão de crescimento da economia para este ano caiu pela 17ª vez consecutiva: agora, está em 0,3% — vale dizer, o país está beijando a lona.

Não é só o presente que se mostra pouco animador. Os auspícios não são bons. A perspectiva de crescimento para o ano que vem foi reduzida: de 1,04% para 1,01% — assim, também em 2015, a economia caminha para um expansão inferior a 1%. E o que Dilma tem a dizer a respeito? Nada! Na entrevista ao Bom Dia Brasil, ela só produziu um tanto de confusão a respeito. Chegou a apontar uma inexistente deflação na economia americana.

O Focus, como sabem, faz projeções sobre a taxa Selic, os juros: 11% ao término deste ano e 11,25% ao fim de 2015. E a inflação? 6,30% neste 2014 e 6,28% no ano vindouro. A síntese é a seguinte: crescimento mixuruca com inflação e juros altos. Isso quer dizer o seguinte: a política monetária como principal instrumento para derrubar a inflação parou de ter eficácia no Brasil. O país já está na estagflação: estagnação com inflação. Com mais um pouco de juros, pode produzir o pior dos mundos: inflação com recessão.

E Dilma com isso? Ora, segundo se depreende da entrevista que concedeu ao Bom Dia Brasil, ela não tem nada com isso. Os números da nossa economia, assegura a presidente, decorrem da realidade internacional. Como ela não pode se candidatar a presidente do mundo — quem sonhava com essa posição era Lula —, então tudo fica como está.

Pois é… É justamente em momentos de eleição que as democracias podem e devem fazer um debate mais claro e mais profundo sobre o presente e sobre o futuro. Infelizmente, no Brasil, a disputa eleitoral está servindo para tornar tudo mais confuso e atrapalhado. Até agora, Dilma, cujo partido está no poder há 12 anos, não conseguiu nem mesmo definir um programa de governo.

Hoje, o PT está organizado para demonizar seus adversários e para dizer por que os outros não podem assumir a Presidência. Dilma, por incrível que pareça, ainda não disse por que quer mais quatro anos de mandato. Sempre resta a pergunta sem resposta: se ela conseguiu esse resultado pífio até agora, o que a faz crer — e por que deveríamos crer — que seria diferente no futuro?

Por Reinaldo Azevedo

Governo corta projeção de crescimento em 50% e, ainda assim, está 200% acima do que antevê o mercado

A gente chega a ter vergonha até de noticiar, mas fazer o quê? O governo, ora vejam, reduziu a previsão de crescimento em… CINQUENTA POR CENTO!!! Parece piada, mas a expectativa oficial ainda era de expansão de 1,8%; agora, passou a ser de 0,9%. Como? Esse 0,9% ainda está 200% acima do que antevê o boletim Focus: 0,3%.

Entendem? A economia brasileira virou um mergulho permanente na irrealidade cotidiana. Em tese ao menos, o governo planeja as suas ações de olho desses índices. E por que é assim? O governo usa a projeção de crescimento para calcular receitas e despesas. De olho nesse equilíbrio, toma as suas decisões. Vale dizer: estamos voando no mais absoluto escuro.

Por Reinaldo Azevedo

ENTREVISTA À TVEJA: Entre Marina e Dilma, Ana Amélia prefere o vice, Beto Albuquerque

A candidata ao governo do Rio Grande do Sul pelo PP, senadora Ana Amélia — que lidera as pesquisas de intenção de voto no Estado –, acha que o diálogo num eventual governo Marina Silva será mais fácil do que no governo Dilma.

O motivo é o vice de Marina, o gaúcho Beto Albuquerque, que, segundo a candidata, pode ser o homem que vai abrir a porta do governo federal para o diálogo.

Ana Amélia foi sabatinada por Joice Hasselmann no “Direto ao Ponto”, em TVEJA.

O candidato do PT à reeleição, Tarso Genro, se negou a participar da sabatina.

A CASA DE HORRORES DO PT DA BAHIA: R$ 50 MILHÕES FORAM TIRADOS DOS POBRES FORAM PARA NAS MÃOS DE POLÍTICOS PETISTAS, DIZ PRESIDENTE DE ONG QUE OPERAVA PARA O PARTIDO

É preciso ser idiota ou ter muita má-fé — eventualmente uma soma das duas coisas — para sustentar que o fim da doação legal de empresas a campanhas eleitorais diminuiria a corrupção no Brasil. Em primeiro lugar, anda que venham a ser proibidas — e o STF está a um passo de fazer essa escolha estúpida —, as doações continuarão a ser feitas, só que por baixo do pano. Em segundo lugar, a roubalheira maior nada tem a ver com eleição. Ela se dá por intermédio das empresas estatais, como prova a Petrobras, e das ONGs que são usadas pelos partidos.

A VEJA desta semana traz uma reportagem que revela os bastidores escabrosos de uma ONG chamada Instituto Brasil, criada em 2004 para supostamente facilitar a construção de casas próprias, com dinheiro federal, para pessoas de baixa renda na Bahia. Assim era no papel. De fato, a dita-cuja era apenas um dos braços do PT que operava para desviar dinheiro dos cofres públicos para o bolso dos petistas. Quem faz a denúncia? Não é o PSDB. Não é algum outro partido de oposição. Quem põe a boca no trombone é Dalva Sele Paiva, nada menos do que presidente da entidade. Ela cuidou do esquema para os petistas até 2010, quando o Instituto Brasil foi fechado, atolado em irregularidades. Ao longo de seis anos, segundo ela, R$ 50 milhões — SIM, CINQUENTA MILHÕES DE REAIS — saíram dos cofres do governo federal para as burras dos companheiros.

O esquema era relativamente simples. O Instituto Brasil era qualificado pelo governo para construir, por exemplo, um número x de casas. Erguia muito menos, repassava o dinheiro para a companheirada, e o próprio partido se encarregava de arrumar as notas frias que justificavam as despesas. Assim foi, por exemplo, em 2008, num caso já desvendado pelo Ministério Público Federal. O Instituto Brasil foi escolhido pelo governo para erguer 1.120 casas ao custo de R$ 17,9 milhões. O dinheiro saiu do Fundo de Combate à Pobreza. O MP já tem provas de que parte do dinheiro sumiu. Atenção! Só nesse convênio, revela Dalva à VEJA, R$ 6 milhões foram parar nos cofres do PT, consumidos na eleição municipal. Ela deixa claro que a entidade foi criada com o propósito de alimentar o caixa do partido. E tudo passou a funcionar ainda melhor para o grupo depois da eleição do petista Jaques Wagner para o governo da Bahia, em 2006.

A investigação está a cargo da promotora Rita Tourinho, que chegou a localizar testemunhas que acusavam políticos, mas, diz ela, faltavam as provas. Parece que a tarefa agora será facilitada. Diz Dalva, que presidia a ONG: “Vou levar todos esses fatos ao conhecimento do Ministério Público. Quero encerrar esse assunto, parar de ser perseguida. O ônus ficou todo comigo”. Ela diz ter em mãos, por exemplo, os recibos de R$ 260 mil repassados à campanha do agora senador Walter Pinheiro à Prefeitura de Salvador, em 2008.

Não era só Walter Pinheiro, é claro! Atenção para a lista de outros petistas que, segundo Dalva, receberam o dinheiro que deveria ter sido usado na construção de casas para os pobres:
- Afonso Florence, deputado federal e ex-ministro da Reforma Agrária de Dilma. Dalva diz ter entregado a ele várias pacotes de dinheiro de R$ 20 mil a R$ 50 mil, quando era secretário de Jaques Wagner. Um assessor seu chamado Adriano teria recebido a bufunfa;
- Vicente José de Lima Neto, presidente da Embratur: recebeu pensão mensal de R$ 4 mil;
- Rui Costa, atual candidato ao governo da Bahia: pensão mensal de R$ 3 mil a R$ 5 mil;
- Nelson Pellegrino, deputado federal: recebeu dinheiro para boca de urna, para pagar cabo eleitoral e bancar outras despesas da campanha.

E o governador Jaques Wagner? Será que ele sabia? Dalva diz que era impossível não saber. Afinal, quem arrumava as notas frias que justificavam os gastos era a então diretora da Secretaria de Desenvolvimento Urbano, Lêda Oliveira. Hoje, Lêda é ainda mais poderosa:  ocupa o cargo de diretora de Comunicação do governador Jaques Wagner.

Todos os acusados negam tudo com veemência. O deputado Nelson Pellegrino, por exemplo, começou afirmando que nem conhecia a tal Leda. Chamou pela memória e acabou lembrando que uma irmã sua trabalhou no Instituto Brasil: “Mas eu pedi para ela sair quando descobri como eram as coisas lá”. Então quer dizer que ele sabia como eram as coisas por lá?

Vamos ver no que vai dar a investigação do Ministério Público. A mulher que cuidava da dinheirama contou tudo, mesmo sabendo que também está confessando um crime. Só não aceita cair sozinha.

Por Reinaldo Azevedo

Direto ao Ponto

Dilma derrapa no palanque: `Nosso país também precisa ter um compromisso com aqueles que desviam dinheiro público’

"Acho que nosso país precisa de fortes fundamentos éticos… o nosso país precisa de compromissos com essa questão chamada igualdade de oportunidades”, desandou  Dilma Rousseff no palanque em Duque de Caxias antes da derrapagem espetacular: “Nosso país também precisa ter um compromisso com aqueles que desviam dinheiro público…”

Ela disse isso mesmo?, duvidarão os muito céticos. Disse, atesta o vídeo que registra a reafirmação pública do compromisso com a bandidagem de estimação . Mas o que poderia ter sido o início de um potente surto de sinceridade era apenas outra pane na cabeça baldia, informaram a pausa súbita, a expressão apalermada e a continuação do palavrório em dilmês castiço: “…No combate a eles contra a corrupção, acabando com a impunidade”, tentou corrigir o neurônio solitário.

Caprichando na pose de Faxineira do Planalto, que só usa a vassoura para esconder o lixo, a oradora foi em frente com a promessa de revogar o que o governo institucionalizou: “Não é possível que no Brasil tenhamos pessoas que queiram viver com recursos que não são delas, que são do povo”. Verdade. Nenhuma nação resiste a tanta roubalheira.

É também por isso que Dilma está prestes a perder o emprego que a obriga, como vive recitando, a “cuidar de todos os brasileiros e de todas as brasileiras”. A partir de janeiro, por decisão do eleitorado, a babá de país terá tempo de sobra para cuidar só do neto.

(por Augusto Nunes)

Costa cita mais dois ex-diretores da Petrobras em esquema corrupto; um deles era homem de… José Dirceu na empresa! Ou: Uma empresa que fura poços e acha escândalos

Pois é… Reportagem da Folha deste sábado informa que Paulo Roberto Costa envolveu mais duas diretorias no esquema corrupto que vigorava na empresa: a Internacional, que era comandada pelo notório Nestor Cerveró, e a de Serviços e Engenharia, cujo titular era o petista Renato Duque. O PT está preocupado com os cadáveres que podem sair do armário. Faltam duas semanas para o primeiro turno das eleições, mas o segundo ainda está longe, só no dia 26 de outubro. Entre as irregularidades que atingem as duas diretorias, estão a construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e a compra da refinaria de Pasadena, nos EUA. Segundo o Jornal Nacional, Costa admitiu ter recebido R$ 1,5 milhão de propina só nessa operação.

Duque, note-se, já aparece citado em outro inquérito da Polícia Federal para apurar irregularidades nos negócios da Petrobras. A polícia investiga sua relação com outros funcionários da estatal suspeitos de evasão de divisas.

Em abril, outra reportagem Folha informava que Rosane França, viúva do engenheiro da Petrobras Gésio França, que morreu há dois anos, acusou a empresa de ter colocado o marido na “geladeira” porque este se opusera ao superfaturamento do gasoduto Urucu-Manaus, na Amazônia. Para a sua informação, leitor amigo: esse gasoduto foi orçado pela Petrobras em R$ 1,2 bilhão e acabou saindo por R$ 4,48 bilhões.

A viúva de Gésio não citou nomes, mas em e-mails que vieram a público, ele reclamava justamente da diretoria de Serviços e Engenharia, que era comandada pelo petista Renato Duque, que negociava com as empreiteiras. Duque, aliás, é amigo de João Vaccari Neto, tesoureiro do PT, um dos nomes citados por Costa como parte do esquema corrupto, que recorria aos préstimos do doleiro Alberto Youssef.

Além de amigo de Vaccari, Duque sempre teve um padrinho forte no PT: ninguém menos do que José Dirceu. Quando Graça Foster assumiu a presidência da estatal, em 2012, ela o substituiu por Richard Olm. Mas isso não significa, é evidente, que a Petrobras está livre da politicagem. Lá está, por exemplo, José Eduardo Dutra, ex-presidente do PT e outro peixinho de Dirceu: é diretor Corporativo e de Serviços. Não só ele. Também é da cota do ainda presidiário Dirceu o gerente executivo da Comunicação Institucional, Wilson Santarosa.

A estatal, diga-se, tornou-se um retrato dos desmandos do PT e da forma como o partido entende o exercício do poder. Como esquecer uma frase já antológica do então presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, em 2005, em reunião com uma certa ministra das Minas e Energia chamada Dilma Rousseff? Ele cobrou uma promessa que lhe fizera Lula: “O que o presidente me ofereceu foi aquela diretoria que fura poço e acha petróleo”.

Era assim que Lula exercia o poder. E foi assim que a Petrobras passou a furar poço e a achar escândalos.

Por Reinaldo Azevedo

1 Minuto com Augusto Nunes: Aquartelada em milhares de ‘cargos de confiança’, a multidão de militantes do PT perdeu o sono com a desativação iminente do programa Desemprego Zero Pró-Companheirada

Em sua coluna na Folha desta quarta-feira, o jornalista Fernando Rodrigues publicou uma constatação, de autoria ainda ignorada, que tem feito muito sucesso nas redes sociais: “Em 2002, eu achava que o PT estava despreparado para assumir o governo. Mas eu não sabia que o PT estaria agora tão despreparado para deixar o governo”. O parecer condensado em duas frases, endossa o colunista, é “uma avaliação tão cruel quanto verdadeira”. Já tem vaga assegurada nas boas antologias de definições definitivas.

Se Dilma Rousseff for derrotada, milhares de militantes do PT não vão apenas perder a eleição. Perderão também os cargos de confiança que garantem aos ocupantes o que é mais que um emprego. É um passaporte para expedientes magros e salários obesos, um salvo-conduto para desfrutar do feriadão a cada 15 dias, a certeza da vida mansa. Os pendurados nos cabides em poder do Partido dos Trabalhadores perderam o sono não com o destino do Bolsa Família ou do Fome Zero. O que confiscou o sossego da turma é a iminente desativação da mais bem sucedida pilantragem assistencialista forjada pelo lulopetismo: o programa Desemprego Zero Pró-Companheirada.

Incluído na lista das espécies extintas desde janeiro de 2003, o petista desempregado logo vai multiplicar-se por todo o país. Fernando Rodrigues prevê que o fenômeno se manifestará com especial intensidade na capital federal. “Em Brasília, é possível respirar um certo pânico no ar”, informou no mesmo artigo cujo título é um perfeito resumo da ópera: Haja Prozac. “Só aqui há mais de 20 mil cargos de confiança, todos ocupados pelo petismo e adjacências. Por baixo, serão mais de 40 mil desamparados. Voltarão a seus Estados para pedir trabalho na iniciativa privada ou em algum governo, prefeitura ou sindicato sob o comando do PT”.

A procura será dramaticamente maior que a oferta. Se o quadro desenhado pelas pesquisas eleitorais não sofrer mudanças radicais, o PT será demitido sumariamente de três dos cinco governos estaduais que controla. Com a perda do Rio Grande do Sul, e do Distrito Federal e da Bahia, sobrarão o Piauí e o Acre. Os índices anêmicos dos candidatos companheiros no Paraná, em Santa Catarina, em São Paulo e no Rio de Janeiro anunciam o fim dos cabides de emprego no Sul e no Sudeste. E recomendam aos sem-contracheque que busquem sustento em outras freguesias. .

“Em Harvard, a universidade oferece um serviço gratuito de atendimento psicológico a estudantes estrangeiros que passam um tempo por lá e depois têm de retornar a seus países”, lembra o colunista da Folha. “Dilma poderia pensar no assunto. Uma ‘bolsa psicólogo’ ajudaria a manter mais calmas as pessoas a seu lado”. É uma boa ideia. Outra é sugerir aos flagelados do Desemprego Zero que se dirijam ao Instituto Lula em busca de adjutórios. Ali anda sobrando dinheiro.

(por Augusto Nunes)

Pessimildo x Otimildo: por que há boas razões para temer o pior

Pessimildo, a caricatura boçal que a campanha do PT faz dos críticos do governo

Pessimildo, a caricatura boçal que a campanha do PT faz dos críticos do governo

Por Daniel Jelin, na VEJA.com:
Um ranheta contumaz que torce para que o Brasil dê errado. É essa a imagem que a candidata Dilma Rousseff tem de seus críticos, a julgar pela cruzada contra o pensamento negativo que o PT levou ao horário eleitoral essa semana. A campanha é estrelada por um boneco batizado Pessimildo, de sobrancelhas grossas, olhos cansados e queixo protuberante — parece uma mistura do Seu Saraiva, o personagem de Francisco Milani no Zorra Total; com Statler, o crítico rabugento dos Muppets; Carl, o viúvo solitário de Up – Altas Aventuras; e Gru, o vilão de Meu Malvado Favorito. No vídeo levado ao ar, Pessimildo passa a noite em claro “para ver o pior acontecer” e se diverte com a perspectiva de que o desemprego cresça no Brasil — o que, hoje, é bem mais do que uma perspectiva. Um narrador de tom jovial faz pouco caso do fantoche: “Vai dormir, vai”.

Pessimildo é uma caricatura, mas bastante reveladora das obsessões da campanha petista. Desde o início da corrida eleitoral, a presidente Dilma Rousseff tem atacado os “nossos pessimistas”, que “desistem antes de começar”. Para ela, como para seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, “pessimismo” se opõe a valores como “verdade”, “vitória” e “progresso”. “Pense positivo, pense Dilma (sic)”, recomenda a campanha petista, à maneira dos manuais de autoajuda.

As armadilhas deste otimismo desmedido são analisadas em The Uses of Pessimism (“As Vantagens do Pessimismo”, em edição publicada em Portugal), que o filósofo inglês Roger Scruton lançou em 2010.

Não se trata de defender a melancolia, a desesperança, a indiferença ou o ressentimento — o livro não tem nada de sombrio. Seu alvo é o “otimismo inescrupuloso”. E, com frequência, o Otimildo da campanha petista é aquele que constrói sua mensagem com base em falácias, exageros, ilusões — ou na pura e simples manipulação da verdade e dos números.

“Pessoas verdadeiramente alegres, que amam a vida e são gratas por esta dádiva, têm grande necessidade do pessimismo — em doses pequenas o bastante para que sejam digeríveis”, escreve Scruton.

Vai dar tudo certo
A primeira armadilha apontada pelo britânico é a “falácia da melhor das hipóteses”. É o engano típico dos apostadores, que “entram no jogo com a plena expectativa de ganhar, levados por suas ilusões a uma situação irreal de segurança” – uma descrição aproximada do transe em que vive a área econômica do governo petista. O apostador só aparentemente assume riscos, escreve Scruton. No fundo, o que ele faz é bem o contrário: julgando-se predestinado, dobra a aposta convicto da vitória que acredita “merecer”. Em 2011, logo após assumir, Dilma contava com que o país crescesse 5,9% ao ano – em média! – em seu governo. A poucos meses de concluir seu mandato, Dilma amarga resultados tão ruins que só podem ser comparados aos anos Collor e ao governo de Floriano Peixoto, nos primórdios da República. O país está em recessão técnica, mas nem isso abala o otimismo palaciano. Como o jogo, o irrealismo é em si uma espécie de vício, analisa o filósofo.

Eu tenho um plano
Uma das falácias centrais analisadas por Scruton é a do planejamento, que consiste na crença de que sociedades podem ser organizadas como exércitos em torno de um plano desenhado por um poder central. Dessa armadilha deriva o furor regulatório dos burocratas e idealistas instalados na máquina pública. É a marca de regimes autoritários, claro, mas também envenena sólidas democracias. Para Scruton, o maior exemplo dessa falácia é incansável disposição dos arquitetos da União Europeia para editar marcos regulatórios cada vez mais detalhados e intrusivos, ignorando o “o modo como, pela lei das consequências não planejadas, a solução de um problema pode ser o início de outro”. Scruton dá como exemplo a determinação de que o abate de animais na UE se faça na presença de um veterinário. O objetivo: remover da cadeia produtiva os animais doentes, possivelmente impróprios para o consumo. O resultado: onde o diploma de veterinário é difícil de obter, e o profissional, portanto, é muito bem remunerado, pequenos abatedouros se viram obrigados a fechar, pondo em dificuldades também os pequenos criadores.

Um corolário da falácia do planejamento é o inchaço da máquina pública. É sintomático que Dilma, uma notória “planejadora”, tenha levado o primeiro escalão a abrigar 39 ministros, incluindo o da Pesca, para, segundo informou recentemente a presidente, não descuidar da tilápia. A falácia reside na crença de que um exército de iluminados tenha soluções, de canetada em canetada, para todos os problemas do país. E é grande o apelo desse falácia. “Todo mundo quer empurrar seus problemas para o estado, com a certeza de que há um plano para sua sobrevivência que não exija esforços de sua parte”, afirma Scruton a VEJA. “Como digo em meu livro, não há como convencer as pessoas a abrir mão dessas falácias, e só um desastre pode momentaneamente incutir a verdade em suas mentes.”

Eu tenho um sonho
A campanha eleitoral brasileira parece uma coleção das falácias analisadas por Scruton. Uma delas é particularmente recorrente: a utopia, uma visão de futuro em que os homens terão superado suas diferenças e resolvido todos os problemas. Marina Silva, a presidenciável do PSB, tem o discurso mais utópico da corrida presidencial – já se definiu como ‘sonhática’, por oposição aos políticos ‘pragmáticos’, e acredita que seu eventual governo poderia atrair os melhores quadros dos partidos brasileiro, incluindo os arquirrivais PT e PSDB.

Claro, a mobilização política terá sempre um forte acento otimista — Martin Luther King não teria feito história se, em vez de um sonho, tivesse apenas uma sugestão a dar… A falácia da utopia, contudo, vai bem além disso: acena, não com dias melhores, mas com o fim de todos os males. É uma promessa, por definição, irrealizável. Como o eleitor pode se precaver contra esse tipo de ilusão? “Não é fácil. Ninguém vota em pessimistas. Ainda assim é possível distinguir os políticos realistas – aqueles que reconhecem os problemas e estão preparados para encará-los, como Margaret Thatcher e Winston Churchill. Mas, claro, dependemos de uma cultura de seriedade e responsabilidade”, diz Scruton. “Isso existe no Brasil?”

Pior não fica
A reportagem informa Scruton da existência do palhaço Tiririca, o deputado mais votado em 2010, candidato à reeleição em 2014, cujo slogan é “pior do que está não fica”. É possível cultivar um pessimismo “esclarecido”, sem sarcasmo, sem desistir da política? “Sim, é possível”, responde Scruton. “Mas é mais provável que isso ocorra durante uma crise nacional, quando as pessoas precisam de liderança e por isso irão procurar qualidades morais, realismo e coragem nos políticos. O sarcasmo pode ser bem-sucedido em tempos de paz e riqueza, mas não em tempos de conflito e privação. O fato de que políticos no Brasil sejam vistos como piada sugere que as coisas no Brasil não estão tão mal.”

As armadilhas do progressismo
Expoente do pensamento conservador, Scruton dá especial atenção às armadilhas do “progressismo”. O filósofo considera enganoso estender o entendimento que se tem do progresso na ciência a outras áreas. Que a ciência avance, por acumulação de conhecimento, é inegável. Mas é “questionável acreditar, por exemplo, que haja progresso moral contínuo, que avance à velocidade da ciência”, escreve. Em um país na 79ª posição no ranking do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, contudo, “progresso” é palavra de ordem no debate político. Como países emergentes devem lidar com a necessidade de se desenvolver, sem ceder às falsas esperanças? Scruton não é contra o progresso, é claro, mas lembra que algumas mudanças acontecem para pior. “Acho que é sempre necessário considerar o que as pessoas têm e aprender a dar valor a isso. Não virar as costas ao passado, aos costumes e às instituições que são a medida da felicidade das pessoas”, diz. “É também necessário reconhecer o custo do progresso, em termos de prejuízos ambientais, migrações e desagregação das famílias. É necessário enfatizar esses aspectos para lembrar as pessoas das boas coisas que elas podem perder.”

As armadilhas da igualdade
Uma das ciladas do otimismo inescrupuloso é o que Scruton chama de “falácia da agregação”, que o filósofo ilustra com o seguinte exemplo: uma pessoa pode gostar de lagosta, chocolate e ketchup, mas isso não significa que deva combinar os ingredientes no mesmo prato. Para o filósofo, o lema da Revolução Francesa incorre na mesma falácia: só se promove a igualdade às custas da liberdade. Como países ainda tão desiguais como o Brasil devem enfrentar a questão? “É justo lutar pela igualdade quando as desigualdades, de modo manifesto, dividem e ameaçam a ordem social”, responde Scruton. “Mas é errado acreditar que se pode perseguir a igualdade e a liberdade ao mesmo tempo. Para que haja uma sociedade mais igualitária, é preciso conter ambições e garantir que a renda seja distribuída, mesmo contra a vontade dos contribuintes.”

Fantasias convenientes
Embora disseque todas as falácias do otimismo desmedido, Scruton não tem esperança de que “otimildos” recuem de suas ilusões. Ao contrário, eles se voltarão contra seus críticos e seguirão com suas fantasias convenientes, e com energia renovada, bradando por mais progresso, novos planos, mais belas utopias. Para tanto, recorrerão a diversos “mecanismos de defesa contra a verdade”, afirma Scruton, como a inversão do ônus da prova e a transferência de responsabilidades. Como esses truques podem ser tão eficientes? “Nós todos evitamos a realidade quando ela é inconveniente. A verdade é uma disciplina difícil. É importante que cada sociedade acomode instituições – locais de debate, think tanks, universidades – onde a liberdade possa ser buscada a todo custo”, diz. “Enquanto houver liberdade de expressão e de opinião, a verdade pode ser dita e, gradualmente, infiltrar-se na opinião pública. Mas isso leva tempo e é necessário que as pessoas aprendam a respeitar os que dizem a verdade.”

Por Reinaldo Azevedo

 

Verissimo, socialismo e barbárie

Verissimo: prova de que a barbárie está entre nós

Os donos dos principais jornais brasileiros devem lamentar o dia em que contrataram Verissimo como colunista. Esperavam que o sujeito falasse de comédia da vida privada, mas ele insiste em falar de política, área na qual é, em minha opinião, realmente engraçado, ainda que seja um humor involuntário. Não é que o homem insiste em pregar o socialismo em pleno século 21?

Na coluna de hoje, falou de Fukuyama, do “fim da história”, e fez malabarismos para concluir que o capitalismo também fracassou, não só a utopia socialista. Adotou um discurso digno de uma Luciana Genro, aquela que deve achar que até dor de dente e de barriga é culpa do “capital financeiro”. Acordou com dor de cabeça, levou um pé na bunda do namorado ou bateu de carro? Culpa do “capital especulativo”.

Sim, eu sei que é tudo ridículo. Mas eis o ponto: figuras patéticas que adotam a retórica socialista em pleno século 21 ainda têm espaço na mídia e na política, o que é um verdadeiro espanto, prova de nosso atraso permanente. Somos o eterno país do futuro que adora flertar com o passado, com o que há de mais atrasado. Diz o filho de Érico, com o que pode ser tanto um erro de digitação como um ato falho freudiano, conhecido como “denegação”:

O capital financeiro predatório mantém seu poder de ditar a moral e os costumes da época, masnão não tem mais a certeza de um futuro só dele nem a bênção da filosofia sintética e incontestável do Confúcio da direita.

Para quem conhece um pouco de psicanálise, o “não” seguido de outro “não” é uma denegação, quer justamente anular a negativa. É como na matemática: negativo com negativo dá positivo na multiplicação. Será que, no fundo, Verissimo sabe que não há alternativa fora do capitalismo? Deveria, pois quando ficou doente, foi correndo procurar um hospital particular que visa ao lucro.

Mas sigamos com o espetáculo de horror. Vejam só o que o “especialista” em finanças e economia disse:

A crise provocada pelo capital financeiro fora de controle levou protestantes para as ruas na Europa e nos Estados Unidos e transformou “austeridade”, a solução receitada para as vitimas da crise, em palavrão. Ninguém quer pagar, com o sacrifício de gastos sociais, por uma porcaria que não fez. E cresce a busca por alternativas para os dogmas neoliberais e pelo fim do monólogo dos donos do dinheiro.

Ai minha úlcera! Ok, lugar comum dos ignorantes, que ele repete como verdade absoluta. Mas será que não sabe mesmo que as intervenções estatais estavam no epicentro da crise financeira, que os bancos centrais fomentaram uma bolha, que os gastos públicos colocaram a Europa de joelhos?

Austeridade pode ter virado palavrão nos meios mais incautos, mas o fato é que os países que seguiram as receitas de mais austeridade estão em situação bem melhor hoje do que os demais, como a França que o socialista tanto gosta, que mantiveram as comportas do estado abertas. Verissimo deve “pensar” que movimentos como o Occupy Wall Street são realmente representativos do povo em geral. Mas ele continua com suas baboseiras:

E o papel da esquerda na História pós-Fukuyama? O socialismo está numa crise de identidade. Como é difícil, hoje, recuperar o sentido antigo, sem qualificativos, de uma opção pelo socialismo, as pessoas se entregam à autorrotulagem para se definirem exatamente, (sou dois quartos de esquerda-esquerda, um quarto de centro-esquerda e o outro quarto deve ser gases), o que só atrasa as discussões que interessam. Quais são os limites da coerência ideológica e do pragmatismo? O que ainda pode ser resgatado das ilusões perdidas? Por que não se declarar logo um neo-neoliberal e ser feliz?

Entenderam? Essas adaptações modernas da esquerda só atrasam as discussões que interessam. É preciso resgatar a utopia socialista mesmo, sem muito pragmatismo. É isso que vai tornar o mundo um lugar melhor e mais justo. Esqueçam as cem milhões de mortes dos experimentos anteriores, toda a miséria e escravidão que o socialismo real pariu. Foi um equívoco daquelas pessoas. Se ao menos tentássemos novamente…

Num livro recém-publicado, a ex-mulher de François Hollande revela que ele tem horror a pobre. Se pode sobreviver a Francis Fukuyama, a François Hollande e a partidos políticos brasileiros que se chamam de “socialistas” com uma certa imprecisão semântica, o socialismo ainda tem um futuro, mesmo que seja apenas um apelido conveniente para o que se quer. A escolha continua sendo entre socialismo e barbárie. Pode-se não saber mais o que é socialismo, mas para saber o que é barbárie basta abrir os olhos.

Socialismo ou morte! Verissimo parece endossar a declaração do populista Hugo Chávez, outro que tentou colocar em prática as “brilhantes” ideias do colunista. O socialismo ainda tem um futuro, e o futuro ainda será socialista. Eis o sonho do recalcado, e o pesadelo de todas as pessoas decentes.

A escolha é entre socialismo e barbárie! Ou seja, países como Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Suíça, Cingapura, Coreia do Sul, são todos exemplos da mais pura barbárie. Basta abrir os olhos. Ainda bem que temos alternativas como Cuba, Venezuela, Coreia do Norte, locais que Verissimo certamente adoraria viver.

Sim, basta abrir os olhos para ver a barbárie. Nem é preciso viajar. É só pegar o seu jornal dominical e ir direto para o caderno de Opinião, e procurar por Verissimo. Os bárbaros estão dentro dos portões, adotam muitas vezes postura civilizada e até engraçadinha. Mas nem por isso deixam de ser bárbaros…

Rodrigo Constantino

 

Assessor econômico de Marina defende “choque de credibilidade”

“Deveríamos ter reformas institucionais para melhorar o ambiente do negócio no Brasil”, diz Tiago Cavalcanti (Fabiano Accorsi/EXAME)

Por Luís Lima, na VEJA.com:
A trajetória do economista Tiago Cavalcanti guarda várias semelhanças com a do ex-candidato à Presidência Eduardo Campos. Ambos são pernambucanos, se formaram em economia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e foram convidados para cursar doutorado na Universidade de Illinois Urbana Campaign, nos Estados Unidos. Campos decidiu priorizar a carreira política; já Cavalcanti aceitou o convite e, após concluir a pós-graduação, se tornou professor de desenvolvimento econômico na renomada Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Antes disso, os caminhos de Campos e Cavalcanti se cruzaram novamente. Após um encontro, Cavalcanti aceitou colaborar com a área econômica do programa de governo do PSB. E não parou por aí.  

Atualmente, mesmo de longe, Cavalcanti ainda contribui ativamente com a campanha de Marina Silva, que encabeçou a candidatura do PSB após a morte de Campos, em um acidente aéreo, em agosto. O interlocutor de Cavalcanti no Brasil é Alexandre Rands, irmão de Maurício Rands, coordenador do programa de governo do PSB. Quando passou a fazer parte do time, Cavacanti disse que convidou outras pessoas, como o professor do Insper Marco Bonomo. 

Crítico da atual gestão econômica do governo, Cavalcanti diz que é preciso um “choque de credibilidade” na economia, principalmente na política monetária. ”O primeiro erro grave (da atual gestão) é de diagnóstico. O problema do Brasil não é de demanda, mas de oferta”, afirmou em entrevista ao site de VEJA. Entre outros pontos, Cavalcanti defende uma maior transparência na política fiscal, uma mudança na filosofia da gestão pública, com o estabelecimento de metas e resultados que evitem desperdícios, além de um fortalecimento da participação do setor privado em projetos públicos. Em linha com o que vem sendo defendido por Marina, Cavalcanti também acredita na independência formal do Banco Central (BC), no aumento do superávit primário, em uma reforma tributária e na trajetória de queda da meta de inflação. Veja trechos do bate-papo.  

Qual é  principal erro da política econômica do governo Dilma Rousseff?
O primeiro erro grave é de diagnóstico. O problema do Brasil não é de demanda, mas de oferta. A taxa de desemprego é baixa, apesar de estar com tendência crescente, e a inflação é relativamente alta, mesmo com alguns preços controlados artificialmente. O Brasil tem uma infraestrutura precária, uma mão-de-obra com baixa qualificação para padrões internacionais e um péssimo ambiente de negócio. Além disso, investimos muito pouco. Nossa taxa de investimento (18%) é parecida com a da Inglaterra que já tem uma infraestrutura razoável, mas bem abaixo dos países emergentes como China (acima de 40%) ou Chile (acima de 23%). Enquanto tínhamos capacidade produtiva ociosa (alto desemprego ou empregos precários) e a bonança externa devido ao alto preço das commodities, o Brasil cresceu. Mas, depois, parou. Além disso, a política macroeconômica (fiscal e monetária) piorou muito nos últimos anos. A ideia do governo Dilma era a de que para aumentar a taxa de investimento e incentivar a produção industrial, o Brasil precisaria de uma nova matriz macroeconômica: taxa de juros baixa, câmbio depreciado e inflação baixa através do controle de alguns preços. Os conselheiros de Dilma falavam isso. Vimos que essa não foi uma política acertada.

Quais os ajustes necessários para a economia deslanchar em 2015?
O Brasil precisa corrigir as fontes dos problemas. Sabemos que congelar preços não é a solução para o problema da inflação. O correto é deixar o preço do petróleo seguir a tendência internacional. Também é preciso corrigir outros preços administrados. Paralelamente, a política monetária precisa de um choque de credibilidade e o Banco Central (BC) tem de seguir a meta estabelecida. Segundo, a política fiscal precisa de transparência, sem os famosos artifícios contábeis. Com isso, e um aumento no superávit primário, a dívida do Brasil poderia voltar para uma tendência sustentável. 

O Brasil também precisa retomar a agenda de reformas. Arrecadamos, em proporção à renda, a mesma coisa que o Canadá e bem mais que o Chile. Mas nossos serviços públicos são bem piores que nesses dois países. Não precisa ter um choque enorme para diminuir o Estado, mas o Brasil pode sim reduzir os desperdícios no setor público, melhorando a gestão através de um planejamento e uma filosofia de metas e resultados neste setor. Com isso, podem sobrar mais recursos para investimento público e políticas sociais. Ainda é preciso aumentar a infraestrutura pública com a participação do setor privado. Neste caso, é preciso regras claras e transparência, que podem melhorar através do fortalecimento das agências reguladoras. Por fim, são imprescindíveis reformas institucionais para melhorar o ambiente do negócio no Brasil. Abertura e fechamento de firmas, melhora na burocracia, rapidez para pagar impostos, etc. Devem-se criar metas para uma melhora institucional.

Em quais áreas da gestão pública há desperdícios que poderiam ser enxugados?
Teria de estudar a fundo as contas do governo. Mas, por exemplo, a diminuição na transferência de recursos do Tesouro para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES). O BNDES poderia focar mais em algumas atividades e em setores com efeitos claros de trasbordamento ou retornos crescentes à escala, como em projetos de infraestrutura e inovação.

A reforma tributária é mesmo possível?
Deve-se ter um sistema tributário simples, que não incentive a evasão fiscal. Portanto, é preciso uma reforma que possa substituir a tributação complexa atual e introduzir uma tributação simples no valor adicionado, diminuindo a quantidade de tributos.

Como você avalia a atual meta de inflação? Ela deveria ser alterada?
A meta deve ser de tendência negativa, ou seja, deve ser reduzida. Diria que o que está no programa de governo está bom.

Como Marina, se ganhar, conseguirá fazer todos os investimentos prometidos em áreas sociais e, ao mesmo tempo, enxugar gastos do Estado?
Acho primeiro que se passa por uma mudança na filosofia de gestão. É preciso planejar, definir metas e cobrar resultados. Dado o tamanho do Estado e a qualidade dos serviços que ele oferece, tenho certeza que há muito espaço para diminuir desperdícios. Eduardo Campos fez isso. Além disso, é importante definir incentivos para recompensar bom desempenho no setor público. O tamanho do Estado em relação à renda pode diminuir ao passar dos anos, mesmo sem cortes nos gastos. Basta que os gastos aumentem com a inflação e a taxa de crescimento do PIB real aumente em 1 ou 2 pontos porcentuais. Educação pública, saúde pública e o Bolsa Família são conquistas da democracia. A gestão de um hospital pode ser privada, mas o suporte financeiro pode ser público. Não há nada de errado nesta filosofia. A esquerda gosta de apontar os países da Escandinávia como exemplo de países com uma alta participação do Estado e um alto nível de renda e  de qualidade de vida. É verdade, mas a filosofia é diferente. Não é um Estado produtor. É um Estado de bem-estar social que tem uma filosofia de gestão privada com metas e avaliação de resultados. 

A independência do BC garantida por lei é necessária?
Sou a favor da autonomia do Banco Central. No passado, muita gente reclamou da Lei de Responsabilidade Fiscal e todo mundo agora acha que essa é uma lei importante para o controle de gastos no Brasil. Mudanças institucionais têm sempre resistência. O Banco Central da Inglaterra é gerido por um canadense que foi presidente do Banco Central do Canadá, e foi escolhido porque o Canadá passou pela crise de forma mais suave.

Os governos Dilma e Lula foram caracterizados pelo desenvolvimentismo; FHC era neoliberal. Marina quer ‘casar’ essas duas marcas. Qual a principal característica do programa da candidata?
Não gosto de rótulos. Eles inibem o debate e cegam as discussões. Acho que há bastante evidência empírica de políticas que podem levar a um maior desenvolvimento e melhoria na qualidade de vida das pessoas. É preciso dar os incentivos corretos. Marina está trazendo o meio ambiente para o centro das discussões e como prioridade do seu projeto de governo. Acho que isso é um avanço imenso. Questões ambientais são problemas de primeira ordem. É preciso combater a desigualdade também. Não só na ponta, transferindo renda diretamente, mas também na origem. Neste caso, temos o problema da desigualdade de oportunidades. É aí que temos que realmente mudar o Brasil com investimento públicos nos primeiros anos de vida (onde o retorno é maior), creches e escolas integrais. 

O senhor aceitaria compor a equipe econômica de um eventual governo de Marina Silva?
Essa é uma questão difícil. Tenho minha família, emprego na Universidade de Cambridge e alguns projetos pessoais relacionados à minha carreira acadêmica. Mas, se for dentro das minhas qualificações e algo que genuinamente possa ajudar, então pensaria seriamente. No fundo, foi por isso que decidi fazer economia.

Por Reinaldo Azevedo

‘A xacina do testo’, de Roberto Pompeu de Toledo

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

Publicado na edição impressa de VEJA

Apezar da xuva, muita jente esteve prezente ao ezersisio de jinastica qe teve lugar no colejio. Omens, mulheres e criansas no fim cantaram o Ino Nasional. Ouve pesoas qe ate xoraram de emosão cuando a festa terminou. Oje qem qiser pode asistir a nova aprezentasão.

A impressão é de escombros do que foi outrora a língua portuguesa em sua forma escrita. Como se tivesse sido atingida por uma bomba e alguns destroços irreconhecíveis houvessem sido resgatados da hecatombe. A comparação não é absurda. Tem o efeito de uma bomba a radical reforma ortográfica defendida pelo site Simplifi­­cando a Ortografia (simplificandoaortografia.com), criado pelo professor de português Ernani Pimentel. Sua proposta é acabar com letras que não se pronunciam, como o “H” no início de certas palavras e o “U” que se segue ao “Q” em “quintal” e “querido”, assim como a duplicidade de representação do mesmo som em “S” e “Z”, “SS” e “Ç” ou “G” e “J”.

Não é uma proposta inovadora. Para citar uma das que já se apresentaram com espírito semelhante no passado, o general Bertoldo Klinger, figura preeminente da Era Vargas, não só formulou a sua como a praticou – ele grafava seus textos segundo as regras que inventou. O general (aliás, jeneral) Klinger, em quem o reformador da língua escrita se misturava ao reformador do povo brasileiro, explicava: “Ortografia é lojica. Lojica é ordem. Sem ordem não a nasão. Logo, não a nasão sem ortografia lojica”.

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HADDAD E AS CICLOFAIXAS: A PARTIR DE HOJE, O PREFEITO FICARÁ AINDA MAIS DOIDO. OU: ODORICO PARAGUAÇU E A IMPRENSA LIVRE E INDEPENDENTE

Vejam esta foto. Já explico.

foto (38)

Lá vou eu, mais uma vez, dedicar um pouco do meu tempo à gestão de Fernando Odorico Haddad Paraguaçu.

Escrevi ontem um post criticando a pretensão do prefeito Fernando Haddad (PT) de conceder desconto de IPTU para empresas que criarem bicicletários. Eu o publiquei, como se pode ver, às 6h01. Quando fui deitar, ainda não havia recebido a edição da VEJA. Acordo, tomo café, leio a revista e constato que há uma reportagem sobre as ciclofaixas. Segundo o texto, que reconhece algumas dificuldades no programa em curso na cidade de São Paulo, trata-se de uma tendência irreversível.

Abro a área de comentários do blog, e havia uma enxurrada de provocações — certamente, uma intervenção organizada — especulando sobre a diferença entre a minha opinião e a da VEJA. A “Al Qaeda eletrônica”, como defino a canalha, se dividia em três abordagens:

a: eu teria escrito um post para tentar desmoralizar a reportagem da revista, o que, obviamente, me faz candidato à guilhotina;
b: a VEJA é que teria produzido uma reportagem para desmoralizar o que penso a respeito, o que também me põe no caminho da lâmina no pescoço;
c: depois da reportagem, é claro que vou mudar de opinião porque, afinal, escrevo o que me mandam escrever.

Vamos ver.
a: ainda que eu quisesse, não teria como contestar uma reportagem cuja existência eu desconhecia;
b: a VEJA tem mais o que fazer do que contestar minhas opiniões;
c: se e quando a revista quiser cortar a minha cabeça, não será por causa das ciclofaixas. Temos diferenças de pensamento em assuntos muito mais relevantes.

Essa patrulha ainda é expressão da boçalidade da era petista. A boa notícia é que ela está em declínio, com ou sem a reeleição de Dilma. Estamos vivendo o fim de um ciclo: da economia, da política e até da estupidez — isso não quer dizer, claro!, que não possa vir à luz uma estupidez nova. OK… A alternância de poder, ainda que da burrice, já é um alento. Adiante.

Se a VEJA e eu pensássemos rigorosamente a mesma coisa, que sentido faria o site da revista hospedar o meu blog? Nem me dedico a um levantamento exaustivo. De imediato, lembro-me de que expressamos pontos de vista divergentes sobre aborto, pesquisas com células-tronco embrionárias, ciclofaixas, manifestações de junho, aquecimento global etc. O site da revista não me contratou para escrever o que ela pensa. Fui contratado para escrever o que eu penso. Às vezes, há coincidência; às vezes, não.

Os idiotas que resolveram invadir a área de comentários com quatro patas — e não com duas rodas — são incapazes de compreender o espírito da imprensa livre e independente. Essa gente, que ou vende a sua opinião ou entrega a sua alma a um partido, imagina que todos agem do mesmo modo. Podem tirar o cavalo da chuva. Ainda não foi desta vez. VEJA e eu estamos mais juntos do que nunca no propósito de assegurar a liberdade de pensamento e de concordar em discordar. Escravos voluntários não se conformam que isso possa existir.

Pesquisas
Tanto a pesquisa encomendada pela ONG petista Rede Nossa São Paulo (esse “nossa” quer dizer “deles”) como a do Datafolha apontam que uma ampla maioria dos paulistanos é favorável às ciclofaixas. Que bom! Eu também sou! Como era — e continuo — favorável às faixas exclusivas de ônibus.

Com a devida vênia, há pesquisas que não precisam ser feitas. Indagar “Você é a favor ou contra a implantação de ciclovias em São Paulo?” já traz, em si, a resposta. É evidente que a esmagadora maioria das pessoas vai dizer que é favorável — 80%, segundo o Datafolha (70% no caso da faixa na Paulista).

Proponho outras questões cuja resposta já conheço:
1: você é a favor da igualdade ou contra?;
2: você é a favor da justiça ou contra?;
3: você é a favor do uso de imóveis hoje fechados para moradia ou contra?

Quase ninguém é contra o bem, o belo e o justo, não é mesmo? A questão é saber como eles serão alcançados. Ser favorável à igualdade, à justiça e à democratização da propriedade não faz dessa alma generosa um militante stalinista, por exemplo, ou um fã do Guilherme Boulos, o coxinha vermelho.

O meu ponto
É evidente que quase ninguém se opõe a que existam faixas exclusivas para bicicletas. Havendo espaço, por mim, que até os discos voadores tenham seus campos de pouso. A minha crítica se deve à forma como o prefeito implementa a proposta, na base da porrada, sem planejamento nenhum, na correria, para mostrar algum serviço, confinando os carros, demonizando os motoristas, tornando ainda mais caótico o trânsito da cidade.

Pior: as ciclofaixas se transformaram numa espécie de culto religioso dos “descolados” que circulam pelo centro expandido da cidade. É escandaloso que o programa comece justamente onde as bicicletas não estão — daí as pistas vazias, desertas — em vez de ser testado onde elas estão: na periferia.

Ocorre que a ideia fixa de Haddad nunca pretendeu criar uma alternativa de transporte. O propósito é outro: educar espíritos, compreendem? Ele está menos empenhado em melhorar as condições de mobilidade — elas pioraram — do que em converter as almas e inaugurar uma nova era. Ele não quer fazer da bicicleta um meio a mais de transporte: ele quer fazer uma “revolução” e produzir derrotados. Como tudo o mais, na sua gestão, dará errado — cadê o Arco do Futuro, prefeito, com aquela maravilhosa maquete? —, quer deixar as ciclofaixas como herança.

Odorico Paraguaçu
Haddad é o Odorico Paraguaçu da bicicleta. Muitos hão de se lembrar do prefeito de Sucupira, de “O Bem-Amado”, de Dias Gomes. Os mais jovens terão de fazer uma pesquisa. O grande projeto do homem era criar um cemitério na cidade. Criou. Só que não morria ninguém para que ele pudesse inaugurá-lo. Então ele resolve dar um jeito: contratar um jagunço para produzir um cadáver que justificasse a sua obra.

Assim faz Haddad. Ele criou as ciclofaixas, mas só 3% dos entrevistados pelo Datafolha admitem usá-las regularmente. Então ele quer dar um jeitinho: isenção de IPTU para empresas que criarem biciletários e reserva de espaço nos ônibus para as bicicletas. Mas onde colocá-las? Ora, no espaço destinado a idosos e deficientes.

Odorico (Paulo Gracindo) contratou Zeca Diabo (Lima Duarte) para produzir o cadáver que inauguraria o cemitério

Odorico (Paulo Gracindo) contratou Zeca Diabo (Lima Duarte) para produzir o cadáver que inauguraria o cemitério

A partir desta segunda, o prefeito estará ainda mais doidão. Segundo o Datafolha, em dois meses, caiu de 47% para 28% os que avaliam a gestão do prefeito como ruim ou péssima; os que a veem como regular subiram de 37% para 44%, e saltaram de 15% para 22% os que dizem ser ela boa ou ótima. Será tudo por causa da ciclofaixa? Pois é… O próprio prefeito não encontraria outra explicação, porque não teria como ver os próprios méritos na saúde, na educação, na zeladoria, no planejamento urbano…

Uma coisa é certa: o marketing de Haddad se tornou bem mais agressivo. Há até militantes disfarçados de jornalistas fazendo perguntas em entrevistas coletivas para satanizar os críticos de suas propostas (encerrarei este post com esse assunto).

Agora a foto
E aquela foto lá no alto? Tirei no começo desta madrugada. O buraco que vocês veem está na ciclofaixa que passa na Praça Vilaboim, em Higienópolis. O dito-cujo está lá há mais de ano. É enorme — comparem com o tamanho daqueles “tachões” que delimitam a pista exclusiva para bicicletas. Reparem no detalhe: os tarados da ideia fixa nem se ocuparam de tapar o rombo. Meteram a faixa amarela por cima — o que poria em risco até a segurança de ciclistas se eles existissem. Mais: a rua é relativamente íngreme. Para subi-la de bicicleta, é preciso ter certo condicionamento físico. “Ah, mas em Amsterdã…” Em Amsterdã e em várias outras cidades, as ciclovias são um suplemento, uma opção, uma oferta, uma generosidade. Não foram criadas hostilizando motoristas e piorando a mobilidade.

“Ah, mas 80% dos paulistanos são favoráveis…” Espero que cheguem a 100%. Ainda tenho a ambição de ser, em algum momento, aquele ser estatisticamente desprezível, que desaparece nos arredondamentos, mas que, ainda assim, fala o que pensa.

Segundo o prefeito Fernando Haddad, gente como eu quer evitar o futuro. Segundo gente como eu, o prefeito Fernando Haddad é só um Odorico Paraguaçu que está doido para inaugurar o seu cemitério. E nada é mais velho do que isso.

Para encerrar, duas observações
1: ainda voltarei à ONG Rede Nossa São Paulo. Sinto vergonha alheia quando penso nela. Direi por quê.

2: o prefeito e seus tentáculos se dispensem de tentar patrulhar a minha opinião onde quer que seja. Não dou a menor bola. Só me animo mais. É feio recorrer a falsos jornalistas em entrevistas coletivas. Os blogs sujos não bastam?

PS: Prefeito, tenha ao menos a decência de mandar varrer as ciclofaixas. Estão virando depósito de lixo. Com o apoio de 80%. Oitenta por cento que não recolhem a sujeira.

Ah, sim: eu também sou favorável às ciclofaixas, tá, pessoal? Eu me oponho é à picaretagem e ao cinismo que se veem naquela foto.

Odorico Paraguaçu, disfarçado de Fernando Haddad, tendo ideias para inviabilizar SP

Odorico Paraguaçu, disfarçado de Fernando Haddad, tendo ideias para inviabilizar SP

Já que a porrada não funcionou, Haddad, o maníaco, agora quer a “Bolsa Bicicleta”: dar desconto de IPTU a quem incentivar o que os idiotas chamam “bike”. E ainda faltam 833 dias para a gente se livrar dele…

Começo a temer pela sanidade, digamos, intelectual do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, do PT, o maníaco da bicicleta. Agora ele tem outra ideia, em conjunto com uma vereadora do partido, a senhora Juliana Cardoso: dar um desconto no IPTU para empresas que criarem bicicletários, incentivando os funcionários a andar de bicicleta — que boa parte da imprensa brasileira passou a chamar, sei lá, por quê, de “bike”, o que me envergonha um pouco. A palavra já dispensa até as aspas em jornais, revistas e sites. Ou por outra: a “bike”, não a bicicleta, já é uma quase unanimidade, digamos, ideológica nas redações. Agora só falta a adesão do povo.

Para um prefeito que tentou meter no ano passado um reajuste escorchante do IPTU — que acabou sendo barrado pela Justiça —, a proposta de isenção chega a ser acintosa. É que o homem da ideia fixa já tentou forçar o paulistano a andar de bicicleta na base da porrada, impondo as ciclofaixas e mobilizando seus fiscais para enfiar a mão no bolso dos motoristas que invadirem esses espaços sagrados. Não deu certo. Os ciclistas não apareceram.

As ciclofaixas de Haddad são imensas solidões vermelhas, onde se pode ver de tudo, menos bicicleta. Pior: como muita gente entende aquilo como terra de ninguém, noto que acaba virando depósito de lixo. Nesta sexta, por exemplo, choveu em São Paulo — pouca chuva, infelizmente. Mas estava ali aquela coisinha chata, que os portugueses chamam “molha-bobos”.

Em dias de chuva, o trânsito da cidade já é especialmente perverso — entre outras razões porque muitos sinais param de funcionar, ficam embandeirados. Haddad não dá bola para essa bobagem. Não seria ontem, claro!, que dariam as caras os ciclistas que já não aparecem nos dias secos. Era surrealista ver o caos instalado nas ruas e aquele deserto vermelhão do prefeito, ali, entregue a ninguém.

Ainda faltam 833 dias para Haddad deixar o governo, já contando o 29 de fevereiro de 2016, ano bissexto. Ele está aí não faz dois anos. A gente tem a impressão de que faz uns dez…

Isso é desespero. Haddad está apelando a uma espécie de “Bolsa Bicicleta” para ver se consegue povoar as ciclovias. Ainda que, com o tempo, algumas bicicletas apareçam, é evidente que, em São Paulo, por múltiplas razões, não serão uma alternativa de transporte. Ocorre que o prefeito sequestrou as vias públicas como se delas fossem. As pouquíssimas que vi serviam ao lazer: ou era a molecada dando um rolê ou eram aqueles senhores um pouco estranhos, com roupas bem coladas ao corpo, dando também um, digamos, rolê…

Numa entrevista coletiva de Haddad, fiquei sabendo, um militante disfarçado de jornalista, sem identificação do veículo de comunicação a que pertencia, fez uma pergunta ao alcaide que lhe deu a chance de hostilizar os raros setores da imprensa que têm a coragem de criticar a sua ciclomania e de zombar de sua ridícula ideia fixa.

O truque é velho, sem deixar de ser, é evidente, intelectualmente vigarista.

Por Reinaldo Azevedo

 

Datafolha prova que ciclofaixas de Haddad atendem à demanda de menos de 1% dos paulistanos. “Ah, mas 80% são a favor”. E daí? Basta fazer a conta para que a gente se dê… conta (!) da loucura do maníaco

Eu adoro uma boa briga, sobretudo quando ela vem recheada de falsas tecnicalidades para enganar trouxas. Vamos ver. O subjornalismo financiado por estatais e pelo petismo está fazendo escarcéu com a pesquisa Datafolha que aponta que 80% dos paulistanos são favoráveis às ciclofaixas. E, atendendo às ordens do prefeito, os puxa-sacos a soldo estão batendo em mim. Eles gritam, esperneiam e xingam. Eu respondo com números.

Esses patriotas só aplaudem o instituto quando este encontra o que eles gostam de ouvir. Já escrevi a respeito e reitero: perguntar se alguém é favorável às ciclofaixas é o mesmo que indagar se o indivíduo é a favor do bem. Favorável às ditas-cujas, eu já disse dezenas de vezes, eu também sou. A questão é saber como o programa está sendo implementado. Mas vamos os números do Datafolha.

Datafolha bicilerta dois

Segundo o instituto, de cada 100 pessoas que responderam a pesquisa, só 3 usam a bicicleta como meio de transporte “com mais frequência”. Assim, as ciclofaixas atenderiam a uma demanda de 3% dos paulistanos que se deslocam. É quase um quarto dos que andam a pé: 11%! Digo “atenderiam” porque nem isso é verdade: parte desses 3% está em regiões onde não há ciclofaixas. Logo, elas suprem uma suposta necessidade de menos de 3%. Vejam os outros meios empregados: 77% se deslocam de ônibus; 48% usam metrô, 24%, carro; 16%, trem; 15%, lotação; 2%, táxi, e 2%, moto.

Infelizmente, o infográfico publicado pela Folha passa a impressão, a um leitor menos atento, de que o uso da bicicleta é muito maior do que é. Observem:

Datafolha bicicleta três

Vamos entender os números?

Dizem ter bicicleta apenas 32% dos entrevistados — 68% não. Dos que têm, apenas 47% afirmam ter usado algumas vez as “ciclovias” (é como está no jornal, mas suponho que estavam se referindo a “ciclofaixas”). Atenção: 47% de 32% correspondem a 15,04%. Observem: apenas 3% informam usar a bicicleta como meio de transporte, mas 15,04% já teriam usado as faixas exclusivas. Logo, não foi como meio de transporte que o fizeram, certo?, mas como lazer. Que tal esta roda de bicicleta?

Disseram ter passado, alguma vez, por uma ciclofaixa apenas 15,04% dos paulistanos

Disseram ter passado, alguma vez, por uma ciclofaixa apenas 15,04% dos paulistanos

Atenção, que as coisas começam a ficar ainda mais interessantes.

O Datafolha quis saber, entre os que têm bicicleta (apenas 32% dos total), quantos a utilizam para trabalhar ou para estudar, não importa se na ciclofaixa ou não. Sabem a resposta? 17%. Atenção, leitores! Apenas 17% dos 32% que são donos de uma bicicleta a utilizam ao menos uma vez por semana para trabalhar ou para estudar. Sabem quanto isso dá do total? 5,44%. No gráfico, fica mais claro.

Só 5,44% afirmam usar a ciclofaixa ao menos

Só 5,44% afirmam usar a bicicleta, na ciclofaixa ou não, para trabalhar ou para estudar ao menos uma vez por semana

Calma, que a coisa vai ficar ainda mais interessante. Já sabemos que apenas 5,44% dos paulistanos usam a bicicleta, ainda que de vez em quando, na ciclofaixa ou não. O percentual desse grupo que diz recorrer às faixas de Haddad ao menos três vezes por semana é de 17%. Notem: 17% de 5,44% resultam em 0,92%. 

Eis aí: 0,92 usam as ciclofaixas ao menos três vezes por semana

Eis aí: 0,92 usam as ciclofaixas ao menos três vezes por semana

Entenderam por que as ciclofaixas são os desertos que vemos? De cada 100 paulistanos, menos de um usa a pista ao menos 3 vezes por semana. Mas vamos ser generosos.  Utilizam as faixas de Haddad ao menos uma vez 59% dos 5,44%. Ou 3,21% do total dos paulistanos.

Só 3,21% disseram usar a ciclofaixa ao menos uma vez por semana

Só 3,21% disseram usar a ciclofaixa ao menos uma vez por semana

Entenderam por que sou e continuarei a ser crítico das opções do ciclomaníaco. Se o prefeito acha que deve incentivar o uso da bicicleta, ok. Só não lhe reconheço o direito de reservar 400 km de faixas, como ele diz que fará, para 0,92% dos paulistanos. “Ah, mas ele era reprovado por 47%, e agora o Datafolha diz que são apenas 28%!” E eu com isso? Ainda que ele venha a ser aprovado por 97%, como eram Saddam Hussein e Muamar Kadafi, continuarei a apontar as suas maluquices. Como o Brasil não é uma ditadura, como era o Iraque de Saddam e a Líbia de Kadafi, manterei a crítica. E não adianta o prefeito mobilizar a sua turma para me atacar.

Os meus números estão contidos nos gráficos do Datafolha. É só saber fazer conta.

Por Reinaldo Azevedo

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Fonte:
Blogs de veja.com.br

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