Se Dilma enganar seus eleitores e “tucanar” de vez, isso é bom ou ruim para o país?

Publicado em 05/11/2014 13:47 e atualizado em 06/11/2014 10:35 807 exibições
por Ricardo Constantino (+ Geraldo Samor), de veja.com

Se Dilma enganar seus eleitores e “tucanar” de vez, isso é bom ou ruim para o país?

Mal foi reeleita e Dilma já começa a escancarar o estelionato eleitoral que praticou. Esqueçam o que foi dito durante a campanha: ali valia tudo para vencer, e apenas isso importava. Agora ela precisa ser mais realista, encarar o Brasil de verdade, não aquele da propaganda de João Santana. Não será nada fácil.

As primeiras medidas mostram que algum grau de realismo até mesmo Dilma terá de demonstrar. Aumento na taxa de juros, como se Arminio Fraga fosse o novo ministro da Fazenda, segundo a fala da própria presidente. Preços sendo aumentados após ficarem represados por causa da eleição. E até mesmo banqueiros, ó céus!, cogitados para assumir a pasta no lugar de Mantega. Isso é bom ou ruim?

Divido a resposta em duas partes. Do ponto de vista econômico, sem dúvida seria positivo Dilma ter mentido descaradamente para seus eleitores e enganado os trouxas. Afinal, insistir em suas promessas e levar a cabo seu discurso de campanha seria catastrófico para o país.

E não sou daqueles que acha que quanto pior, melhor. Até porque o fracasso econômico não é garantia de derrota política, como vimos na Venezuela e na Argentina. Se o PT conseguir aparelhar toda a máquina estatal e o que falta no STF, nem uma crise econômica nos salvará do bolivarianismo.

Logo, seria bom para a economia o estelionato eleitoral e uma “tucanada” de Dilma. O que não acho que vai acontecer de fato. Algumas coisas sim, como já estamos vendo. Mas não creio no repentino despertar para o bom senso de nossa presidente, cujo ranço ideológico e autoritário é muito forte. Mesmo sob pressão de Lula e da economia, acho mais provável ela fazer poucas concessões, mas manter sua “nova matriz macroeconômica”, insistir nos erros, e até dobrar a aposta.

Já do ponto de vista político, o estelionato eleitoral seria bastante negativo. Qual mensagem fica se um partido pode simplesmente falar o que bem entender durante a campanha, e logo depois fazer o oposto? Qual o efeito disso para nossa democracia a longo prazo?

Uma candidata que diz que banqueiro na Fazenda significa falta de comida para os pobres, e logo depois indica um banqueiro para a Fazenda? E vamos aceitar passivamente isso só porque é melhor para a economia? E para nossa moral, nossos costumes, nossos valores éticos? Eles não importam? Devemos aceitar calados um verdadeiro golpe eleitoral? Não estaríamos assinando embaixo que vale tudo para ficar no poder?

Enfim, se Dilma realmente adotar uma postura mais tucana, isso será evidentemente bom para a economia, pois a turma do PT é terrível e nada entende de economia, mas será ruim para a democracia. Porém, como já disse acima, acho pouco provável uma mudança tão radical de Dilma. Por isso mesmo não corremos muito “risco” de dar certo…

Rodrigo Constantino

 

“Ela não acredita em preço”

Além de fortalecer a política macroeconômica, a Presidente Dilma Rousseff deveria rever a forma como lidou com a microeconomia em seu primeiro mandato e entender que o investimento privado não é a resultante de um jogo combinado com os empresários, e sim de regras claras que reconheçam que os preços de mercado são os verdadeiros balizadores do investimento.

DilmaRousseff4Abaixo, a coluna transcreve as impressões de um empresário com bom trânsito junto ao PT mas com uma visão crítica sobre a condução das políticas macro e micro no primeiro mandato de Dilma.

Suas preocupações ilustram bem as dificuldades da economia nos próximos anos se a Presidente não reavaliar a forma como tenta incentivar o setor privado.

Os comentários também podem servir de diagnóstico e plano de ação para o novo Ministro da Fazenda, cujo nome será conhecido em breve e cuja capacidade de persuasão junto à Presidente será crítica para a reversão das expectativas dos investidores com relação ao Brasil.

Segue o desabafo:

“A Dilma deve estar bastante chateada com a turma da FIESP, porque a política econômica dela veio de lá. Eles [empresários da FIESP] pediram a ela juro real baixo (mesmo à custa de inflação alta), crédito abundante e subsidiado, um câmbio nominal alto, uma política industrial seletiva, proteção tarifária e uma agenda para lidar com o custo Brasil — o que veio na forma de desonerações tributárias específicas e redução do custo de energia.

Ela foi lá, mudou a regulação na marra, expropriou bilhões do setor de energia e derrubou a tarifa.

Voltou nos empresários e disse: ‘Senhores, baixei o juro na porrada, o câmbio se desvalorizou, e o BNDES está emprestando como nunca. Fiz tudo isto em prol dos senhores! Agora entreguem!’

Essa agenda deu no que deu: crescimento zero, inflação alta e investimento baixo. Ou seja, a Dilma e a FIESP são dois lados da mesma moeda. Nenhum dos dois acredita em mercado!

A verdadeira guinada na política econômica seria ela começar a acreditar em preço, acreditar nos mercados e nos preços como mecanismos de alocação de recursos. Ela não acredita em preço.

A diferença entre alguém que acredita em preço e outro que não acredita é a seguinte: o primeiro sabe que os empresários vão plantar mais ou menos berinjelas dependendo do preço da berinjela no mercado. Quem não acredita em preço acha que é só pegar o telefone e mandar o empresário plantar uma berinjela. Não é assim.

Quando o Governo e o mercado falam em política econômica e movimento de reaproximação, estão falando essencialmente da gestão macro (política monetária, câmbio, fiscal) e não das reformas micro. No macro, acho que um certo otimismo faz sentido: a Dilma é pragmática o suficiente para perceber que o mix atual de política não fucionou bem. Acho que mudanças para melhor virão – na margem.

Eu acho que ela vai melhorar o lado fiscal, aliás, isso é relativamente fácil, depois de todos os absurdos que fizeram [de contabilidade criativa] nos últimos anos.

Acho que vamos deixar de ser um aluno ‘D’ para ser um aluno ‘C-’.

Já no micro eu estou bastante pessimista. Para haver alguma guinada nesta seara a Dilma e a sua equipe precisariam começar a acreditar que o mercado é a grande ferramenta de alocação de recursos da economia, e não as negociações com empresários ou ordens diretas a eles.

Esse papo de se reaproximar do diálogo com os empresários reflete o modo ingênuo e até acadêmico como o PT vê os mercados. O PT acha que o mercado são 30 pessoas com quem você fala quando quer. O mercado não é uma entidade para quem você pode telefonar e marcar uma reunião com ele. O mercado não é o Trabuco nem o Roberto Setúbal. É um ente despersonalizado que se orienta principalmente pelos incentivos, pelos preços.

No contexto micro, “mais diálogo” não é uma sinalização tão boa assim: não adianta nada “combinar o jogo” com as empresas se os preços não são consistentes com a dinâmica de oferta e demanda. E eu realmente acho que o governo não se converteu neste aspecto.

De novo, veja a questão da energia… estamos à beira de um apagão, despachando térmicas a torto e a direito, e o governo está falando em baixar, radicalmente, o preço de energia (que já era fixado por fórmula) no mercado spot. Acho que eles não entendem que, a despeito do que as empresas digam ou prometam, preço mais baixo significa consumo maior. Não dá para revogar a lei da gravidade por decreto.

Enfim, não sei se o governo entendeu que as coisas não deram certo porque certos princípios elementares de mercado não foram observados. Acho que o governo pensa que as coisas não deram certo porque, apesar dele ter feito “a parte dele”, o empresariado não entregou, não investiu, não produziu. Então a resposta seria “mais diálogo”. Não é. A resposta é mais mercado.”

Por Geraldo Samor

 

O eleitor de Dilma não se sente traído?

Apenas dez dias após Dilma ser reeleita já ficaram evidentes inúmeros estelionatos eleitorais. Logo três dias após a vitória, o Copom resolveu subir a taxa de juros, algo que era, durante a campanha, associado a coisa de tucano “neoliberal” insensível para com os pobres. Quando é o PT quem faz tudo bem?

Em seguida, os nomes de dois banqueiros passaram a ser considerados na lista de prováveis substitutos de Guido Mantega. Trabuco, do Bradesco, e Meirelles, que foi presidente do Bank Boston, portanto banqueiro internacional, seriam as sugestões de Lula para o cargo. Mas banqueiro não faz a comida desaparecer do prato dos miseráveis?

Por falar em bancos, o PT não era o partido que iria enfrentá-los para proteger os pobres? Marina Silva não foi acusada de defensora de banqueiros por ter o apoio de uma herdeira do Itaú? Pois bem: o próprio divulgou esses dias seu lucro recorde: R$ 5,4 bilhões no trimestre! Um aumento superior a 35% contra o ano passado. Imagina só se Dilma fosse amiga, e não inimiga dos banqueiros…

A inflação, vamos lembrar, estava “sob controle”, disse uma Dilma firme. Chegou a afirmar que era zero, pegando um mês apenas, um ponto fora da curva. E os preços represados? Isso não existia, garantiu a presidente candidata. E agora?

Agora a Aneel já autorizou o aumento de quase 20% na conta de luz para várias empresas, como a Light aqui no Rio, e a Petrobras já entrou com pedido de aumento para a gasolina, que deve ser aprovado em breve.

A OCDE divulgou que, enquanto a inflação mundial caiu pelo quarto mês consecutivo, a nossa subiu. Mas não era tudo culpa de uma suposta “crise internacional”? Ao menos isso foi dito durante a campanha. 

Dilma seria intransigente com a corrupção também. Foi a promessa durante a campanha. O que aconteceu depois? André Vargas, aquele deputado que saiu do PT para evitar constrangimentos após vazarem dados sobre sua íntima relação com o doleiro Alberto Youssef, foi passear na sede do PT, para trocar dois dedos de prosa com seus “ex-colegas” de partido. É essa a imagem de quem não compactua com a corrupção?

O presidente da Transpetro, ligado ao PMDB que apoiou Dilma, caiu nesses dias também. Eis uma amostra singela de apenas três notícias em destaque no site de um jornal carioca ontem:

Notícias

 

Diante disso tudo – e é só o começo – caberia perguntar aos eleitores do PT: não se sentem traídos? Esperavam tantas mudanças repentinas logo depois do pleito, em direção contrária ao que foi dito na campanha? Ou será que não se importam com o estelionato eleitoral, pois o que vale é ficar no poder “em nome do povo”, custe o que custar?

É por essas e outras que costumo dizer que o PT não tem mais eleitores, e sim cúmplices. Qualquer pessoa com algum resquício de decência estaria cobrando do partido e da presidente reeleita explicações para tantos atos opostos ao prometido na campanha. Mas os eleitores do PT fazem um ensurdecedor silêncio. É conivência. Estão dando o aval para mentir, para enganar os mais ignorantes.

Aumento de juros, aumento da conta de luz, aumento da gasolina, aumento do lucro dos bancos, e proximidade amigável com notórios corruptos: quem não se sente traído só pode ser cúmplice. Podem ficar sossegados, caros eleitores do PT, que estaremos aqui por muito tempo para jogar em suas caras que são responsáveis por isso tudo também.

Rodrigo Constantino

 

Governador comunista quer revolução capitalista. Ou: Operação violino. Ou ainda: O país da piada pronta

Dizem que o Brasil é o país em que o traficante cheira, o cafetão tem ciúmes e a prostituta tem orgasmos. Acrescentaria mais essa agora: e o comunista quer um choque de capitalismo. Flávio Dino, eleito para governar o Maranhão após derrotar o clã Sarney, pretende adotar uma gestão capitalista que fomente a iniciativa privada no estado, que é um dos mais pobres do país após décadas de coronelismo.

Em entrevista à Folha, Dino, que teve o apoio dos tucanos e a oposição do PT, quer seguir a linha de Deng Xioping, o chinês pragmático que fez importantes reformas liberalizantes em seu país, também controlado por comunistas. Seu desafio é liderar uma “revolução democrática burguesa”, o que é mesmo revolucionário em um país cujo governo “progressista” é o mais reacionário de todos.

“Garantir o cumprimento da lei, dos contratos, incentivar os investidores privados, novas formas de organização do Estado que contemplem a participação popular, mas que permitam também de outro lado o desenvolvimento daqueles que querem empreender, querem investir”, diz o “Deng Xiaoping do Maranhão”. O líder chinês adotou a máxima pragmática de que não importa a cor do gato, desde que ele pegue o rato.

Para o governador eleito, as administrações das últimas décadas no Maranhão tiveram “medo do capitalismo” porque haveria nesse sistema a “concorrência, o livre mercado, o fim a privilégios”. Por que, então, não mudar o nome do partido? Porque é “bonito”, diz o governador eleito. Ou seja, fica declarada a operação violino: pegar o governo com a mão esquerda e tocá-lo com a direita.

Aguardemos. O Brasil é realmente sui generis. O país da piada pronta, em que comunistas querem dar um choque de capitalismo e têm como oposição os socialistas do PT aliados dos coronelistas tradicionalmente associados à direita. É o samba do crioulo doido mesmo…

Rodrigo Constantino

 

Aécio Neves na oposição: discurso pusilânime ou sabedoria mineira?

Muita gente reclamou do primeiro discurso de Aécio Neves como incontestável líder da oposição após ter recebido 51 milhões de votos. Esperavam mais dele, uma posição mais aguerrida, combativa. Condenaram suas críticas ao lado mais agressivo das manifestações que pedem o impeachment da presidente Dilma ou mesmo a intervenção militar. Disse o tucano:

“Eu respeito a democracia permanentemente. Qualquer utilização dessas manifestações no sentido de qualquer tipo de retrocesso à democracia terá a nossa mais veemente oposição. Eu fui o candidato das liberdades, da democracia, do respeito. Aqueles que agem de forma autoritária e truculenta estão em outro campo político, não estão em nosso campo político.”

Claro que os jornalistas vão destacar a parte do que ele condena nas manifestações, mas o que mais ele poderia ter dito? Que aplaude uma eventual forma autoritária e truculenta de protestar? Seria absurdo. Aécio deve mostrar total compromisso com os caminhos legais e democráticos, e rejeitar qualquer coisa que pareça com “golpismo”.

O que se espera dele é uma oposição firme sim, mas respeitando todos os trâmites democráticos e as regras do jogo. Não aceitamos a máxima petista de que os fins nobres justificam quaisquer meios. Aécio deve cobrar esclarecimentos, deve combater qualquer vestígio de desvio do governo, deve votar com base nos interesses nacionais, não partidários. É isso que se espera de um líder de oposição.

Claro, entendo a angústia de muita gente da direita. Afinal, o PSDB nunca foi um partido de direita. Alguns tucanos estão desesperados, tentando deixar isso bem claro. Sua origem é a social-democracia europeia, ou seja, um partido de centro-esquerda. Só mesmo no Brasil o PSDB passou a ser associado ao “neoliberalismo”.

A direita órfã encontrou abrigo no PSDB, por falta de opção. Isso não faz do PSDB um partido de direita. Mesmo na direita há muita divergência. Alguns gostariam de alguém como Jair Bolsonaro como porta-voz, outros não aceitam uma postura tão radical ou agressiva. Alguns clamam por intervenção militar, outros julgam esta demanda absurda e querem fortalecer as instituições democráticas, ainda existentes.

Isso tudo mostra como é necessário para a direita ter representação partidária, talvez mais de uma. O ideal seria um partido mais conservador, e outro mais liberal. O PSDB ficaria, então, como representante legítimo da social-democracia, a esquerda civilizada e democrática. Como nos principais países desenvolvidos.

Enquanto isso, é o PSDB que temos, todos nós que desejamos, acima de tudo, resgatar o respeito às instituições democráticas e combater essa quadrilha instaurada no poder. Desde Marina Silva e Eduardo Jorge até Bolsonaro e Feliciano, passando pelos liberais: estão todos juntos contra o PT. E essa união é fundamental para a vitória da democracia.

Claro que os mais à esquerda vão reclamar muito da “infiltração” da direita nessa oposição representada por Aécio Neves. E claro que a ala mais à direita vai criticar a “pusilanimidade” do tucano, que, afinal, não é conservador nem de direita. Está mais para Tancredo ou Ulysses do que para Carlos Lacerda.

No estilo mineiro ou com a persistência e paciência de Ulysses, vai comendo pelas beiradas para alcançar o poder e de lá tirar o PT. Quase conseguiu logo na primeira tentativa, contra todas as expectativas, contra o abuso da máquina estatal, o terrorismo eleitoral, a difamação e calúnia dos militantes petistas.

Não devemos confundir o que gostaríamos de ver Aécio falando com aquilo que é realmente mais eficaz do ponto de vista de resultado. Aécio precisa se estabelecer como líder da oposição, uma oposição firme e disposta a enfrentar o PT sem medo. Mas não deve ser truculento ou agressivo, passar do limite, pois isso aliviaria em parte nossas angústias e daria vazão ao nosso sentimento de indignação, mas não garantiria mais votos no futuro, dos indecisos ou dos que escolheram Dilma por alienação ou medo.

Confiemos no mineiro! Ele surpreendeu a todos com sua postura otimista e confiante nas eleições, e também pela firmeza, mesmo sob os ataques mais pérfidos já vistos na história de nossa democracia. Aécio não pode se curvar diante do PT em hipótese alguma, mas tampouco deve se transformar num Carlos Lacerda agora. Não é seu perfil, não é seu estilo, e também não é o necessário para conquistar mais adeptos em cima do muro.

Em vez de produzir mais calor, é hora de produzir mais luz!

Rodrigo Constantino

 

PMDB: um obstáculo aos projetos ideológicos do PT

Eduardo Cunha, a pedra no sapato bolivariano do PT. Fonte: El País

Tem certas coisas que só falamos baixinho por aí, com alguma vergonha. Uma delas é que o PMDB vai, pelo incrível que pareça, salvar nossa democracia e impedir que o Brasil seja a próxima Venezuela. Já disse isso várias vezes em palestras e até em artigos, mas se perguntarem, eu nego!

Brincadeiras à parte, o PMDB se tornou um partido do “centrão”, mais fisiológico do que qualquer coisa. Um saco de gatos. Tem de tudo lá. Mas justamente por isso, não lhe interessa virarmos uma Argentina ou Venezuela, o que mataria a galinha dos ovos de ouro.

O PT sonha com a hegemonia, com a instauração do partido único. Quer ser como o PRI mexicano no mínimo, ou de preferência como os chavistas da Venezuela. O problema é que sua bancada não dá conta do recado, e ainda saiu reduzida nessas eleições, com a perda de 18 deputados.

A solução encontrada no passado foi comprar todos que estavam à venda (e no Brasil tem muita gente à venda). O mensalão foi isso, o Petrolão também. Com a crise econômica que vem aí, vai faltar verba. Além disso, os escândalos ainda terão desdobramentos, há as delações premiadas, e todos estão com mais receio de punições.

Ou seja, a vida promete não ser nada fácil para o PT nos próximos anos. Os anseios autoritários encontrarão barreiras firmes à frente. A começar pela presidência da Câmara, que deverá ir para Eduardo Cunha, desafeto do partido e tido como “conservador” para os padrões nacionais.

Em entrevista ao El País, Cunha disse que o PMDB não fez um “acordo eterno” com o PT, e que a Câmara não quer o partido na presidência agora, pois sua agenda é muito ideológica:

P: Você fala sobre essa questão ideológica do PT. A que se refere?

R: Aos conselhos populares, à regulação de mídia… Pautas que são ideológicas. Estando na presidência, o poder de colocá-las em discussão será maior.

P: Mas a gente vê que o Congresso está mais conservador. Não há um cenário de mais resistência a pautas mais progressistas?

R: Sem dúvida, mas não porque o Congresso está mais conservador. Mas porque o Congresso está mais bem representado do que é a sociedade. A sociedade é conservadora. O Congresso representa a sociedade. Hoje ele está mais próximo da sociedade do que esteve antes.

É exatamente por esse motivo que veremos cada vez mais colunista e “formador de opinião” espalhando por aí que o PMDB é o grande mal do país, e que precisamos superar esse entrave parlamentar para que as reformas progressistas possam deslanchar.

A “democracia direta” é o sonho chavista do PT, para poder manipular os “movimentos sociais” e desviar dos obstáculos da democracia representativa. Negociar dá trabalho, contemporizar idem, fechar acordos com base em programas muito mais. O PT detesta tudo isso. Ele detesta, no fundo, a democracia, usada apenas como “farsa” para a chegada ao poder.

O PMDB tem sido um aliado importante do PT, mas está cada vez mais rachado. Até mesmo Sarney votou em Aécio Neves, e depois que isso veio à tona num vídeo, justificou-se que foi pela gratidão ao seu avô Tancredo. Afinal, graças ao mineiro ele chegou à presidência em 1985.

O partido, naquela época, contava com figuras como Ulysses Guimarães, o D. Quixote da nossa democracia, aquele que fez da luta pela redemocratização sua cruzada na vida. Muitos condenavam o antigo MDB na ocasião, por ser “oposição” ao regime militar, o que daria um verniz de legitimidade aos militares. Ulysses rechaçava com veemência a alternativa da luta clandestina, pois só acreditava em solução pelas vias legais, de dentro do sistema.

Assumindo que hoje estamos numa espécie de regime autoritário e opressor, até golpista, só que do PT, então o PMDB poderá ser o fiel da balança novamente, aquele que lutará de dentro do sistema para preservar nossas instituições democráticas. Com todos os seus defeitos, ainda é a principal arma que temos contra o bolivarianismo, que deverá ser derrotado pelas vias legais, fortalecendo-se o Congresso, e não o contrário.

Que o PMDB honre o legado democrático de Ulysses Guimarães!

Rodrigo Constantino

 

O perigo do Ebola

Cientistas detectaram um vírus que vem destroçando boa parte da América Latina. Decidiram chamá-lo de Esquerdismo Bolivariano Larápio (Ebola). Seus efeitos colaterais são impressionantes e muito perigosos.

Logo de cara, a vítima fica com a razão completamente turvada, com muita dificuldade de aplicar raciocínios lógicos. A visão se torna ofuscada, e o doente enxerga como se estivesse sempre diante de um espelho, vendo seu próprio reflexo. Por isso acusa os outros de “golpistas”, “reacionários” e “defensores de ditaduras”, mesmo com um pôster de Fidel Castro ou Che Guevara ao lado.

Há ainda um efeito alucinógeno, e o infectado é transportado para dentro de uma canção de Chico Buarque. Só porque digitou 1 e 3 nas urnas eletrônicas, já se sente o mais abnegado dos samaritanos, o único defensor dos pobres e oprimidos.

Passa a confundir poesia com vida real, e sente profundo regozijo consigo mesmo, pois mesmo sendo da elite branca, é engajado e representa o “povo” contra a elite branca gananciosa. Repete isso tudo enquanto junta cada vez mais dinheiro de forma bem gananciosa, claro. E fica obcecado com Paris.

O vírus afeta a parte cerebral responsável pelo julgamento ético também, danificando-a por completo. O doente se torna incapaz de diferenciar entre certo e errado, e banaliza tudo que é “malfeito”, crime, corrupção. Coloca-se ao lado de bandidos como se fosse a coisa mais normal do mundo. Por isso os cientistas utilizaram o termo Larápio para identificar essa espécie de vírus.

Do ponto de vista físico, o vírus faz as orelhas crescerem sem parar, até o doente assumir o aspecto de um asinino. Sua mente fica embotada, e sua fala se assemelha muito a relinchos quando a febre está alta. Em alguns casos mais graves o infectado dá até coices.

Os cientistas estão muito preocupados com a resistência do vírus e seu poder de alastramento nas zonas tropicais, deixando um rastro de estrago por onde passa. Originou-se em Cuba, ilha caribenha já totalmente devastada pela praga. Depois virou epidemia na Venezuela, país à beira do colapso. A Argentina também foi acometida pela desgraça do Ebola.

No Brasil, ele vem se espalhando há 12 anos, e os cientistas ainda não descobriram a cura. A razão tem se mostrado inócua contra o poder do Ebola. A contaminação ocorre no contato com sujeira, ao frequentar o esgoto, na proximidade com o governo. Uma vez infectado, o sujeito parece um zumbi autômato, e fica repetindo slogans e adjetivos feito um papagaio. Torna-se raivoso também, e perde seu senso de humor.

Especialistas garantem que estão trabalhando na vacina, e que em mais quatro anos, no máximo, já teremos o antídoto contra o Ebola. Eles estão seguros de que o vírus não irá se propagar com a mesma facilidade por aqui. Quem viver, verá…

Rodrigo Constantino

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Blog Rodrigo Constantino (VEJA)

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2 comentários

  • Paulo Roberto Rensi Bandeirantes - PR

    Sr. Jandir Fausto Bombardelli, sou um sexagenário, vivenciei vários momentos do agronegócio brasileiro; diante desta vivência, venho dizer-lhe que:

    A realidade do agronegócio é a economia livre de mercado, onde o produtor é tomador de preços, desde que o mundo é mundo.

    Quando o governo federal exercia uma política de contenção de preços, existiam os Institutos do Café, do Açúcar e do Álcool, Sudhevea(da borracha) e outros. Na época o preço de paridade para o café era US$ 120,00/saco, no caso da Sudhevea, o valor do cernambi era US$ 1,00/Kg.

    Quando o Collor foi eleito em 1989, extinguiu o IBC, Sudhevea e, os preços do café veio à US$ 35,00/saco, o cernambi caiu à US$ 0,35/kg. Estou citando poucos produtos para não confundi-lo, pois esta é uma condição que se apresenta estampada em seu comentário.

    Quanto ao feto na barriga da mãe, tomara que ele tenha sorte de que “outros” governantes tenham tempo de consertar esta anarquia e poder entregar-lhe um país mais justo.

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  • jandir fausto bombardelli toledo - PR

    Se Dilma "TUCANAR " com certeza será péssimo para o agronegócio, pois me lembro muito bem os anos de 1994 a 2002, que foram os piores anos do agronegócio, pois o governo daquela época só queria ter alimentos baratos para a população independente se o produtor estava tendo lucro ou prejuízo, naquela época o agronegócio realmente foi o que sustentou a inflação baixa, mas através do sangue de nossos produtores, hoje felizmente o agronegócio está em alta e é responsável pelo superávit da balança comercial, com produtos agropecuários valorizados. Votar em Aécio não é voto de protesto, é simplesmente falta de olhar o passado recente. Dilma não vai "TUCANAR" não seu Rinaldo Azevedo, ela não seria tão imbecil assim, a economia está precisando de uns pequenos ajustes, simplesmente isso, até um feto na barriga da mãe saberia disso.

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