Guinada ortodoxa ainda não convence e não basta. Ou: Quem engana quem?

Publicado em 29/11/2014 06:18 487 exibições
por Rodrigo Constantino, de veja.com

Guinada ortodoxa ainda não convence e não basta. Ou: Quem engana quem?

Certa vez vi um ex-ministro da Fazenda de um país tropical se gabar de que havia “enganado” o governo que o convidara ao CARGOarrow-10x10.png, alegando que suavizava no discurso, para contemporizar com o pensamento de esquerda do então presidente, mas que adotava postura liberal na prática. Fiquei na dúvida, confesso: quem tinha enganado quem?

Afinal, o tal presidente conseguiu o que queria: ser reeleito. Será que ele não sabia o que estava fazendo? Será que não foi ele quem usou o outro para seus interesses, com plena consciência de que estava colocando um liberal para dentro do time de esquerda justamente para fazer o “trabalho sujo”, e depois dispensá-lo quando não fosse MAISarrow-10x10.png necessário?

coluna de Eduardo Giannetti na Folha hoje me trouxe à memória esse episódio. Após constatar as mentiras de Dilma na campanha e o estelionato eleitoral, Giannetti levanta a suspeita de que o economista pode ser MAISarrow-10x10.png ingênuo do que o político nessa troca estranha, nessa repentina guinada ortodoxa da presidente. Diz ele:

Joaquim Levy tem sólida formação acadêmica e possui comprovada experiência tanto no setor público COMOarrow-10x10.png no mundo da ALTAarrow-10x10.png finança. Ocorre que suas ideias sobre política econômica –macro e micro– diferem ao extremo do nacional-desenvolvimentismo e da falta de compromisso com a transparência fiscal que têm sido a marca registrada do atual governo.

A esfinge desafia a argúcia dos analistas: até que ponto ele desfrutará de autonomia para pôr em prática suas ideias? Mudou o governo ou mudará ele? E se um não mudou nem mudará o outro, quantos meses dura o engodo?

Os governantes podem ignorar os limites impostos pela aritmética econômica por algum tempo, mas cedo ou tarde a dura realidade acaba se impondo com suas unhas de bronze. É possível que o medo tenha vencido a ideologia, COMOarrow-10x10.png em Lula 1. Mas Levy que se cuide: os economistas podem ser mais ingênuos sobre política do que os políticos são ingênuos sobre economia.

Concordo. Além de os economistas serem mais ingênuos, os sérios focam basicamente em uma coisa: resultados. Não fazem questão dos aplausos da plateia, dos créditos, justamente porque nem sempre têm ambições políticas. Por isso podem aceitar até mesmo fazer o “trabalho sujo” em um governo de esquerda que demoniza publicamente a ortodoxia, os banqueiros, o mercado.

Mas devem tomar cuidado se acham que podem enganar o governante de esquerda. Até mesmo Lenin fez concessões ao mercado e abriu brechas com sua Nova Política Econômica. O economista pode emprestar sua racionalidade a um projeto autoritário de poder, nesse caso. Como diz Reinaldo Azevedo em sua coluna hoje no mesmo jornal:

Confesso que o rottweiler que morde canelas se vê tentado a dizer: “Não vá, não, Levy! Fique onde está, Kátia! Eles que se virem!” É que EXISTEarrow-10x10.png a possibilidade efetiva, apesar das dificuldades e da sabotagem da companheirada, de a dupla emprestar racionalidade a um governo que dá ouvidos a “intelectuais” como Boff & Betto; a um governo cuja base difama aqueles que a presidente escala para tirá-la da beira do abismo. Mas aí entra em cena o rottweiler amoroso…

Os afeitos ao tema perceberam a referência à Primeira Epístola aos Coríntios, de Paulo, um texto que trata de princípios –coisa de que o PT é destituído por… princípio! Quero que a presidente Dilma acerte. Até porque me diverte constatar que cada eventual acerto seu evidencia uma mentira da candidata Dilma.

Eis uma das tantas diferenças entre nós e eles: queremos o melhor para o país, mesmo que eles estejam no poder com suas mentiras. Não torcemos pelo “quanto pior, melhor”, e julgamos que engolir um escancarado estelionato eleitoral ainda é melhor do que Dilma insistir nas atrocidades defendidas em sua campanha - o que seria o caos para o país.

O “cavalo de pau” de Dilma é, portanto, bem-vindo, ainda que seja uma guinada ortodoxa incompleta e sob suspeita em termos de durabilidade. Como Marcos Troyjo lembra em suacoluna também na Folha, porém, esse é apenas o primeiro passo, muito tímido ainda. O tamanho do problema é simplesmente enorme, produzido pelo próprio governo Dilma.

BNDES, Petrobras, Caixa, Mercosul, setor elétrico destruído, intervenções arbitrárias, enfim, a quantidade de estripulias foi tanta que indicar um nome de confiança do mercado está longe de ser o suficiente. A mudança terá de ser para valer. A guinada terá que ser COMPLETAarrow-10x10.png. Diz Troyjo:

Restaurar confiança e entusiasmo exige, porém, MAISarrow-10x10.png do que chamar bons gerentes financeiros. O país é o menos aberto ao comércio e o que apresenta os menores níveis de poupança e investimento entre os dez maiores PIBs do mundo.

Apesar do amplo potencial como economia criativa, o Brasil direciona só CERCAarrow-10x10.png de 1% do PIB à inovação. Seu empreendedorismo é constrangido pela vexatória 120ª posição no ranking do Banco Mundial que julga o ambiente de negócios em 189 países.

Não há dúvida de que o segundo governo Dilma deve mover-se rapidamente de volta ao “tripé macroeconômico”. Mas isso não basta. Precisamos de MAISarrow-10x10.png cavalos de pau.

As prioridades do país são as reformas estruturais e, ao lado delas, a reorientação da política externa, sobretudo em matéria econômica. O Brasil deve negociar acordos de livre comércio dinâmicos –sem restrições impostas pelo Mercosul.

Resta saber se Dilma irá mesmo por esse caminho. É muito cedo para dizer. Antes, será necessário verificar se o primeiro cavalo de pau se sustenta. Não podemos colocar a carroça na frente dos bois. E não há garantia alguma de que a presidente vá realmente abandonar o CONTROLEarrow-10x10.png da economia.

Muitos podem achar que os economistas sérios conseguiram se infiltrar no governo e vão poder, agora, desfazer as besteiras da EQUIPEarrow-10x10.png de Dilma. Mas ela pode estar enganando a todos, inclusive ao ex-presidente Lula, apenas para ganhar tempo e depois reinar absoluta no comando da “nova matriz macroeconômica”. Quem viver, verá…

Rodrigo Constantino

 

 

Ausência de Dilma para anunciar nova equipe fala alto

Por que a presidente Dilma não foi pessoalmente anunciar a nova EQUIPEarrow-10x10.png econômica e apresentar Joaquim Levy, seu próximo ministro da Fazenda? Que desfeita é essa? Qual mensagem ela transmite com sua ausência? Sente vergonha de indicar um ortodoxo? São perguntas legítimas que todos se fizeram nesta quinta.

Agora vamos comparar com o anúncio da EQUIPEarrow-10x10.png econômica de Cristina Kirchner, quando colocou Axel Kicillof no comando da economia do país. Já comentei aqui o ridículo da coisa, que MAISarrow-10x10.png parecia um espetáculo de estrelas do rock. Vejam:

 

 

Um padre no bordel?

A escolha de Joaquim “mãos de tesoura” Levy para o ministério da Fazenda continua dando o que falar. A ala MAISarrow-10x10.png à esquerda do PT está em polvorosa, inconformada. Alega que não foi esse o projeto vencedor nas urnas, mas está equivocada. Afinal, o que venceu nas urnas eletrônicas não foi projeto algum, mas sim a compra escancarada de votos com muito terrorismo eleitoral.

Discorda? Então desafio o leitor a perguntar ao grosso da BASEarrow-10x10.png de eleitores de Dilma qual era esse projeto, quem era Guido Mantega, e se estavam satisfeitos com os índices de inflação no país. Que tal? É evidente que a eleição não foi decidida com base no debate de propostas, e que a maioria dos eleitores de Dilma sequer compreende o que estava em jogo. Foram vítimas ou cúmplices do abuso da máquina estatal e da exploração da própria ignorância por parte de um marqueteiro maquiavélico e disposto a tudo para vencer.

Isso não deixa de configurar um escancarado estelionato eleitoral, claro, mas somente porque o terrorismo feito pela campanha de Dilma associava as medidas ortodoxas necessárias ao desaparecimento de comida na MESAarrow-10x10.png dos mais pobres, algo que não faz o menor sentido. Dilma mentiu, e mentiu muito. Isso é fato. Mas daí a constatar que o “projeto” que venceu nas urnas foi o nacional-desenvolvimentismo com base na “nova matriz macroeconômica” vai uma longa distância. O eleitor de Dilma não votou em Belluzzo. O povo só não quis perder o Bolsa Família, ponto.

Mas a maioria da população queria mudança. Muitos podem não ter conhecimento técnico adequado para compreender COMOarrow-10x10.png devem ocorrer tais mudanças. Não têm obrigação de entender de economia, algo que muitos doutores, especialmente os da Unicamp, também não entendem, diga-se de PASSAGEMarrow-10x10.png. O que desejam são os resultados. Ou seja, querem menos inflação, mais crescimento e a manutenção dos programas sociais. E isso, queiram os petistas ou não, só será possível com alteração no rumo da política econômica.

Dilma parece finalmente ter compreendido isso, ou compreendido que precisa sinalizar ao mercado que “compreendeu” isso, para ganhar tempo. Daí a escolha de Joaquim Levy, doutor emCHICAGOarrow-10x10.png, ortodoxo até à alma. O que ninguém sabe ainda é até onde ela está disposta a bancar essa aposta de mudança, pois haverá uma dolorosa fase de ajustes. A permanência de Alexandre Tombini no Banco Central e a escolha de Nelson Barbosa para o Planejamento mostram que o “despertar” da presidente foi parcial e tímido ainda.

Mas sem dúvida é um bom começo, apesar do estelionato. Como disse Aécio Neves, o PT é refém de suas contradições, e por isso precisou colocar um “AGENTEarrow-10x10.png da CIA” no comando da KGB. A analogia, feita por Arminio Fraga, é muito boa, e colocou o ministro Gilberto Carvalho na defensiva, a ponto de ter afirmado que não foi Dilma quem mudou, mas sim Levy, ao aderir ao governo. Se o mercado acreditasse nisso, os ativos teriam despencado e o dólar, disparado.

Meu AMIGOarrow-10x10.png Paulo Figueiredo Filho fez uso de uma metáfora que julgo ainda melhor. Para o governo Dilma ser a KGB, teria que ser mais organizado. O fator ideológico até está presente, mas não a disciplina. Portanto, colocar Levy nesse governo é como colocar um padre para cuidar de um bordel. Sim, até agora pode-se dizer que a gestão da economia foi uma zona, uma bagunça, uma irresponsabilidade total, uma indecência. Levy veio tentar colocar ordem na casa, acabar com os malabarismos contábeis de Arno Augustin e Mantega, cortar a orgia fiscal.

A grande dúvida dos investidores é até quando ele aguenta, se antes mesmo de assumir já é alvo do “fogo amigo” do próprio PT. Os ataques dos radicais de esquerda Levy tira de letra, acredito. O maior perigo mesmo é quando a própria presidente se desentender com ele, bater na mesa, gritar, colocar o dedo em riste, reclamar dos efeitos de suas medidas, cobrar mais heterodoxia. Qual será sua reação? O “padre” vai tolerar ser pautado pelo “bordel”? É nesse momento que a porca torce o rabo…

Rodrigo Constantino

Chamo a atenção para esse detalhe apenas para destacar como os bolivarianos agem diferente na hora de escalar suas verdadeiras “estrelas da economia”, que mais parecem cometas que deixam um rastro de destruição por onde passam, e de convocar aqueles responsáveis por limpar a sujeira deixada pelos heterodoxos, algo como o personagem “the CLEANERarrow-10x10.png” no filme “Pulp Fiction”.

A ausência de Dilma no anúncio da nova EQUIPEarrow-10x10.png diz muito sobre o que ela pensa de tudo isso, fala alto àqueles que desejam crer que ela realmente mudou…

Rodrigo Constantino

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Fonte:
Blog Rodrigo Constantino, VEJA

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1 comentário

  • Telmo Heinen Formosa - GO

    Dilma foi treinada para ser uma terrorista para implementar o socialismo no Brasil. Ela e seus aliados deflagraram com este objetivo uma Revolução Cultural, que está em curso. Joaquim Levi será um "Inocente Útil" e como tal será descartado quando não mais for necessário. Para os socialistas a VERDADE não existe. O que existe, a "MENTIRA ÚTIL" é a verdade. Para cada ocasião há uma mentira útil. Ela usa as mentiras conforme a ocasião, apostando na falta de memória da maioria... que no próximo discurso já terão esquecido a afirmação anterior.

    Detalhes em https://www.youtube.com/watch?v=tbdKwNSS7gE

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