Dilma tem de ser coerente com o que diz e voltar à luta armada (REINALDO AZEVEDO)

Publicado em 31/08/2016 15:28 e atualizado em 01/09/2016 05:51
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Em discurso indigno e falacioso, ex-presidente compara o seu impeachment ao golpe de 1964... Mas a resistência venceu. Ao longo dos anos de contínua depredação da verdade e da lógica, soubemos manter as nossas instituições e reagimos com a devida presteza todas as vezes em que eles tentaram mudar os códigos do regime democrático. Não estão mortos. Não estão acabados

Não sei se entendi direito a fala da ex-presidente Dilma. Temos uma incompatibilidade fundamental. Eu sou fanaticamente lógico. E a presidente é patologicamente ilógica. Então as coisas se complicam entre nós. Eu aposto sempre no sentido das palavras. Dilma é viciada em anacolutos sintáticos e mentais. Então vamos lá.

Ela resolveu abusar da fala condoreira em seu primeiro pronunciamento depois do impeachment, cercada de sua Armata Brancaleone. E disparou:
“Apropriam-se do poder por meio de um golpe de Estado. Esse é segundo golpe que enfrento na vida. O primeiro, um golpe militar apoiado na truculência das armas da repressão e da tortura, que me atingiu quando eu era uma jovem militante. O segundo, parlamentar, desfechado hoje por meio de uma farsa jurídica que me derruba do cargo para o qual fui eleita pelo povo. É uma inequívoca eleição indireta”.

Mas calma que vem mais. E aí será preciso juntar o trecho abaixo ao anterior:
“Sei que todos nós vamos lutar. Haverá contra eles a mais firme, incansável e enérgica oposição que um governo golpista pode sofrer. Repito: a mais determinada oposição que um governo golpista pode sofrer (…). Nós voltaremos para continuar nossa jornada rumo ao Brasil em que o povo é soberano”.

Para onde isso leva Dilma? Entendo que de volta à luta armada, ora bolas! Vamos ver. Se ela diz que esse é o segundo golpe que enfrenta — em março de 1964, tinha 16 anos; se ela diz que o que muda é só a forma; se ela prega “a mais determinada oposição que um governo golpista pode sofrer”, o que devo concluir? É para pegar de novo na metranca! Acho que Dilma tem de cair na clandestinidade e aderir de novo à luta armada.

Convenham: oposição, mesmo “a mais determinada”, entendo, se faz no Congresso e nos espaços institucionais quando se está numa democracia. Quando se trata de enfrentar o golpe, o limite da determinação há de ser a porrada. Aliás, enquanto ela fazia esse discurso, seus partidários saíam depredando lojas e bancos em São Paulo e metendo fogo em bens públicos.

Dilma chama a maior recessão da história do país, decorrência do seu governo desastrado, de “projeto nacional progressista, inclusivo e democrático”. Segundo ela, o dito-cujo está sendo “interrompido por uma poderosa força conservadora e reacionária, com o apoio de uma imprensa facciosa e venal.”

Aquela que comandou o governo que quebrou a Petrobras, onde se acoitava uma quadrilha de ladrões e vagabundo, diz que seus adversários “vão capturar as instituições do Estado para colocá-las a serviço do mais radical liberalismo econômico e do retrocesso social”. O bom é capturar o Estado e colocá-lo a serviço de um bando.

A mulher que é figura central das delações de algumas das mais vistosas personagens do escândalo sob investigação afirma: “Com a aprovação do meu afastamento definitivo, políticos que buscam desesperadamente escapar do braço da Justiça tomarão o poder unidos aos derrotados nas últimas quatro eleições. Não ascendem ao governo pelo voto direto, como eu e Lula fizemos em 2002, 2006, 2010 e 2014. Apropriam-se do poder por meio de um golpe de Estado”.

E voltou com o discurso terrorista já conhecido: “O golpe é contra os movimentos sociais e sindicais e contra os que lutam por direitos em todas as suas acepções: direito ao trabalho e à proteção de leis trabalhistas; direito a uma aposentadoria justa; direito à moradia e à terra; direito à educação, à saúde e à cultura; direito aos jovens de protagonizarem sua história; direitos dos negros, dos indígenas, da população LGBT, das mulheres; direito de se manifestar sem ser reprimido.”

Os desastres protagonizados por Dilma fizeram a economia recuar, em muitos indicadores, a números de 10 anos passados. Para vocês terem uma ideia, a dívida bruta brasileira em relação ao PIB só voltará ao patamar de 2013 no ano de 2030.

Os crimes cometidos por esta senhora e por seu partido são muito mais graves do que os de responsabilidade. São crimes de lesa pátria.

De todo modo, dado o seu discurso, espero a qualquer momento que anuncie a adesão a algum novo grupo terrorista.

Nota: três senadores discursaram contra a perda dos direitos políticos de Dilma. E os três falaram em conciliação e mão estendida: Kátia Abreu (PMDB-TO), João Capiberibe (PSB-AP) e Jorge Viana (PT-AC).

Parece que Dilma prefere outra coisa.

15 ANOS DEPOIS, OS PETRALHAS ESTÃO NO OLHO DA RUA!!! (por Reinaldo Azevedo)

Quinze anos depois de eu ter criado a palavra “petralha” para designar as práticas dos petistas em Santo André, lá se vão eles. Morrem com retrato e com bilhete, mas sem luar, sem violão. Sei muito bem o peso de enfrentá-los ao longo dos anos. Hoje é fácil. Felizmente, os grupos de oposição ao petralhismo se multiplicaram. E ninguém corre o risco de morrer de solidão por enfrentar a turma. Alguns o fazem até por oportunismo. Outros ainda porque farejam uma oportunidade de negócios. O tempo que depure as sinceridades, as vocações, as convicções. Não serei eu o juiz.

Sinto-me intelectualmente recompensado. A razão é simples. Desses 15 anos de combate, 10 estão no arquivo deste blog, vejam aí. Houve até um tempo em que um blogueiro petista sugeriu à grande imprensa que tentasse investigar quem eram e como viviam os leitores desta página. Afinal, integrávamos o grupo, dizia ele, dos apenas 6% que achavam o governo Lula ruim ou péssimo. E é claro que os companheiros tentaram transformar a repulsa ideológica ao partido num crime.

A recompensa intelectual não se confunde, nesse caso, com vaidade. A minha satisfação não decorre de ter antevisto a queda dos brutos. Isso seria fácil. Em algum momento, claro!, eles cairiam, ainda que fosse pelas urnas. O meu conforto deriva do fato de que, então, eu não via fantasmas quando apontava a máquina formidável de assalto ao estado que se havia criado. Ela se destinava não só a enriquecer alguns canalhas como a assaltar as instituições.

Ah, quantas vezes tive de ouvir que eu exagerava! Ah, quantas vezes tive de ouvir que a palavra “petralha” designava, na verdade, um preconceito! Ah, quantas vezes tive de ouvir que eu criminalizava no PT o que considerava normal e corriqueiro nos outros partidos! Ah, quantas vezes tive de ouvir que eu estava a serviço do tucanato! Essa última acusação, diga-se, em tempos mais recentes, também ganhou as hostes da extrema direita caquética, que precisava que o PT fosse um monstro invencível para que sua ladainha impotente e escatológica continuasse a se alimentar da paranoia dos tolos.

E, no entanto, as coisas estão aí. Os petralhas foram derrotados por sua alma… petralha! Porque a maioria dos brasileiros pôde, afinal, enxergá-los como eles de fato são.

Não! A palavra “petralha” nunca designou apenas uma caricatura a serviço do embate ideológico. Os petistas adorariam que assim fosse. A máquina de propaganda esquerdista tentou até criar o contraponto à direita, que seriam os “coxinhas”. Mas foram malsucedidos no intento. Porque, afinal, de um coxinha, pode-se dizer o diabo. Mas uma coisa é certa: coxinha, em nenhuma de suas acepções, virou sinônimo de ladrão. Marilena Chaui, aquela, pode achar um coxinha reacionário, preconceituoso, abominável… Mas não tenho a menor dúvida de que ela confiaria sua carteira a um coxinha e jamais a deixaria à mercê de um de seus pupilos petralhas.

José Eduardo Cardozo e os demais petistas se zangam quando se diz que Dilma caiu pelo “conjunto da obra”. No seu entendimento perturbado do mundo, entendem que se está admitindo que ela não cometeu crime de responsabilidade. Trata-se, obviamente, de uma mentira. Sim, o crime foi cometido, mas é fato que ele não teria sido condição suficiente, embora necessária, para a deposição. Foi, sim, o jeito petralha de governar que derrubou a governanta, aliado a uma brutal crise econômica, derivada, diga-se, desse mesmo petralhismo: não fosse a determinação de jamais largar o osso, a então mandatária teria tomado medidas para evitar o abismo. Ocorre que ela não devia satisfações ao Brasil, mas ao projeto de poder, tornado realização, que havia se assenhoreado do estado e que vivia de assaltá-lo.

A resistência venceu. Ao longo dos anos de contínua depredação da verdade e da lógica, soubemos manter as nossas instituições e reagimos com a devida presteza todas as vezes em que eles tentaram mudar os códigos do regime democrático. Não estão mortos. Não estão acabados. Estão severamente avariados, e cumpre aos defensores da democracia que sua obra seja sempre lembrada como um sinal de advertência. Até porque, a exemplo de todas as tentações totalitárias, também a petista tem seus ditos intelectuais, seus pensadores, seus… cineastas. As candidatas a Leni Riefenstahl do petismo, sem o mesmo talento maldito da original, não conseguiram fazer a epopeia do triunfo; então se preparam agora para fazer o réquiem, na esperança de que o ressentimento venha a alimentar o renascimento.

Vem muita coisa por aí. Não completamos nem o primeiro passo da necessária despetização do estado. O trabalho será longo, vai durar muitos anos. Não temos como banir os petralhas da política, mas é um dever civilizacional combater suas ideias, enfrentá-los, resistir a suas investidas — e pouco importa o nome que tenham.

Publiquei “O País dos Petralhas I”.

Publiquei “O País dos Petralhas II”.

Anuncio aqui, para breve, fechando o ciclo, o livro “Petralhas Go”.

Acabou.

Eles perderam. A democracia venceu.

TCHAU, QUERIDA!

Dilma Rousseff, aquela que foi pensada para ser apenas a ponte entre dois Lulas, está condenada pelo Senado Federal por crime de responsabilidade. O projeto de, no mínimo, 24 anos de poder chega ao fim com um pouco mais de metade do delírio cumprido. Reitero: os 24 anos eram a sua perspectiva pessimista. O PT se organizou para, uma vez no poder, de lá não sair nunca mais. O que se vai, junto com Dilma, é o sonho da hegemonia. Mais de dois terços do Senado jogarão na lata do lixo a distopia gramsciana — inspirada no teórico comunista italiano Antonio Gramsci — de uma força política se impor como um imperativo categórico; de essa força ser, a um só tempo, a fonte de inspiração das utopias e a destinatária última da ação.

Quero insistir neste aspecto: ainda que, um dia, o PT volte ao poder, o que não creio que vá acontecer tão cedo — até porque conhecemos ainda pouco dos seus crimes —, o que chega a termo nesta quarta-feira não é só o mandato de um partido político. O que morre junto é a possibilidade de uma força totalitarista — notem que evito a palavra “totalitária” — sequestrar o estado, usando, para tanto, os instrumentos da democracia. O que morre com o mandato de Dilma é a tentação do partido único.

Já escrevi aqui e reitero: sou bastante grato aos ladrões do PT; sou bastante grato à incompetência específica de Dilma e ao fato de ela ter cometido crime de responsabilidade. Um PT que pensasse o que pensa e fosse absolutamente honesto nos conduziria ao caos.

Nunca mais, fiquem certos!, passaremos por isso. Até porque estamos exorcizando, junto com a queda de Dilma, a crença no demiurgo, na figura dotada de poderes quase sobrenaturais, capaz de responder, por força de seu carisma, a todos os nossos anseios de nação, a todas as nossas ambições. Por essa razão, aliás, este jornalista não se ajoelha aos pés de humanos, tenham eles o nome de Lula, Janot, Moro ou Dallagnol. Quero ser governado por homens e mulheres falíveis, mas que respeitem as instituições e o ordenamento legal.

O Brasil, felizmente, venceu a tentação totalitária sem macular o regime democrático. Ainda que os petistas tenham tentado mudar os códigos do Estado Democrático e de Direito no Brasil, vamos saudar: eles foram malsucedidos nesse esforço. Vejo, por exemplo, o estrago que várias correntes do populismo de esquerda produziram na América Latina em anos recentes: Nicarágua, Venezuela, Equador, Bolívia, Argentina… E dou graças aos céus por sermos quem somos.

As instituições brasileiras souberam resistir. Lembro que o partido que agora se vai é aquele que tentou, por exemplo, usar um Plano Nacional de Direitos Humanos, nada menos!, para censurar a imprensa, relativizar o direito de propriedade e interferir no Judiciário. A denúncia foi feita primeiro aqui, no dia 7 de janeiro de 2010. O PT se queria, então, eterno, como os diamantes.

Os petistas estavam tão certos de que já haviam liquidado com o PSDB, depois de praticamente terem destruído o DEM, que seus alvos seguintes eram o principal aliado, o PMDB, e, ora vejam!, até os evangélicos. O partido pretendia disputar “fiéis” com igrejas; queria-se já quase uma religião. No fim de janeiro de 2012, durante o Fórum Social Temático de Porto Alegre, Gilberto Carvalho, então ministro de Dilma, propôs a criação de uma mídia estatal forte para se contrapor à grande imprensa e defendeu que os petistas passassem a fazer “uma disputa ideológica com líderes evangélicos pelos setores emergentes”. Nota: em meados de 2012, o preço das commodities começa a despencar. E Dilma dava início ali ao trabalho sistemático de destruição das nossas finanças.

E foi com o objetivo de aniquilar as outras forças que o partido propôs uma reforma política que praticamente o eternizava, também na forma da lei, no poder. Mas os escândalos começariam a correr a céu aberto, como a língua negra do esgoto, pouco depois. O petrolão revelava mais do que a simples roubalheira organizada. Ali também estavam ladrões de instituições. E a população tomou as ruas. O PT nunca tinha visto gente de verdade. Só conhecia militantes e suas bandeiras de ideologia, de raça, de gênero. Os petistas foram apresentados ao verde-amarelo.

Em um de seus documentos, o PT lamentou não ter conseguido controlar a imprensa, não ter conseguido impor a reforma política, não ter conseguido mudar as Forças Armadas, não ter conseguido controlar o Judiciário, não ter conseguido, enfim, fazer do Brasil uma Venezuela.

E não conseguiu mesmo. Não conseguiu porque nós não deixamos.

Tchau, queridos!

Nós matamos os facínoras.

O triunfo de um doutor em bravura, Hélio Bicudo (por AUGUSTO NUNES)

Um dos autores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, o jurista Hélio Bicudo foi impedido por problemas de saúde de acompanhar no plenário do Senado, neste 31 de agosto, o desfecho vitorioso da batalha que desencadeou aos 93 anos, em parceria com Janaína Paschoal e Miguel Reale Jr. Em homenagem ao grande ausente, a coluna republica o post que saudou, em setembro de 2015, a chegada desse doutor em bravura à linha de frente da resistência democrática.

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Publicado em 24/09/2015

Seja bem-vindo à frente oposicionista quem tiver compreendido, não importa quando, que é preciso combater o bom combate

Leitores da coluna reagiram com indignação a uma notícia que decerto expandiu a epidemia de insônia que grassa no clube dos cafajestes no poder: a portentosa frente oposicionista acaba de incorporar duas figuras exemplarmente íntegras. Aos 93 anos, o jurista Hélio Bicudo, antigo expoente do PT, alvejou Dilma Rousseff com o mais sólido pedido de impeachment. Também aos 93, o advogado Tito Costa, ex-prefeito de São Bernardo e amigo de Lula desde 1979, expôs a nudez do reizinho numa carta aberta publicada pela Folha.

Por que Bicudo não fez isso antes? irritaram-se veteranos antipetistas. Por que Tito Costa só viu agora a face horrível do arrivista patológico?, zangaram-se oposicionistas de primeira hora. Se o critério que fundamentou o veto aos recém-chegados valesse para todos os que tiveram vínculos com o lulopetismo, o deputado Eduardo Cunha, por exemplo, deveria ser proibido de atrapalhar a vida de Dilma. Até recentemente, o presidente da Câmara serviu ao governo Lula. Nenhum dos inquisidores de Bicudo e Tito Costa se encolerizou com o despertar tardio do figurão do PMDB.

Pior ainda seria se tais exigências e restrições se estendessem à população inteira. Nessa hipótese, a resistência democrática estaria condenada ao confinamento perpétuo no gueto dos 7% em que sobreviveu por tanto tempo por imposição das pesquisas de opinião. O que fez surgir o colosso oposicionista que hoje abrange quase 80% dos brasileiros foi a adesão de milhões de eleitores que votaram em Lula e ajudaram a instalar no Planalto o poste fabricado pelo chefão.

Vale a pena ler o que a nossa Valentina de Botas escreveu sobre essa ─ mais uma ─ paradoxal brasileirice:

Não pergunto a quem vem, de alguma forma, me ajudar numa luta, a razão de ter demorado. Se preciso da ajuda, se o essencial é a luta que travo ─ e o essencial é exatamente isso ─, não me atenho com quando ou como. Talvez não seja como eu tenha desejado, talvez não tenha sido quando eu pedi, talvez nem seja suficiente, mas a coisa está aí e pronto. Claro, sempre saberemos quem são os combatentes de primeira hora e a partilha com eles é de outra qualidade; dos tardios, quero apenas o essencial.

Falando especificamente de Hélio Bicudo, ele tem 93 anos, poderia deixar para lá, não arrumar para a cabeça a essa altura da vida. Contudo, ele está sendo linchado nas redes sociais e por determinado jornalismo, chamado de traidor para baixo, até um dos filhos expôs grosseira e publicamente a discordância. Para quê? Para fazer o que acha certo, o que encorpa a nossa luta. Ah, mas só agora? É e ainda bem que foi. Poderia ter sido antes? Talvez. Ninguém sabe o que vai na consciência de cada indivíduo nem os desdobramentos do tempo e dos acontecimentos.

Eu saúdo a coragem de Hélio Bicudo que pode ser, para confirmar que ninguém controla a história, o fator com potencial para antecipar o triunfo de uma luta, até aqui, inglória.

É isso. A porta de entrada do Brasil oposicionista está aberta a qualquer aliado de boa fé. Sejam bem-vindos todos os que tiverem compreendido, não importa quando, que é preciso combater o bom combate.

Depois da posse, por MONICA DE BOLLE (no ESTADÃO)

Pedreira. Essa é a imagem que vem à mente quando penso no quadro pós-impeachment. Muitos têm considerado que a posse de Temer elimina as incertezas que tanta dor causaram ao País desde que as fichas do impeachment foram lançadas. Porquanto seja verdade que a remoção de Dilma Rousseff abre espaço para que o conserto do Brasil se inicie, o tamanho dos estragos e os desafios políticos não devem ser escanteados.

O tamanho dos estragos. O IBGE acaba de divulgar o que ocorreu com a atividade no segundo trimestre de 2016: uma queda de 3,8% na comparação com o mesmo período do ano passado. O consumo das famílias continuou a encolher pelo sexto trimestre consecutivo e as perspectivas de que melhore em breve não estão postas. Como também soubemos nessa semana tão conturbada, o número de desempregados alcançou 11,8 milhões de pessoas, a renda descontada a inflação caiu 3% em relação a 2015. Diante desse quadro dramático, não há esperança de que suspiros de confiança resgatem a capacidade de consumir das famílias brasileiras. O investimento ainda não deu os sinais de recuperação compatíveis com os cenários mais otimistas traçados pelos analistas. As exportações continuam reféns do mau momento internacional e da falta de competitividade de nossos produtos. Entramos na antessala do último trimestre de 2016 sem saber como virá a retomada da atividade.

Os desafios políticos. Michel Temer já indicou que uma de suas prioridades como presidente empossado será encaminhar ao Congresso as reformas que tratarão de consertar os problemas estruturais das contas públicas. A reforma da Previdência, a criação do teto para os gastos públicos, a necessidade de emplacar mudanças constitucionais que permitam que o teto proposto tenha eficácia. Essas reformas, caso sejam aprovadas com poucas mudanças, podem, sim, criar as condições para a melhora da confiança e para a sustentabilidade fiscal de médio prazo. Contudo, não se deve perder de vista que são reformas com impacto negativo sobre benefícios, sobre a renda das famílias e dos trabalhadores brasileiros. Por essas razões, não serão reformas fáceis de aceitar, não contarão com o apoio irrestrito da sociedade, e, portanto, do Congresso. O trabalho de Temer como presidente, não mais como interino, para levá-las a cabo será árduo. Afinal, é bem possível que o período de lua-de-mel de Temer tenha se dado, justamente, na interinidade.

Temer vai à China logo depois da posse. Temer vai se apresentar no palco do G-20. Como disse uma grande jornalista brasileira, diante desses desafios, é melhor uma Brasília na mão do que uma China voando.

Renan e Eunício conspiraram com Lewandowski contra a Constituição; grupo de Temer foi surpreendido

Que diabos, afinal de contas, aconteceu para 61 senadores votarem no impeachment de Dilma, mas só 42, 19 a menos, em favor também da sua inabilitação para a vida pública? Eram necessários 54. Ficaram faltando 12. Dos 19, oito peemedebistas resolveram manter os direitos políticos da impichada, a saber: Renan Calheiros (AL), Edison Lobão (MA), Raimundo Lira (PB), Eduardo Braga (AM), Hélio José (DF), Jader Barbalho (PA), Rose de Freitas (ES) e João Alberto Souza (MA). Houve duas abstenções: Eunício Oliveira (CE), líder do partido na Casa, e Valdir Raupp (RO).

Atenção, a maioria desses 10 peemedebistas que deram uma mãozinha para Dilma é constituída de peixes graúdos. Será que o próprio presidente Michel Temer endossou a patuscada? Não! Sigamos. Já volto ao ponto. O DEM também deu a sua ligeira contribuição, com a abstenção de Maria do Carmo (SE). Os outros votos exóticos se distribuem em quatro partidos: Telmário Motta (AP) e Acir Gurgacz (RO), ambos do PDT; Cristovam Buarque (PPS-DF); Antônio Valadares (SE) e Roberto Rocha (MA), ambos do PSB, e Cidinho Santos (MT), Vicentinho Alves (TO) e Wellington Fagundes (MT), os três do PR.

O que aconteceu? Renan Calheiros, presidente do Senado, e Eunício Oliveira, líder do PMDB na Casa, conspiraram com Ricardo Lewandowski, que preside o Supremo, contra a Constituição.

Logo depois da votação, Renan viajou para a China com o presidente Michel Temer. Teria sido um jogo ensaiado? Não! Foi só uma demonstração de força do enroscado presidente do Senado. Como esquecer que, em dezembro do ano passado, os dois trocaram farpas publicamente? Referindo-se ao então vice-presidente, o senador afirmou que o PMDB não tinha dono. Temer respondeu que o partido não tinha dono nem coronéis. O político alagoano só deixou de ser um esteio de Dilma no Senado quando percebeu que ela já não tinha mais saída.

A articulação foi comandada pessoalmente por Renan, cuja influência se estende além do seu partido. Os únicos que não são, vamos dizer, da sua turma, entre os 19, são Cristovam Buarque e Acir Gurgacz.

E por que não se pode atribuir ao espírito conciliador de Temer tal resultado? Porque  não é do interesse do presidente. A verdade é que o Palácio do Planalto, em especial o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, tomou a chamada “bola nas costas”, como se diz no futebol. Ou levou um chapéu.

Tivesse se cumprido a Constituição, que, entendo, foi fraudada por Ricardo Lewandowski, as ações que tramitam no TSE contra a chapa Dilma-Temer perderiam a razão de ser. Agora não mais. Afinal, um dos objetos do que se julga lá remanesce: a inelegibilidade de Dilma, que decorre da eventual cassação da chapa, o que pode colher Temer. A conspirata da qual Lewandowski participou só torna mais enrolado o cipoal jurídico.

Renan, o “companheiro” da viagem à China, deu uma demonstração evidente de poder. E quis dizer a Temer que, no Senado, a governabilidade tem de passar, sim, por ele. O resultado provocou, por motivos compreensíveis, um profundo desconforto no PSDB.

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Fonte: VEJA.COM + ESTADÃO

2 comentários

  • José Maria Pessoa de Melo Olinda - PE

    A ERA PT ACABOU, OS PETRALHAS NÃO ATACARÃO MAIS, O EX´RCITO A MARINHA E AERONAUTICA ESTÃO ATENTOS, POIS, TIVERAM EXPERIÊNCIA COM ESSES COMUNISTAS.

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    • CARLO MELONISAO PAULO - SP

      O PT E' UM CANCER E NAO SERA' TAO FACIL EXTIRPA-LO......ELES TEM DINHEIRO PARA ORGANIZAR MANIFESTAÇOES E SUBORNAR OS TECNICOS DAS URNAS ELETRONICAS----

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    • WELLINGTON ALMEIDA RODRIGUESSUCUPIRA - TO

      Falou tudo em poucas palavras meu caro Carlo, esse PT são uns filas das putas e igual bicho goiaba entra em todo lugar, o único e matando a cobra, ele sim tem excelentes ideais bons esquemas, tem uma brilhante mente voltada para fazer somente o mau se foda o restante...!

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  • Paulo Roberto Rensi Bandeirantes - PR

    Os fios que tecem o tecido social de uma sociedade são oriundos de mil substâncias.
    Não existe máquina capaz em tecer esse "tecido" sem defeitos.
    No caso a máquina seria as formas de governo (democracia, socialismo, comunismo e, eteceteras) e, seus governantes.
    No Brasil, desde o Estado Novo de Getúlio, formou-se uma cultura de que seres místicos seriam alçados no poder para salvar o povo, a partir daí a sociedade brasileira se defrontou com Janio Quadros, Jango Goulart, Sarney, Collor, FHC, Lula & Dilma, operando a máquina para tecer o tecido "sociedade". Veja o resultado histórico desse pequeno período citado.
    O que deve ser feito para não convivermos num "MUNDO DE ESPANTO" ???
    Ou será que há uma "cultura suprassensível" na sociedade brasileira de "VIVER PERIGOSAMENTE" ???

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