“Ih, será que Lula vai ser preso hoje?” (por REINALDO AZEVEDO)

Publicado em 17/10/2016 11:59 e atualizado em 19/10/2016 03:23
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Parece que um post do autointitulado “bolivariano” Fernando Morais está na raiz da boataria. Segundo ele, isso faria parte de um plano estratégico da direita para poder cortar todos os direitos sociais (EM VEJA.COM)

Ai, ai…

A histeria nas redes, de todos os lados e níveis — e desníveis — de informação chega a ser comovente. Embora eu me mantenha a uma prudente distância, é claro que o alarido chega…

A que me refiro: à tal prisão de Lula…

“É verdade que vai ser hoje?”

Bem, não que eu saiba.

Parece que um post do autointitulado “bolivariano” Fernando Morais está na raiz da boataria. Segundo ele, isso faria parte de um plano estratégico da direita para poder cortar todos os direitos sociais. Digamos que existisse, só não entendi por que Lula teria de ser preso para isso.

Mais: considerando que o mundo não é plano, é de se perguntar se, na cadeia, o poder de mobilização de Lula seria maior ou menor. Às vezes, mais vale um adversário investigado solto do que um suposto herói preso. Especialmente quando, de fato, existe uma reforma da Previdência por fazer. E uma reforma necessária, sem a qual o Brasil não sai do buraco.

“Ah, mas ele vai ser preso um dia?” Não sei. Se e quando for, não faltará quem diga: “Viram? Não falamos?”.

Parece que Fernando Morais resolveu integrar a categoria dos caçadores de cliques e geradores de calor com pouca luz.

Alguns expressam seu temor.

Outros expressam seu desejo.

Outros babam a sua torcida.

Até agora, enquanto faço esse comentário, Lula “não vai ser preso hoje”. Não existe essa ordem na Polícia Federal.

“Mas você acha que ele deve ser preso?”

Respeitado o processo legal, comprovada a sua culpa ou incidindo em um dos casos que cabe a preventiva, acho que sim.

 

Militantes petistas fazem vigília em frente ao prédio de Lula no ABC  (no ESTADÃO)

Manifestantes em defesa do ex-presidenre Luiz inácio Lula da Silva se reuniram durante a madrugada desta segunda-feira, 17, em frente à residência do petista, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. De acordo com informações, o ato, que teria sido liderado por sindicalistas, chegou a reunir cerca de 100 pessoas. 

Foto: Marcelo Gonçalves|Sigma PressManifestantes em vigilia em frente ao predio de Lula no ABC

Manifestantes em vigília em frente ao prédio de Lula no ABC. Manifestação foi motivada por informação que circulou nas redes sociais de que o ex-presidente seria preso pela Polícia Federal nesta segunda-feira

Os manifestantes chegaram à casa de Lula de madrugada, mas por volta das 7h já haviam se dispersado e restaram apenas jornalistas e algumas bexigas brancas penduradas no portão do prédio de Lula e nos arredores.

A manifestação teria sido motivada por uma informação que circulou nas redes sociais, principalmente nos chamados blogs de esquerda, dando conta de que a Polícia Federal deflagraria nesta segunda-feira uma nova fase da Operação Lava Jato e que o alvo da prisão seria o ex-presidente Lula.

A reportagem não confirmou se Lula está em sua residência. Até as 8h30, ele não havia deixado o prédio. Carros da Policia Militar circulavam pelo local. 

Será que o PT consegue se pensar sem incidir na lei das organizações criminosas?

O PT, leiam post anterior, está procurando meios de se… renovar.

É mesmo?

Querem um exemplo de quão perdido está o partido? Tomem o caso de Tarso Genro. Em 2005, quando explodiu o mensalão, ele defendeu, ora, ora, a refundação do partido. Assumiu pouco depois a presidência da sigla. Refundou o quê? Nada. Em 2006, vai para o Ministério das Relações Institucionais e, no ano seguinte, para o da Justiça, onde ficou até 2010.

Aquele que se queria o “refundador” passou a repetir a bobajada de que o mensalão era uma tentativa de “golpe” das elites, conversa mole que foi repetida agora, com o petrolão. Pois é… Tarso, membro da corrente “Mensagem ao Partido”, volta agora a falar em “refundação”. E que mensagem nova ele traz?

Ora, vimos isso há meros três meses. Em carta aberta aos petistas, o doutor recomendou que o PT se mantivesse longe da disputa pela presidência da Câmara e censurou os companheiros de partido que apoiaram a candidatura de Rodrigo Maia. Num dado momento, escreve:
“Esta crise não foi inventada pela mídia nem pelos Procuradores. A mídia oligopolizada e uma parte não significativa, em termos quantitativos, do Judiciário e de outros aparatos do Estado – opositores radicais do projeto que representamos – souberam, isto sim, manipular nossos erros políticos, equívocos de gestão e mesmo a ilusória sensação de impunidade (que às vezes leva ao delito), que afetou em alguma medida parte de companheiros nossos. Manipulando contra toda a evidência, porém, vincularam artificialmente a Presidenta à corrupção e assim promovem a sua derrubada, colocando no Poder uma Confederação de Denunciados e Investigados.”

Alguém poderá dizer: “Bem, é melhor do que Rui Falcão, que não admite erro nenhum”. Ora, a questão é saber o que Tarso propõe como profilaxia para aquilo que chama “nossos erros”. Mais: que renovação seria essa que parte do princípio de que existe uma “mídia oligopolizada” e de que a queda de Dilma e a derrocada do PT decorrem da oposição que setores da sociedade brasileira fazem a seu “projeto”.

Qual projeto?

O PT é um paciente terminal, entre outras razões, porque seus doutores se negam a enxergar a doença. Há uma boa possibilidade de que assim seja porque o partido só entende a própria estruturação e a própria configuração segundo aquilo que a lei define como “organização criminosa”.

Nesses termos, não pode haver refundação, autocrítica ou mea-culpa.

O PT tenta se reinventar. Mas anda sem ideias…

O PT deveria trocar a sua direção nacional no segundo semestre do ano que vem. Antecipou para o primeiro. O desastre eleitoral deste 2016 e o risco de uma debandada de parlamentares pressionam as várias correntes a buscar uma saída. Há quem não queira mudar nada, como Gilberto Carvalho. Para ele, basta reunir a tropa, mirar no governo Temer e botar o bloco na rua. E há quem queira mudar tudo, a exemplo de algumas correntes de esquerda. O problema de mudar tudo é que nunca se sabe por onde começar.

É a maior crise da história da legenda, que sempre resolveu suas dissensões internas tendo um ponto de ancoragem: Luiz Inácio Lula da Silva. Ele era o redutor de todas as divergências e o denominador comum de todas as tendências. Ainda hoje ninguém se atreve, nem à esquerda, a contestar seu nome para a presidência da legenda, caso ele opte por isso.

Mas, ora vejam, o próprio Lula parece, nesse particular ao menos, ter mais bom senso que seus “companheiros”. Tem dito que é preciso encontrar outro nome. Como é que alguém que é réu três vezes, investigado pelo Supremo, com a possibilidade concreta — e nem vou entrar no mérito — de ter a prisão preventiva decretada, pode assumir a presidência da sigla?

É evidente que os problemas de Lula com a Justiça passariam a ser sinônimo dos problemas do partido.

A moda das narrativas
O PT está perdido. Encontra-se no mato sem cachorro. Virou moda hoje em dia atribuir tudo a uma disputa por narrativas. Aquilo que, de fato, pode ser um conceito interessante para analisar a política — vale dizer: a construção dos discursos que explicam a realidade — está se tornando um maneirismo e um fetiche. Fica parecendo que basta encontrar, no fim das contas, uma desculpa e uma justificativa, e o resto se resolve.

Uma ova! As esquerdas do PT querem renovar a direção. Os velhos quadros, a exemplo de Carvalho, acham que isso é bobagem. Os que falam em mudança radical propõem fazer um congresso para lavar roupa suja. A turma da “Construindo Um Novo Brasil”, a corrente majoritária, à qual Lula pertence, pensa que tudo se resolve com a eleição direta para a nova direção e pronto — sem espaço para autocrítica.

Uma coisa, no entanto, une a todos: a convicção de que existe uma grande conspiração para banir o partido da política e de que isso que se tem aí é fruto de uma articulação conservadora. A história da esquerda, mundo afora, é pontuada de momentos de autocrítica. O PT está numa enrascada porque mesmo aqueles que querem “renovar tudo” acreditam apenas na renovação de pessoas, não de práticas.

E isso não tem salvação.

A solução para a economia existe, mas os problemas estão apenas no começo

Raul Veloso, um dos mais sérios especialistas que há no país em contas públicas, concede uma entrevista  à Folha nesta segunda em que trata de uma questão já abordada por este escriba neste blog. É claro que o estabelecimento de um teto para os gastos, corrigido apenas pela inflação, gerará tensões e disputas por verbas. E os limites constitucionais que existem para alterar os gastos com saúde e educação acabarão pressionando os outros setores. Todos sabemos disso. Como a população continuará a crescer, o teto significa também corte de gastos.

Assim, é preciso mexer naquele que é o setor que hoje sangra os cofres públicos com mais violência: a Previdência. Sem a reforma nessa área, não há teto que sobreviva. E, em particular, é preciso corrigir a principal distorção: a aposentadoria do funcionalismo público. Segundo os cálculos de Veloso, o déficit com inativos da União e dos Estados atingiu, no ano passado, 2,3% do PIB: R$ 137 bilhões.

É evidente que se trata de um escândalo. Observem que o valor não está muito longe do déficit fiscal deste ano: R$ 170,5 bilhões. Que país pode conviver com essa conta?

Veloso chega a dizer que a reforma da Previdência deveria preceder esta outra. Num ambiente político menos crispado, até acho. Mas ele mesmo reconhece que existe uma dificuldade que é de natureza política. Como também já destaquei aqui, não se parta do princípio de que, na reforma da Previdência, se vai repetir a mesma adesão que se viu com a PEC que estabelece o teto dos gastos públicos.

Na reunião dos Brics, em Goa, o presidente Michel Temer falou a empresários do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul que o país está entrando nos trilhos e que a responsabilidade fiscal é uma precondição da responsabilidade social.
“Responsabilidade fiscal é, para nós, um dever maior e tarefa urgente. Sem ela, põem-se em risco os avanços sociais do Brasil. Mas temos consciência de que a responsabilidade fiscal, por si só, não basta. Dela, é indissociável a responsabilidade social, como duas faces da mesma moeda.”

E, por óbvio, o presidente voltou a falar da reforma da Previdência. Afirmou que o governo vai mandar em breve uma proposta que torne o sistema viável e mais justo: “Queremos uma seguridade social que elimine privilégios e possa servir a todos, no médio e no longo prazos. Queremos preservar a saúde fiscal do Estado”.

Não vai ser fácil. E as dificuldades estão apenas no começo.

Há sinais, como reconheceu o presidente, de que a economia está reagindo. Mas é bom que a gente não se engane. Uma reforma da Previdência malsucedida em razão da pressão deste ou daquele setores poderia fazer a coisa desandar.

Os partidos da base e o próprio governo têm de se dedicar cotidianamente à tarefa do esclarecimento. É preciso que os brasileiros saibam a centralidade que a reforma da Previdência ocupa hoje na retomada do crescimento e na construção de um modelo viável.

E, como lembrou Raul Veloso, o rombo principal está na aposentadoria do setor público. É questão de matemática, não de gosto.

Desonestidade intelectual
A desonestidade intelectual de esquerdistas e assemelhados, para não variar, indaga o peso que têm os juros na conta. De fato, é elevado. Só se esquecem de dizer que o Tesouro se endivida para arcar com o custo de um insuportável sistema de privilégios.

As soluções existem. Mas os problemas só estão no começo.

É preciso ter o que dizer, editorial do ESTADÃO

Causa espécie a informação, publicada no Estado, segundo a qual, em 20 das 54 cidades que terão segundo turno das eleições, candidatos propuseram acordo para reduzir o tempo de propaganda eleitoral que lhes é oferecido de graça no rádio e na televisão, às expensas do contribuinte.

O mais comum e lógico é que os candidatos se empenhem em conseguir mais, e não menos, exposição, a fim de divulgar sua plataforma aos eleitores e, assim, em tese, ampliar suas chances de vitória. É por essa razão, aliás, que os partidos médios e grandes, a cada eleição, engalfinham-se na disputa por apoio de legendas nanicas, já que estas, embora totalmente irrelevantes do ponto de vista político e de representação, têm a oferecer preciosos segundos de propaganda eleitoral.

No entanto, algo mudou neste ano. Com a proibição do financiamento eleitoral por meio de doações empresariais, os partidos e seus respectivos candidatos viram-se diante do desafio de fazer uma campanha eleitoral de verdade – bem diferente das bancadas a peso de ouro por generosos empresários interessados em obter vantagens daqueles que ajudaram a eleger e que transformaram os candidatos em meros produtos de marketing.

Assim, ao mesmo tempo que tiveram de buscar financiamento de pessoas físicas – isto é, dos eleitores –, os candidatos foram obrigados a fazer propostas concretas para conquistar os votos e, no corpo a corpo da campanha, ouvir o que os cidadãos têm a dizer e quais são suas aspirações. É a isso que se dá o nome de política – coisa para a qual muitos candidatos não precisavam ter o menor talento, pois se limitavam, na propaganda de TV, a repetir o discurso criado pelo engenho de publicitários muito bem remunerados. Não se apresentavam projetos, mas slogans, e os eleitores não eram tratados como cidadãos, mas sim como “público-alvo”.

No atual cenário, não surpreende que muitos candidatos se sintam desconfortáveis. A falta do dinheiro abundante das doações empresariais, queixam-se esses políticos, inviabiliza a propaganda eleitoral no rádio e na TV tal como era feita até agora. Na opinião deles, sem os recursos proporcionados pelo financiamento, fica difícil bancar peças publicitárias que atraiam a atenção dos eleitores, restando como alternativa reduzir o tempo dado a cada candidato. “Em uma época em que a população não está a fim de ouvir falar sobre política, 20 minutos é muita coisa”, disse Vanderlan Cardoso (PSB), que disputa a prefeitura de Goiânia.

Trata-se de um argumento falacioso. Para apresentar-se aos eleitores e defender suas propostas no horário eleitoral gratuito, basta que o candidato, diante das câmeras ou do microfone de rádio, simplesmente fale. Até onde se sabe, especialmente em tempos em que celulares se transformaram em câmeras, hoje em dia não há nenhuma dificuldade para gravar mensagens políticas. O problema, portanto, não é falta de dinheiro. O problema é não ter o que dizer.

“Se dependesse de mim, em vez do horário gratuito teríamos apenas debates”, disse, em outubro de 1998, o então governador de São Paulo, Mário Covas. Na opinião dele, essa seria “a melhor maneira de conhecer os candidatos e seus programas”, e não por meio das cada vez mais caras campanhas marqueteiras. Políticos como Covas no passado, que tinham algo a dizer, não se intimidavam diante dos eleitores e jamais abririam mão da oportunidade de lhes falar diretamente.

Mas os tempos, infelizmente, são outros. O dinheiro fácil dos empreiteiros e bancos que vinha irrigando as campanhas eleitorais desde 1994 parece ter criado uma geração de políticos incapazes de fazer política. Sem saber como se comunicar com os eleitores, tornaram-se dependentes dos anabolizantes publicitários.

Com a queda brutal dos gastos das campanhas – que foram 71% menores neste ano em relação ao registrado em 2012, diante de uma redução de 64% nas doações eleitorais no mesmo período, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral –, valorizam-se o eleitor e os que têm verdadeira vocação para a política.

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Fonte: Blog Reinaldo Azevedo + Estadão

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