"Críticas a Moro e MPF: sou jornalista, não antipetista de aluguel", por REINALDO AZEVEDO

Publicado em 20/04/2017 06:30 e atualizado em 21/04/2017 14:00
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(Há diferenças entre o antipetismo convicto e o de aluguel: o primeiro não faz michê)... Podem espernear à vontade; quanto mais babam de rancor, mais colaboram para que as verdades se clarifiquem. Eis a utilidade dos idiotas... (REINALDO AZEVEDO)

Já disse, e reitero, que não tenho receio de robôs de Internet ou de movimentos sociais ou políticos que só existem no Facebook, por mais que se esforcem para expropriar a história escrita pelo conjunto dos brasileiros.

Na verdade, quanto mais tentam organizar a baixaria, mais o tiro sai pela culatra, como se verá em breve. Então podem babar à vontade.

Minhas críticas à Lava Jato não datam de ontem. Nem começaram a ser feitas, como querem algumas lorpas, quando a investigação chegou ao PSDB ou “à direita”. Isso é de uma bobagem abismal. Até porque o Partido dos Trabalhadores tinha várias direitas como… aliadas!!!

Meu critério sempre esteve e estará ancorado nas leis que regem a democracia brasileira. E mudemos aquelas que não são boas. Também há regras para isso.

É evidente que reconheço a importância da Lava Jato, que elucida a espantosa corrupção que estava em curso no país. O que não aceito, para lembrar o cineasta Bernardo Bertolucci, em entrevista concedida ao jornalista Wagner Carelli, na histórica revista “BRAVO!”, é que se institua o fascismo sob o pretexto de caçar tarados. Na frase dele, que cito de memória: “O fascismo começa (ou ‘pode começar’, não estou certo) caçando tarados”.

Obviamente, Bertolucci não é um defensor de molestadores. Só está lembrando que é preciso coibir as transgressões, mas sem transgredir os limites de uma sociedade civilizada.

Moro
Há certa direita xucra que não se conforma com o fato de eu ter criticado aqui o juiz Sergio Moro por ter decidido, ao arrepio da lei, que o ex-presidente Lula tem de estar presente a todos os depoimentos das 86 (e não 87) testemunhas de defesa arroladas por seus advogados.

Fazer o quê? Ou os meus leitores, ouvintes e telespectadores se conformam com o fato de que jamais defenderei procedimentos ilegais, ainda que contra pessoas das quais não gosto, ou podem mudar de blogueiro, de colunista, de radialista, de comentarista de TV.

Todos os especialistas em direito, o que não sou,  afirmaram a mesma coisa. Alguns gostam do PT menos do que eu. Mas e daí?

Olhem aqui: a minha profissão não é ser antipetista!!! Sou jornalista. Um jornalista liberal, fracamente conservador — o conservadorismo que preserva instituições democráticas.

É verdade! Durante muitos anos, bati no PT quase sozinho. Em Sérgio Cabral, então, era sozinho mesmo. E eles tinham todo o poder. Os companheiros nunca me intimidaram.

Acordando as bestas
Já lamentei aqui a fraqueza dos liberais no Brasil. Infelizmente. Boa parte dos que dizem professar essa convicção é composta apenas de reacionários disfarçados. O movimento em favor do impeachment fez com que essa gente rompesse o silêncio. E algumas bestas fascistoides passaram a falar. Algumas ganharam até fama. Já há quem aposte em fama e fortuna.

Emergiram, então, uns fascistoidezinhos vulgares, de uma ignorância assombrosa, dedicados a patrulhar e a achincalhar nas redes quaisquer pessoas que discordem dos seus pressupostos.

Para essas bestas, pouco importa que Lula possa ser vítima de uma arbitrariedade. Pois é… Para mim, importa, sim! Eu não pergunto a ideologia do injustiçado antes de defendê-lo. Moro não tem o direito de obrigar o ex-presidente a fazer o que a lei não obriga. Ou a deixar de fazer o que a lei não proíbe.

“Mas é o Lula, Reinaldo! É a esquerda. É o Apedeuta. São os esquerdopatas”!!! Pois é. Exijo apenas a lei para todas essas pessoas.

MPF
Da mesma sorte, não me peçam que tolere um vídeo inescrupuloso, ilegal e autoritário gravado por três procuradores da República, que se dão o direito de atacar a política e os políticos, de forma genérica, pretextando a existência de uma ameaça a Lava Jato — ameaça que não existe.

Qualquer liberal razoável deveria aplaudir o texto que tramita no Senado e que pune abuso de autoridade. Em vez disso, o que vejo são expressões da direita de joelhos diante da Lava Jato. E por mero oportunismo. Afinal, para essas mentes um tanto confusas, simplistas, equivocadas, se Moro, Dallagnol e outros bravos se dedicam ao achincalhe de todos os políticos, então o que vem por aí é “renovação”…

Não, senhores! Eu quero um combate sem quartel à roubalheira, mas repudio as iniciativas que agridem as leis, a exemplo do que fizeram Sergio Moro e o MPF.

Comigo é assim. E é só assim.

“Reinaldo, e quem decide ser antipetista profissional para ganhar uns trocos? O que você acha?” Bem, meus caros, não têm o meu respeito, mas isso é com eles.

Sei de mim. Não cobro nem para falar bem nem para falar mal.

Não sou antipetista de aluguel. Até porque, como notam os atentos, os que alugam a sua opinião podem tratar, num dia, esse político ou aquele como uns bananas. No outro dia, tão logo pinga a grana no caixa, o desafeto vira salvador da pátria.

Já revi opiniões, sim, ao longo de quase 12 anos de blog. E os leitores sempre ficaram sabendo os motivos. Mas os princípios seguem os mesmos.

A opinião não é uma prostituta.

O direito não é um gigolô.

A verdade não faz michê.

Delação do hecatônquiro Palocci: pânico além das fronteiras do PT

Lula e o PT têm pavor de pensar no assunto. Mas é bom lembrar que ex-ministro era o interlocutor do partido com todos os setores da economia

Consta que Antonio Palocci já fez o primeiro encontro com vistas à delação premiada. É claro que essa possibilidade tira o sono do PT e de Lula em particular.

Mas o pânico vai muito além da cerca vermelha.

Palocci era o interlocutor do PT com os bancos, com a indústria, com o varejo, com a Casa da Noca…

Vejam a dimensão que tomou a Lava Jato. A palavra “petrolão” se tornou um reducionismo. Afinal, as sem-vergonhices na Petrobras eram apenas parte da arquitetura criminosa. A operação já passou por lugares que nada têm a ver com a estatal.

E o que se teme é que setores até agora blindados contra a onda de delações acabem tragados pelo olho do furacão. E Palocci é o elemento-chave de tal risco.

Afinal, o ex-ministro sempre foi um dos hecatônquiros do PT, também conhecidos por centímanos — criaturas mitológicas de cem braços e 50 cabeças. Eram três irmãos, filhos de Urano e Gaia e irmãos dos titãs: Briareu (“vigoroso”), Coto (“furioso”) e Giges (“de grandes membros”) — aquela da ilustração.

Lula e Palocci: dois nomes de destaque em petições ainda secretas

Ex-presidente e ex-ministro aparecem citados em operações que dizem respeito a Cuba, Angola, El Salvador...

Pois é… Há 25 petições feitas pela Procuradoria-Geral da República que, por solicitação da própria e decisão de Edson Fachin, relator do petrolão no Supremo, estão ainda sob sigilo. Sua divulgação atrapalharia as investigações. Ah, sim: por consequência, depoimentos ou trechos de depoimentos que digam respeito a esses casos também não foram divulgados.

Reportagem do Estadão informa ter tido acesso com exclusividade às petições, feitas com base nas delações de diretores e ex-diretores da Odebrecht. A maior parte dos casos diz respeito a operações no exterior.

Vejam vocês… Fui dos poucos — único, creio, na grande imprensa — a dar destaque, durante muitos anos, ao famigerado Foro de São Paulo, que reúne os partidos de esquerda da América Latina e Caribe. Mal sabíamos nós que, a ser verdade o que vai nas petições, era a Odebrecht a financiar parte considerável daquele foro de esquerda. Sim, claro!, isso é uma espécie de piada. Mas com raízes na seriedade.

Segundo o Estadão, Lula e Antonio Palocci são membros de destaque nessa leva ainda sigilosa. O ex-presidente teria sido fundamental na construção do porto de Mariel, em Cuba, levada a efeito pela Odebrecht, com farto financiamento do BNDES. O petista Fernando Pimentel, governador de Minas, também teria sido peça-chave na coisa. Mais: por influência do chefão petista, a Exergia, empresa de Taiguara Rodrigues (sobrinho da primeira mulher de Lula), teria sido contratada pela construtora em Angola.

E Palocci, quem diria?, fez pedidos para financiar as respectivas campanhas eleitorais de Mauricio Funes, em El Salvador, e Ollanta Humala, no Peru. No primeiro caso, um pagamento de R$ 5,3 milhões foi feito a João Santana, marqueteiro de Funes. No outro, US$ 3 milhões, a pedido do ex-ministro, foram endereçados ao peruano. Os dois venceram as respectivas disputas.

Nota à margem: acusado de várias fraudes em seu país, Funes fugiu para a Nicarágua e diz que perseguição é política. Humala, eleito pela esquerda, fez um governo de centro, distante do chavismo. Entregou o poder a um sucessor de oposição, sem resistência ou tentativa de fraude. Adiante.

Que coisa, né? O sonho de Lula de ver toda a América Latina governada por membros do Foro até que avançou bastante. E, como se nota, com dinheiro repassado pela Odebrecht, a gigante do capitalismo à brasileira.

E há ainda, no lote sob sigilo, supostas lambanças praticadas aqui dentro mesmo, por nativos. Estão na lista o senador Edison Lobão (PMDB-MA), o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB) e o ex-ministro Henrique Eduardo Alves (PMDB).

E, sim, lá está Belo Monte. Seis delatores do grupo apontaram lambanças na dita-cuja.

Essa novela não acaba tão cedo.

Deltan abusa de sua autoridade; Carlos Fernando posa de Angelina!

Três procuradores da República abusam das prerrogativas que têm e incitam a população contra o Senado. É uma vergonha! (Por Reinaldo Azevedo)

Eles perderam completamente a noção de limites. Já não há dúvida de que os procuradores que compõem a Lava Jato têm um projeto de poder e se sentem a única força legítima do país. Mais do que isso: na melhor das hipóteses, querem o MPF como o Poder Moderador da República; na pior, como o Poder único.

Eis que Deltan Dallagnol, o espevitado coordenador da força-tarefa, Carlos Fernando dos Santos e uma outra senhora que suponho procuradora houveram por bem gravar um vídeo conclamando a mobilização popular contra o projeto que muda a lei que pune abuso de autoridade. Sabem o nome disso? Abuso de autoridade!

Em boas democracias do mundo, o trio seria severamente punido. Por aqui, não vai acontecer nada. Até porque o chefão de todos eles, Rodrigo Janot, não só apoia o baguncismo no MPF como o promove. Vejam o vídeo. Volto em seguida.

Vamos ver
A primeira a falar é a tal senhora — talvez eu devesse saber o seu nome, já que ela se propõe a me governar e a outros mais de 200 milhões de brasileiros. Mas eu não sei. Afinal, ela não foi eleita por ninguém, não é mesmo? O poder que ela julga ter, vejam só, foi-lhe outorgado por sua própria turma. Adiante.

A Dona Coisa afirma, então, que, em 2013, as pessoas foram às ruas contra a PEC 37, que retirava do MPF o poder de investigar. Trata-se de uma simplificação grosseira, mas nem entro nisso agora. Segundo a Doutora Fulana, “foi você que permitiu que a Lava Jato revelasse o imenso esquema de corrupção que vemos nos jornais todos os dias”.

Sei!

Sempre achei que o que permite o trabalho do Ministério Público Federal é o funcionamento das instituições e o fato de que os homens e mulheres de estado devem se ater àquelas que são as suas funções, segundo as definem as leis. A pensadora Sei-Lá-Quem, a que me governa sem que eu tenha votado nela ou contra ela, me ensina que não. E ela vai dizer algo ainda mais perigoso:

“Agora, os políticos tentam calar as autoridades novamente”.

Notem que ela não diz “um grupo de políticos”, “alguns políticos”, “certos políticos”, mas “OS POLÍTICOS”. Isto mesmo: a procuradora Alguém está propondo uma mobilização da sociedade contra o que virou uma categoria: a dos “políticos”. A Justiceira Não-Sei-Quem acredita que pode usar a sua função de mulher de estado para incitar a população contra um dos Poderes da República.

O nome disso? Abuso de autoridade!

Aí quem fala é Carlos Fernando, o lugar-tenente de Dallagnol, comportando-se, às vezes, como o Leporello do Don Giovanni das Tias Justiceiras. Diz ele: “Amanhã, uma comissão do Senado votará o projeto de lei de abuso de autoridade, proposto pelo senador Renan Calheiros e relatado pelo senador Requião. Todos nós somos contra o abuso de autoridade. Mas não é isso o que está em jogo. Esse projeto promove uma verdadeira vingança contra a Lava Jato. O que desejam é processar criminalmente o policial que os investiga, o procurador que os acusa e o juiz que os julga”.

Para começo de conversa, o projeto que pode ser votado hoje na CCJ do Senado muda a lei que pune abuso de autoridade, que já existe. Os procuradores espalham a falácia de que o texto condescende com o “crime de hermenêutica” — ou de interpretação. Um juiz poderia, dizem eles, ser punido se sua sentença fosse reformada em segunda instância. Trata-se de uma mentira escandalosa. Isso não está no texto. Tampouco se poderia punir um procurador por promover uma investigação. Não pode é praticar arbitrariedades.

Sim, é verdade, se a lei existisse, esse trio poderia ser punido por promover essa patuscada. Aliás, pode ainda: esses três procuradores estão atentando contra as prerrogativas de um dos Poderes da República.

E fala o chefe
E aí é a vez de Dallagnol, aquele rapaz que é chegado em “luz, câmera, PowerPoint e ação”. Diz o incontido, com o seu pendor para o exagero jacobinista de baixa extração: “Admitir isso é calar de vez a Lava Jato e o próprio juiz Sergio Moro. Não permita que isso aconteça. Se manifeste contra essa lei. Viralize esse vídeo”.

Quem dera a Lava Jato se calasse mesmo! Função de procurador não é falar, não é conceder entrevista coletiva, não é incitar as pessoas a agir contra o Legislativo. A propósito: será que Dallagnol usaria o nome de Sergio Moro sem a expressa autorização deste? Mais ainda: faz sentido o órgão que acusa e o que julga atuarem em dobradinha?

Atuação ilegal
Essa atuação do trio é absolutamente ilegal. Estão usando do poder que lhes concede o estado brasileiro para, abusando de sua autoridade, tentar impedir que um dos Poderes da República exerça as suas prerrogativas. Mais: fazem-no com mentiras deslavadas. Ainda que o texto que pune abuso de autoridade seja aprovado como está, a Lava Jato não sofrerá qualquer dano.

É bem verdade que, com a mudança da lei, Dallagnol terá de se comportar como um procurador da República, não como militante político, chefe de facção ou líder de milícia.

É bem verdade que, com a mudança da lei, Carlos Fernando terá de se comportar como um procurador da República, não como “cheerleader”. Mais um pouco, veste um shortinho e sai abanando adereços de mão.

É bem verdade que, com a mudança da lei, a Doutora Desconhecida terá de se comportar como uma procuradora da República (ela é uma, certo?), não como a guia do povo contra o Senado.

Foto antiga
Além das barbaridades legais desse vídeo, há as estéticas. Vejam lá. O trio lembra aqueles antigos retratos de família, um deles reproduzido no alto deste post, em que o patriarca ficava sentado, com ar de macho alfa, e as mulheres se postavam atrás, em pé, em respeitosa submissão. Uma coisa, assim, bem Tradição & Família.

Na foto ilustração lá do alto, Dallagnol faz as vezes de Agostinho (o nome do homem que está sentado). A Dona Coisa está no lugar da Giacomina, e Carlos Fernando faz as vezes da Angelina.

O vídeo do trio é tão antigo quando o abuso de autoridade impune.

Se o Senado se intimidar, os parlamentares que fechem as portas da Casa e apaguem a luz.

Juiz acerta, solta PMs, bolsonariza fala e flerta com a barbárie (REINALDO AZEVEDO)

Magistrado acerta no mérito ao suspender preventiva de policiais do RJ, mas pisca para justiçamento: consequência dos vícios, não das virtudes, da Lava Jato

É asquerosa, para ser comedido, a argumentação do juiz Alexandre Abrahão Dias Teixeira, do 3º Tribunal do Júri do Rio, para conceder a liberdade aos PMs Fábio de Barros Dias e David Gomes Centeno, do 41º BPN (Irajá). Eles foram flagrados, no dia 31 de março, executando dois traficantes em frente à Escola Municipal Jornalista e Escritor Daniel Piza, na Pavuna.

Para lembrar: os bandidos já estavam rendidos, feridos, no chão, sem risco, aparentemente ao menos, de reação. Mas não se tem a certeza absoluta disso. Nota: no embate entre policiais e marginais, a estudante Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, foi atingida na perna e na cabeça por balas perdidas e acabou morrendo.

Antes que continue, uma lembrança. Já recebi da Polícia Militar de São Paulo uma das mais altas honrarias concedias pela corporação: a Medalha Brigadeiro Tobias (de Aguiar). No ano passado, fui paraninfo de formatura de mais de 1.200 policiais. A PM sabe por que fui chamado para essas distinções: sou um defensor dos policiais militares que honram a sua farda. Mas jamais daqueles que executam pessoas ao arrepio da lei. Se foi o caso, gente assim depõe contra a polícia.

A decisão e o argumento
E não que a decisão do juiz — acatando, em tese, argumentação da promotora Carmen Eliza Bastos de Carvalho — seja absurda. O desastre está em seus argumentos.

Ao se manifestar à Justiça, a representante do MPE censurou o comportamento dos dois policiais, lembrando que mesmo a guerra conta com regras, mas observou que a prisão preventiva não cabia porque inexiste “qualquer notícia de conduta intimidadora ou fraudulenta por parte dos acusados”, porque “compareceram à Delegacia de Homicídios espontaneamente” e porque “mantiveram o local dos fatos íntegro para a análise dos peritos”.

Em suma, ao analisar o comportamento dos policiais, a promotora não viu as razões expressas no Artigo 312 do Código de Processo Penal para manter a preventiva: a) ameaça à ordem pública; b) ameaça à ordem econômica; d) risco à instrução criminal e C) risco de não se cumprir a lei penal.

Mais: ela lembrou que não está de todo descartada a tese da legítima defesa e que, nesse caso, a prisão preventiva não pode ser decretada. E ela tem razão.

Define o Artigo 314 do Código de Processo Penal:
A prisão preventiva em nenhum caso será decretada se o juiz verificar pelas provas constantes dos autos ter o agente praticado o fato nas condições previstas nos incisos I, II e III do caput do art. 23 do Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal.”

E o que estabelece o Artigo 23 do Código Penal? Isto:
“Art. 23 – Não há crime quando o agente pratica o fato:
I – em estado de necessidade;
II – em legítima defesa;
III – em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de direito.

Excesso punível
Parágrafo único – O agente, em qualquer das hipóteses deste artigo, responderá pelo excesso doloso ou culposo.

Insuportável
Assim, a concessão da liberdade aos dois policiais, com a prisão preventiva convertida em medidas cautelares — ficarão afastados das ruas, por exemplo — encontra amparo legal. Promotora e juiz, entendo, tomaram uma decisão defensável no mérito.

A argumentação do juiz Alexandre Abrahão Dias Teixeira, do 3º Tribunal do Júri do Rio, no entanto, é um desastre civilizacional. Poderia ter se contentando em ancorar sua decisão no Código de Processo Penal e no Código Penal. Ele decidiu, no entanto, fazer literatura ruim e, como direi?, “bolsonarizar” o argumento, o que sempre conduz ao obscurantismo. Ao fazê-lo, contaminou a própria decisão e a avaliação do Ministério Público Estadual.

O doutor disse ter passado horas e horas meditando, “especialmente [sobre] a voz das ruas”… Santo Deus! A voz das ruas, nesse caso, se confunde com o alarido bolsonarento nas redes sociais. E o homem ainda acrescenta, citando o desembargador Ricardo Rodrigues Cardozo:
“As relações sociais mudaram, e a magistratura precisa mudar também. O juiz moderno não pode mais ser aquela figura da ‘torre de marfim’, especialista em temas do Direito, mas insensível ao que acontece fora de seu gabinete”.

Tais palavras parecem justificar, deixem-me ver, os linchamentos, os justiçamentos, as punições ao arrepio da lei. Sempre que um juiz trata o arcabouço legal como “torre de marfim”, ou estamos diante de um demagogo ou de alguém que decide fazer política com as leis. A menos que o doutor esteja querendo brincar de tribuno da plebe.

Ao contrário do que ele diz, o juiz tem é de tapar os ouvidos com cera para não ser tentado pelas sereias da demagogia.

Reitero: a decisão que tomou tem amparo legal. Ele não precisava é ter escrito esta outra miséria:
“O julgamento destes fatos me dá a convicção de que a decisão, seja ela qual for, será alvo de apedrejamento público. Especialistas, mesmo sem conhecer o processo, farão ‘julgamentos’, criarão ‘teses conspiratórias’, ‘insinuações’.”

Não sou especialista. Não conheço o processo além do que se noticiou. Mas sei reconhecer uma tese que flerta com a barbárie.

Ele vai piorar muito os argumentos ao escrever isto:
“A sociedade, estou consciente, está desestruturada pela guerra assimétrica enfrentada nesta ex-cidade maravilhosa. O cidadão, no final, pretende tão somente viver em paz e merece pelos altos preços que paga em todos os sentidos. Enfim! A turbulência faz parte do jogo democrático. Assim como a promotora de Justiça, aceito esse ônus da função. Afinal, em momentos de intolerância extrema, nós, juízes, acabamos alvo de toda sorte de ataques!”.

Encerro
Não tenho paciência com esses homens e mulheres de estado que se oferecem como mártires ou salvadores da pátria. A revogação da prisão preventiva dos policiais se justifica na combinação dos Artigos 312 e 314 do Código de Processo Penal. E ponto.

O “conversê” do juiz é puro proselitismo obscurantista, a menos que ele ache que o Rio voltará a ser a “Cidade Maravilhosa” quando forças de segurança passarem a praticar penas de morte extrajudiciais nas ruas…

E para aborrecer alguns para valer, como recomendaria Voltaire: o que vai na fala do juiz reproduz não os acertos da Lava Jato, mas os seus vícios.

Todo mundo, agora, sonha em cair nos braços do povo e fazer justiça com a própria toga, como antes se fazia com as próprias mãos.

Sinto vergonha alheia.

 

 

 

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Fonte: Blog Reinaldo Azevedo (VEJA)

2 comentários

  • Alvaro Mariussi Tupãssi - PR

    Eu não sei por qual razão o site Notícias Agrícolas ainda dá espaço para esses artigos ridículos do Reinaldo Azevedo. O cara é grotesco, ridículo, arrogante, debochado, se acha o mestre da razão, eu não vou nem estender esse comentário para contra-argumentar o "raciocínio" dele porque o pessoal por aqui já deve estar cansado de saber o quanto esse cara é imbecil e presunçoso.

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    • RODRIGO POLO PIRESBALNEÁRIO CAMBORIÚ - SC

      Outro dia Sr. Alvaro, tres vagabundos entraram em uma casa, amarraram o pai de familia na frente de dois filhos pequenos, mandaram a esposa ficar só de calcinha e desfilar prá eles, na frente dos filhos... Pela lei não dá prá matar esses vagabundos, o pai de familia seria o pior dos fascistas se fizesse isso, para o Reinaldo Azevedo, é isso que eles querem não o Estado de Direito, mas garantias institucionais para quem comete crimes. É isso que Reinaldo Azevedo exige do pobre povo brasileiro, que aguente calado as mentiras e falsidades de advogados pagos com dinheiro roubado, os discursos sem pé nem cabeça inocentando quem já sabemos que saõ criminosos perigosos. Ele diz,... que mudem a lei... e eu pergunto com os próprios criminosos fazendo essa lei? Sim,, pois é isso que estamos assistindo no congresso nacional. Reinaldo Azevedo acha que o poder pode ser obtido de qualquer forma e a qualquer preço, ele descaradamente, criminosamente, esconde que o poder precisa de legitimidade. E esse poder, esses politicos que temos, não tem legitimidade nenhuma. Entre o bandido e a autoridade que quer combater o bandido, fico com a autoridade, ainda mais se constituida legitimamente como o juiz Sérgio Moro.

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  • Rodrigo Polo Pires Balneário Camboriú - SC

    Reinaldo Azevedo é um imbecil que acusa os outros de fazer o que ele faz e xinga de ser o que ele é, um fascista. Em um país em que notórios criminosos estão nas tribunas discursando, em um país onde quanto maior a quantidade de processos na Justiça, maior o atestado de honestidade, o MPF é ilegitimo? Não é esse mesmo imbecil que toda hora fala que as instituições estão funcionando? Que Lula se defenda com seus advogados e não com um jornalistazinho metido a coronel, você é um bosta Reinaldo Azevedo, um títere desse direita falsa que voce representa, defensor de ladrões e corruptos.

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    • CASSIANO AOZANEVILA NOVA DO SUL - RS

      Senhor Rodrigo, penso talvez criar um cargo supremo no STF e nomear DR Reinaldo como revisor supremo infalível de todas as decisões da justiça em todas as instancias,ai cada cabeça teria só uma sentença, nos casos a dele,kkkkkkkk

      3
    • RODRIGO POLO PIRESBALNEÁRIO CAMBORIÚ - SC

      Hahahahahaha, Sr. Cassiano fica dando idéia Sr. Cassiano, que logo, logo, a bandidagem poe ele como chefe do STF e aí sim, mandam soltar todos os vagabundos. hahahahaaha.

      1
    • GILBERTO RODRIGUES FREITASMINEIROS - GO

      Babando verde e fedido! Como sempre, nenhuma novidade vindo de Camboriú.

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    • RODRIGO POLO PIRESBALNEÁRIO CAMBORIÚ - SC

      Boa tarde Gilberto, to rindo as pencas aqui.

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