"Vai ser preciso escolher um lado", diz Rodrigo Constantino. "Bolsonaro vai decepcionar?!"

Publicado em 08/07/2018 02:49 e atualizado em 08/07/2018 15:40
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BOLSONARO VAI DECEPCIONAR SEGUIDORES FANÁTICOS: E ISSO É BOM! (na Gazeta do Povo)

Já vimos essa história antes. Um político se apresenta como alternativa contra “tudo isso que está aí”, contra os “300 picaretas” do Congresso, atacando a mídia, o establishment, e prometendo ser a voz do povo no embate com as elites corruptas, seduzindo uma multidão de gente revoltada com o sistema podre. Mas à medida que a eleição se aproxima, o pragmatismo começa a falar mais alto.

No caso de Lula, o drama foi o acordo com o PMDB, costurado por José Dirceu, depois de ter colocado um empresário como vice na chapa. Eram concessões ao “mercado” e à “governabilidade”, e até hoje não faltam esquerdistas culpando essa “guinada à direita” (risos) pelo fracasso petista e sua lambança ética.

Mas como ser eleito – e pior: como governar só com o discurso purista da esquerda radical? Quanto de intenções de voto tem um Guilherme Boulos, o Lula do passado, de antes da roupagem “paz e amor” tecida pelo marqueteiro Duda Mendonça, hoje delator? E mesmo que tivesse vencido sem essa adaptação, como faria para aprovar as medidas desejadas, segundo a ótica dos socialistas?

O dilema que se apresenta a todo “revolucionário” é como colocar em prática suas ideias ousadas, que batem de frente com o “sistema”. Como vencer a resistência do eleitor médio, mais moderado? Como abrir mão do PMDB e da máquina se chegar lá, trocando em miúdos? Ou os revolucionários pretendem partir para o uso da força, ou terão de sentar no colo do “mercado” e da classe política que “representa” a população, se não conseguirem comprar esse apoio, como fez o PT com o mensalão.

Bolsonaro, ainda que bem diferente de Lula em vários aspectos importantes, a começar por não defender um estado maior e paternalista de forma demagógica e ser visto como honesto, segue um dilema político parecido. Seu crescimento captura a indignação de milhões de brasileiros, totalmente legítima, com esses bandidos no poder. A mídia enviesada só faz ajuda-lo sempre que bate de forma seletiva nele, poupando companheiros à esquerda. Vários de seus seguidores encaram sua candidatura como um símbolo contra a esquerda toda, a mídia “progressista” e a classe política corrupta. Mas como chegar lá de fato, se isso não é suficiente para uma vitória majoritária? E mais: como fica o dia seguinte?

As redes sociais têm seu papel: não somos mais reféns da grande imprensa. Mas há um limite, e a televisão ainda exerce influência num país com tanta gente desconectada da internet. Fora isso, as mudanças nos “algoritmos” dessas redes sociais fez com que o alcance das páginas de direita despencasse, afetando negativamente a campanha de Bolsonaro. Bate o desespero: o que fazer?

É nesse contexto que surgem as conversas para uma coligação, ainda que seja com o partido de Valdemar Costa Neto, envolvido no mensalão. A crítica dos “puristas” seria inevitável, assim como a cobrança de coerência por parte dos adversários: então vale se associar aos corruptos afinal de contas? Uma sinuca de bico para o capitão, sem dúvida. Sua base militante mais fiel quer ver seu “mito” declarando guerra a todos, sem se importar com “detalhes” bobos: como vencer de fato, e como governar depois? Bolsonaro demonstra, por outro lado, mais realismo:

— Vocês querem que eu fique sem televisão, é isso? Eles têm R$ 1,7 bilhão para me ferrar. Está todo mundo contra mim, o centrão e a esquerda, estou sozinho. É R$ 1,7 bilhão que vai ser usado pela campanha deles pra dar porrada em mim. Eu vou ficar com 8 segundos de televisão e as mídias sociais? No Facebook, até poucos meses, qualquer postagem chegava a 1 milhão, agora para chegar a 100 mil é um sacrifício — afirmou Bolsonaro ao GLOBO.

As mudanças nas redes sociais realmente prejudicaram muita gente, especialmente à direita. Coincidência ou estratégia? Não importa: o fato está colocado sobre a mesa e não há muita escapatória. Para vencer, Bolsonaro terá que fechar acordos com partidos suspeitos, moderar um pouco seu discurso, principalmente de olho nas mulheres, grupo em que tem rejeição ainda maior do que o normal.

E, se vencer, terá de governar. Eis onde surge a necessidade de comprovar a futura governabilidade para acalmar o mercado, para além do selo de qualidade Paulo Guedes. O deputado Onyx Lorenzoni divulgou a informação de que já são mais de cem deputados apoiando Bolsonaro, mas não abriu os nomes da lista:

Mas quem são esses deputados e o que de fato querem com um eventual apoio a Bolsonaro? É só convicção ideológica mesmo? Mas a Câmara não está repleta de oportunistas safados, justamente os que Bolsonaro deve enfrentar? Victor Grinbaum fez uma análise cética e bastante dura, para não dizer demolidora, dessa notícia. Eis um trecho:

Os cento e tantos deputados que atenderam a um chamado do gaúcho Onix Lorenzoni (R$ 100 mil de caixa dois na última eleição) são todos do “baixo clero” da Câmara, e que precisam ser reeleitos este ano. Ora, que melhor e mais barata forma de granjearem votos do que colarem suas imagens ao nome do candidato à presidência que está na frente nas pesquisas?

A primeira coisa que esses caras precisam é da reeleição. A segunda? De uma boa carta na manga para cobrarem do futuro presidente (caso ocorra esta tragédia) Bolsonaro a tal governabilidade tão ansiada.

O preço da governabilidade? Não será um beijinho na testa. E teremos o que teríamos de qualquer forma: um presidente emparedado pelo baixo clero sedento de verbas, incapaz até de receber uma xícara de café do garçom do Planalto.

Segundo Victor, Bolsonaro poderá acabar, em vez de cercado por seus fiéis generais e militantes aguerridos, com “deputados de cabelos tingidos de acaju, pançudos e com bíblias nas mãos”. Ele provoca: “uma revolução e tanto, né?”

Em que pese o viés anti-Bolsonaro do autor, a lógica segue impecável: Bolsonaro terá que governar ou com o “centrão” que faz de tudo agora para aniquila-lo, ou com o “baixo clero” que se vende em troca de migalhas. Acreditar numa alternativa realmente diferente é ingenuidade de jacobino Nutella, que quer tocar sua “revolução” sem pegar em baionetas (e essa alternativa costuma ser ainda pior, diga-se de passagem). Ou Bolsonaro por acaso pretende fechar o Congresso?

Não vejo, porém, um eventual governo Bolsonaro como uma tragédia certa, ao contrário do Victor. Não descarto um governo Bolsonaro mais pragmático, fechando alianças até com o MDB e companhia, mas partindo de uma posição de força com a legitimidade das urnas (ainda mais essas da Smartmatic, bem suspeitas) e apoio popular, e tocando reformas liberais sob o comando de Paulo Guedes. Esse, claro, é o cenário otimista.

Mas se isso acontecer, não resta dúvida de que Bolsonaro terá “traído” seus seguidores mais fanáticos. Os “bolsominions” estão fadados à frustração, pois o que querem é impossível, inexequível. A decepção será diretamente proporcional à ignorância: não querem saber dos “detalhes bobos” de como efetivamente vencer e depois governar uma nação. Querem apenas o símbolo e a sensação proveniente do que tal símbolo representa: um soco no estômago de toda essa elite podre.

Esse soco, confesso, é gostoso de imaginar. Só de pensar na turma da mídia tendo que dar a notícia da vitória de Bolsonaro já nos faz quase aderir à campanha dele como um “bolsominion”. É tentador. Mas é preciso ter os pés nos chão e analisar como seria, de fato, um eventual governo do “mito”. E a política real é a arte do possível, nunca das fantasias dos românticos.

Para Bolsonaro ser eleito e fazer um bom governo, ele terá que engolir alguns sapos, fazer concessões ao pragmatismo e ceder em sua retórica “purificadora”, o que será uma decepção para parte de seus apoiadores atuais, que estão realmente acreditando numa limpeza geral com base no “messias” salvador da Pátria. Se ele não decepcionar essa turma, aí não vence, ou não consegue governar e terminar o mandato se vencer, e vai decepcionar todos aqueles à direita que o enxergam como a alternativa que restou contra a esquerda.

Dá para seguir com Paulo Guedes, com deputados imperfeitos e com reformas possíveis, ou dá para seguir com Alexandre Frota e companhia e seus gritos de guerra contra todos. Com ambos parece impossível. O problema, para Bolsonaro, é que essa militância tem seu papel na campanha, ainda mais com verba reduzida para cabos eleitorais. Mas, ao mesmo tempo em que gera engajamento, afasta os mais moderados de perto e coloca em xeque a crença num futuro governo responsável.

Vai ser preciso escolher um lado. (Rodrigo Constantino).

‘Suicídio acontece’, diz Bolsonaro sobre Herzog

Jair Bolsonaro disse em entrevista ao programa Mariana Godoy Entrevista, da RedeTV!, que “lamenta” a morte de Vladimir Herzog durante a ditadura, mas que “não estava lá para confirmar” se o jornalista foi assassinado. O Brasil foi condenado por unanimidade nesta semana pela Corte Interamericana de Direitos Humanos pelo assassinato de Herzog. “Lamento a morte dele, em que circunstância, se foi suicídio ou morreu torturado. Suicídio acontece, pessoal pratica suicídio”, afirmou.

O DEPARTAMENTO DE MARKETING PETISTA ENTRA EM CAMPO POR HADDAD

Não tenho dúvida de que, uma vez definido oficialmente o candidato do PT, que não será Lula, o ungido terá alguma transferência de voto do presidiário, que ainda seduz uma massa de fanáticos ou ignorantes, mesmo atrás das grades. Mas essa transferência será menor do que muitos esperam, assim como a própria intenção de voto no líder máximo da quadrilha está longe de ser aquela apontada pelas “pesquisas”.

Não obstante, era óbvio que os militantes petistas entrariam em campo logo, para fazer torcida em vez de análise. Hoje, no Estadão, Eliane Cantanhêde anunciou a partida, e mal foi capaz de esconder o entusiasmo. Ela compra a valor de face a quantidade de votos que Lula teria segundo as pesquisas, e acha que Haddad, aquele que sequer conseguiu ser reeleito em São Paulo, é um candidato fortíssimo:

A grande novidade da eleição presidencial, tão pulverizada e incerta, está para surgir: a entrada em cena do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, que une o útil, a força do ex-presidente Lula, ao agradável, a sua própria imagem, que extrapola o PT.

Condenado, preso, longe de holofotes e microfones, Lula mantém seus inacreditáveis 30% das pesquisas, numa eleição com tantos nomes e nenhuma certeza. Logo, Lula é quem tem o maior capital e o maior potencial de transferência de votos.

Livre, passando ao largo de denúncias de corrupção, Haddad é aquele bom moço sem a pecha, as marcas e as cicatrizes do PT e amplia o leque de eleitores do partido. Petista só vota em petista, mas tem muita gente que não morre de amores pelo PT, mas poderia votar de bom grado no professor Haddad.

Lula e Haddad, portanto, se complementam. Um tem voto, mas alta rejeição. O outro não tem voto, mas não tem rejeição. Um garante a largada, o outro tem de fazer o resto, ganhar fôlego, abrir horizontes. Ou atrair as elites, assim como José Alencar, em 2002, atraiu o capital.

[…]

Até aqui, Jair Bolsonaro está isolado na liderança, petulante ao ponto de prever vitória em primeiro turno, e o segundo pelotão está embolado com Marina, Ciro, Alckmin e, tentando correr atrás, Alvaro Dias. O resto é o resto. Mas a entrada de Haddad para valer tem potencial para dar uma boa chacoalhada nisso.

O que eu gostaria de entender é como um prefeito que não é capaz sequer de ser reeleito, perdendo no primeiro turno para João Doria, de repente se transforma num grande ativo eleitoral, sem rejeição, com cara de tucano que atrai mais votos do que a seita petista tem garantido. Alguém me explica?

O desempenho de Fernando Haddad (PT) como candidato à reeleição a prefeito de São Paulo foi o pior entre todos os que tentaram a reeleição ao posto. No histórico da corrida à prefeitura da capital paulista depois da aprovação da lei da reeleição, em 1998, apenas três tentaram o feito de conquistar um mandato consecutivo e apenas um foi bem-sucedido na missão. Eis que agora Haddad virou um às na manga do PT?

Poucos dias antes do início formal da campanha pela reeleição um interlocutor perguntou ao prefeito Fernando Haddad se ele cogitava deixar o PT caso perdesse a disputa. A resposta foi desconcertante: “Se perder a eleição não vou deixar o PT, vou deixar a vida pública”. Aí está a prova de que Haddad é petista mesmo, apesar das aparências tucanas: o “professor”, como chama respeitosamente a “jornalista”, é um baita de um mentiroso.

Vamos lembrar do que diziam à época, já que Haddad era mais um “poste” de Lula: “um revés de Haddad significaria uma derrota pessoal de Lula, que impôs o nome de seu ministro da Educação ao altivo PT de São Paulo. Essa imposição deixou cicatrizes que ficaram em segundo plano depois da vitória sobre o tucano José Serra, em 2012. ‘Uspiano, classe média e são-paulino’, segundo Lula, Haddad difere do padrão petista”. Lula sofreu a tal derrota pessoal, mas eis que agora tudo será completamente diferente, só porque os petistas querem? Com Lula preso e apagado?

Não vamos esquecer de que a reeleição de Haddad era considerada “prioridade” para o futuro do PT: “o presidente nacional do PT, Rui Falcão, anunciou que a reeleição de Fernando Haddad é prioridade ‘número um’ do partido. A análise do quadro atual permite dizer que a reeleição dele é essencial para o futuro do partido de Luiz Inácio Lula da Silva”. Pois é: não deu. E o resto é história, com o PT cada vez mais chamuscado.

Não estou negligenciando o risco petista, o fator Lula ou a carinha de “bom moço” do ex-prefeito paulista. Estou apenas colocando os pingos nos is, fazendo uma análise mais realista do que a torcida de alguns por aí. Lula ainda tem, sim, uma legião de idiotas ou canalhas ao seu lado, que deve dar uns 20% no máximo do eleitorado. Se ele transferir metade disso para seu ungido pouco conhecido, estamos falando em 10%. Não será o suficiente para garantir um segundo turno.

A entrada de Haddad em campo pode chacoalhar um pouco a esquerda, afetar Ciro Gomes, mas não é essa novidade toda pintada pela colunista, a ponto de mexer totalmente no tabuleiro. O PT vai perder e muito nessa eleição. Meu maior receio é com os genéricos que mudaram o nome, mas mantiveram o DNA vermelho…

Rodrigo Constantino

AVENTURAS DE CIRO NO PAÍS DAS MARAVILHAS (por Pedro Henrique Alves, INSTITUTO LiBERAL)

Por Pedro Henrique Alves, publicado pelo Instituto Liberal

Na fábula de Alice no país das maravilhas, num dado momento dos desencontros e passeios quase esquizofrênicos da menina Alice no interior da toca do coelho, ela se encontra sentada numa grande mesa de chá ao bom estilo inglês. Seus companheiros de mesa são: o famoso chapeleiro, a Lebre de Março e o Leirão sonolento. No início do diálogo que decorre na cena, de maneira polida a Lebre oferece à menina um pouco de vinho; e, com o que restou de lógica nesse conto, Alice olha ao redor, focalizando na mesa onde o cardápio único é o chá das 18 horas, e então fala para a Lebre que não tem vinho. A lebre então responde à observação da menina: “E não há nenhum mesmo”.

Tal diálogo é apenas o início das desconexas conversas que se seguiriam na trama, mas nos deteremos nesse colóquio em especial. Fora o absurdo de uma Lebre oferecendo vinho, e que tenha oferecido tal bebida a uma criança — o que facilmente poderia despertar uma passeata furiosa de abstêmios na paulista, ou ainda gerar uma retirada de patrocínios por parte dos defensores das crianças e adolescentes já nascidos —, a finalização desse breve diálogo me faz lembrar muito um candidato à presidência; o grande estadista, economista, e protecionista, Ciro Gomes.

Há pouco ele nos brindou com mais uma demonstração sensacional de sua temperança, capacidade de diálogo e sensibilidade democrática. Ao discursar com sua costumeira eloquência na CNI (Confederação Nacional da Indústria), utilizando-se de palavras polidas que rasamente disfarçam os bufões antidemocráticos que já vimos ostentar em várias passagens histéricas que ele coleciona; o candidato afirmou em suas exposição que revogaria a reforma trabalhista — um dos poucos ganhos que podemos mostrar nas últimas décadas nesse país. Obviamente que foi vaiado pelo público que o ouvia, um público que não era carregado por suas retóricas apaziguadoras e nem por suas crostas disformes de uma democracia de faz de conta.

Ao perceber que não estava falando com seus mansos militantes, mas com pessoas que nutriam um senso econômico crítico e pragmático para além das falsas “autocríticas dos partidos comunistas”, o candidato se enraiveceu como de costume, e afirmou, também com sua costumeira arrogância: “É assim que vai ser: ponto final”. Ou seja, em seu governo ele irá revogar a reforma trabalhista e ponto final. Simples assim, com ou sem seu consentimento.

E esse é apenas a mais recente das pérolas de Ciro Gomes, “pérolas” que vão de descer do palanque para tentar agredir um manifestante; até denominar Fernando Holiday, um jovem deputado estadual, homossexual, negro — estava indo bem — porém, também liberal, de “capitãozinho do mato”. Todas essas sandices, obviamente, não inflaram aquelas massas policiais dos vigias politicamente corretos (PC) que estão assentados nas redações dos grandes jornais, nas cátedras das universidades e nos diretórios diversos.

Recentemente uma piada de um youtuber gerou comoção nacional e uma caça aos racistas chancelada pelos vigias da Internet. No entanto, quando um candidato à presidência e um dos políticos mais aclamados e antigos da esquerda no país chamou um jovem de “capitãozinho do mato”, tudo que se escutou da mesma patrulha “do-dicurso-que-pode” foi o silêncio dos hipócritas.

Ora, Ciro é o homem que vai “receber o juiz Sérgio Moro na bala”, entretanto vê na abertura da posse de armas de fogo pelos cidadãos brasileiros um grave retrocesso perigoso. Uma verdadeira histeria e contrassenso que faria o conto de Lewis Carroll parecer lógico e coerente.

Para um ex-professor meu, Ciro Gomes era “o único defensor da democracia social nesse país”. Entretanto, ele me parece ser apenas mais um farsante da velha-guarda política que, para conquistar uns desavisados, joga um tempero no prato de chorume e oferece como se fosse a gourmetização de uma nova democracia. Não passa, todavia, da velha política com um novo comandante; uma espécie de castilhismo de Ciro.

Assim como no conto de Alice, se trocássemos a Lebre de março pelo Leviatã de outubro — Ciro Gomes —, poderíamos facilmente reconstruir o diálogo de Lewis Carroll citado no início do texto. Esse leviatã, com boas retóricas e academicismos pululantes, por vezes até mentirosos, sempre vem nos oferecer uma “nova democracia de coalizão”, aquela que supera até as divisões de direita e esquerda. Mas quando nós, Alices que somos, olhamos para a mesa que se estende em nossa frente, aquela posta pelo próprio Leviatã de Outubro, nos perguntamos sobre a famigerada democracia, já que na mesa não há nenhuma. O memorável político, através de suas constantes intempéries e demonstrações de desiquilíbrios, se pudesse ser sincero conosco apenas diria: “é porque não há nenhuma democracia mesmo”. Ciro Gomes oferece uma democracia fantasmagórica, um espectro mentiroso que ele utiliza como véu de seu autoritarismo personalista; de democrático ele tem apenas o discurso, somente isso.

Sua democracia é o velho e já experimentado “democratismo”, aquela “democracia” dos revolucionários franceses, a que deveria acontecer a todo custo pelo simples fato de que os revolucionários assim queriam que acontecesse. A velha máxima que os soviéticos ostentavam em suas políticas sociais: “vocês serão felizes ao modo soviético, mesmo que não queiram”. A democracia de Ciro Gomes, por fim, é o epiteto requentado do velho republicanismo à brasileira; aquela república autoritária que estamos experimentando desde a sua proclamação.

Os mesmos protecionismos, as mesmas balburdias econômicas maquiadas de novas ciências, as mesmas tiranias do: “é assim que vai ser: ponto final”. Ciro Gomes chega a me lembrar Getúlio Vargas em seu personalismo autoritário, só que agora o candidato do PDT acrescenta nesse prato de autoritarismo tupiniquim uma mistura de egocentrismo, ideologia totalitária e umas pitadas de purpurinas pseudo-acadêmicas. Ou seja, o pdtista é o mais do mesmo; o velho “coroné” que faz política através da espingarda e da intimidação.

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Fonte: Blog Rodrigo Constantino

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