Eleição será um plebiscito entre a revolta popular e o poder da máquina fisiológica

Publicado em 22/07/2018 19:50
1038 exibições
por RODRIGO CONSTANTINO (na Gazeta do Povo)

editorial do Estadão de hoje fala do jogo do “centrão”, mostrando como banalizamos o toma-lá-dá-cá da política, como se fosse a coisa mais natural do mundo políticos e partidos negociando à luz do dia troca de apoio (tempo de TV) por cargos públicos. Diz um trecho:

Deveria ser proibido para menores de 18 anos o noticiário sobre as articulações do chamado “centrão” em torno da sucessão presidencial.

Para quem não está familiarizado com o subdialeto do baixo clero do Congresso, “centrão” é o nome que se dá ao ajuntamento de partidos fisiológicos que se mobilizam sempre que existe a oportunidade de aumentar seus ganhos em barganhas que, de tempos em tempos, lhes são oferecidas – ou procuradas, que ninguém é de ferro. Nada ali lembra nem remotamente a política como deve ser, isto é, o embate democrático de ideias em torno dos interesses dos eleitores. Tudo o que importa para esses partidos é defender uma divisão equânime do butim estatal entre seus caciques e agregados, e ninguém ali faz muita questão de esconder esse comportamento obsceno.

Somente os incautos acreditam que “centrão” seja o nome de um bloco político legítimo, com aspirações programáticas ideologicamente discerníveis. O “centrão” é apenas um rótulo para vários partidos nanicos, pequenos e médios que buscam avidamente orbitar o poder para auferir benefícios políticos e pecuniários e sabem que, juntos, ganham maior capacidade de constranger o governo ou outra presa qualquer a atender às suas demandas – que se resumem a facilidades, cargos e verbas.

[…]

Assim, um governo formado a partir de uma aliança com o “centrão” não augura coisa boa. Por melhores que possam ser as intenções do vencedor da eleição, na hipótese de ser alguém comprometido com as reformas de que o País tão urgentemente necessita, o futuro presidente dificilmente conseguirá implementar sua agenda sem se submeter à costumeira chantagem do “centrão”. E os estragos causados por essa turma na atual legislatura, inviabilizando votações cruciais e aprovando projetos que sabotam o esforço fiscal mesmo depois de arrancar dedos e anéis do governo, deveriam ser suficientes para mostrar que o preço de um punhado de segundos a mais na propaganda eleitoral pode ser alto demais para o País.

Pois bem: esse “centrão” resolveu fechar com Alckmin. Vários jornalistas comentam com naturalidade, como se fosse a coisa mais normal do mundo. “Alckmin joga de acordo com o regulamento”, “Tucano garante apoio do centrão”, e por aí vai. Quando Bolsonaro se aproximou do PR, porém, o destaque era diferente: “Bolsonaro negocia com partido de mensaleiro”.

Entende-se a cobrança ao capitão, já que seu discurso é mais purista do ponto de vista ético, contra “tudo e todos que estão aí”. Quando alguém que tenta pairar acima do bem e do mal precisa sentar na mesa e negociar com o próprio Capeta, os jornalistas ficarão tentados a apontar a hipocrisia. Entende-se, mas não justifica o eterno duplo padrão, que sempre detona a direita e poupa a esquerda.

O fato é que Alckmin jogou suas últimas fichas numa campanha que não decolava, e o fez costurando alianças com o que há de pior na política nacional. Se é possível vencer ou governar sem essa gente não sabemos, e os realistas alegam que não. O que não anula – ou não deveria anular – a revolta com a forma pela qual nossos políticos tradicionais fazem “política”. Deu no Antagonista, por exemplo:

Geraldo Alckmin já está distribuindo cargos para o Centrão. Um integrante do bloco disse para o Estadão: “Estão no nível de discutir quem ficará com a Funasa. O primeiro escalão já foi preenchido.”

Isso é simplesmente asqueroso, nojento, e deveria deixar qualquer um indignado. Estão loteando o estado sem qualquer constrangimento, como se não houvesse outra maneira de fechar acordos. Janaina Paschoal, advogada responsável pelo processo que levou ao impeachment de Dilma, desabafou:

Leandro Ruschel também usou a rede social para desabafar:

Eis, enfim, o que será testado em outubro: o grau de revolta popular contra esse establishment corrupto, fisiológico e com viés esquerdista, que mama nas tetas estatais à custa do suor e trabalho do povo. Será que essa revolta é mais forte do que o poder da própria máquina estatal, com seu tempo de televisão e seus cabos eleitorais? É isso que vamos descobrir em breve. A eleição é um plebiscito: a revolta das elites, que traíram o povo, e a revolta contra as elites, daqueles saturados de tanta exploração e degradação moral.

Teremos a resposta nas urnas…

Rodrigo Constantino

UMA VEZ TUCANO, SEMPRE TUCANO: PARA FECHAR COM O “CENTRÃO”, DR. BUMBUM VENDE ALMA AO DIABO

Após longo tempo de indefinição, a cúpula do Centrão finalmente decidiu nesta quinta-feira (19) que vai apoiar Geraldo Alckmin (PSDB), impondo uma derrota a Ciro Gomes (PDT) na disputa pela Presidência da República. O anúncio oficial do acordo só deve ocorrer daqui uma semana, na próxima quinta-feira (26). Até lá, os comandos de DEM, PP, PR, SD e PRB vão informar as instâncias inferiores de seus partidos e resolver questões de alianças nos estados. Apesar do poder que têm sobre suas legendas, os líderes têm que contornar divergências internas provocadas, principalmente, por acordos regionais.

Com o apoio do Centrão, Alckmin, que tinha sozinho 1 minuto e 18 segundos na propaganda eleitoral na TV (em cada bloco de 12 minutos e 30 segundos), somará 4 minutos e meio, quase 40% de toda a fatia da disputa. Adversário histórico do PSDB, o PT, que ainda não fechou nenhuma aliança, tem 1 minuto e 34 segundos.

Logo após se reunirem na residência oficial da presidência da Câmara, em Brasília, representantes do bloco viajaram a São Paulo para encontrar Alckmin. Participaram do encontro ACM Neto, Rodrigo Maia (ambos do DEM), Marcos Pereira (PRB), Paulinho da Força (SD), Agnaldo Ribeiro (PP) e Luis Tibé (Avante). O PR não mandou representante, mas avalizou o acordo.

Segundo a reportagem apurou com participantes da reunião, o presidenciável se comprometeu, se eleito, a avaliar com o Congresso uma alternativa de financiamento para os sindicatos, que ficaram sem dinheiro após o fim do imposto sindical. Outro compromisso do tucano foi apoiar a candidatura de Eduardo Paes (DEM) ao governo do Rio de Janeiro.

Alckmin, com seu jeito de tucano, vem costurando sem alarde as alianças com o establishment, paciente, correndo e comendo pelas beiradas, e hoje cresceu no mercado de apostas, tornando-se mais competitivo do ponto de vista eleitoral. Se será suficiente para estar no segundo turno ainda não sabemos.

É de esquerda seu partido, claro, e representaria “mais do mesmo”. Melhor do que PT, sem dúvida, mas isso é pouco, muito pouco. Se for para desbancar o Ciro Gomes, menos mal. Não sou daqueles que repete que todos à esquerda são exatamente iguais, pois isso é bobagem. Cansamos e muito do PSDB, com toda razão. Mas sempre defendi que o PSDB não é igual ao PT ou ao Ciro. E não é.

Mas é pusilânime e esquerdista. E para atrair o “centrão” fisiológico, o chuchu vendeu a alma ao diabo. Eis o trecho mais relevante da notícia:

Um dos itens apresentados na reunião foi uma condição de Paulinho da Força (SD-SP): o compromisso de um novo modelo de financiamento de sindicatos. Com o fim do imposto sindical, que obrigava os trabalhadores a contribuir com as associações, a fonte de dinheiro de seus colegas começou a secar. Paulinho, o principal dirigente da legenda, é oriundo da Força Sindical e defende o interesses dos grupos organizados. Segundo um dos participantes, Alckmin aceitou discutir o assunto.

Eis aí parte do preço da aliança: a volta do imposto sindical disfarçado, proposta de Paulinho da Força. Alckmin seria “mais do mesmo”, esse esquerdismo podre, esse establishment corrupto e essa postura acovardada diante dos inimigos dos trabalhadores do Brasil. É dureza…

Em 2006, quando Alckmin disputou o cargo contra Lula, ele conseguiu a façanha de ter menos votos no segundo turno do que no primeiro. Entre as causas está aquela patética decisão de virar um outdoor ambulante de estatais, ao ser “acusado” de privatista. Eis a típica postura tucana.

O PSDB gostaria de ser reconhecido pelo PT como um partido de esquerda, pois é isso que ele é e sempre foi. Uma esquerda mais moderada, que seja, que aprendeu um pouco de aritmética e não despreza totalmente o mercado. Mas ainda assim esquerda, “progressista”, defensor de cotas raciais, de “welfare state”, de MST, da marcha das “minorias oprimidas” etc.

Como o espaço à direita, que sempre ficara desocupado e garantia vasto eleitorado como refém dos tucanos, foi ocupado dessa vez por Bolsonaro, Alckmin resolveu flertar ainda mais com a esquerda. E o resultado está aí: o Dr. Bumbum se aproximou, em troca de máquina partidária e tempo de TV, do que há de pior na política, aceitando “conversar” sobre questões que deveriam ser inegociáveis.

A reforma trabalhista foi a maior conquista do governo Temer, asfixiando as máfias sindicais. A turma reagiu, pois óbvio que não largaria facilmente o osso. Mas a Justiça deu ganho de causa para os reformistas, e os recursos sindicais, obtidos na marra, despencaram. Sindicalistas, desesperados, já começavam a ter pesadelos com a ideia de que teriam de trabalhar mesmo para se sustentar.

Aí vem o chuchu e acena para eles com uma possibilidade de retorno do imposto sindical, dá uma piscadela para os parasitas. É um tiro no pé análogo ao momento das jaquetas: vai crescer um pouco nas pesquisas, por conta da força da máquina, mas não vai alçar voo. Esse jogo covarde de morde e assopra já cansou. Todos aqueles moderados e mais à direita estão revoltados, e com razão. Preferem uma aventura incerta com o capitão do que a volta dos pelegos.

Alguns do mercado financeiro alegam que se esse for o custo para se aprovar uma reforma previdenciária, paciência. Foco economicista demais. O clima é de revolta contra políticos tradicionais sem convicções, sem força para bater de frente com essa camarilha que destruiu nosso país. Alckmin seria frouxo ou mesmo camarada de invasores de terra, de sindicalistas exploradores, de “progressistas” indecentes. Ninguém aguenta mais!

Posso estar enganado, mas acho que, em troca de alguns pontos extras nas próximas pesquisas, Alckmin deu um tiro no pé: não vai seduzir a extrema-esquerda, que considera o PSDB de “direita”; e não vai seduzir a direita, que está saturada dessa pusilanimidade tucana. Pode atrair alguns sem ideologia e dispostos a vender voto para cabos eleitorais. Mas é só.

Entendo até o desespero: ele não saía do um dígito nas pesquisas, deixando seus companheiros impacientes, a ponto de FHC lançar vários balões de ensaio como alternativa. Precisa se mostrar viável, avançar um pouco nas pesquisas, e o que restou foi o acordo com o “centrão” em troca da máquina. Mas ainda tenho para mim que o Dr. Bumbum fez uma cagada.

Para votar na esquerda mesmo, haverá Ciro e provavelmente Haddad, além da Marina Silva. E quem quer mudança, uma guinada à direita, certamente saberá que Alckmin está muito longe de representar isso. E dessa vez há alternativa…

Rodrigo Constantino

Tags:
Fonte: Blog Rodrigo Constantino

Nenhum comentário