QUANTO VALE O QUE ALGUNS NEGAM E O QUE OUTROS AFIRMAM?

Publicado em 14/03/2010 19:33 578 exibições


Vamos conversar um pouco sobre política, a natureza de alguns políticos e a obrigação do jornalismo.

As capas
Duas capas da VEJA abriram a vereda para se chegar a dois grandes mistérios da República petista: a origem da dinheirama do mensalão e a da grana que pagaria o dossiê dos aloprados. E, tudo indica, as picadas conduzem a João Vaccari Neto, amigo pessoal do presidente Lula e figura de proa do petismo. O PT, como se tornou um hábito, nega tudo. Quanto vale uma negativa do PT? Quem vai responder a essa pergunta, como veremos, é o próprio Lula. Já chego lá. Antes, outras considerações importantes.

O depoimento do corretor Lúcio Funaro à Procuradoria Geral da República é dos mais contundentes. Segundo ele, Vaccari era o homem que cuidava da corretagem junto aos fundos de pensão das estatais. O esquema, na sua versão, era de uma espantosa simplicidade: essas instituições bilionárias faziam pesados investimentos em alguns bancos, e estes repassavam uma comissão ao partido. Relata reportagem da VEJA:
Entre 2003 e 2004, os três bancos citados pelo corretor - BMG, Rural e Santos - receberam 600 milhões de reais dos fundos de pensão controlados pelo PT. Apenas os cinco fundos sob a influência do tesoureiro aplicaram 182 milhões de reais em títulos do Rural e do BMG, os principais financiadores do mensalão, em 2004. É um volume 600% maior que o do ano anterior e 1 650% maior que o de 2002, antes de o PT chegar ao governo. As investigações da polícia revelaram que os dois bancos “emprestaram” 55 milhões de reais ao PT. É o equivalente a 14,1% do que receberam em investimentos - portanto, dentro da margem de propina que Funaro acusa o partido de cobrar (entre 6% e 15%).

Os cinco fundos de pensão, no caso, são Previ (Banco do Brasil), Funcef (Caixa Econômica), Nucleos (Nuclebrás), Petros (Petrobras) e Eletros (Eletrobrás). Juntos, têm um patrimônio de R$ 190 bilhões.

Das negativas
Vaccari emitiu neste sábado uma nota acusando uma espécie de conspiração contra o partido. E atacou a revista VEJA, como era de se esperar. Comentei na semana passada as formas a que o PT recorre para tentar se safar das acusações. A Carta ao Leitor da revista desta semana (ver post) trata do assunto. Os petistas dedicam menos tempo a negar as falcatruas do que a acusar uma grande armação dos adversários em conluio com a famosa “mídia”.

Como sabemos, o PT chama “mídia” àquela coisa nefasta que noticia o que o partido não gosta de ler. Já as informações que atingem seus adversários são coisas do mais refinado “jornalismo”. Na entrevista que concedeu à Folha em 2005 denunciando a existência do mensalão, o então deputado Roberto Jefferson (PTB) asseverou que havia advertido Lula sobre o esquema. O Planalto sentiu cheiro de carne queimada: era de tal sorte grave a denúncia que o imbróglio poderia resultar numa acusação de crime de responsabilidade — de que poderia decorrer o impeachment. Na versão oficial, Lula ignorava  a tramóia e não se lembrava de ter sido advertido por Jefferson. Era tão inocente que, ao fazer um pronunciamento sobre o caso, orientado por Márcio Thomaz Bastos, chegou a se dizer “traído” — só não disse quem o traiu.

O PT começava a popularizar o que acabou se transformando num clichê partidário e numa blague no meio político: a frase “Eu não sabia!” Pois é…

A bolada do PL
Lembram-se da bolada que o PT pagou a Valdemar Costa Neto, do PL? Reproduzo trecho de uma entrevista concedida pelo próprio: “A reunião foi no apartamento do deputado Paulo Rocha. Estavam lá o Lula, o José Alencar, o Dirceu e o Delúbio. O presidente sabia o que a gente estava negociando. O Lula sabia o que o Dirceu estava fazendo. O Lula foi lá para bater o martelo. Lula foi lá pra autorizar essa operação.” O PL queria, inicialmente, R$ 20 milhões, deixou por R$ 10 milhões, mas recebeu um pouco menos, segundo Valdemar. E o pagamento foi feito depois que Lula já era presidente. O corretor Funaro, diga-se, operou para o chefão do PL — leia a reportagem de capa na VEJA desta semana.

Outra capa
Vaccari e os outros petistas estão bastante indignados com as duas mais recentes capas da VEJA. Entendo. O partido também não gostou desta:

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Trata-se da edição nº 1914, de 20 de julho de 2005. E se lia lá:
Nas últimas quatro semanas, VEJA conversou com 29 autoridades para responder à pergunta primordial do escândalo atual: Lula sabia? Lula foi avisado de que deputados aliados receberam dinheiro para aderir à base governista? Lula foi alertado de que aliados vinham embolsando uma mesada de 30.000 reais para votar a favor das propostas do governo? VEJA entrevistou quatro ministros, cinco assessores, seis senadores, doze deputados e dois governadores, sendo que todos eles tiveram contato direto ou indireto com o assunto, e chegou a uma conclusão: o presidente Lula soube mais do que admitiu oficialmente até agora. VEJA encontrou cinco episódios nos quais o presidente estava presente quando se falou do chamado mensalão. O primeiro episódio identificado por VEJA aconteceu em 25 de fevereiro do ano passado, e o portador da notícia da existência do pagamento de mesada foi o deputado Miro Teixeira, na época líder do governo na Câmara. A quinta ocasião foi a única que já veio a público com detalhes. O alerta foi dado pelo deputado Roberto Jefferson, em 23 de março passado, no gabinete de Lula no Planalto.
O levantamento sobre o que chegou aos ouvidos do presidente tem uma evidente lacuna nas diferentes versões. O deputado Roberto Jefferson, desde a sua primeira e explosiva entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, tem dito que levou a denúncia do mensalão ao presidente Lula “em duas conversas”. Na semana passada, por meio da assessoria de imprensa, o deputado confirmou a VEJA que a primeira conversa com Lula aconteceu em 5 de janeiro deste ano, no Palácio do Planalto, tendo sido testemunhada apenas pelo ministro do Turismo, Walfrido Mares Guia

Vai admitir
O Ministério Público Federal enviou 33 perguntas a Lula sobre o mensalão. Uma das indagações é se Jefferson o advertira ou não sobre o esquema. Segundo informou a Folha de S. Paulo, Lula finalmente admitirá que foi, sim, avisado por Jefferson. É o que assegurou a capa de VEJA há quase cinco anos. E não só por ele. No post abaixo , vocês encontrarão quadros sintetizado as outras quatro vezes em que o presidente fora “avisado”. Lula também dirá que participou daquela reunião com o PL. Mas ignorava qualquer rolo com dinheiro.

Quanto vale mesmo?
Quanto vale mesmo a negativa de um petista com a importância de Lula? Por ela, pode-se estimar o valor da negativa de um petista com a importância de Vaccari. O comportamento das estrelas do partido varia muito pouco. Quando Hamilton Lacerda, assessor pessoal de Aloizio Mercadante, foi flagrado carregando a dinheirama do dossiê dos aloprados, o que disse o senador, então candidato ao governo de São Paulo e um dos beneficiários diretos da falcatrua caso ela tivesse prosperado? “Eu não sabia!” Para quem Lacerda ligou uma hora antes de passar a bolada aos outros bandidos? Para Vaccari.

Quando se descobriu que a Casa Civil, sob o comando de Dilma Rousseff, havia preparado um “dossiê” (eles adoram essas coisas) contra FHC e sua mulher, Ruth Cardoso, os petistas seguiram a sua aborrecida rotina: 1) o dossiê não existe; 2) se existe, o governo não sabia; 3) existe, mas não é dossiê…

Encerrando
Na estranha lógica do petismo, esses escândalos só vêm à luz porque estamos em ano eleitoral, e tudo não passaria de uma guerra entre governo e oposição. O juiz que rejeitou, por enquanto, a quebra do sigilo bancário de Vaccari lembrou do especial cuidado que é preciso ter em tempos assim. Claro, claro… O curioso é que esses argumentos poderiam ter protegido o bando que atuou com José Roberto Arruda no Distrito Federal, não é mesmo? A eleição, de resto, é um motivo a mais para denunciar as safadezas. O eleitor tem o direito de saber dos fatos para decidir com mais clareza. O presidente vai admitir agora o que VEJA estampou na capa há quase cinco anos? Assim são as coisas.

Lula é este cara: está sempre fazendo história. E tornando históricas as capas da revista. A cada semana, há uma VEJA nova nas bancas e na casa dos assinantes. E, como se nota, sob certo ponto de vista, a revista não muda. E isso é fazer história.


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HISTÓRIA VIVA. VEJA MATA A COBRA E MOSTRA A COBRA E A…REVISTA!


Só agora Lula vai admitir que fora, sim, advertido por Roberto Jefferson sobre a existência do mensalão. Abaixo, as cinco circunstâncias que provam que ele sabia da existência do esquema. Os quadros estão naquela edição de VEJA de julho de 2005. Peço que vocês prestem especial atenção à “3ª Oportunidade”:

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3ª Oportunidade
Perguntar justamente a Paulo Rocha se ele sabia de alguma coisa não deixa de ter a sua graça. A famosa reunião do PL com o PT, em que se acertou que o partido de Lula daria uma bolada de dinheiro para o partido de Valdemar Costa Neto (ver post anterior) aconteceu na casa de… Rocha! Lula vai admitir ao Ministério Público que participou do encontro, mas vai negar que soubesse do dinheiro. Em entrevista, Costa Neto o desmentiu: “Sempre soube de tudo”. 


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BANCOOP – ESCRITOR DENUNCIA DESESPERO, ARROGÂNCIA E AMEAÇAS


Muitas pessoas “do povo” — em nome de quem o PT diz falar  — foram lesadas pelas falcatruas da Bancoop. Como era um empreendimento de um sindicato tradicional, o dos Bancários de São Paulo, muita gente que exerce a desconfiança até como obrigação profissional acabou lesada. É o caso do escritor e jornalista Ignácio de Loyola Brandão. Leiam a carta que ele enviou à VEJA. E mais um a denunciar a tática da intimidação a que recorre a direção da cooperativa.

Minha alma foi lavada com a reportagem “A casa caiu” (10 de março), sobre a Bancoop, que me confiscou - porque foi um confisco - 100 000 reais, pagos por meio de boletos, em três anos. O apartamento que comprei não saiu do 7º piso na Rua Bela Cintra, em São Paulo. Jamais conseguimos marcar uma audiência com João Vaccari Neto; ele é de uma arrogância ímpar. Algumas reuniões dos cooperados eram desesperadoras, tristes. Havia velhos que jogaram tudo o que tinham economizado, sacaram fundo de garantia e ficaram sem nada. Continuo a receber boletos me cobrando quantia semelhante à que coloquei no saco sem fundo da Bancoop. Sou ameaçado não de despejo, mas de processo, de penhora de bens.
Ignácio de Loyola Brandão
São Paulo, SP


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DE NOVO, AIATOÉLIO?

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Elio Gaspari resolveu marretar a lógica de novo. Sempre que isso acontece, eu o socorro. Comentando o fato de que uma coluna sua com críticas ao governo Paulo Hartung não foi publicada por um jornal do Espírito Santo, mandou ver:

Eremildo, que é um idiota, está convencido de que esse foi mais um passo da ofensiva chavo-petista para instalar o controle social dos meios de comunicação no Brasil. Informado de que o governador do Espírito Santo é do PMDB, já foi tucano, mas nunca passou pelo PT, o cretino pediu 250 anos para pensar no assunto.

Eremildo precisa parar de fazer com Gaspari o que, conta o folclore, os amigos de Nelson Rodrigues faziam com ele: escreviam trechos de sua coluna quando o autor se levantava para bater papo ou tomar café. Ele retornava e dava seqüência ao texto sem nem se dar conta da “parceria”. Verdade ou mentira, tem a sua graça.

O autor do trecho em vermelho é Eremildo, que é idiota, não Gaspari, que é tão sabido. Trata “o controle social dos meios de comunicação” como se fosse mera teoria conspiratória dos “inimigos” do PT, não uma intenção declarada pelo partido em vários documentos. Mais do que intenção: o governo já usa hoje a verba publicitária oficial e das estatais para expressar seus amores e seus rancores.

O fato de o PT não ter apreço pela liberdade de imprensa não quer dizer que todos os que padecem desse mal sejam petistas. É chato, mas vou ter de aplicar o conceito que sustenta a ironia de Eremildo. Imagino alguém contando para o idiota que a Alemanha nazista censurava jornais. E ele: “E depois ainda dizem que Stálin é ditador…”

Entendeu, Eremildo, ou terei de desenhar?


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DAIME, INCONSISTÊNCIAS E ABSURDOS


Poderia, claro, deixar quieto, mas não vou. Especialmente porque a imprensa tem de aprender a lidar melhor com assuntos que podem ser espinhosos. Estamos todos consternados com a morte trágica do cartunista Glauco e de seu filho Raoni, mas nem por isso devemos suspender o juízo.

Por mais que pareça compatível com certa atmosfera de, sei lá como chamar, visão muito particular de mundo (pode ser assim?) a versão de que Carlos Eduardo Nunes, o assassino, entrou em surto e exigia que Glauco asseverasse a sua mãe que era Jesus Cristo — teria cometido os dois homicídios no auge do descontrole —, há de se admitir que é uma história pouco compatível com o fato de que estava acompanhado — um amigo, talvez dois, aguardava no carro. Esse amigo (ou amigos) participava do mesmo surto? Como Nunes o(s) teria convencido a acompanhá-lo? “Vamos lá; ele tem de dizer que eu sou Jesus”.

No trajeto entre o Alto de Pinheiros e Osasco, nada os demoveu da idéia? Consta que era um “conhecido da família”. Da família? Da Igreja?  Será preciso apurar a verdade dessa versão. VEROSSÍMIL ELA NÃO É. “Ele só surtou quando estava lá”, pode dizer alguém. Nesse caso, o que fazia armado? Do que vive Nunes? Qual é a sua fonte de renda?

E continuo incomodado com a versão fantasiosa do advogado da família, Ricardo Handro. Depois de conversar com familiares do cartunista, que assistiram  à tragédia, anunciou que pai e filho tinham sido vítimas de bandidos que pareciam drogados. De onde tirou essa história? Todos sabiam quem era Nunes, um “conhecido da família”. Intencionalmente ou não, a sua fala poderia ter induzido a polícia a erro, COLABORANDO PARA A IMPUNIDADE DO ASSASSINO. Na Internet, muitos chegaram a lastimar a violência em São Paulo… Uma testemunha, que reconheceu o rapaz, desfez a fantasia.

Vamos fazer de conta que isso não aconteceu também? Nada cobraremos do senhor Handro? Vamos fingir que essa história não é estranha? Reitero: o advogado gravou uma entrevista horas depois da tragédia, quando toda a imprensa já estava lá, sustentando a inverdade. Por quê? Colaborando para punir Nunes é que ele não estava.

Outras imprecisões
A liberdade de expressão garante que cada um atribua a suas escolhas a origem que bem entender. A imprensa é que não precisa — OU MELHOR, NÃO DEVE — dar curso a certas fantasias. Repórteres têm chamado o daime de “doutrina cristã”. É mesmo? Os cristianismos são muitos, eu sei. Todos têm um fundamento: a Bíblia. Há divergências sobre se este ou aquele livros são ou não “inspirados”. As interpretações  estão sujeitas às mais variadas inflexões. Mas me digam que passagem, lateral que seja, justifica que se possa dizer  cristã uma “doutrina” que confere a uma bebida alucinógena a centralidade que o daime confere à tal infusão.

Recebi comentários bastante impressionantes aqui. Uns falam da “evidência” (!!!) de que Moisés teria ingerido o Daime quando recebeu as tábuas da lei. Outro assegura que a passagem em João em que Cristo pede água à samaritana faz alusão à bebida…  Um mínimo de rigor histórico e jornalístico pediria que se escrevesse ou se falasse, ao menos, “doutrina que se diz cristã”. E nem estou fazendo juízo de valor. Sei que há quem considere o cristianismo fonte de todos os horrores, e o Daime, de todo o bem: não vou entrar nessa. Mas dizer que se trata de uma “doutrina cristã” é de lascar!

Num texto publicado na Folha, no sábado, Mario Cesar Carvalho ajuda a esclarecer algumas coisas e a confundir outras tantas.
Ele esclarece:
Glauco seguia uma vertente do Santo Daime que nasceu nos anos 70 a partir de uma dissidência fundada por Sebastião Mota de Melo. A doutrina original era uma mistura de cristianismo, espiritismo e práticas xamânicas. As cerimônias são marcadas por hinos e pelo uso de ayahuasca, chá feito com duas plantas amazônicas, uma das quais tem efeito alucinógeno. Diz a história oral que o criador do Santo Daime, Raimundo Irineu Serra (1892-1971), conhecera o ayuhasca pelas mãos de um xamã peruano. Sebastião acrescentou à essa mistura o uso ritual da maconha.

Segundo entendi, a Céu de Maria, igreja de Glauco, é essa que usa maconha nos rituais.

Mas o repórter também contribui para a confusão:
Apesar da ira dos mais conservadores contra o chá, o Santo Daime ganhou fama entre os mais jovens pela sua capacidade de recuperar dependentes de drogas e de álcool. O próprio Glauco dizia que abandonara a cocaína e a bebida graças ao Daime.
“O Daime reabilita mesmo. Meu marido era viciado e parou. Perdeu a obsessão que tinha pela droga”, diz a fotógrafa Janete Longo.
Isso ocorre, segundo ela, porque a religião mescla autoconsciência, psicanálise e cristianismo. Longo afirma que 70% dos fardados -o jargão que designa os frequentadores dos cultos- eram dependentes de álcool ou drogas. No ano passado, 11 mil passaram pelos cultos do Céu de Maria, segundo Orlandão.
Longo refuta a idéia de senso comum de que o chá é alucinógeno. “Os bebês são batizados com um pouquinho de ayahuasca e não acontece nada”.

Vamos ver
“Conservadores”, como a gente vê, são sempre esses seres irados. Parece que um “progressista” deve, então, necessariamente, achar que a bebida é uma coisa bacana. De fato, no texto, a oposição se dá entre “conservadores” e “jovens” — eliminando-se a hipótese de que se possa ser jovem e conservador… Ainda que neste particular sentido da palavra: não curtir o tal chá.

Afirmar, sem ressalvas e sem atribuir aos crentes, a capacidade do chá  “de recuperar dependentes de drogas e de álcool”, lamento dizer, é uma irresponsabilidade. Cadê os estudos? Cadê os dados científicos? “E você, seu católico, não acredita em milagres?” É, acredito em alguns, bem pouquinhos… Mas não mandaria um dependente químico para a igreja se persignar com água benta e pronto! Ademais, se a igreja pertence à tal dissidência, faz uso ritual da maconha, certo? Ou não faz? Isso ajuda a curar o vício das drogas?

Não, eu não descarto que as pessoas, em razão de certas convicções ou da fé, possam abandonar as drogas e o álcool. Mas sei que este é um trabalho que demanda apuro profissional, pesquisa e remédios — devidamente testados, com a caracterização rigorosa de seus efeitos colaterais.

Já sabemos que o daime mescla “cristianismo, espiritismo e práticas xamânicas”. A fotógrafa acrescenta a isso tudo a “psicanálise”. Pode ser. O fato é que, e eu tratei disso no primeiro texto que escrevi sobre o assunto, as igrejas do daime estão atraindo viciados em busca de cura. Já ouvi relatos nada edificantes. Parece-me que a prática cruza a linha da responsabilidade. Muitas dessas pessoas chegam lá sob o efeito de remédios. O que se conhece até agora das interações do daime com outras drogas? Resposta: NADA! Não estamos falando da “água” ungida de certos milagreiros que andam por aí.

Acredito que Janete Longo e o próprio repórter não tenham atentado para esta enormidade:
Longo refuta a idéia de senso comum de que o chá é alucinógeno. “Os bebês são batizados com um pouquinho de ayahuasca e não acontece nada”.

Para começo de conversa, Carvalho chamou a bebida de “alucinógena”, e não o “senso comum”. Para aquela senhora, a evidência de que não é um chá alucinógeno é que “os bebês são batizados com um pouquinho de ayahuasca e não acontece nada”. O que ela esperava? Que os infantes tomassem a sua santa mamadeira e começassem a debater os estratagemas apontados por Schopenhauer para vencer um debate sem precisar ter razão? E como ela sabe que “não acontece nada?” Que religiões e que líderes religiosos autorizam que se administre o chá para bebês? Parece-me uma revelação grave.

Será que ainda ficaremos com saudade do tempo em que o ópio dos intelectuais era só o  marxismo?

Lamento a morte de Glauco e Raoni e espero que o assassino vá para a cadeia. Mas não dá para ficar alimentando certas fantasias e silenciar diante de óbvias inconsistências e absurdos clamorosos.

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Fonte:
Blog Reinaldo Azevedo (Veja)

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