INFLAÇÃO EXIGIU, E MEIRELLES FICOU

Publicado em 02/04/2010 07:51 982 exibições

INFLAÇÃO EXIGIU, E MEIRELLES FICOU

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, decidiu ficar no Banco Central. Não vai concorrer a nenhum cargo, hipótese que o obrigaria a deixar a instituição — e a data-limite para fazê-lo é esta sexta. A decisão é um misto de sabedoria e “precisão”, naquele sentido empregado por Guimarães Rosa para falar do sapo, que pula por “precisão”, não por boniteza.

Por que é uma “precisão”? A projeção de inflação para 2010 está em 5,2%, bem acima da meta da 4,5%. A última ata do Copom é incompatível com a decisão de ter mantido inalterada a Selic. Ficou a suspeita de uma decisão política. Está escrito lá: “ houve consenso (…) quanto à necessidade de se implementar um ajuste na taxa básica de juros, de forma a conter o descompasso entre o ritmo de expansão da demanda doméstica e a capacidade produtiva da economia, bem como para reforçar a ancoragem das expectativas de inflação”.

Houve um consenso? Então por que a decisão não foi tomada? Ou bem não se escrevia essa ata e se mantinha a taxa, ou bem se a escrevia, como se fez, mas elevando a Selic. Ata e decisão são incompatíveis. Os ditos mercados passaram a considerar que o “BC piscou”. Piscou para a política.

Papéis incompatíveis
No dia 1º de outubro do ano passado, escrevi o texto
Meirelles tem de escolher já entre a política e a presidência do Banco Central. Os dois, não dá! Tratava justamente das suspeitas que um político militante, à caça de votos, pode despertar no comando do Banco Central. Recrudescimento da inflação em ano eleitoral pede estabilidade da autoridade monetária, não o contrário. Assim, Meirelles tinha mesmo de ficar. E é bom que fique.

Sua filiação ao PMDB em outubro do ano passado era uma ação de amplo espectro. Meirelles pensava no governo de Goiás, no Senado, mas passou a ser cultivado como possível vice na chapa de Dilma Rousseffr — seria o homem certo para transmitir confiança aos mercados. As velhas raposas do PMDB fulminaram essa sua (e de Lula) pretensão.

Caso Dilma vença a eleição, Meirelles terá, se quiser, assento no primeiro escalão. Lula certamente pediu para que ele permanecesse no cargo. Ocorre que, mais do que Lula, foram as expectativas do mercado e a inflação que cobraram: “Fique, Meirelles”. E ele ficou.


A HERANÇA MALDITA DE LULA E DILMA

 

Repórteres que cobrem política e economia deveriam tirar cópia deste artigo de Márcio Aith, publicado hoje na Folha, lê-lo ao menos uma vez por dia e convertê-lo em reportagens. À diferença do que alardeiam o discurso e a propaganda oficiais, a infraestrutura brasileira está sucateada. Reportagem de capa da VEJA, por exemplo, demonstra o caos no setor aéreo por causa da falta de investimento em aeroportos. Ao texto de Aith.
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O açúcar do PAC

Dois países devolveram recentemente navios com açúcar importado do Brasil. Motivo: não era açúcar, mas areia. Uma quadrilha que agia nos portos nacionais fazia a troca do produto in natura antes do embarque, numa fraude de curiosa complexidade que, ao que tudo indica, funcionou por anos e lesou exportadores e importadores.

Investigado com discrição pelas autoridades, o crime eleva ao patamar do absurdo o caos logístico e a falência da infraestrutura brasileiros. Ele se soma à burocracia, à corrupção, à carga tributária, às estradas esburacadas e ao funil portuário na lista de obstáculos enfrentados pelo produtores nacionais.

Entre 2002 e 2009, o valor das vendas externas brasileiras aumentou de R$ 60 bilhões para R$ 152 bilhões. No mesmo período, a malha ferroviária brasileira manteve-se nos mesmos 30 mil quilômetros, o percentual de rodovias pavimentadas ficou em pouco mais de 10% e os custos de logística subiram.

Perdíamos, e continuamos perdendo, em quase todos os quesitos de eficiência logística para Índia, China, Rússia, Argentina e África do Sul, entre outros tantos.

Diante disso, questiona-se se os tais PACs, os dois programas de obras da ministra Dilma Rousseff, estão funcionando. Estão, mas não no que interessa ao país. Sua eficácia parece mais cênica. Ainda que não nos convençam, o barulho que se faz em torno deles, a artificialidade das apresentações oficiais e o ar concretado da ministra ao pronunciar “obras estruturantes” embaralham a percepção da realidade.

Não se fala mais de ferrovias e rodovias em frangalhos, mas de obras a serem criadas no futuro. O esforço nunca feito em infraestrutura deixou de ser passivo eleitoral para transformar-se numa “carteira de projetos para o sucessor”. Os problemas reais foram substituídos pelo mundo do powerpoint.

No universo de Dilma, cuja candidatura talvez seja a única obra visível dos dois PACs, areia sai pelo preço de açúcar.


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DILMA PRECISA ESCONDER FRANKLIN MARTINS E ZÉ DIRCEU

 

De Daniel Pereira, na VEJA, na reportagem intitulada “Prateleira eleitora:
(…)
a candidata petista [Dilma Rousseff] vai precisar de muita habilidade para convencer que é real uma decisão que já teria sido tomada por seus assessores - tirar da linha de frente da campanha dois pesos-pesados do petismo: o conselheiro político e ministro de Comunicação Social, Franklin Martins, e o deputado cassado e lobista José Dirceu, ex-chefe da Casa Civil. A ideia partiu dos ex-ministros Antonio Palocci e Márcio Thomaz Bastos e conta com a simpatia do ex-prefeito Fernando Pimentel, coordenador da campanha de Dilma. Para eles, Franklin é um foco permanente de tensão e Dirceu uma fonte inesgotável de problemas. (…) Dirceu e Franklin continuarão na trincheira, articulando e cumprindo variadas tarefas. Para o grande público, ficarão na prateleira. Aqui


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A INCRÍVEL VERSÃO DO TESOUREIRO DO PT PARA O ENCONTRO COM O CORRETOR QUE O ACUSA

 

O tesoureiro do PT confirma reunião com operador do mensalão, mas não revela o teor da conversa. O operador já disse que o tema era propina

Fotos Lula Marques/Folha Imagem e Dida Sampaio/AE
SOLDADO FIEL
Vaccari recusou acareação com Funaro (no detalhe) para esclarecer acusação de suborno: “Tenho de consultar o partido”

Na semana passada, ao falar pela primeira vez em público sobre as suspeitas de desvios na Bancoop, a Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo, o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, não parecia aquele cidadão de pavio curto que, sem nenhum constrangimento, debita na conta de pais de família as fraudes financeiras praticadas pela entidade durante sua gestão. Didático, negou a existência de irregularidades e se disse vítima de perseguição do promotor que investiga o caso. O depoimento, que durou quatro horas, só não foi completamente inútil porque alguém se lembrou de interpelar o tesoureiro sobre outra acusação tão escabrosa quanto a da Bancoop. Em 2004, enquanto fazia as tramoias na cooperativa, Vaccari também recolhia dinheiro para o caixa do mensalão. Em depoimento ao Ministério Público Federal e à Procuradoria-Geral da República, o corretor Lúcio Funaro contou que o tesoureiro petista cobrava propina para intermediar negócios com fundos de pensão comandados por seus colegas de partido. E poderia certificar que isso é verdade porque ele mesmo, Funaro, ouviu a proposta do próprio Vaccari em uma reunião da qual participou também o deputado Valdemar Costa Neto, o mensaleiro do PR.

Tergiversando, o tesoureiro confirmou o encontro com a tropa mensaleira, mas não esclareceu o que conversaram três figuras tão distintas na sede da cooperativa. Propina, obviamente, não era. Valdemar Costa Neto estaria interessado em um apartamento da Bancoop? Funaro é corretor, mas não de imóveis. A trinca, na verdade, teria discutido a criação de um fundo de pensão para os trabalhadores da CUT, e os porcentuais de 10%, 12% e 15% citados durante o encontro eram apenas simulações de benefícios. É improvável que um especialista como Funaro tenha entendido tudo errado, mas essa é a melhor versão que o tesoureiro Vaccari encontrou até o momento para tentar se safar. Assinante lê íntegra  Aqui


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AEROPORTOS: Entre o céu e o inferno

 

O número de brasileiros que viajam de avião dobrou nos últimos cinco anos. A notícia só não é melhor porque os viajantes são submetidos a momentos infernais nos superlotados aeroportos do Brasil


Por Carolina Romanini, Alexandre Salvador e Ronaldo Soares

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Entre os fenômenos socioeconômicos produzidos pela estabilização econômica dos últimos quinze anos, o acesso de um número maior de brasileiros às viagens aéreas é o de maior impacto. Viajar frequentemente de avião comercial era coisa de rico nos anos 80. Hoje os aviões se tornaram os ônibus do ar e os aeroportos ficaram barulhentos, lotados e desconfortáveis como as velhas estações rodoviárias. Os números são impressionantes. Em fevereiro deste ano, 10 milhões de passageiros foram transportados em voos domésticos, um aumento de 43% em relação ao mesmo mês no ano passado. A previsão é que, no fim de 2010, o número de passageiros transportados no país supere em 36% o total de 2009.

Os brasileiros só teriam o que comemorar com essa nova realidade, não fosse um grande e incômodo fator: os aeroportos ficaram acanhados demais para tanta gente com bilhete aéreo no bolso. Vislumbra-se um divórcio quando se compara o ímpeto de voar com a capacidade do governo federal de aumentar o potencial dos aeroportos ou construir novos. A quantidade de pessoas que viajam de avião no Brasil praticamente dobrou nos últimos cinco anos. Para atender a essa explosão de demanda por passagens, a partir de 2006 as duas maiores companhias aéreas brasileiras, Tam e Gol, ampliaram sua frota em, respectivamente, 72% e 60%. As duas companhias que dominam o mercado aéreo nacional e as que chegaram para concorrer com elas trabalham agora com agressivos planos de expansão. Será preciso combinar com o governo federal, cuja empresa Infraero tem o monopólio da construção e exploração comercial de todos os aeroportos de uso comercial no país. A Infraero não tem recursos nem condições técnicas para dar conta da atual demanda - quanto mais dos imensos desafios que se avizinham.

Há três explicações convergentes para o aumento do número de passageiros no ar. A primeira delas é a situação econômica favorável. De modo geral, o setor aéreo de um país cresce o dobro da economia como um todo. Entre 2004 e 2009, o PIB acumulado do Brasil somou 24%. O volume de passageiros dobrou no mesmo período. O segundo fator foi a desconcentração do setor com a chegada de novas companhias e a consequente redução no preço das passagens, resultado do aumento da concorrência e da liberdade tarifária. Para atraírem consumidores, as empresas aéreas brasileiras, em média, diminuíram o preço da milha voada de 53 para 41 centavos de real. O valor médio da passagem aérea doméstica caiu de 448 reais para 323 reais. A terceira, que é a mais importante e a mais duradoura explicação para o fenômeno, é a ascensão econômica da classe C. Um em cada dez dos passageiros da Gol nos últimos anos voou pela primeira vez na vida.

O gargalo dos aeroportos, infelizmente, pode atrapalhar essa festa nos céus do Brasil. Nas últimas décadas, enquanto a demanda por passagens crescia, a infraestrutura aeroportuária do país foi se deteriorando, sem receber por parte dos sucessivos governos os investimentos necessários para modernizá-la. Hoje, os grandes aeroportos recebem mais passageiros do que sua capacidade comporta, tornando um suplício o embarque e o desembarque nos horários de maior movimento. A Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata) recomenda que as obras de ampliação e remodelação dos aeroportos sejam feitas tendo em vista que eles operem 40% abaixo de sua capacidade máxima - justamente para absorver sem traumas as demandas nos períodos de pico e o aumento natural do tráfego aéreo. Na contramão dessa norma, os principais aeroportos brasileiros operam 30% acima de sua capacidade.
Assinante lê íntegra Aqui

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Royalties do petróleo: Lula foi o culpado

Por Mailson da Nóbrega, na VEJA:
A decisão da Câmara de distribuir os royalties do petróleo com todos os estados e municípios, em detrimento das regiões produtoras, foi uma reprise de conhecido filme. Dava para perceber que isso poderia acontecer. Os parlamentares têm incentivos irresistíveis para transferir recursos permanentes às suas bases. Não enxergam seus efeitos negativos. Olham o interesse eleitoral. Muitos esperam virar heróis.

A mudança das regras de exploração do pré-sal continha muitos riscos, inclusive o de uma desastrosa repartição dos recursos. Lula colheu, pois, a tempestade dos ventos que semeou. A derrota foi acachapante: 369 deputados, dos quais 270 governistas, votaram a favor da emenda de Ibsen Pinheiro e Humberto Souto, os dois deputados que propuseram a “gracinha”, como o presidente chamou a tungada. Ele deveria saber que em questões como esta as lealdades se esfumaçam.

A maioria dos sistemas tributários modernos concentra a receita no governo central, ao qual costumam caber os impostos sobre o consumo e a renda, que têm ao mesmo tempo maior potencial de arrecadação e menor poder de distorção sobre a atividade econômica. Nessa esfera de governo a arrecadação costuma superar o gasto. Regiões menos desenvolvidas, ao contrário, precisam contar com a ajuda do governo central para se aproximar da situação das áreas ricas. Como fazer isso de forma permanente e justa não é trivial. Há sempre o risco de excessos prejudiciais a todos.

No Brasil, a partilha federativa dos recursos, que tinha entre seus propósitos o de promover a redução das desigualdades regionais, nasceu em 1965. Emenda constitucional de então destinou aos governos subnacionais 20% do imposto de renda e do IPI: 10% para o Fundo de Participação dos Estados (FPE) e 10% para o Fundo de Participação dos Municípios (FPM). As regiões menos desenvolvidas recebem proporcionalmente mais.

Em 1969, a partilha se reduziu à metade, mas foi restabelecida entre 1976 e 1980. De 1981 a 1984, passou para 26%: 12,5% para o FPE e 13,5% para o FPM. De 1985 a 1988, foi para 31%: 14% para o FPE e 17% para o FPM. Com a Constituição de 1988, saltou para 47%: 21,5% para o FPE, 22,5% para o FPM e 3% para financiar o setor produtivo das regiões menos desenvolvidas. E mais 10% do IPI para estados exportadores. Em apenas oito anos, a partilha pulou de 10% para 47% do IR e de 10% para 57% do IPI. Perdeu-se qualquer senso de medida. A União foi churrasqueada à míngua de líderes. E em 2007 a partilha subiu para 48% (1% a mais para o FPM). Parece interminável, não?

Ao mesmo tempo, foram aumentadas as despesas obrigatórias do governo federal com o INSS, os funcionários públicos e a educação. O grave desequilíbrio foi atenuado pela elevação brutal dos tributos, com a resultante piora de sua qualidade. Para cobrir o buraco, a União recorreu a tributos não partilháveis, as contribuições. Mesmo assim, a situação piorou: menor capacidade de investimento, maiores ineficiências e abalo no potencial de crescimento. A partilha pro-duziu mais salários de servidores, corrupção e gastos correntes do que investimentos nos estados e municípios.
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Fonte:
Blog Reinaldo Azevedo (veja.com.

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