CIRO: “Lula viaja na maionese; Serra é mais preparado; direção do PSB não está à altura do desafio da história”

Publicado em 23/04/2010 14:21 e atualizado em 23/04/2010 23:34 953 exibições

CIRO: “LULA VIAJA NA MAIONESE; SERRA É MAIS PREPARADO; DIREÇÃO DO PSB NÃO ESTÁ À ALTURA DO DESAFIO DA HISTÓRIA; PT VAI TENTAR OUTRO ESCÂNDALO DOS ALOPRADOS; NÃO ME PEÇAM PARA IR À TELEVISÃO”


Em entrevista a Eduardo Oinegue, do iG, o deputado Ciro Gomes (PSB) rasga o verbo e afirma que “Lula está navegando na maionese”; que o tucano José Serra “é mais preparado, mais legítimo e mais capaz ” de “enfrentar a crise que conheceremos em um ou dois anos”; que  o presidente nacional do partido, o governador Eduardo Campos, de Pernambuco, e o vice-presidente da legenda, Roberto Amaral, “não estão no nível que a história impõe a eles” e antevê que o PT tentará, de novo, algo parecido com o escândalo dos aloprados. E avisa: “”Não me peçam para ir à televisão declarar o meu voto, que eu não vou.”

Trechos da entrevista:
Lula:
“Lula está navegando na maionese. Ele está se sentindo o Todo-Poderoso e acha que vai batizar Dilma presidente da República. Pior: ninguém chega para ele e diz ‘Presidente, tenha calma’. No primeiro mandato eu cumpria esse papel de conselheiro, a Dilma, que é uma pessoa valorosa, fazia isso, o Márcio Thomaz Bastos fazia isso. Agora ninguém faz”.

Serra
“Minha sensação agora é que o Serra vai ganhar esta eleição. Dilma é melhor do que o Serra como pessoa. Mas o Serra é mais preparado, mais legítimo, mais capaz. Mais capaz inclusive de trair o conservadorismo e enfrentar a crise que conheceremos em um ou dois anos.”

PSB
[Eduardo Campos e Roberto Amaral, dirigentes do PSB] “não estão no nível que a História impõe a eles”.

Aloprados
“Sabe os aloprados do PT que tentaram comprar um dossiê contra os tucanos em 2006? Veremos algo assim de novo. Vai ser uma merda”.

Crise futura
“Em 2011 ou 2012, o Brasil vai enfrentar uma crise fiscal, uma crise cambial. Como estamos numa fase econômica e aparentemente boa, a discussão fica escondida. Mas precisa ser feita. Como o PT, apoiado pelo PMDB, vai conseguir enfrentar esta crise? Dilma não aguenta. Serra tem mais chances de conseguir”

Apoio a Dilma
“Não me peçam para ir à televisão declarar o meu voto, que eu não vou. Sei lá. Vai ver viajo, vou virar intelectual. Vou fazer outra coisa”.

DADO O MASSACRE DE QUE FOI VÍTIMA, REAÇÃO DE CIRO É SUAVE

A posição de Ciro (ver abaixo), a ser mantida, é serena se comparada àquilo que Lula e o PT fizeram com ele. Jamais vi um aliado tão fiel ser tratado com tamanha descortesia. “Descortesia”? A palavra não cabe porque isso é ofensa de salão. O ex-governador do Ceará foi vítima é de brutalidade mesmo.

E é o que sempre acontece com qualquer um que tente ter uma relação minimamente altiva com o PT e, particularmente, com Lula. Já escrevi que Ciro nunca entendeu a natureza do partido e a raiz intelectual de sua formação, que não compreende um governo de coalizão coisa nenhuma!

Coalizão significa unir as principais forças políticas do país, concentrando-se no que se considera essencial. Os petistas só entendem a relação de subordinação, e aqueles que se juntam a seu “projeto” têm de ter a cara que tem o PMDB lulista, este liderado por gigantes morais como José Sarney, Renan Calheiros e Romero Jucá.

Ciro foi convidado a fazer parte desse festim e a ter um naco do poder, como um peemedebista qualquer, regalando-se com alguma divisão do governo, onde pode fazer seus pequenos grandes negócios. O deputado do PSB queria mais: queria ser protagonista na política. Não existe esse espaço no PT.

Lula foi esvaziando Ciro com a técnica e a paciência de um taxidermista. Tirou-lhe a vitalidade eleitoral e o encheu de palha, de modo que ele pudesse conservar, durante algum tempo ao menos, a aparência de figura relevante na sucessão. Até que chegou a hora do golpe: a visita de Dilma Rousseff ao Ceará, o que, vamos convir, foi de um desrespeito brutal.

Notem que narrativa interessante: o petista levou Ciro a transferir seu domicílio eleitoral para São Paulo e despachou Dilma para fazer embaixadinha no Ceará. Em suma: deu-lhe de presente o que ele jamais terá — São Paulo — e tentou lhe roubar o que ele tinha: o Ceará. O jornalismo amigo do PT tentou atribuir a visita de Dilma àquele estado a um erro da candidata ou da coordenação de campanha. Bobagem! Pode até ter sido um erro, mas cometido pela cúpula do partido. Nem isso cabe a Dilma decidir. Não custa lembrar que até para evocar palavras de otimismo, como fez no programa do tal Datena, ela recorre a Lula — ou, pior, à mãe de Lula.

A forma como o lulo-petismo trata um aliado dá conta do que esse gente gostaria de fazer com adversários. O escândalo dos aloprados, que Ciro relembra em sua entrevista,  dá uma pista.

O PT tem um norte moral: tudo o que não serve à hegemonia do partido deve ser destruído. E, bem…, no que diz respeito à relação Ciro Gomes-PT (consulte o arquivo do blog), não foi por falta de aviso.

LULA, UM ESPECIALISTA EM ESMAGAR PESSOAS

Na entrevista (ler dois posts anteriores sobre o assunto), Ciro Gomes afirma que pode até se afastar da política. Pois é… Quando brigou com os tucanos de São Paulo, fizeram dele um gigante. Depois de se aliar aos petistas, pode até desistir da política. Ciro precisa repensar que estranha relação é essa em que os inimigos servem para torná-lo grande, e os amigos, para destruí-lo. Não seria o caso de um ajustamento de conduta, de modo que estas duas categorias — aliados e relevância política — possam andar juntas?

Não creio que desista. Mas, caso o faça, poderia se dedicar, quem sabe?, à vida acadêmica. Há um campo de estudo bastante interessante, que jamais será investigado pela “subintelectuália esquerdopata” das universidades: “O que aconteceu, nos últimos 30 anos, com qualquer um que tenha contestado Lula?”

Uma boa pesquisa requer frieza analítica. Mas a experiência pessoal pode ajudar. Dou algumas pistas:
- Lula destruiu todos os seus adversários no sindicalismo, estivessem eles à “esquerda” ou  à “direita”. Sobreviveu quem se dobrou ou se vendeu. Vejam o caso de Joaquinzão, o dito grande pelego do “sindicalismo reacionário”: morreu pobre e abandonado num asilo. Lula, o “progressista e socialista”, é quem é;

- Lula relegou a uma expressão não mais do que regional lideranças de esquerda ou “progressistas” egressas do pré-64, como Leonel Brizola e Miguel Arraes;

- Lula esmagou politicamente todos aqueles que tentaram, quando isso não lhe era pessoalmente conveniente, qualquer diálogo com outras forças políticas. Vejam o que aconteceu com os três deputados petistas que participaram do Colégio Eleitoral que elegeu Tancredo Neves (José Eudes, Beth Mendes e Airton Soares) com ou Luíza Erundina, que aceitou ser ministra de Itamar Franco;

- Lula desmoralizou, chegando ao poder, as alas à esquerda do partido. Posso até achar que ele fez muito bem, mas elas eram suas aliadas, não minhas, e faziam o discurso histórico do petismo;

- Lula sempre tratou a pontapés qualquer um que ousasse contestar a sua liderança no partido (ou em qualquer outro assunto), como sabe, por exemplo, o senador Cristovam Buarque (DF), hoje no PDT, demitido por telefone;

E Lula, finalmente, trata como inimiga a ser destruída a própria história do Brasil, ao tentar desconstruir a biografia de todos os governantes que o antecederam — em parte, contou com a colaboração de Ciro por um período ao menos.

Nada cresce à sombra de Lula, deputado Ciro Gomes, se não for com a plena concordância do… frondoso Lula! E o que lhe garantiu tal poder? É dono, sem dúvida, de uma notável inteligência política. Isso conta muito. Lidera um partido que se estrutura para substituir a sociedade, não para governá-la. E isso é fundamental. E, não menos importante, o PT tem uma presença maciça na imprensa. E isso não é de hoje. Querem um exemplo até banal? Quem primeiro chamou o Democratas de “demo” e seus membros de “demos” foi o PT. O termo é hoje empregado como linguagem referencial pelos jornalistas — já o vi em títulos na primeira página.

Qualquer político que ambicione ter existência própria, deputado Ciro Gomes, deve se preparar para enfrentar essa máquina em vez de se aliar a ela. O PT entende duas categorias: oposição, que ele tenta destruir por meios lícitos e ilícitos, e subordinação.

“O tratamento que deram a Ciro não foi leal”

Na Folha Online:
Lideranças do PSDB endossaram nesta sexta-feira as palavras do deputado Ciro Gomes (PSB-CE) de que o tucano José Serra é “mais preparado” para assumir a Presidência da República do que a pré-candidata petista Dilma Rousseff. Além de comemorar as farpas de Ciro disparadas a Dilma, os tucanos também se mostraram surpresos com o fato de um aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticá-lo publicamente –já que Ciro disse que Lula “navega na maionese”.

Na opinião dos oposicionistas, Ciro reagiu depois de ser “escanteado” pelo presidente Lula, que optou por fazer de Dilma a sua candidata. “Ele foi cozinhado grosseiramente, depois percebeu que sequer seria candidato a governador de São Paulo. O tratamento que deram a ele não foi leal”, disse o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM).

Para o líder tucano na Câmara, deputado João Almeida (BA), Ciro se “iludiu” com o presidente Lula quando acreditou que seria o candidato da base aliada ao Palácio do Planalto. “O Ciro não entendeu a personalidade do Lula. Achou que seria valorizado, mas o projeto do Lula é a Dilma”, afirmou.

Na opinião de Almeida, as recentes declarações de Lula mostram que o presidente está “cada vez mais distante da realidade”, por isso acha que Lula “viaja na maionese”.

Para Virgílio, as críticas de Ciro beneficiam diretamente a pré-candidatura de Serra ao governo federal. “Com o peso nacional do Ciro, é relevante reconhecer que o melhor para o Brasil é o Serra. Ele não é obrigado a gostar do Serra, mas é importante reconhecer que a eleição com ele seria muito mais interessante do que com a Dilma”, afirmou.

O tucano disse que Ciro errou ao transferir seu domicílio eleitoral para São Paulo, atendendo um pedido de Lula, para que disputasse o governo estadual. Como Ciro insistiu na sua candidatura ao Palácio do Planalto, o PT elevou o senador Aloizio Mercadante (SP) a pré-candidato do partido ao governo do Estado.

COMEÇOU O TRABALHO PETISTA PARA FAZER DE CIRO A GENI

O PT já começou o trabalho de desmoralização do deputado Ciro Gomes (PSB), um precioso aliado até anteontem. Percebam a arrogância contida nestas palavras do líder do governo na Câmara, Candido Vaccarezza (SP):

“Nós garantimos a ele a possibilidade de sair para o governo de São Paulo, ele não topou. Nós não concordamos com a tese de sua candidatura para a Presidência. Ele que tem que arcar com a política dele; por isso, está sendo muito injusto com o PT e com o presidente”.

Notaram? Generosamente, “ofereceram” a Ciro a possibilidade de se candidatar ao governo de São Paulo!!! E não “concordaram” com a candidatura!!! Ciro e o PSB não foram livres, como se nota, nem para decidir isso.

Vaccarezza está dizendo o seguinte: “Como ele não concordou com a nossa decisão, então tivemos de atropelá-lo. Logo, a culpa é dele. Ele era livre para concordar”.

Eis o PT!

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Fonte:
Blog Reinaldo Azevedo (Veja)

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