Nelson Motta: ironias revolucionárias

Publicado em 18/07/2010 20:07 309 exibições
O Estadão publicou um ótimo texto de Nelson Motta. O título é Ironias revolucionárias. O tema é Cuba. Confiram. Pego uma carona no ponto final.


Enquanto a ditadura cubana solta presos políticos, o Congresso dos Estados Unidos debate a lei que libera os americanos para viajar à Disneylândia socialista. O momento histórico não é só dramático, também é muito irônico.

Há 51 anos, um dos orgulhos míticos da revolução é ter livrado Cuba de ser “um bordel dos americanos”. Com a liberação das viagens aos vizinhos, hordas de turistas mal-educados e cheios de dólares invadirão a ilha, e serão muito bem-vindos, como uma salvadora fonte de divisas para a indigente economia da ilha. Será o encontro feliz do consumismo com o comunismo.

Mesmo com a proibição, mais de 100 mil americanos viajaram para Cuba no ano passado, via México, se arriscando a multas e chateações judiciais. Imaginem liberando geral. Não haverá rum para tanta gente.

Viagens baratas, de pouco mais de meia hora de voo, levarão o melhor e o pior dos turistas americanos a Cuba, em busca de sol e mar, mas também de diversão, negócios, aventura e, naturalmente, sexo.

Com o agravamento da crise econômica e sem perspectiva de trabalho, jovens cubanos de todos os sexos e formações estão se prostituindo para sobreviver. Fidel fez piada, dizendo que em Cuba até as putas são universitárias, mas a ironia da história é que, em volta dos hotéis, dos bares e boates, Havana se tornou um bordel a céu aberto. Mas não só de americanos.

Como não há nada mais conservador do que a revolução cubana, só Fidel e a velha guarda do partido ainda continuam odiando e esperando a agressão dos “yankis”. As novas gerações os chamam, com simpatia, de “yumas”, admiram suas qualidades e sonham consumir as maravilhas que eles produzem com liberdade e tecnologia. Estão loucos para trocar ideias com eles. E, se possível, ganhar algum dinheiro, porque, apesar do salário de 20 dólares mensais, há cada vez mais desempregados.

Pior: ultimamente só foram criados empregos de fiscais, para tentar conter o roubo sistêmico nas fábricas e empresas estatais. Diz um amigo cubano que endureceu sem perder o humor: “O que vai mudar é que agora os que roubam para sobreviver vão ter que rachar com os fiscais.”

Embarco no artigo de Nelson Motta para espantar-me com outra ironia. Nos anos 50, quando Fidel  Castro lutava pelo poder, havia em Cuba uma ditadura ultradireitista a derrubar, uma economia asfixiada pela monocultura da cana e prostitutas demais em Havana. Mais de meio século depois, há prostitutas demais na ilha inteira, um oceano de canaviais asfixiando a economia e uma ditadura comunista a derrubar. Fidel continua lutando pelo poder.

Garcia também esquarteja a vítima e atira os restos aos rotweillers do quintal

Marco Aurélio Garcia tentou camuflar o enfado quando um jornalista perguntou-lhe, em 24 de fevereiro, se tinha algo a dizer sobre a morte do preso político cubano Orlando Zapata Tamayo. “Há problemas de direitos humanos no mundo inteiro”, relativizou o conselheiro presidencial para complicações cucarachas. Mas não é toda semana, nem em qualquer lugar, que um preso de consciência morre no 65° dia de uma greve de fome, demonstrou a reação indignada de democratas de todo o mundo. O gaúcho irritadiço respirou 48 horas antes de voltar ao tema.

“A morte de Zapata é uma situação que incomoda, eu preferia que não tivessem dissidentes”, disse em 26 de fevereiro. Não havia ocorrido, portanto, nenhuma tragédia. Só um fato incômodo, que seria evitado se a tribo dos dissidentes não teimasse em existir. Como existe, está exposta a situações desagradáveis. Não vale a pena fazer tanto barulho por tão pouco. “Uma declaração tonitruante é muito bom para a plateia, mas para Cuba pode piorar a situação”, explicou.

Depois de duas semanas de mudez, Garcia perdeu a paciência com os que continuam entendendo que o Brasil preferiu virar as costas aos presos sem culpa para ajoelhar-se aos pés dos Irmãos Castro. “O governo brasileiro não é uma ONG”, ensinou em 13 de março. “Nosso relacionamento é com governos e não com dissidentes”. De onde menos se espera é que não vem nada mesmo, reiterou o palavrório. Não se deve procurar vestígios de grandeza em quem comemorou com esgares e um top-top-top notícias sobre o acidente apavorante.

Mas nem os que já não se espantam com nada deixaram de achar espantosa a reentrada em cena do canastrão, ocorrida em 9 de julho. No dia 6, numa escala da viagem à África, ele fora surpreendido pela (para ele) péssima notícia: ao fim de negociações sigilosas com o governo da Espanha e o cardeal Jaime Ortega, arcebispo de Havana, a ditadura cubana aceitara libertar um lote de presos políticos. Sobressaltado, Garcia atravessou os três dias seguintes reescrevendo a segunda parte do script. E irrompeu de novo no palco.

Também desconcertado com a surpresa, o presidente Lula admitiu que o amigo Fidel e o compadre Raúl nem se lembraram de avisá-lo. Igualmente perplexo, o chanceler Celso Amorim caprichou nos murmúrios e sorrisos de quem sabe mais do que diz. Sempre mais feroz e mais trapalhão, Garcia inverteu a rota, afundou o pé no acelerador e mentiu descaradamente: “Nós ajudamos”, inventou. “Atuamos na surdina, sem alarde”.

Talvez tivesse parado por aí se os repórteres esquecessem o protocolo, caíssem na gargalhada e convidassem o declarante a tratar os fatos com menos brutalidade. O silêncio coletivo aconselhou Garcia a seguir em frente. “A Espanha pegou carona com a gente, viu a bola cair nos pés e chutou”, prosseguiu o espetáculo da desfaçatez. “Eles estavam na hora certa e no lugar certo para bater para o gol”. Até para os padrões do personagem, a coisa foi longe demais.

Embora só o crime de homicídio esteja capitulado no Código Penal, há semelhanças de estilo entre os três articuladores da política externa brasileira, que vivem assassinando a verdade, e o bando que executou a jovem Eliza Samudio. A placidez com que o presidente Lula tenta safar-se das operações em que se envolve lembra o goleiro Bruno: nenhum dos dois perde a pose quando desmascarado. Como o amigo Makarrão, o  chanceler Celso Amorim está aí para fazer as vontades do chefe e ídolo. E o  conselheiro Garcia trucida a realidade com a ausência de culpas ou remorsos exibida pelo policial civil Marcos Aparecido dos Santos, o “Bola”.

Como o algoz de Eliza, Garcia não se limita a matar a verdade. Também esquarteja a vítima e atira os restos aosrottweilers que rosnam no quintal.

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Fonte:
Blog Augusto Nunes (VEJA)

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