O craque aposentado e o aprendiz de ditador nasceram um para o outro

Publicado em 23/07/2010 14:17 e atualizado em 23/07/2010 15:06 584 exibições


O presidente Hugo Chávez reuniu-se com Diego Maradona antes de comunicar ao mundo que decidiu romper relações diplomáticas com o governo da Colômbia. O vídeo que documenta a performance da dupla comprova que o craque aposentado e o ditador aprendiz nasceram um para o outro. Contemple a expressão solene, o olhar aprovador e os sorrisos cúmplices do técnico da seleção argentina. Ouça o palavrório de Bolívar de hospício despejado pelo chefe da revolução bolivariana. Ambos estão em guerra contra a Colômbia, o imperialismo americano e a sensatez. E estão convencidos de que o ataque é a melhor defesa.

Se tivessem algum juízo, Hugo Chávez e Maradona saberiam que essa tática só deve ser adotada depois de uma cuidadosa comparação do próprio poder de fogo com o exibido pelas forças inimigas. Por não ter feito isso antes do jogo contra a Alemanha, por exemplo, Maradona foi desclassificado da Copa da África do Sul e voltou para casa com uma goleada nas costas. Por não ter feito isso antes da decisão anunciada nesta quinta-feira, Chávez fez um gol contra no primeiro minuto do jogo.

O pretexto para a ruptura foi a descoberta das bases narcoguerrilheiras instaladas pelas Farc em território venezuelano, com a bênção e o patrocínio do amigo Chávez. Para que a denúncia sobre a movimentação das tropas clandestinas não parecesse leviana, o presidente Alvaro Uribe solicitou à Organização dos Estados Americanos que cuidasse de investigá-la formalmente. Antes que a OEA se manifestasse, Chávez e Maradona atacaram.

A discurseira do acusado tornou dispensáveis apurações adicionais. É claro que as sucursais venezuelanas das Farc existem. Chávez já está perdendo. A goleada só começou.

Nunca antes na história do futebol, garantiu o presidente Lula no meio da festança em Zurique,  a FIFA tomou uma decisão tão acertada quanto a que conferiu ao País do Carnaval o privilégio de organizar a Copa do Mundo de 2014. “Será  uma tarefa incomensurável, mas poderemos fazer essa Copa”, caprichou o palanqueiro em 30 de outubro de 2007. Pausa ligeira, uma lágrima furtiva e o cutucão no vizinho: “Faremos uma Copa para argentino nenhum botar defeito. Vocês verão coisas lindas da natureza e nossa capacidade de construir bons estádios.” Passados quase três anos, nenhum argentino enxerga alguma coisa que mereça reparos: a revisita ao palavrório na Suiça informa que só estão prontas as “coisas lindas da natureza” ─ pelo menos as que não dependem do governo.

O resto ─ um mundaréu de obras abrangendo estádios, aeroportos, a malha de transportes urbanos, o sistema de trânsito, a rede hoteleira e outros pontos críticos ─ continua no papel. “Falta tudo”, resumiu no fim da Copa da África do Sul o secretário-geral da FIFA, Jerôme Valcke. Se a Seleção tivesse conquistado o hexa, o carnaval temporão inibiria ou acabaria abafando qualquer cobrança da entidade que controla o futebol mundial. Caso algum cartola com sotaque ousasse atrapalhar o feriadão nacional, seria silenciado aos gritos pela pátria de chuteiras: um país que ganha seis vezes a taça é capaz de fazer em seis meses o que outros não fazem em seis anos.

O fiasco do time de Dunga mostrou que o presidente foi traído pelo complexo de Deus. Nem combinou com os holandeses nem preparou um plano B. Surpreendido pelo pito de Jerôme Valcke, entrou em campo sem aquecimento e viajou na bravata aloprada. “Terminou uma Copa do Mundo na África do Sul agora e já começam aqueles a dizer: ‘Cadê os aeroportos brasileiros? Cadê os estádios brasileiros? Cadê os corredores de trem brasileiros? Cadê os metrôs brasileiros?’”, improvisou. “Como se nós fôssemos um bando de idiotas que não soubéssemos fazer as coisas e não soubéssemos definir as nossas prioridades”.

O uso do sujeito indeterminado comprova que Lula sabe com quem está falando: “aqueles” são os dirigentes da FIFA, entidade que não se impressiona com chiliques de devedores. O uso da primeira pessoa do plural comprova que Lula se considera um Macunaíma mais esperto: o “nós” transforma todos os brasileiros em alvo do petardo endereçado ao destinatário com endereço certo e sabido. Valcke circunscreveu o diagnóstico a uma fantasia batizada de “PAC da Copa”. Mas vale para o PAC1, o PAC 2 e demais filhotes da família aos cuidados da mãe que não diz coisa com coisa. Quem não sabe fazer o que promete é Lula. Quem não sabe definir prioridades e materializá-las é Lula.

Sabe-se há muitos anos que a diferença entre um estadista e um político é que, enquanto o primeiro pensa na próxima geração, o segundo pensa na próxima eleição. Graças a Lula, constatou-se que a segunda categoria se divide entre os que pensam na próxima eleição todos os dias e os que só pensam nisso o tempo todo. Para vencer, fazem qualquer negócio. Vendem a mãe, não admitem erros nem se responsabilizam por estragos causados por gente que nomeou. Os culpados são sempre os outros, vem confirmando o presidente desde que a FIFA denunciou a farsa que ainda ilude milhões de brasileiros.

Dois dias depois do truque do sujeito indeterminado, o camelô de si mesmo reapresentou em Diadema o truque do vilão misterioso. “Tem uma pessoa, que eu não sei quem é, mas que cria muitas dificuldades para dar licenças ambientais não só aqui, mas em várias cidades de São Paulo”, acusou. As risadas subalternas na plateia subalterna avisaram que, se o orador está em dúvida, os ouvintes amestrados sabem que é José Serra.  A invencionice explica porque ainda não deram as caras em território paulista o trem-bala que Lula prometeu começar a construir em 2006, o terceiro aeroporto que Dilma Rousseff prometeu começar a construir em 2007 e outros colossos que só aparecem no comício de todos os dias.

Lula, na opinião de Lula, é o maior governante da História. A afilhada Dilma Rousseff, na opinião do padrinho, é a maior gerente de país de todos os tempos. E no entanto nada acontece, além da multiplicação dos dependentes do Bolsa Família e da liberação de verbas que não chegam ao destino oficial. Favorecido pelo crescimento econômico que segue seu curso apesar do governo, o Brasil é contemplado uma vez por semana com algum milagre visível apenas aos olhos de quem crê nos superpoderes do enviado pela Divina Providência para salvar o Brasil.

Por enxergar as coisas como as coisas são, o secretário-geral da FIFA está cobrando o cumprimento das promessas que fizeram do país a sede da Copa de 2014. Valcke tem motivos para desconfiar de que andou lidando com tratantes e ineptos, mas não usou a expressão “um bando de idiotas”. Quem trata os brasileiros como se fôssemos todos idiotas é o presidente da República.

Em março, a blogueira Yoani Sánchez mandou ao presidente Lula uma carta com um apelo: queria visitar o Brasil em 23 de julho, para assistir ao lançamento do documentário Conexão Cuba Honduras, em que aparece como entrevistada. O destinatário poderia facilitar as coisas se pedisse ao governo da ilha que autorizasse a viagem.

Há uma hora, Yoani divulgou pelo twitter a seguinte informação:

“Pedi a Lula que interceda por mi viaje ante autoridades cubanas, pero carta de invitacion hecha en consulado de cuba en Brasil no aparece”.

O documentário será exibido nesta sexta-feira. Pela quinta vez em três anos, Yoani será impedida de sair do país. E saberá que pediu socorro a um comparsa da ditadura dos irmãos Castro. O governo brasileiro faz todas as vontades do amigo Fidel, como souberam tarde demais os pugilistas Guilhermo Rigondeaux e Erislandy Lara, presos pela Polícia Federal e deportados para Cuba, durante os Jogos Panamericanos de 2007, por ordem do ministro Tarso Genro.

Quem acha que Orlando Zapata procurou a morte na cadeia jamais se comoverá com uma jornalista que procura a vida fora da ilha-prisão.

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Fonte:
Blog Augusto Nunes (Revista Veja

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1 comentário

  • Valter Antoniassi Fátima do Sul - MS

    Tarso genro sendo ministro da justiça age dessa maneira a mando do chefe quadrilheiro do mensalao ,o que nós simples mortais podemos esperar do futuro deste pais? talves tivessemos de incorporar o personagem de Michael Douglas em um dia de fúria...ou quem sabe o próprio bin laden.

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