Lamento! Obama avilta a ONU bem mais do que Bush

Publicado em 21/03/2011 18:15 e atualizado em 21/03/2011 19:20 1203 exibições

O fato de os esquerdopatas brasileiros terem se agarrado a tudo quanto é ditador no mundo e exercido, nos oito anos de governo Lula, um antiamericanismo rombudo está contribuindo para distorcer a percepção de muita gente, impondo supostos alinhamentos automáticos. Há leitores estranhando as críticas que tenho feito às impotências ocidentais no caso da Líbia. Entendo o estranhamento, embora não haja motivo. Vamos pensar.

É mentira, por exemplo, que George W. Bush tenha invadido o Iraque ao arrepio do Conselho de Segurança da ONU. Não houve autorização, mas também não houve veto. A exemplo de Obama, agora, na Líbia, ele não estava sozinho, certo? A exemplo de Obama, agora, houve vozes críticas à ação — a dos franceses, por exemplo, que se mostram os mais beligerantes contra Kadafi. Nicolas Sarkozy está obcecado pela idéia de apagar as pistas de sua proximidade com o dinheiro líbio…

De todo modo, constate-se: a ONU não se comprometeu com a ação do Iraque, vista como expressão máxima do “detestável unilateralismo de Bush, que se arvorava em polícia do mundo, achando que poderia sair por aí depondo e entronizando governos à vontade, decidindo quem pode e quem não pode governar, que forças são ou não legítimas…” Bem, vocês conhecem essa crítica.

Digamos que ela seja verdadeira, exata, reconheçamos ao detestável Bush ao menos uma virtude: não deu um truque nas Nações Unidas; não conspurcou o Conselho de Segurança. Transformou-se no satã de plantão sem arrastar consigo a instituição. E Obama?

Pela primeira vez na sua história, a ONU votou uma resolução que permite às potências ocidentais dar suporte a um grupo armado contra outro grupo armado. Não se está falando de uma força de paz que chega para tentar impedir o confronto, quando governo já não há. Nada disso! Sob o pretexto da proteção aos civis e da imposição de uma zona de exclusão aérea, bombardeia-se  o país; sob o pretexto da proteção aos civis, adere-se abertamente a um dos lados do conflito sustentando, como fez o conselheiro Thomas Donilon (post acima): “Os rebeldes são civis”. Ainda que não sejam.

Bush invadiu o Iraque sem uma resolução; Obama se aproveita da resolução para fazer o que bem entende. Bush invadiu o Iraque porque havia decidido que Saddam não podia mais ficar no governo; Obama invadiu a Líbia — por ar e mar — porque decidiu que Kadafi não pode mais ficar no poder. Bush queria proteger a humanidade das armas de destruição em massa — o conselho não aceitou o argumento, e ele foi adiante. Obama quer proteger os civis, o conselho aceitou o argumento, e ele mandou bombardear o país. O conselho saiu preservado do erro —  ou da má fé (cada um avalie como quiser) — de Bush; Obama tornou o conselho cúmplice de seus “motivos”. Reitero: que Kadafi se dane, mas que as coisas sejam chamadas pelo nome: “Estamos agindo para derrubar Kadafi!” E que isso tivesse sido submetido à votação do Conselho de Segurança. Da forma como as coisas estão, EUA, Inglaterra e França usam a ONU como mero pretexto. E eu, definitivamente, não creio que isso contribua para uma “ordem inernacional” saudável!

PS: Ah, sim: todos os esquerdosos que babavam e babam ainda quando falam de Bush apóiam incondicionalmente a ação contra Kadafi. Talvez nem achassem Saddam um cara mais bacana do que Kadafi; é que um caça despejando bombas sob as ordens de  Bush são  a barbárie; sob as ordens de Obama, um verdadeiro poema de amor à humanidade!

Bando de vigaristas!

Por Reinaldo Azevedo

A fala mais importante de Obama no Brasil é a defesa da “revolução” árabe. É um gênio! Discurso tem potencial para incendiar o Oriente Médio

O trecho mais importante, no sentido de que pode levar a desdobramentos, do discurso de Barack Obama no Teatro Municipal do Rio, entendo, nada teve a ver com o Brasil, a não ser por associação: refiro-me à verdadeira exaltação que Obama fez da “revolução” árabe. O nosso país foi oferecido como um exemplo a ser seguido por aqueles povos porque caminhou da ditadura para a democracia. É uma besteira, evidentemente, mas uma besteira que comove. Retomarei esse aspecto depois. Falemos um pouco dos nativos...

Para os nativos
Luiz Inácio Lula da Silva, que não foi ao almoço com Obama em Brasília, ao ouvir o discurso do presidente americano no Teatro Municipal, poderia dizer com propriedade: “Pô, esse cara está colando um monte de coisa que eu falo por aí”. E seria uma constatação justa. Lula e Dilma foram saudados como expressões virtuosas da democracia brasileira: no início do discurso, o ex-presidente foi saudado como o “garoto pobre de Pernambuco” que saiu “da fábrica para ser presidente da República”; no fim, ela foi exaltada como a “filha de imigrantes”, que foi “presa e torturada por seu próprio governo”, que “sabe como é viver sem liberdade”, mas que soube “perseverar”.  Acho que, por uma questão de justiça e, convenham, para dar efeito prático à retórica obamista, os brasileiros ainda hoje impedidos de entrar nos EUA porque seqüestraram o embaixador Charles Elbrick devem reivindicar a revogação da proibição. A exemplo de Dilma, também integravam organizações terroristas que buscavam “democracia”, certo?

Em nenhum momento, nas conversas públicas ou privadas, Obama acenou com a aspiração brasileira de ter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. O país não mereceu aquele enfático “sim”, embora sem prazo, com que a Índia foi premiada. Em artigo publicado na imprensa americana, Obama deixou claro que está aqui em busca de melhores oportunidades de negócios. Mas isso não é coisa que se diga em público. Então sobram elogios à pujança da economia, aos milhões que saíram da pobreza e, sem meias palavras, a um mote das campanhas eleitorais petistas: o Brasil não é mais o país do futuro: “O futuro já chegou”.

E passou a defender relações mais estreitas entre as economias americana e brasileira, falando na “quebra de barreiras” e no desenvolvimento da economia verde para “proteger o planeta”, num mundo sem armas nucleares. Então tá. Agora ao que interessa.

Oriente Médio e Líbia
Nas questões adjetivas, Obama falou, em suma, o que o governo brasileiro, o de Dilma ou de Lula, gostaria de ouvir. E engatou a marcha para entrar no caso Líbio. ATENÇÃO! Obama é o presidente que ordenou um ataque a um país estando em viagem, fora de solo americano, como a evidenciar, com efeito, o alcance global do poderio dos EUA, o que é mel da sopa para os extremismos islâmicos. Trata-se de uma decisão irresponsável, para dizer pouco. Mas como recobri-la com o viés de uma ação humanitária? Simples: defendendo os valores universais da democracia. E foi o que ele fez.

Esse discurso, que já serviu à paz, agora passou a servir à guerra. O Brasil foi oferecido como exemplo de país que passou da ditadura à democracia e serviria de inspiração para os árabes. 

Obama fala de uma “revolução” (ele usou essa palavra, omitida na tradução daquele vídeo lá do alto), “nascida na Tunísia em defesa da dignidade humana”. Em seguida, referindo-se ao Egito, afirmou: “Vimos protestos pacíficos na praça Tahir: homens e mulheres, velhos e jovens, cristãos e muçulmanos…” E na seqüência: “Vimos o povo da Líbia, lutando com determinação contra um regime que brutaliza seus próprios cidadãos”. E mais: “Por toda a região, vemos a juventude se levantar, uma nova geração reivindicando o direito de decidir o seu futuro”.

Ninguém menos do que o presidente dos EUA, país aliado de várias ditaduras do Oriente Médio, deu um caráter único, o que é falso, aos vários levantes da região. No Egito, a luta, com efeito, foi pacífica. Na Líbia, no entanto, há uma guerra civil; no Bahrein, o confronto é de natureza religiosa… Não interessa! A fala de Obama tem potencial para realmente incendiar o mundo árabe. No Iêmen, já se mata mais de 40 num único confronto. Se o governo não cai, por uma questão de coerência, restaria aos EUA a intervenção, certo?, em nome do tais valores universais que, segundo se entende de sua fala, determinaram o ataque à Líbia.

Mas quem resiste a um discurso em favor da democracia como a aurora da humanidade, como se ela fosse um destino fatal? Ninguém!  Bush, sem o charme de Obama, era só um sanguinário, um “Osama Bin Laden de Cristo”, diria Arnaldo Jabor. Este é diferente! Ele manda atacar um país estrangeiro em guerra civil, enquanto está a passeio, e isso se parece com um novo amanhecer. Mais do que isso: o ataque se dá, segundo entendi, em nome da autodeterminação dos povos! Ainda não concluí se o discurso é mais temerário do que ridículo ou mais ridículo do que temerário.

Para encerrar: Ô Franklin Martins, pegue o discurso de Obama e vá pedir seu visto de entrada nos EUA. Como Dilma, você também só estava se sacrificando pela democracia; agora é Obama quem diz! Pois é, leitores: meu único compromisso com vocês é falar tudo e manter a fidelidade a um princípio: palavras fazem sentido e devem ter conseqüências. Obama conclama o povo do Oriente Médio a ir para a rua.

É a “revolução da dignidade humana!

Post publicado originalmente às 19h26 de ontem
Por Reinaldo Azevedo

Conselheiro de Obama comprova: “Tio Rei está certo; parem de encher o saco dele à toa!”

Ai, ai… Uma certa saudade do tempo em que as palavras faziam sentido!

Este bloguinho adora ler certos documentos que muitos deixam de lado. Li, por exemplo, a resolução da ONU que autorizou a imposição da zona de exclusão aérea na Líbia, que resultou, na prática, em bombardeios ao país. A medida, está lá escrito, estaria destinada a proteger civis. Os “aliados” encontram civis em perigo no complexo residencial de Muamar Kadafi, mas, dizem os comandantes da guerra, o objetivo não é derrubá-lo… Certo!

Ao ler o documento, como sabem os leitores desta página, observei que o “cessar-fogo” era uma determinação imposta só a Kadafi, mas não àqueles que querem derrubá-lo. E o querem como? Com reza, sentados na praça, e discursos? Não! Com fuzis, tanques, aviões e baterias antiaéreas. “Olhem, o Reinaldo está torcendo para o Kadafi”. Que asneira! Não! Eu estou dizendo que as palavras fazem sentido.

Nunca antes da história da ONU se aprovou uma resolução que determinava que uma força armada estava proibida de reagir a… outra força armada! Houve quem me acusasse de ler errado o texto. É mesmo?

Ontem, Thomas Donilon, conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, afirmou: “Tio Rei está certo! Parem de bobagem! O cessar-fogo só vale para Kadafi. Estamos fazendo isso para que os rebeldes avancem”. Para os que não entendem piada, advirto: ele não disse a coisa exatamente assim. Afirmou: “Os rebeldes são civis”. Ah, bom, agora está tudo explicado!

Os rebeldes são civis armados com tanques, aviões, fuzis e baterias antiaéreas. “Civil” é quem os aliados dizem ser “civil”. Então está certo! Assim, os militares que desertaram do governo Kadafi — os principais líderes da “resistência” integravam o primeiro escalão do ditador até anteontem — são civis; e os milhares de civis que apóiam Kadafi, e os há aos montes, são, então, militares. Sempre que um militar rebelde matar um civil governista, estaremos diante de um erro de percepção: o militar é civil, e o civil, militar.

A “proteção aos civis” e a tal “zona de exclusão aérea” foram truques usados para que EUA, França e Inglaterra — agora com o apoio do Catar, esta democracia exemplar — pudessem aderir a um dos lados da guerra civil. Obama submete a ONU a um aviltamento que transformam George W. Bush num coroinha da ordem internacional. Explicarei por quê.

Por Reinaldo Azevedo

Nos braços do Cristo. E o óbvio

obama-cristo-redentorObama, Michelle e as obaminhas, Sasha e Malia, visitaram o Cristo Redentor só à noite. Chegaram às 21h15. Consta que passaram dois minutos em silêncio, observando a estátua. Depois decidiram contorná-la. Certo!

O Cristo Redentor não é mais um símbolo religioso apenas, mas Aquele com os braços abertos sobre a Guanabara segue sendo quem é. Fazer a visita pouco depois de dar autorização para bombardear um país islâmico e no dia em que a ação de guerra fez vítimas civis (segundo a Liga Árabe, que apoiou a zona de exclusão aérea) constitui, entendo, uma inabilidade a mais dos gênios que cercam Obama.

A esta altura, as fotos já circulam nos meios extremistas islâmicos como prova de que, como é mesmo?, os “Cruzados” estão de volta.

Estou vendo coisa? Estou, sim! O óbvio!

Por Reinaldo Azevedo

Até no New York Times já há quem se pergunte que diabos Obama anda fazendo…

Ufa! Alguém mais no mundo tem dúvidas, ainda que um tanto cínicas, a exemplo das minhas! Não deixa de ser um conforto! Uma análise de Helene Cooper e David E. Sanger, publicada na edição online do New York Times (aqui), lembra que a ação militar na Líbia não consegue responder uma questão importante: é para proteger os civis ou para tirar Muamar Kadafi do poder, como quer o presidente Barack Obama? Pois é…

Ontem, houve bombardeios a Trípoli, onde não há sinais de que Kadafi “massacre a população”. Nesse caso, o objetivo é…, deixe-me ver, bem, creio que o objetivo seja derrubar o ditador, conforme quer Obama, ainda que, na capital, isso possa custar a vida de muitos líbios, cuja proteção motivou a resolução. O governo afirmou que 64 morreram, o que os aliados negam. As mortes, no entanto, foram confirmadas por Amr Moussa, chefe da Liga Árabe, que apoiou a zona de exclusão aérea — “mas era para protegr civis, não para matá-los”, disse Moussa. Um prédio do complexo residencial foi atingido.

Ocorre que não foi para isso que as nações aliadas ganharam uma autorização da ONU. A resolução diz que é para fazer o necessário para proteger os civis. É bem verdade que se pode entender que matar Kadafi, com alguns danos colaterais, é uma forma de alcançar esse objetivo… E quem protegerá depois dos inimigos de Kadafi esses civis?

Os republicanos estão de olho. “O presidente é o comandante-em-chefe, e o governo tem a obrigação de definir para o povo americano, para o Congresso e para as tropas qual é a missão na Líbia, explicando melhor qual é o papel da América e o objetivo da missão, deixando claro como ele será alcançado”, afirmou num comunicado o presidente da Câmara, John A. Boehner. Pois é… O deputado Howard P. McKeon, presidente do Comitê das Forças Armadas, fez a mesma pergunta: “O nosso objetivo é proteger civis ou tirar Kadafi do poder? Nos dois casos, quais recursos militares são necessários e por quanto tempo?”

Como se nota, ninguém sabe nada. Stephen J. Hadley, um ex-conselheiro de George W. Bush e um dos arquitetos da invasão do Iraque, disse não identificar com clareza esse objetivo: “Há uma incompatibilidade entre o que o presidente disse querer, o que a ONU autorizou e os recursos que foram mobilizados”. Segundo ele, nas atuais condições, há o risco de um fracasso — leia-se: Kadafi continuar no poder.

Acho difícil. Mas a queda pode demorar mais do que os EUA gostariam. Como já lembrei aqui, a resolução não deixa claro — ou melhor: deixa! — se os ditos rebeldes podem ou não avançar. Podem! Zona de exclusão aérea, nesse caso, tornou-se uma aliança de EUA, França e Grã-Bretanha com os revoltosos. Estes, à diferença da população que ocupou a praça Tahir no Egito — evento a que Obama se referiu ontem —, têm rifles, tanques, aviões e bateria antiaérea.  Pense você o que pensar sobre a guerra no Iraque, o objetivo, naquele caso, era claríssimo: derrubar Saddam Hussein.

Como se nota, não sou só eu a apontar o caráter insólito, singular mesmo!, desta guerra. EUA, França e Grã-Bretanha decidiram escolher o lado de uma guerra civil e bombardear alvos na Líbia. Certo! Esse bombardeio, diz-se, busca apenas “proteger civis”. Parte desses civis protegidos protagoniza uma luta armada. Os três países querem o ditador fora do poder — Sarkozy já reconhece o “governo” dos rebeldes como legítimo, embora, até ontem, Kadafi tivesse o domínio quase total do país. Oficialmente, no entanto, o objetivo da ação não é depor o tirano.

O fim da hipocrisia, nesse caso, pode salvar vidas. Se os aliados conseguirem saber onde está Kadafi, joguem logo um míssil na cabeça dele. Basta dizer depois que houve um engano. As coisas se resolvem na ONU, como sempre. Todos sabemos que, dado o estado das artes, se Kadafi ficasse no poder, Obama é que estaria liquidado.

O presidente se candidata à reeleição no ano que vem. Ou Kadafi é seu ativo eleitoral ou o envia para o esquecimento. Aqui está a resposta que Helene Cooper e David E. Sanger procuram. O presidente dos EUA quer uma guerra que possa vencer, mas sem entrar no território inimigo. A Líbia vem bem a calhar, ainda que, no médio prazo, Obama esteja armando uma arapuca no Oriente Médio como nunca antes se viu na história deste mundo!!! Quem viver verá.

PS: Até no obamista New York Times há gente se perguntando que diabos Obama anda fazendo. Perguntem ao Arnaldo Jabor. Ele não tem a  menor dúvida!

Por Reinaldo Azevedo

A Al Jazeera também vai participar dos ataques?

Explico! A ditadura do Catar resolveu se juntar aos esforços de guerra de EUA, França e Grã-Bretanha. Também participará da “expedição civilizadora” à Líbia para “proteger civis”. O emir Hamad bin Khalifa, dono do país e de tudo o que há nele —  pessoa, animal ou coisa —, é tão democrático como qualquer líder da região. Deu um golpe no próprio pai! A decisão vem bem a calhar. A emissora Al Jazeera, que também é de Hamad, é a verdadeira “alma” daquilo que o cândido Obama chamou ontem de “revolução”! O Ocidente baba por ela. O Apedeuta deu uma palestra lá na semana passada, num seminário em que se discutiu justamente o levanta árabe — menos, evidentemente, no Catar… A Al Jazeera, dizem, é uma experiência de TV árabe que busca fazer jornalismo. Certo! Ela só está proibida de tratar de assuntos que digam respeito a seu país de origem.

Por Reinaldo Azevedo

PT privatizando: Dilma cria órgão que cederá aeroporto à iniciativa privada

Na Folha:
Por Sheila D’Amorim, Breno CosaDepois de meses de discussão no governo, a presidente Dilma Rousseff criou a Secretaria de Aviação Civil com poderes para transferir à iniciativa privada o direito de explorar os aeroportos. A criação do órgão foi antecipada pela Folha
 em janeiro. Vinculada à Presidência, terá status de ministério e foi criado por medida provisória numa edição extra do “Diário Oficial da União”. Toda a estrutura da aviação civil, hoje sob o Ministério da Defesa, será transferida para a secretaria. Ela responderá por Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) e Infraero (que administra os principais aeroportos).

A presidente decidiu mandar a MP ao Congresso mesmo sem ter o nome do titular da pasta. O governo tentou convencer o presidente do grupo Safra, Rossano Maranhão, a aceitar o cargo. Mas ele não poderia assumir o cargo já, como queria Dilma. Apesar de Maranhão ter interesse, seu desligamento exigiria alguns meses, e o governo avaliou que não poderia esperar. Cogitou-se que a pasta iniciasse o funcionamento com um ministro interino, mas Dilma não quis. Segundo a Folha apurou, o nome mais cotado para a pasta é o do ex-ministro das Cidades Márcio Fortes. Outra alternativa é o presidente da Oi, Luiz Eduardo Falco. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

Lula, o presidente em busca de um país

Por que, afinal de contas, Lula não foi ao almoço com Barack Obama? A sua turma vazou para a imprensa que ele não queria ofuscar Dilma Rousseff. Huuummm… Naquele ambiente, ele ficasse tranqüilo: não havia a menor chance. E por várias razões: o oficialismo ama o poder e a caneta. Por mais “charmoso” e “atraente” que Lula seja, a estrela brasileira do encontro seria a presidente Dilma Rousseff, e o grande astro do evento, Barack Obama.

Estaria o Apedeuta bravo com Dilma a ponto de não comparecer? Seria contragimento por não falar inglês? Bobagem! Isso faria supor que Lula pode, em certos casos, duvidar de si mesmo, o que não é de sua natureza.

Ele não foi em razão de uma soma de motivações psicológicas e políticas.  Lula tem uma personalidade vingativa. Sempre foi assim. Ele resgatou alguns dinossauros da política e lhes deu vida nova; eram seus adversários no passado. Os casos mais notórios são José Sarney e Fernando Collor. Se fez amigos os inimigos, esmagou alguns aliados. Aqueles aceitaram se submeter à sua liderança; estes, em algum momento, ousaram resistir. Ele não engole até hoje a rejeição de Obama ao acordo nuclear com o Irã e não perdoa ao outro ser, afinal de contas, quem é: o líder mais poderoso do mundo (a despeito de sua ruindade). Se Lula pudesse, esmagaria o presidente americano. Como não pode, dá uma de malcriado.

Há mais. Ele foi convidado para uma festa na qual seria mero coadjuvante, tendo de dividir a cena com seus parceiros de nicho: os ex-presidentes. A história de que ele temia ofuscar Dilma tem de ser lida pelo avesso: porque sabia que esse risco, ali, não existia,  preferiu ficar em casa, roendo os cotovelos. E nem acho que tenha sido movido pela inveja. A exemplo do que se notou nos últimos dois meses de governo, quando passou a falar alucinadamente, está certo que lhe tomaram algo de seu.

O Lula real, como já disse aqui algumas vezes, deve mesmo acreditar que é o Lula do mito. No evento de ontem, ele seria só mais um. Tal papel não é compatível com a personagem que está na política há mais de 35 anos. FHC acabou sendo uma das figuras de destaque do dia porque sabe ser um ex-presidente. Ao chegar em casa, foi cuidar de outros assuntos. O Apedeuta não, coitado! Ele é hoje um presidente em busca de um país.

Por Reinaldo Azevedo

Paranauê, paranauê, paraná…

Michelle, as filhas e Marin, a avó: nativos de pernas pro ar e uma baita animação

Michelle, as filhas e Marin, a avó: nativos de pernas pro ar e uma baita animação

Michelle Obama e filhas — a cara de tédio das meninas, às vezes, chegava a ser engraçada — devem imaginar que somos todos como os indianos de Glória Perez (no dia em que elas conhecerem os indianos de Glória Perez): quando não tinham o que fazer, saíam dançando… Assim somos nós, mas em outra arte: é só a gente ter uma folga, lá vem capoeira! As Obaminhas devem estar se perguntando: “Que tanto esses brasileiros ficam de ponta-cabeça e pernas pro ar?”

Como todos sabemos, a capoeira nos une histórica, artística, intelectual e moralmente, não é mesmo? É uma arte difundida nas ruas. Em tudo quanto é canto, rico ou pobre, na Rocinha (Rio) ou no Jardim Europa (SP), brasileiro não resiste àquele batuque e pimba! Tome as palmas da mão plantadas no chão e… pernas para o ar! A gente é assim mesmo!

Certa antropologia pretende que há nisso um atavismo, coisa lá da Mama África, né? Há quem esteja convicto de que Obama, um mestiço, sente nas veias os ecos do tambor!!! As coitadas foram submetidas não a uma, mas a duas sessões de capoeira — uma delas em presença do chefe da família.

Tio Rei já tem 49, o crânio um tanto prejudicado, vocês sabem (dizem os petralhas que o cérebro também), e teme ter uma vertigem em movimentos mais bruscos. Membros dianteiros no chão nem pensar! Tio Rei vai aprender a tocar tambor.

Abaixo, reproduzo o “Abadá da Capoeira”. Se for difícil decorar a letra, leitor, imprima e carregue sempre no bolso. Nunca se sabe quando você será instado a exibir ao “sagaz brichote” (Gregório de Matos) seu certificado de brasilidade. Eu já consegui memorizar um verso ao menos. Já canto “Oô, oô, oô oô oô” sem ler!!!

Oiá iá iá ía
Foge o nego sinhá (Coro)
Oiá iá iá ía,
Traz o nego sinhá (Coro)
Oiá iá iá ía
Foge o nego sinhá (Coro)
Oiá iá iá ía
Traz o nego sinhá (Coro)
Oiá iá iá ía
Foge o nego sinhá (Coro)
Oiá iá iá ía
Traz o nego sinhá (Coro)

Paranauê, (Coro), paranauê paraná
Paranauê, (Coro), paranauê paraná
Paranauê, (Coro), paranauê paraná
Paranauê, (Coro), paranauê paraná

(Coro)
Oô, oô, oô oô oô
Oô, oô, oô oô oô

(Coro)
Oô, oô, oô oô oô
Oô, oô, oô oô oô

Oiá iá iá ía
Foge o nêgo sinhá (Coro)
Oiá iá iá ía,
Traz o nego sinhá (Coro)
Oiá iá iá ía
Foge o nego sinhá (Coro)
Oiá iá iá ía
Traz o nego sinhá (Coro)
Oiá iá iá ía
Foge o nego sinhá (Coro)
Oiá iá iá ía
Traz o nego sinhá (Coro)

Paranauê, paranauê paraná
Paranauê, paranauê paraná (Coro)
Paranauê, paranauê paraná

(Coro)
Oô, oô, oô oô oô
Oô, oô, oô oô oô

(Coro)
Oô, oô, oô oô oô
Oô, oô, oô oô oô

(Coro)
Oô, oô, oô oô oô
Oô, oô, oô oô oô

Oiá iá iá ía
Foge o nego sinhá (Coro)
Oiá iá iá ía,
Traz o nego sinhá (Coro)
Oiá iá iá ía
Foge o nego sinhá (Coro)
Oiá iá iá ía
Traz o nego sinhá (Coro)
Oiá iá iá ía
Foge o nego sinhá (Coro)
Oiá iá iá ía
Traz o nego sinhá (Coro)

Paranauê, paranauê paraná
Paranauê, paranauê paraná (Coro)
Paranauê, paranauê paraná
Paranauê, paranauê paraná (Coro)

Paranauê, paranauê paraná
Paranauê, paranauê paraná (Coro)
Paranauê, paranauê paraná
Paranauê, paranauê paraná (Coro)

Post publicado às 20h37 de ontem
Por Reinaldo Azevedo

Pernada a três por quatro!

Epa! Calma lá!

Escrevi ontem um post bem-humorado sobre a capoeira — ou melhor, sobre a obsessão das autoridades brasileiras de expor a família Obama àquela nossa ginga. E veio protesto de todo lado. Até de “racista” fui chamado, como se a capoeira para consumo de turista não fosse uma pobre manifestação do establishment, uma tentativa de oferecer o povo num pequeno pacote, como esses macarrões instantâneos: deixe a água ferver e jogue a massa! Em dois minutos, dá para saborear o brazuca.

Ainda que eu tivesse escrito um texto para dar início a um debate cultural sobre a importância da capoeira na formação da moral profunda do povo brasileiro, não era para tanto. Sendo, como é, um mero gracejo, menos ainda. Mas o fascismo politicamente correto não perdoa. E não estou me referindo a leitores de boa-fé, que me explicam a importância dessa manifestação cultural —  comentários dessa natureza estão publicados. Não! Falo de gente que está convicta de que só um “branco azedo” como eu faria uma graça como aquela, o que pressupõe, então, que todo negro se sente representado naquela ginga.

Vamos lá! Chegou a hora de dar umas pernadas!

Por Reinaldo Azevedo

Os patrulheiros transformam até Bethania e Chico Buarque em manifestações folclóricas

Por que o politicamente correto é uma manifestação de estupidez e censura? Porque os patrulheiros abandonam o eventual objeto do debate ou análise e passam a julgar as motivações do crítico. Ainda que o objetivo daquele meu post de ontem, tirando uma casquinha da capoeira, fosse mais divertir do que dar início a uma peleja intelectual, é claro que há lá uma constatação objetiva, que pode ser debatida, independentemente do meu gosto pessoal: é mentira que essa dança, ou luta, tenha a importância que lhe atribuem, a ponto de visitantes ilustres serem submetidos duas vezes a uma apresentação.

Digamos que a capoeira tenha sido, mesmo!, uma das formas de resistência dos escravos — se foi, haja ineficiência!; o Brasil ficou na rabeira na extinção da escravatura! —, e daí? O que ela diz hoje do que nós somos? Isso na hipótese de que é possível dizer a um visitante estrangeiro: “Somos isso”! Deve haver mais gente que joga críquete no país… Dar relevância a esse tipo de coisa como traço de formação da nossa cultura é tentar submeter a história a uma espécie de regressismo a partir de alguns marcos que são nada mais do que escolhas de natureza ideológica. Na Cidade de Deus mesmo, aposto o que quiserem, há mais moleques interessados no rap e no funk — importados duzamericânu— do que na capoeira.

Meu post, em suma, no que tinha de sério, chamava a atenção para essa superestimação. A capoeira não deixa de fazer parte da “bundalização” da cultura brasileira; o “traseiro” de exportação seria o nosso lado sensual; a luta de exportação, a resistência dos oprimidos. O Brasil de verdade, no entanto, não se define nem pelos traseiros fartos nem pela ginga manemolente.

Mas que se dane o objeto em debate, certo? É preciso inventar uma nova categoria para censurar a palavra alheia. Assim, uma crítica dessa natureza passa a ser “reacionária”, “de direita”. É coisa de vigaristas intelectuais, de pilantras, de fascistóides. Os patrulheiros querem ser os donos da agenda e determinar o que é e o que não é legítimo debater. Querem ver?

Como foi que Jorge Furtado reagiu às críticas à decisão de premiar o Blog da Bethania com capilé oficial? Em tempo: Furtado é aquele cineasta que vê São Paulo como um enclave da cultura branca, de direita, o que quer dizer que os paulistas devemos nos abster de aborrecê-lo assistindo a seus filmes no cinema ou a seus especiais na TV. Muito bem: qual foi a reação dele?
- NÃO DEBATEU SE A CONCESSÃO ERA JUSTA OU NÃO.
- NÃO DEBATEU SE A REMUNERAÇÃO ERA JUSTA OU NÃO.
- NÃO DEBATEU SE OS CRITÉRIOS DE CONCESSÃO FAZIAM OU NÃO SENTIDO.
- NEM MESMO LEU O PROJETO!

Numa manifestação de impressionante vigarice intelectual, preferiu colar uma pecha nos críticos: “direita branca!” E pronto! O mesmo aconteceu com Chico Buarque, que surrupia Jabutis. Algumas coisas estavam em debate, outras não! Por exemplo: ninguém questionava as suas qualidades de compositor de MPB. O que estava em tela eram os critérios da premiação literária e, sim!, a partir de um determinado momento, as qualidades de seus romances.

Ah, só conservadores, direitistas, reacionários no geral ousariam pôr em questão as concessões a Maria Bethania ou a premiação da obra de Chico Buarque. O conteúdo da crítica que se dane! É preciso dizer que o crítico não tem legitimidade para fazê-la. A patrulha pretende definir o que pode e o que não pode ser discutido. Se preciso, até cantores de MPB passam por um processo de folclorização para que possam ser postos acima do bem e do mal. Bethania e Chico — ele muito especialmente — seriam heróis de uma momento de resistência da cultura e da política, o que lhes conferiria um sentido superior, acima da expressão de suas respectivas obras.

Até aí, vá lá, acho que tal defesa poderia ser feita — ainda que eu considere uma abordagem estúpida — com um mínimo de honestidade intelectual. Defendam que “patrimônios da cultura brasileira” como a capoeira, Chico Buarque e Maria Bethania são intocáveis. Outros tantos dirão o contrário. Mas não! Os fascistóides não se conformam com a divergência e precisam encontrar nos críticos motivações subalternas, alheias ao objeto de confronto.

Não aqui! Capoeira, Bethania, Chico Jabuti, Obama ou o papa, tudo será submetido a exame. Os candidatos a delegados da Polícia das Consciências podem rosnar à vontade.

Por Reinaldo Azevedo

Abaixo a falsa mitologia sobre a formação do povo brasileiro! Chega de ficar dando pirueta na frente dos estrangeiros! Viva o povo vertical, com os dois pés no chão!

Os textos que escrevi sobre a capoeira estão dando o que falar na Internet e dividindo opiniões. Continua uma avalanche de gente a me lembrar que se trata de uma expressão cultural de resistência, vinda com os escravos etc e tal. Eu sei! A minha crítica é dirigida à fetichização da tal “expressão cultural” e à falsa verdade de que a dança, ou luta, está tão presente na nossa vida como, sei lá, o futebol por exemplo — que chegou por aqui bem depois…

Aliás, eis aí: o que gerou, entre nós, mais saber e formas próprias de expressão? A capoeira, que veio com os escravos, no período de formação do Brasil, ou o futebol, que aportou alguns séculos depois, com os ingleses, consagrando um anglicismo na língua do qual ninguém mais se dá conta?

E olhem que eu não acho que a gente deva botar moleques e meninas fazendo embaixadinha para os Obamas e as Obaminhas… Nelson Freire não bate bola e também é Brasil. Para Tio Rei, se houvesse meninos favelados que tocassem oboé, sua presença num evento político-turístico seria tão legítima quanto a dos meninos que dançam capoeira.

O chato é que ninguém sobe a favela para levar oboé, Kant ou gramática. Há uma certa tendência a ensinar ao povo aquilo que ele pode aprender sozinho: bater bumbo, dançar capoeira, fazer rap — notem que misturo expressões que seriam “nossas” com outras que vieram de fora.

Eu me aponho é à folclorização de nossas origens para despertar a atenção daquele que, no fundo, consideramos superior, como se não pudéssemos competir com ele no campo da razão e só nos restasse o charme daquela velha picardia e esperteza. Lula transformou esse sentimento em arrogância, que é o complexo de inferioridade na sua fase agressiva. Declarou-se melhor do que os outros e pronto!

Gente, eu conheço todas as virtudes da capoeira! Eu só estou dizendo que ela não representa o Brasil. Aliás, eu não sei direito o que representa o Brasil. Quando Dilma visitar os EUA, que expressão folclóca ou primitiva lhe será apresentada como síntese e sumo do povo americano? Provavelmente, nenhuma! Não são dados a esse tipo de coisa!

Eu acho que a gente precisa parar com isso, entenderam? Por que precisamos dizer ao “outro” quem nós “RE-AL-MEN-TE” somos? Nós, RE-AL-MEN-TE somos um monte de coisa! Como Obama estava aqui para falar de negócios, seria muito mais legítimo um desfile do que temos conseguido produzir de tecnologia de ponta na indústria, no agronegócio, nos serviços…

No dia em que antropólogos americanos — ou haitianos, tanto faz — chegarem aqui para um colóquio, então a gente dança, canta, pula, faz pirueta, bate bumbo, acorda os espíritos com tabaco, bebe cauim, chama Anhangá, a Cuca, o Saci-Pererê, o Boitatá, o boto, a Loura do Banheiro…

Por Reinaldo Azevedo.
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Blog Reinaldo Azevedo (Veja)

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