O caso dos ministros revistados confirma que um policial bem treinado reconhece de longe quem tem culpa no cartório

Publicado em 21/03/2011 18:28 882 exibições
Do Blog de Augusto Nunes (VEJA)


“Ministro meu não vai tirar sapato para revista”, gabou-se durante oito anos o ex-presidente Lula, tentando transformar em agressão à honra nacional um episódio sem maior relevância protagonizado em 2002 por Celso Lafer, então ministro das Relações Exteriores. Mas pode ser humilhado com sapatos, soube o país em julho do ano passado, quando o chanceler Celso Amorim foi impedido pelo governo israelense de entrar na Faixa de Gaza e sumariamente despachado de volta para casa.

Desmoralizada por Amorim, a bravata do palanqueiro acaba de ser pulverizada pela rigorosa revista a que foram submetidos por policiais americanos ─ em território brasileiro ─ quatro ministros de Estado. Edison Lobão e Guido Mantega foram ministros de Lula e continuam titulares no time de Dilma Rousseff. Aloízio Mercadante ganhou o emprego por ter perdido a eleição de que participou por ordem de Lula e Dilma. Fernando Pimentel é um pupilo de Dilma que Lula topou engolir.

Ao chegarem para o encontro da Cúpula Empresarial Brasil-Estados Unidos, foram todos apalpados com minúcia e vagar pelas mãos de agentes do esquema de segurança de Barack Obama.  Os quatro deixaram o local do evento antes do discurso do presidente americano. “Eles não pensaram duas vezes para retirar-se”, equivocou-se o site doEstadão. Pensaram muito mais que duas vezes em pedir para sair.

Pensaram nisso a cada apalpadela mais forte, como atestaram a cara amuada de Mercadante, os muxoxos de Mantega e os rosnados em surdina de Edison Lobão. E voltaram a pensar quando descobriram que os organizadores do evento não haviam providenciado um sistema de tradução simultânea. Só então decidiram bater em retirada. Abandonaram o recinto não por sobra de altivez, mas por falta de fones de ouvido.

No momento da revista, os pais-da-pátria já tinham oferecido aos fotógrafos a expressão do aristocrata pilhado com as calças puídas nos fundilhos. Preferiram poupar-se de posar para a posteridade com o olhar idiotizado do monoglota que simula com movimentos de cabeça estar entendendo o que lhe parece tão inteligível quanto um poema em grego antigo.  O quarteto caiu fora porque o vocabulário em inglês não vai muito além do debuquisondeteibol.

Edison Lobão diz que os organizadores da visita haviam prometido dispensar ministros de revistas e quer explicações do chanceler Antonio Patriota. O acerto certamente foi transmitido à turma da segurança, mas acabaram prevalecendo o instinto e a experiência de profissionais treinados para reconhecer de longe quem tem culpa no cartório. Diante da aproximação de um Edison Lobão, por exemplo, qualquer policial americano do primeiro time precisa de muito sangue-frio para não levar a mão ao coldre.

Lobão até que tem sorte. Se os agentes de Obama soubessem português e conhecessem o prontuário disfarçado de ministro, “Magro Velho” não escaparia de um “Teje preso!” com sotaque americano.

O Brasil está fora da zona dos terremotos, mas permanece na rota dos mercadantes

Abalado pela segunda surra eleitoral consecutiva, o companheiro Aloízio Mercadante ganhou do Planalto o antidepressivo prescrito para flagelados das urnas: uma vaga no primeiro escalão. Formado em economia, ele sonha com o Ministério da Fazenda desde que se tornou conhecido no berçário por não cumprimentar os bebês vizinhos. Como o desemprego torna menos exigentes até os mercadantes, o candidato derrotado ao governo paulista aceitou o Ministério da Ciência e Tecnologia com a animação de quem foi convidado para a presidência do Banco Central.

Essa estranha mistura de sabujice e arrogância precisou de dois ou três dias no emprego novo para virar especialista em coisas que ignora profundamente. Bastou-lhe uma ligeira mirada na Região Serrana devastada pelas tempestades, por exemplo, para avisar que isso não se repetirá. Dias depois, debitou na conta do aquecimento global o incêndio que destruiu os barracões de três escolas de samba do Rio. Nesta semana, um terremoto e um tsunami no Japão precipitaram o aparecimento da versão-2011 de Aloízio Mercadante: o doutor em acidentes naturais e questões nucleares.

A novidade estreou nesta terça-feira, numa entrevista coletiva em Brasília.  “No Brasil não tem os terremotos, tsunamis ou maremotos que têm no Japão”, começou a procissão de platitudes em mau português. “O Brasil não tem fronteira de placa tectônica. Tem chuvas, inundações e desmoronamentos, como já aconteceram em Angra dos Reis”. Seguiram-se tranquilizadoras comparações que, somadas, exibem a superioridade do colosso tropical sobre o Japão.

“O programa nuclear brasileiro tem uma linha de defesa mais rigorosa”, ensinou o ministro que até agora só foi visto em Angra dos Reis de calção, boné e sandálias havaianas. “São dois modelos de reatores distintos. O nosso reator é um pouco mais moderno. As paredes são mais robustas do que as do reator japonês e a nossa usina é capaz de aguentar tsunamis de até sete metros de altura e eventuais terremotos de 6,5 graus na escala Richter”.

A discurseira só reforçou a suspeita de que, na cabeça do ministro da Ciência e Tecnologia, fusível é um fuzil redigido por Emir Sader. Mas já na quinta-feira retomou-a, sem correções de rumo, num encontro de produtores de álcool e açúcar no Rio de Janeiro. “Vamos aguardar os desdobramentos no Japão, mas uma coisa é certa: vamos adotar todos os protocolos internacionais, que provavelmente ficarão muito mais rigorosos”, preveniu. Os ouvintes ainda tentavam adivinhar que protocolos são esses quando o orador tratou de ampliar o enigma.

“Estamos diante de um paradigma”, alertou com cara de primeiro da classe e sublinhando com as sobrancelhas arqueadas  gravidade do aviso: “Há um risco que é dramático. Mas o Brasil vai discutir e acompanhar protocolos internacionais”. Antes que a turma dos canaviais saísse em disparada, à procura de abrigos subterrâneos e clínicas especializadas no tratamento dos efeitos da radioatividade, Mercadante transmitiu a grande notícia: o Brasil não tem motivos para preocupar-se.  “A presidente foi ministra de Minas e Energia”, lembrou. “Tem toda a competência técnica para tomar as decisões”.

Se alguma tragédia natural colocar em perigo as usinas de Angra, portanto, o país que está fora da zona dos terremotos mas permanece na rota dos mercadantes agora sabe que pode seguir dormindo em paz. O Japão precisou pedir ajuda ao resto do mundo. O Brasil Maravilha só precisará chamar Dilma Rousseff.

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Blog Augusto Nunes (Revista Veja

1 comentário

  • joir calixto de frança jaru - RO

    Veja bem, tenho um programa de rádio "REPORTER NO CAMPO" pautado por assuntos relevantes para todos os tipos de culturas, sou dono também de um jornal impresso aquí em Rondônia "REPÓRTER REGIONAL", além de ser graduado e pósgraduado em Tecnologia em Gestão Ambiental. Nunca fui PT, aliás sou filiado ao PSDB desde o início do partido, no entanto essas matérias postadas no site notícias agrícolas, de cunho politiqueiro barato, me desculpe a sinceridade (dá asco), como internauta que acesso diariamente este meio de comunicação, me sinto no direito de expor minha opinião.

    Caros joralistas, quem lê deve ter inteligência e o direito de fazer seu próprio julgamento. (REPORTAR OS FATOS, PARA QUE CADA UM FAÇA SEU PRÓPRIO JUÍZO), isso é básico no jornalismo, não sejam tendenciosos.

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