Aécio na tribuna do Senado: a situação já escolheu o seu candidato de oposição

Publicado em 07/04/2011 09:15 e atualizado em 08/04/2011 00:06 586 exibições

Pobre Guido Mantega! Não pelo mal em si, que afeta todos os brasileiros, mas porque seu estoque retórico está se esgotando. Hoje, restou ao ministro da Fazenda se dizer surpreso com a inflação de alimentos. Mas ele deixou claro: não só ele, hein!? Os especialistas também. Ah, bom! “Todos os analistas se enganaram. Houve um repique da inflação de alimentos, que não era esperado”. É verdade! Só que o engano do governo foi bem maior: o mercado apontava em 065%; otimista, como sempre, o governo falava em 0,45%; deu 0,79%. Ele continua a apostar: “Tem a ver com o regime de chuvas. Foi excepcional, porque todo ano, a esta altura, os alimentos já começam a cair. Então, foi fundamentalmente alimentos. Eles têm que cair a partir de abril, porque pega um período de chuva, entressafra. Daqui a pouco isso cai”. E se não caírem? Leiam o que segue.

Por Cirilo Junior, na Folha Online:
Combustíveis, transporte público e alimentos pressionaram o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) em março e colocaram a inflação oficial ainda mais perto do teto do centro da meta. Em março, a inflação acumulada em 12 meses chegou a 6,30%, maior alta desde novembro de 2008, quando esse dado chegara a 6,37%, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A meta estipulada pelo BC (Banco Central) é de 4,50% para 2011, com tolerância de 2 p.p. (pontos percentuais), para cima e para baixo. Portanto, a inflação máxima tolerada é de 6,50% ao ano. O IPCA subiu 0,79% em março. Trata-se da maior alta para o período desde 2003 - naquele ano, a inflação avançou 1,23%. “Em geral, a inflação tende a cair de fevereiro para março, já que os reajustes dos colégios acontece nos dois primeiros meses do ano, e tem forte impacto”, afirmou Eulina Nunes dos Santos, coordenadora de índice de preços do IBGE

A alta do álcool carregou junto a gasolina e pesou bastante no bolso do consumidor em março. A gasolina tem um volume de 25% de álcool misturado à sua composição. Com a falta de açúcar no mercado internacional, aliado à entressafra da produção, o álcool acumula alta de 17,89% em 2011. No ano passado, a variação foi de 4,50% no mesmo período. A reboque, a gasolina já acumula elevação de 3,13% no primeiro trimestre. Em igual período em 2010, essa variação foi de apenas 0,32% de janeiro a março de 2010.

Somente em março, o álcool subiu 10,78%, com influência de 0,04 p.p. dentro do índice do mês. Em período correspondente no ano passado, o produto tinha apresentado variação negativa de 8,87%. Já a gasolina ficou 1,97% mais cara no mês passado, contribuição de 0,08 p.p. dentro do IPCA. Em março de 2010, teve queda de 1,95%. O item é o que tem segundo maior peso no orçamento das famílias, com influência de 3,92% no total das contas.

As tarifas de transporte público tiveram alta generalizada em março. As passagens de ônibus intermunicipais, por exemplo, subiram 1,47%, acelerando frente à elevação de 0,88% em fevereiro. Andar de metrô ficou 3,81% mais caro na média das 11 regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE, depois de alta de 3,05% em fevereiro. Esse avanço foi influenciado especialmente pelo reajuste de 9,43% feito em São Paulo.

Passagens de trens e de ônibus urbanos aumentaram menos do que em fevereiro, mas ainda assim tiveram alta relevante. As tarifas de trens tiveram incremento de 3,76% em março, depois de avançaram 4,69% no mês anterior. Tiveram influência dos reajustes autorizados em São Paulo e no Rio de Janeiro. Já os ônibus urbanos subiram 0,95% em março, após elevação de 1,30% em fevereiro.

ALIMENTOS
Ainda que estejam subindo menos do que em 2010, os alimentos acumulam variação significativa este ano. Variaram 2,15% de janeiro a março, ante 3,69% em igual período no ano passado. Alimentos in natura pressionam o índice, por influência das chuvas ocorridas no início de 2011. O tomate, por exemplo, ficou 70,19% mais caro de janeiro a março. A cenoura aumentou 42,93% no período, e a cebola acumula elevação de 24,89%.

Por Reinaldo Azevedo

Guido Mantega anunciou hoje uma nova medida para conter a inflação: aumento do IOF para empréstimos tomados por pessoas físicas de 1,5% para 3%. Quer conter o crédito para diminuir a demanda, o que ajudaria a derrubar a inflação, embora o governo considere que a inflação não é de demanda. Entenderam? Nem Guido Mantega. Leiam o que vai abaixo. Volto em seguida.

Para economistas, aumento do IOF não deve esfriar crédito

Na Folha Online:
O economista José Dutra Vieira Sobrinho, vice-presidente do Corecon-SP (Conselho Regional de Economia de São Paulo), afirmou que o aumento do IOF para empréstimos tomados por pessoas físicas de 1,5% para 3% não deve ter impacto imediato na demanda por financiamentos.”Serão necessárias outras medidas. Parece que há um certo desespero. O governo anuncia uma medida após a outra”, afirmou Sobrinho. Como exemplo, ele diz que um financiamento de R$ 10 mil em 36 parcelas terá uma prestação aumentada de R$ 397,63 para R$ 402,92 ao mês. “Psicologicamente, isso pode ajudar a reprimir a demanda”, afirmou o economista.

O economista Carlos Eduardo Oliveira Junior, membro do Conselho Federal de Economia, também disse que não é possível estimar o impacto da medida neste momento. “No longo prazo, o governo talvez tenha que tomar uma medida um pouco maior.” Na noite de hoje, o ministro da Fazenda, Guido Mantega elevou o imposto com o objetivo de conter a inflação. O novo IOF vale para todas as modalidades de crédito, incluindo o imobiliário e o rotativo do cartão de crédito. “Estamos moderando o aumento de crédito ao consumidor que, neste início de ano, está crescendo em torno de 20%. É uma velocidade um pouco elevada.”

Segundo o ministro, o governo quer “evitar um aumento exagerado da demanda de modo que isso venha a influenciar a inflação”. “O governo não vai permitir que a inflação fuja do controle”, afirmou. A medida foi anunciada no mesmo dia da divulgação do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), indicador oficial de inflação do governo, que em marco teve uma variação de 0,79% em março. No acumulado de 12 meses, até março, o indicador acumula alta de 6,30%, a maior desde novembro de 2008 –quando esse dado chegara a 6,37%, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Voltei
No mesmo dia em que anunciou que o IOF subiria 100% para essas operações, Mantega fez-nos saber que, para ele, a inflação de alimentos, por exemplo, se deve às chuvas. Assim, temos um caso fantástico na economia, que ainda vai desafiar os sábios do mundo inteiro: quando chove, Mantega aumenta o IOF, como naquela história da Teoria do Caos, né? A borboleta voa, e o mundo explode.

Ontem, ele estendeu a cobrança de IOF de 6% a empréstimos tomados no exterior com prazo de até dois anos — valia para os inferiores a um. Parece que há um padrão em suas ações: ELE MULTIPLICA POR DOIS O QUE NÃO DÁ RESULTADO PARA VER O QUE ACONTECE. Aí é para tentar frear a entrada de dólares e brecar a valorização do real. Tenta fazer isso porque, se elevar os juros — o que, isto sim, ajudaria a baixar a inflação —, aí há o risco de entrar ainda mais dólares, e o real se valoriza ainda mais.  Nesse caso, pareceu só uma birrinha: como o FMI, no mesmo documento em que piscou para o controle de capital, criticou o IOF no Brasil, então ele dobrou o prazo. Ousado!!! “Us gríngu num manda aqui...”

Chegou-se a falar numa grande mudança de rumo do Banco Central! Sem essa de elevar juros para baixar a inflação! Haveria agora outros instrumentos. Então tá. Vamos ver. O chato é que a inflação incomoda mesmo com o dólar depreciado. Um real mais fraco elevaria o risco de aumentar a… inflação!

Por enquanto, Mantega está apanhando da inflação e do câmbio. Não é que tudo isso fosse fatal porque forças ocultas conspirem contra o Brasil. Não!

O problema está no fato de Lula, em 2010, ter conspirado contra o caixa do governo e contra a prudência. Ajudou a eleger Dilma. Mas isso tinha um preço. Foramas as chamadas “Medidas Macro-Imprudenciais”!

Por Reinaldo Azevedo
Aécio na tribuna: a situação já escolheu o seu candidato de oposição. Ou: por que Dilma deveria se preocupar?

Vamos lá. Algumas considerações sobre o discurso do senador Aécio Neves. Em primeiro lugar, destaco que o governo já tem o adversário preferido em 2014: Aécio. Parte do jornalismo também decidiu que será assim. Os dois, governo e imprensa, resolveram, como posso dizer?, “bombar” a fala do senador antes mesmo que ela acontecesse. No jornalismo online, houve um certo frenesi: “Aécio discursa daqui a pouco…”; “Aécio vai dizer que…”; “Petistas se preparam para responder a Aécio…” E foi por aí. Com três anos e oito meses de antecedência, já se decidiu qual será o confronto de 2014. Aécio, como protagonista do dia, atuou para isso. Seus antagonistas — do histriônico Lindberg Farias (PT-RJ), quase um anfitrião de Aécio no Rio, ao pudoroso Jorge Viana (PT-AC) — aceitaram o papel de antagonistas sem contestar o enredo. E o senador mineiro comandou a sessão. Chegou mesmo a “nomear” o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) ministro da Justiça — o que, diga-se, se e quando acontecer, contará com meu apoio entusiasmado. O que me pergunto é se um discurso de um líder da oposição deve se confundir com o pré-lançamento de uma candidatura a esta altura do campeonato. Aécio foi muito hábil na operação. O tempo dirá se foi também prudente.

Vamos ao discurso (íntegra aqui).

Sem pedir desculpas
Aécio citou, num dado momento, uma fala do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), segundo a qual “ser oposição é tão patriótico quanto ser governo”. Também acho. Por isso mesmo, doravante, acho eu, os líderes oposicionistas — Aécio inclusive — podem se dispensar daquelas escusas iniciais, que buscam deixar claro que o opositor não é um sabotador. Afirmou o senador:
“Estarei onde sempre estive, como homem do diálogo que não foge às suas responsabilidades e convicções; não teme o enfrentamento do debate nem as oportunidades de convergência em torno dos interesses do Brasil. Farei a política que sempre fiz, aquela que entende que, neste campo, brigam as idéias e não os homens.”
“Sim, isso tudo é correto. Correto e, reitero, desnecessário. Em nenhuma democracia consolidada do mundo, e nós temos uma, fazem-se necessárias tais ressalvas. Até porque jamais houve oposição sistemática ao governo Lula. O oposicionismo doidivanas é monopólio do PT. Digam-me uma só proposta boa para ao Brasil à qual PSDB, DEM e PPS tenham dito “não”. Inexiste!

A fala de Aécio pode ser dividida em três blocos. O primeiro fez uma síntese do passado, mostrando como o PT se comportou ao longo da sua história, preocupado mais com a sua própria construção do que com o país, o que levou o partido a se omitir em momentos cruciais para o destino do Brasil, opondo-se de modo radical, em particular, ao governo FHC. É fato! O PT disse não à Lei de Responsabilidade Fiscal, ao Proer, aos programas sociais (que chamava “assistencialismo”, às privatizações… A tudo, em suma, que depois se mostrou essencial para garantir ao PT a governabilidade do país.

Aécio emendou dizendo que o PSDB segue na sua mesma trajetória, em favor do Brasil, ao contrário do PT, que continua ocupado em fortalecer o próprio partido, daí o inchaço da máquina pública e a interferência indevida na direção da Vale:
“Não é interesse do país que o Poder Federal patrocine o grave aparelhamento e o inchaço do Estado brasileiro, como nunca antes se viu na nossa história. Da mesma forma, não posso crer que seja interesse do país que o governismo avance sobre empresas privadas, com o objetivo de atrelá-las às suas conveniências.”

O senador fez elogios a Lula, que, em muitos aspectos, teria dado continuidade à obra de FHC. Do mesmo modo, e concordo com ele porque já escrevi isso aqui, considerou que não estamos experimentando o primeiro ano do governo Dilma, mas o nono ano do governo do PT. E isso lhe deu o gancho para a crítica:
“Não há ruptura entre o velho e o novo, mas o continuísmo das graves contradições dos últimos anos. O Brasil cor-de-rosa vendido competentemente pela propaganda política - apoiada por farta e difusa propaganda oficial - não se confirma na realidade. E nós vivemos no Brasil real. Por isso, senhoras e senhores, cessadas as paixões da disputa eleitoral, o Brasil precisa, neste momento, de um choque de realidade.”

Choque de realidade
E partiu para o segundo bloco. Quais são os problemas do Brasil hoje, segundo Aécio? Ele apontou o risco de “desindustrialização de setores importantes da economia” — não apontou causas ou disse como corrigir o problema —, a gastança, a infraestrutura precária e a carga tributária extorsiva. A oposição terá de lidar com eles, disse Aécio, em três frentes:
“Uma, que define a nossa postura perante o governo. Outra, que nos remete ao nosso compromisso inalienável com o resgate da Federação. E a terceira frente, a que nos permitirá uma aproximação ainda maior com os brasileiros.”

A primeira frente pede “fiscalização do governo”; a segunda, o “resgate da federação”; a terceira estaria naquele documento — lembram-se? — lançado primeiro neste blog, o “Manifesto em Defesa da Democracia”:
“É um insulto à Republica que o Poder Legislativo seja tratado como mera extensão do Executivo (como denuncia todos os dias o senador Itamar Franco)… O poder conquistado nas urnas ou a popularidade de um líder não lhe conferem licença para ignorar a Constituição e as leis… É intolerável assistir ao uso de órgãos do Estado como extensão de um partido político… Esse documento, ao meu ver, reflete a alma e o coração de tantos de nós e, ao fazer isso, nos traz a dimensão maior da política.”

O tucano defendeu, em seguida, algumas medidas pontuais: a redução a zero da alíquota de PIS e Cofins para investimentos em saneamento — proposta, lembrou, que Serra fez durante a campanha — e energia; execução orçamentária restrita em áreas essenciais, como os Transportes; transferência de parcela maior da CIDE para estados e municípios; o não-contingenciamento de verbas da área de Segurança Pública — 70% do total deveriam ser repassados mês a mês; recomposição gradual do Fundo de Participação dos Estados e do Fundo de Participação dos Municípios;  revisão da Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, criando o Simples Trabalhista, universalizando o direito de opção pelo Simples Nacional e estendendo os benefícios do Empreendedor Individual para as micro e pequenas empresas.

Como se nota, Aécio se empenhou em mostrar que tem idéias que interessam, em especial, aos estados mais pobres. Falava o pré-candidato. Feita a pausa, digamos assim, mais tarefeira, voltou às questões gerais. A oposição, disse, no terceiro bloco, tem de ter três valores: “coragem, responsabilidade e ética”. Nas suas palavras:
“Coragem, para resistir à tentação da demagogia e do oportunismo. Responsabilidade, não podemos cobrar do governo responsabilidade se não a tivermos para oferecer ao país. E Ética, não só a ética que move as denúncias.Não só a ética que cobra a transparência e a verdade. Mas uma ética mais ampla, íntima, capaz de orientar nossas posições, ações e compromissos, todos os dias.”

No importante momento da peroração, a conclusão do discurso, voltou à Minas universal, ao muito que o Brasil e, suspeito, o mundo têm a aprender com o Estado:
“E, aqui, não posso deixar de lembrar Minas, a história de Minas e as lições que nos legaram os homens e mulheres de Minas. Elas nos dizem que cada geração tem o seu compromisso com a história. Elas nos dizem que a pátria é honrosa tarefa diária, coletiva e compartilhada. Não a realizaremos sob o signo do confronto irracional nem tampouco da complacência. A oposição que defendo não é a de uma coligação de partidos contra o Estado ou o país, mas a da lucidez da razão republicana contra os erros e omissões do poder público. Convoca-nos, neste momento, a responsabilidade para fazer o que precisa ser feito. Ou o faremos ou continuaremos colecionando sonhos irrealizados. Não temos, senhoras e senhores, esse direito. Precisamos estar, todos, à altura dos sonhos de cada um dos brasileiros.
Nós, da oposição, estaremos.
Muito obrigado.”

Mas o que foi que ele disse mesmo?
O discurso de Aécio é bom? Publico a íntegra no blog. Leiam quando tiverem tempo. A síntese que faz do passado é excelente. Boa parte do que vai ali está nos arquivos deste blog desde 2004 — e em Primeira Leitura, já extinta, desde 2003. A crítica ao aparelhamento do estado e às indevidas interferências do PT numa empresa privada, que se dão no presente, são corretas e pertinentes; as propostas pontuais — o que chamei de lado tarefeiro — parecem boas. Mas, no que concerne ao futuro, não há nada que vá muito além de questões adjetivas e da reiteração de que, afinal, somos todos homens honrados. Perfeito!

Ao retomar o “Manifesto em Defesa da Democracia”, texto que vocês conhecem melhor do que ninguém, parece-me que cumpria ser um pouco mais incisivo na crítica às muitas vezes em que o PT investiu na desinstitucionalização do país. Era disso que tratava aquele texto — e a interferência de Dilma na Vale é parte desse processo. Valeu a citação, mas faltou apontar com mais clareza o problema. Da mesma sorte, a tal “desinsdustrialização” a que se referiu, se está em curso, não existe no vácuo. Está por quê? Qual é a origem? Como corrigi-la?

Li e reli o discurso. O evento do dia, que eu me lembre, foi inédito. Aécio comandou pessoalmente a sessão do Senado a partir das 15 e poucos  e lá está até agora, ouvindo apartes, sempre elogiosos, até mesmo do PSOL — só Lindberg ameaçou estrilar de mentirinha, mas passou logo. O texto, a esta altura, está nas mãos dos governistas e de seus estrategistas políticos. Alguns deles estarão ocupados em grifar os trechos que podem gerar mais preocupação. E eu indago: por que o governo deveria ficar preocupado?

Isso não quer dizer que eu não concorde com muita coisa do que vai na fala do senador, especialmente no que respeita à retrospectiva. Mas não se pode deixar de lembrar que esse lado “conciliador, mas firme”, de que ele se orgulha significou, na prática, em Minas, um acordo entre o PSDB e o PT, tendo o PSB como pelego para diminuir o atrito. Pode-se até dizer que, assim, ele mitigou o PT local, reduzindo a sua força. Ocorre que se tratava de fazer oposição ao PT nacional, não é? Confesso que senti falta de “realidade” no “choque de realidade” de Aécio.

O “contundente” discurso de oposição, como deixou claro o petista Jorge Viana (PT-AC), que o cobriu de elogios, não contundiu ninguém — reitero: a íntegra está disponível; procurem lá. Como operação para se lançar pré-candidato à Presidência, a operação foi muito bem-sucedida, além, certamente das expectativas. Coube ao senador petista Wellington Dias (PT-PI) resumir o espírito desta tarde-noite: a situação já escolhe o seu candidato de oposição.

Agora resta combinar com a história.

Por Reinaldo Azevedo

Entre o silêncio e a contradição, Gaspari escolheu a segunda. Opção errada!

Elio Gaspari escreveu um texto estranhíssimo nesta quarta. Vai ver segue uma das máximas de Fernando Pessoa, mais ou menos assim: “Só duas falas são interessantes: o silêncio e a contradição”. Ele escolheu a contradição. Se pensasse melhor… Vai o vermelho-e-azul.

DILMA ROUSSEFF completará seus primeiros cem dias de governo com um notável e inédito desempenho. Ela trouxe uma sensação de paz ao país. Depois de uma campanha eleitoral tisnada pela ferocidade e de um tempo dominado pelas paixões em torno de Lula, veio a calma. Pela primeira vez em muitas décadas, tem-se a impressão de que o Brasil é governado por uma pessoa que chega cedo ao serviço, cuida do expediente e vai para casa sem que precise propagar evangelhos ou alimentar tensões.
Deixe-me ver por onde começo. Chamar a campanha eleitoral de “feroz” é coisa de quem acredita que a política deve ser pautada pelo decoro das normalistas sobre o que fazer com os cotovelos à mesa: “toujours, parfois, jamais…”  Se a campanha eleitoral no Brasil foi “feroz”, a dos EUA deve ter sido uma nova guerra civil. Gaspari foi um dos que reclamaram que faltou fazer oposição… Quanto à “paz” simbolizada por Dilma…
O que é a “paz”? A ausência de problemas ou a ausência de guerra? Diante dos mesmos desafios que Dilma enfrenta — e boa parte das dificuldades é herança do governo de que ela se tornou um símbolo —, um presidente eleito pela oposição teria os petistas na rua. Sob que pretexto? Sei lá eu! Eles arrumariam algum, como sempre fizeram nos governos anteriores. Quem declararia guerra a Dilma Rousseff hoje? As centrais sindicais pelegas, que dividem o poder? FHC, por acaso, não governou “em calma” ao menos no que dependeu de sua ação pessoal? Que característica do ex-presidente botava os tontons-maCUTs na rua? Gaspari tenta responder e escreve uma grande batatada.

Essa singularidade deve-se a algumas características pessoais de Dilma Rousseff, mas também às de seus antecessores. Antes dela, o Brasil teve na Presidência três dos maiores ególatras de sua história. Lula é um ególatra compulsivo, autoglorifica-se para ter sossego. A egolatria de Fernando Henrique Cardoso é um subproduto benigno de sua vaidade. No caso de Fernando Collor, tratou-se de puro delírio.
Santo Deus! Gaspari tem idade e prestígio profissional para não precisar mais se ajoelhar no milho do petismo. Mas falta a independência espiritual. Encontrar um critério que una Collor, FHC e Lula — a egolatria —, vênia máxima, é vigarice intelectual. Quando foi que FHC ficou se vangloriando em púbico de “suas” conquistas? Aliás, o então presidente era ironizado quando chamava a atenção para o fato de que a estabilidade era um processo que não combinava com cesarismos. A sua dita vaidade, existindo, está ligada ao fato de ser um intelectual mundialmente respeitado. Pergunto: em que isso adensava o ambiente político, prejudicando a “paz”? Em nada! Certo de que sua categoria é furada, mera concessão ao petismo, o próprio autor diz que a “egolatria” de FHC era um “subproduto benigno de sua vaidade”. Isso quer dizer que… Isso não quer dizer nada!

Em benefício dos três, reconheça-se que chegaram ao Planalto com a obrigação de mudar sensivelmente a vida do país. Nenhum deles podia, simplesmente, tocar o barco. Quando José Sarney tentou, fracassou.
Collor e FHC não podiam simplesmente tocar o barco. Lula, sim! Desafio Gaspari — e ele responda a seus leitores, não a mim — a demonstrar qual foi a grande medida de correção de rumo tomada por Lula. Não é que eu lhe peça dez, cinco ou três ações: uma só basta. Eu me refiro a mudança mesmo, de caráter estrutural, da economia. Quanto a Sarney, um erro de fundamentação histórica: ele tentou o Plano Cruzado I e o Plano Cruzado II. Não deu. O arroz-com-feijão só veio quando ninguém mais sabia o que fazer.

Um bom exemplo da opção preferencial do governo pela paz deu-se no caso da revolta dos peões do PAC.
O Planalto chegou atrasado mas, em poucos dias, enquadrou a agenda policial das empreiteiras e expôs a letargia das centrais sindicais. Para isso não precisou nem sequer do ministro do Trabalho, que estava em órbita.
O governo vive a lua de mel típica dos primeiros meses de mandato. Esbanja popularidade, consome mitologias e promessas. Durante o apagão nordestino de fevereiro, Dilma foi festejada porque determinou que o ministro de Minas e Energia determinasse a apuração do ocorrido. Durante a catástrofe da enchente do Rio, fez apenas uma aparição burocrática, teatral.
É uma coisa fabulosa! Qualquer outro partido que estivesse no poder teria enfrentado as hostes da CUT a acusar os empreiteiros de trabalho escravo — daí para baixo. A situação nesses canteiros de obras não se conformou da noite para o dia. Essas empresas trabalham em parceria estreita com o governo. O próprio Gaspari, estou certo, fosse um governo tucano, estaria a metaforizar com o andar de cima, o andar de baixo etc. Mas atenção para o que vem agora.

A doutora prometia uma equipe de colaboradores selecionados pela capacidade. Conta outra. Em Furnas, trocou o indicado do deputado Eduardo Cunha pelo protegido do eletrizante Fernando Sarney.
Defenestrou Maria Fernanda Coelho da Caixa Econômica para abrigar Geddel Vieira Lima. Hospedeira da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016, nomeou um deputado obscuro para a pasta do Turismo. Tão obscuro que ainda não o chamou para despachar.
Se isso fosse pouco, na primeira grande mudança de seu mandarinato, detonou o presidente da Vale, uma empresa neoestatal controlada por interesses privados (ou uma empresa privada controlada por interesses neoestatais). Ainda está nas suas mãos a entrega de uma cadeira de senador ao comissário José Eduardo Dutra por meio da outorga de um ministério ao titular do mandato por Sergipe. Esse tipo de gratificação dos suplentes é uma das modalidades mais vulgares da corrupção política nacional.
Viram? Não é que Gaspari não reconheça a existência de “alguns” problemas. Entendi: ele não está elogiando Dilma por sua capacidade de resolvê-los, mas por sua habilidade em mantê-los longe de si mesma…

Dilma manda a energia das crises para longe do Planalto. Lula transformaria cada uma dessas tristezas num tema de debate sem pé nem cabeça. Para o bem e para o mal, a maior novidade foi a saída de Lula do proscênio.
Ah, sim! Madame Natasha informa que Gaspari quis dizer que a ausência de Lula é que confere identidade a Dilma, “para o bem e para o mal”. Por que é “para o bem”, ele tenta dizer. Mas não diz por que é também “para o mal”.

Fernando Henrique Cardoso fez o parto da estabilidade da moeda e Lula impôs ao governo um vetor social. Graças a eles, Dilma não precisa enfrentar velhas dificuldades. Essa era a hora em que se precisava de alguém que chegasse ao palácio para cuidar do expediente. Parece banal, mas é a paz.
A paz, apesar daqueles probleminhas… É isto mesmo, sem dúvida: Gaspari está elogiando Dilma porque ela sabe como fazer um problema não parecer um problema. Quanto ao mais, colocar em pé de igualdade a criação e implementação do Plano Real — que significou, praticamente, reinventar a economia brasileira, toda ela ancorada, então, na indexação — com a ampliação de programas sociais (e foi isso que Lula fez) é um desserviço à história e à inteligência.

Por Reinaldo Azevedo

“Só a economia de mercado erradica a pobreza”

Em artigo na Folha de hoje, a senadora Katia Abreu (TO) explica por que decidu deixar o DEM para fundar um novo partido.

Antes que seja censurada por ideias que não defendemos e por intenções que não temos em função do projeto do novo partido em organização, o PSD, lembrei-me de uma providência que Benjamin Franklin adotou ao se engajar na luta pela independência americana, em 1731: escreveu um pequeno texto de duas páginas, que republicou até o fim da vida no seu jornal, o “Pennsylvania Gazette”, contendo a essência dos seus princípios.

Uma prevenção eficaz contra os preconceitos, as intrigas e as falsas interpretações.
Nesses termos, começo pelo verbo correto que indica a minha movimentação política. Dizer que estou “mudando de partido” é pouco, impreciso, incompleto. Da mesma forma, é falso que esteja deixando a oposição. Ou, mesquinhamente, que abandono a legenda em que iniciei minha vida política.

Esses verbos, “sair”, “mudar”, “trocar”, “abandonar”, não expressam o sentido da minha ação.

O verbo é “fundar”. Junto com amigos de várias procedências, participamos do núcleo dirigente de uma nova legenda, absolutamente original, a começar pela declaração de independência absoluta em relação às classificações topográficas a que nos acostumamos.
Não estamos inventando um limbo inexistente, mas definindo um novo conceito. Não adotaremos alinhamentos automáticos. Estamos fundando um partido para ser ele mesmo. Partidos não precisam de adjetivos, mas, como tudo na vida, precisam de caráter. É preciso que haja clareza e compromissos com suas metas e princípios. Quando o governo estiver em consonância com nosso programa, terá nosso apoio. Quando não estiver, não terá. Ter caráter é ser, acima de tudo, fiel aos seus princípios.

O voto popular designará nosso papel, jamais composições, troca de cargos ou compensações de qualquer ordem. Segundo, porque deveremos adotar o sistema da democracia interna -no modelo “cada militante, um voto”- para escolher candidatos, dirigentes e definir as grandes linhas de ação. Algo muito diferente da prática político-partidária brasileira.

Também o conteúdo perseguido não conterá as platitudes ou generalidades habituais. Não seremos escravos de ressentimentos, de definições imobilistas, de revanchismos e de idealismos espasmódicos de véspera de eleições.

Três coisas são imprescindíveis.
Primeiro, os princípios de defesa da liberdade sem adjetivos e da prática, sem restrições, dos direitos humanos. Segundo, a intransigente exigência de moralidade.
Terceiro, não teremos os chamados “candidatos naturais”. Ninguém será candidato de si mesmo.

As prévias não podem ser opcionais, devem ser obrigatórias. Um partido de militantes, e não de dirigentes autoritários. A tolerância diante do intolerável, praticaremos com humildade.

No plano econômico, quem disse que são incompatíveis a proteção social e o direito de propriedade, os estímulos à formação de empresas, o reconhecimento do lucro auferido legal e eticamente?

Sou uma democrata incondicional que acredita que somente a economia de mercado pode erradicar a pobreza, por ser a única que gera riqueza. Esperem pelos programas e definições que estão no forno, com propostas precisas, sem subterfúgios, para essa combinação de solidariedade e desenvolvimento.

Buscaremos na educação o instrumento verdadeiro que garanta a liberdade. A educação não deve ter seu foco apenas na qualificação profissional para o mercado, mas principalmente capacitar o cidadão para fazer suas escolhas.

Para terminar, um desafio aos críticos apressados: o reconhecimento e a defesa da classe média, que soma hoje 52% da população e detém 46,5% da renda nacional, nos caracterizará como esquerda ou direita? Não ataquem antes de o time entrar em campo. Não é justo.

Por Reinaldo Azevedo

Kátia: em favor da liberdade individual e contra a estratégia gramsciana da “ditadura do pensamento”

A senadora Kátia Abreu (TO), como sabem, deixou o DEM para fundar o PSD. Durante uns dias, a coisa andou meio confusa. Parece que Kátia encontrou o eixo da futura legenda. Será mesmo como ela diz? Vamos ver. Se for, não o vejo fundindo-se, por exemplo, com o PSB. Não me parece que poderia também ser absorvido pelo PMDB. Se as coisas se derem como discursou a senadora, há aí, sim, o núcleo para uma identidade partidária.

Nunca um senador ou senadora havia levado à tribuna defesa tão veemente da liberdade individual e da iniciativa privada e crítica tão contundente às patrulhas ideológicas e à estratégia gramsciana, citada literalmente, para criar a “ditadura do pensamento”. É claro que os esquerdista de sempre vão reclamar. Mas o fato é que, se o prenúncio significar uma prática, pode estar se formando algo realmente novo.

Destaco, abaixo, trechos do seu discurso desta quarta. Avaliem. A íntegra estáaqui:

Fim de um ciclo
A história contemporânea brasileira se move por ciclos. Tivemos o período militar, de 1964 a 1984; a redemocratização, a partir de 1985; e o período pós-constituinte, a partir de 1988. Nele estamos há 23 anos. Desde então, foram nada menos que seis eleições presidenciais diretas, em que dois partidos, que pouco diferem em conteúdo programático, se alternaram no poder: o PSDB e o PT. Ambos se apresentam como partidos de viés de esquerda - um é social-democrata; o outro professa um socialismo reformista.

PSDB e PT buscaram alianças conservadoras
para chegar ao poder, ambos se valeram da mesma estratégia, de buscar alianças conservadoras, que lhe eram doutrinariamente opostas, mas que lhe favoreciam a chegada ao poder. O PSDB aliou-se ao PFL, hoje DEM, enquanto o PT aliou-se ao Partido Liberal, de José Alencar. Essas alianças, no entanto, não abriram espaço para que o pensamento liberal ocupasse, ainda que parcialmente, a cena política.

Romper com a bipolaridade e o frentismo
É preciso romper com esse círculo vicioso, herança ainda dos tempos do autoritarismo, que impôs ao quadro partidário brasileiro um caráter bipolar e frentista. No período militar, tínhamos de um lado uma frente de alianças em favor do regime; de outro, uma frente oposicionista, que ia da direita à esquerda. Naquela circunstância, de luta contra a ditadura, era o jeito. Mas veio a redemocratização e, com ela, o pluripartidarismo, que, no entanto, não rompeu com a estratégia das frentes híbridas, que desde então submetem a coerência doutrinária aos interesses fisiológicos e imediatistas de exercício do poder. O poder pelo poder, em que todos perseguem apenas a vitória eleitoral, sem a contrapartida de compromissos programáticos, morais ou filosóficos.

Novo ciclo
Cumpre, pois, que se inicie desde já um novo ciclo na vida política brasileira, em que se dê conteúdo doutrinário à democracia, em que cada agente político expresse convicções e seja cobrado pela fidelidade que tem a elas - e não a cargos e interesses menores. Isso não se resolve apenas com reformas nas leis que regem o sistema político. Mais que a reforma política, é preciso reformar a mentalidade dos agentes políticos. A nossa mentalidade.

Democratas
Tenho pelo Democratas respeito e reconhecimento pelo papel que desempenhou no processo de redemocratização, desde sua origem, em 1984, quando Partido da Frente Liberal. (…) Considero, porém, que a parceria que nos uniu chegou ao fim. Atuação partidária hoje tem concepção distinta da minha no que se refere não apenas à prática interna da democracia, mas à postura de independência em relação ao quadro presente da política brasileira.

Os R$ 545 do mínimo
Fui criticada quando aqui votei pelo salário mínimo de R$ 545. Mas, na mesma ocasião, votei contra uma medida provisória que pretendia capitalizar o BNDES. Em ambas as ocasiões, votei tendo em vista a defesa de um princípio que o DEM e eu sempre postulamos: a responsabilidade fiscal. E assim entendo que deva ser. Um partido deve, acima de tudo, ter caráter, ser fiel a seu programa.

Governista ou não?
É evidente que as forças políticas que sustentam o atual governo filiam-se a uma corrente de pensamento distinta da minha. No essencial, divergimos, o que não impede que, em alguns momentos, possamos convergir.

Classe média
O que constatamos é que o Brasil está no limiar de um novo tempo - e que só avançará se a política assimilar os novos paradigmas que lhe estão postos. E o principal é este: é preciso nitidez de compromissos. Não é admissível que a quinta economia do planeta, com o amplo horizonte que neste momento a ela se descortina no cenário mundial, não exerça interlocução com sua própria sociedade. Há um amplo segmento de cerca de 110 milhões de brasileiros da classe média órfãos dessa interlocução.

Economia de mercado
Nosso ideário consagra a defesa da economia de mercado, como único regime capaz de gerar riqueza e sustentabilidade, sem as quais não se erradica a pobreza. Não cremos no Estado-empresário, que consideramos um falso brilhante. A experiência do socialismo real, nos diversos países que o adotaram, o evidencia. Ficaram mais pobres que antes. Nossa postura e votos, no Legislativo, levará sempre isso em conta. Quando esses postulados forem favorecidos, não poderemos nos opor. Quando forem contrariados, combateremos. Mas não só. A defesa do capital e da livre empresa nem é a maior urgência brasileira, já que dispõem de suas próprias defesas e nem chegaram a ser ameaçados pelos governos do PSDB e do PT.

Liberdade individual e patrulha de pensamento
O que vemos como urgência - e isso faz parte da reforma das mentalidades na política - é a defesa da liberdade individual, da liberdade de pensamento, liberdade para fazer suas escolhas (Liberalismo = Liberdade). Vemos cada vez mais o país sendo submetido à ação das patrulhas do pensamento, que impõem os dogmas do politicamente correto, criminalizando os que deles divergem. Liberdade de pensamento é o convívio civilizado com as idéias com que não concordamos, mesmo com as que eventualmente abominamos, nos limites da lei. Ser tolerante é tolerar o intolerável.

Socialismo, fascismo e estado intruso
Socialismo e fascismo, sim, têm algo em comum: o culto ao Estado, que, em ambos os casos, deixa de servidor do cidadão para tornar-se seu dono, intrometendo-se crescentemente em questões inerentes à vida privada e ao arbítrio das famílias. É contra esse estigma ideológico, falso como uma nota de três reais, que combateremos. O termo “social” que adicionamos ao nome do partido indica que essa preocupação com as famílias de baixa renda ou sem renda nenhuma não é monopólio de ninguém e está longe de ter dono.

Capitalismo é que acaba com a pobreza
Como produtora rural e presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, posso afirmar - e os números nesse sentido são eloquentes - que o capitalismo no campo é o mais eficaz fator de erradicação da pobreza neste país. Se hoje temos superávits contínuos e crescentes na balança comercial; se temos hoje uma classe média rural em expansão; se oferecemos a melhor e mais barata comida do mundo; se hoje deixamos de importar alimentos, como o fazíamos há quatro décadas, e disputamos esse segmento do comércio internacional - não há dúvida de que isso se deve ao ambiente de livre competição que se estabeleceu no campo.

Contra a estratégia gramsciana
E isso apesar do combate sistemático que sofremos de grupos ideológicos, que insistem em nos associar ao atraso e à perversão política, como supostos herdeiros de uma mentalidade colonial. Os fatos conspiram contra essa versão, que, no entanto, continua a ser sustentada, inibindo o livre trânsito das idéias, falsificando-as. A hegemonia do pensamento esquerdista, que a estratégia gramsciana de revolução cultural inoculou na academia, estabeleceu a ditadura do pensamento.

Academia amordaçada
Quem hoje se sente à vontade, nas universidades e meios culturais, de se apresentar como sendo de direita ou liberal? Será renegado e excluído do debate, como um pária. E isso é trágico. Torna a democracia um engodo, um debate entre iguais, que deriva para uma luta por cargos. Nada mais. É para romper com esse paradigma e permitir que a sociedade brasileira - sobretudo sua classe média -, que se tem mostrado avessa à agenda comportamental do politicamente correto, que o PSD entra em cena.

A sociedade é maior que os grupos de pressão
As entidades representativas da sociedade civil têm seu papel, seu valor e seu espaço. Mas não podem monopolizar ou tutelar o debate. Representam parcelas da sociedade, mas não o todo. As minorias, ambientalistas ou produtores rurais não são segmentos isolados, com interesses que devam se sobrepor ao conjunto do qual fazem parte. Suas demandas têm que estar em sintonia com o todo e a ele se submeter. Não são intocáveis, nem inquestionáveis.

Por Reinaldo Azevedo

Cínico, realista ou engraçado? Julgamento do mensalão pode sair em 2050, diz Lula nos EUA

Não entendi se ele está tentando ser cínico, realista ou engraçado. Talvez as três coisas. Leiam o que informa Andrea Murta, na Folha. Volto em seguida:
O ex-presidente Lula disse hoje que o julgamento do mensalão pode ficar só para 2050 se o STF (Supremo Tribunal Federal) incorporar ao processo o novo relatório produzido pela Polícia Federal.

Questionado por jornalistas, Lula disse que que não “teve a chance de dar uma olhada” no relatório. Mas afirmou que se o relatório for anexado, “todos os advogados de defesa vão pedir prazo para julgar”. “Então, vai ser julgado em 2050. Então, não sei se vai acontecer”, disse o ex-presidente após dar uma palestra para a Microsoft em Washington EUA).

O relatório confirma em detalhes que existiu um esquema de desvio de dinheiro público para o PT e partidos aliados do governo no Congresso. O texto traz as conclusões de um inquérito aberto em março de 2007 para aprofundar as investigações sobre a origem do dinheiro do esquema e seus beneficiários.

Comento
O mensalão, como sabem, é aquela coisa que não existiu, mera tentativa de golpe de estado, segundo Lula, Marilena Chaui e Wanderley Guilherme dos Santos. De fato, se tudo for juntado num bolo só,  esqueçam! Alguns crimes vão prescrever.

Lula é um profissional! Segundo o que se lê, mudou de atitude. O mensalão que não existia, dado o novo relatório da PF, passou a ser um problema dos outros. Nem parece que agora é a polícia a confirmar o que a imprensa já havia noticiado: até Freud Godoy, seu segurança pessoal, teve seus serviços pagos pelo esquema. E daí? Ele segue adiante. Está muito ocupado: falou à Microsoft e tem pela frente os banqueiros em Acapulco e os investidores em Londres. O último evento da viagem é  um papinho com Hobsbawm, o penúltimo marxista.

Por Reinaldo Azevedo

Tarso Genro e a maconha: a contínua, pertinaz e disciplinada desmoralização das instituições

Tarso fala a um auditório lotado:

Tarso fala a um auditório lotado: "Dizem que maconha é muito saborosa" (Foto: Caco Argemi/Palácio Piratini)

O governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, assombrou o mundo em várias ocasiões. Já expeliu a sua literatura de incontido autolirismo (“Quanto te esperei e quanto sêmen inútil derramei até o momento” ), depois de comparar a “vovô Cacilda” com “uma patinha”; fez uma descoberta improvável ao escrever o livro “Lênin, Coração e Mente”; comportou-se como revisor da Corte Italiana ao decidir manter no Brasil um homicida condenado à prisão perpétua na Itália, e, há dias, acusou o STF de manter Cesare Battisti no país como “prisioneiro político”. É um resumo muito sóbrio da sua obra.  Foi convidado a dar uma aula inaugural na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. (UFRGS). O auditório estava lotado, como vocês podem reparar. As virtudes do poeta, do leninista enternecido, do jurista e do boquirroto se juntaram para que pronunciasse a seguinte frase, referindo-se à maconha: “Dizem que é muito saboroso”.

Este senhor já foi ministro da Justiça, e sua pasta respondia pela política geral de combate às drogas. Deu no que estamos vendo. Já tinha feito considerações, segundo entendi, simpáticas à descriminação ao afirmar, como se estivesse num boteco: “Eu nunca vi alguém matar por ter fumado um cigarro de maconha”. Matar, eu não sei. Mas posso afirmar que muita gente morre por causa das drogas. É possível que boa parte dos quase 50 mil homicídios que há por ano no Brasil se deva a elas. Por que a minha inferência faz sentido? Porque a maior parte dos mortos é formada por homens jovens, muitos deles soldados do tráfico. Argumento em favor da legalização? Só nas mentes perturbadas.

Parte considerável do auditório riu, contam-me pessoas presentes, manifestando-se a favor da fala do governador, considerando-a espirituosa, descontraída, descolada — em suma: “Tarso é um dos nossos!”. Todos sabemos como a sociedade careta, conservadora e pobre — que financia a universidade pública e que lastima as drogas porque seus filhos são vítimas do mal — tende a ser exorcizada nos ambientes universitários. Parcelas consideráveis alisam aqueles bancos não exatamente para estudar, mas para submeter-se ao “desregramento sistemático dos sentidos”, como diria Rimbaud. Sugam os recursos da sociedade, não lhe dão rigorosamente nada em troca, e, bem, dali não sai nenhum Rimbaud…

OS GRAVATAS-VERMELHAS: Villaverde, Tarso, Carlos Alexandre e Oppermann: o reitor escapou, mas não as cadeiras... (foto: Caco Argemi/Palácio Piratini)

OS GRAVATAS-VERMELHAS: Villaverde, Tarso, Carlos Alexandre e Oppermann: o reitor escapou, mas não as cadeiras... (foto: Caco Argemi/Palácio Piratini)

Tarso disse o que disse diante de  Carlos Alexandre Neto, o reitor; de Rui Oppermann, vice-reitor, e de Adão Villaverde, presidente da Assembléia Legislativa. Aos educadores  — ao petista Villaverde seria inútil —,  pergunto: “Vocês não se envergonharam um pouquinho ao menos? Consideram mesmo que se trata de um bom exemplo para os jovens? Gostariam de Tarso como tutor de seus respectivos filhos?” A propósito: tanta gravata vermelha, vejam a foto, era certamente um sinal de respeito. Não sei se o reitor resistiu ou se distraiu. Pode ter sido também uma questão de bom-gosto…

Não se fará escarcéu. A imprensa nacional — onde o lobby em favor da descriminação das drogas (no mínimo, isso…) é fortíssimo — vai se calar. O governador afirmou dia desses que, agora, só lê a imprensa gaúcha. Vamos ver: se for por bons motivos, ela aponta a sua irresponsabilidade; se for pelos maus, ou ignora o assunto ou o chama um homem destemido. Reitero um aspecto para o qual chamei a atenção ontem: Tarso faz uma declaração como essa num país em que o crack é um flagelo; que viu há pouco uma presidente ser eleita prometendo um programa nacional de combate à droga — que, provavelmente, ficará no papel, como quase tudo o que prometeu. AFINAL, SEGUNDO ELIO GASPARI, A SUA GRANDE VIRTUDE ESTÁ EM NÃO GOVERNAR, EM AFASTAR OS PROBLEMAS PRA LÁ E NÃO DEIXAR QUE ELES A CONTAMINEM. Eremildo já teve dias melhores!

Tudo é saboroso!
As drogas representam um desastre para os viciados justamente porque são “saborosas” — se não elas mesmas, o efeito que provocam. Ninguém fuma maconha, crack ou haxixe , cheira cocaína ou injeta heroína nas veias para passar mal. As substâncias psicoativas de toda essa porcariada provocam, obviamente, uma sensação de prazer — que tem, não obstante, um custo. Variam apenas na velocidade com que matam e com que jogam o viciado na marginalidade. A maconha, mais leve, com as exceções de sempre — porque sempre as há, e cumpre não fazer delas “o outro lado da moeda”, mas apenas o que são: excepcionalidades! —, vai abestalhando de forma lenta, gradual e “segura”; o crack costuma operar uma limpeza no hardware moral. Tudo se vai em nome da pedra: dignidade, moralidade, amor próprio, amor pelo outro. Até havia pouco, não se dava muita atenção para os “crackelados” porque eram coisa da pobreza. Hoje, sabe-se, o cachimbo saltou o muro das classes.

Estudos recentes demonstram que é absolutamente falsa a suposta benignidade ou malignidade menor da maconha, ao contrário do que sugere o governador. A propósito: já que ele só lê a imprensa gaúcha, recomendo-lhe este textopublicado no jornal Zero Hora. Os especialistas que se dedicam ao assunto já não têm dúvidas: a maconha costuma — o que não quer dizer que seja fatal — ser a porta de entrada para drogas mais pesadas. A razão é simples: os ambientes próprios ao consumo não têm preconceitos. As várias substâncias podem conviver.

Algumas objeções
Eu já debati aqui muitas vezes as teses furadas em favor da descriminação das drogas como um todo e da maconha em particular. Quem quiser saber por que as considero uma estupidez basta recorrer à área de busca do blog. Sem jamais advogar benefícios advindos do álcool ou do tabaco, já expliquei por que é falacioso o argumento que procura juntar todos os gatos no mesmo saco, como se fossem pardos. Não são! Para começo de conversa, cigarro não altera a consciência de ninguém; a maconha e as demais drogas, incluindo o álcool em excesso, sim! Substâncias não existem no vácuo; ainda que todas se equivalessem, o que é falso, a cultura — que existe! — as fez diferentes e distingue “comunidades”: só se obtém e se fuma maconha decidindo ser elo de uma cadeia criminosa. E isso, lamento dizer, já implica uma escolha moral.

“Mas e se fosse tudo legal?” O “fosse” não se coloca porque não será: a esmagadora maioria da população da também maioria dos países é contrária à legalização. Não haverá, indago, alguma sabedoria nisso? Será mesmo tudo ignorância? Com que autoridade ou com base em que princípio se diria a um jovem: “Olhe, maconha, tudo bem!; mas crack e cocaína não!”? A sugestão de que “reprimir não adianta porque existe consumo mesmo assim” é uma estupidez lógica. Fica parecendo que o consumo existe porque a repressão existe. A frase correta é outra: “Apesar da repressão, o consumo existe”. Sem ela, ele aumentaria brutalmente. Imagine-se o efeito devastador que a legalização não teria nas escolas, nos serviços de saúde e nas comunidades pobres. Prometi não me estender neste tópico, mas vou indo… Uma ultima observação relevante sobre este particular: a suposição de que a legalização das drogas diminuiria o crime porque acabaria com o tráfico é uma tolice gigantesca. Pobre ou rico, é criminoso quem quer, pouco importa o ramo de atividade. Os bandidos migrariam para outras atividades e continuariam a aterrorizar a população do mesmo jeito se estiverem mais ou menos certos da impunidade.

Volto a Tarso. Ou: um pouco de história
Na aula inaugural na UFRGS, Tarso afirmou aos estudantes que não fumou maconha quando na clandestinidade porque seria um risco adicional e tal. É outra besteira lógica: escondido, teria sido até mais fácil. O problema era outro. Correntes de esquerda, com raras exceções, passaram a ser tolerantes com as drogas de meados da década de 80 para cá. Antes, consideravam-nas expressão da “decadência capitalista”.  Quando a droga do comunismo parou de dar barato, então aderiram. Nos grupos a que pertenci, não havia veto, mas eram muitos os que olhavam com certo desdém os “maconheiros”. Uma orientação explícita havia, sim: jamais andar com material da “organização” e drogas ao mesmo tempo.

Boa parte dos leitores não conhece a, vá lá, metafísica da esquerda — não perdem grande coisa em si. Conhecê-la, no entanto, corresponde a percorrer uma parte significativa da história. O comunismo surgiu em oposição aos particularismos que dividiriam a classe operária em todo o mundo, espoliada (Emir Sader escreve “expoliada”) pela burguesia e manipulada por valores ideológicos que mascarariam os interesses dos poderosos. Era preciso construir um “Novo Homem, fundado em valores universais da classe revolucionária: o proletariado. Huuummm… Fernando Pessoa, o poeta, deu uma definição muito boa: “O comunismo é um dogmatismo sem sistema. Se o que há de lixo moral e mental em todos os cérebros pudesse ser varrido e reunido e, com ele, se formar uma figura gigantesca, tal seria a figura do comunismo, inimigo supremo da liberdade e da humanidade, como o é tudo o que dorme nos baixos instintos que se escondem em cada um de nós”. Supimpa!

Pessoa tinha razão, claro! Mas destaco que havia aquela pretensão universalista, totalizante — daí que os comunistas originais fossem inimigos de nacionalismos, particularismos, “especifismos”, se me permitem o neologismo. “A classe operária é internacional!”, lembram-se? Não sou tão velho — 49 apenas —, mas ainda peguei a rabeira daquele generalismo supostamente humanista (que era lixo, Pessoa estava certo). Ocorre que, num dado momento, as esquerdas perceberam que o capitalismo havia tomado rumo para elas inesperado e já não fazia mais a “classe revolucionária”. Passaram, então, nos países capitalistas — nos comunistas, é óbvio, não! — a se ligar ou a investir em tudo aquilo que “divide”. O “homem universal” — ou o “proletário universal”  — cedeu lugar aos particularismos militantes: luta racial, feminismo, movimentos homossexuais,  ecologismo, sem-terrismo, sem-tetismo, liberação das drogas… Escolham aí. Até os católicos pobres passaram a ser vítimas do assédio moral da esquerda de batina.

Atenção! Isso não quer dizer que não havia e não haja problemas específicos com os quais têm de lidar as mulheres, os negros, os moradores do campo, os homossexuais etc. É claro que sim! Os movimentos só prosperam porque partem de questões que estão dadas na sociedade. O que estou afirmando é que essas causas passaram a ter um vetor ideológico de matriz e matiz anticapitalistas, fornecidos pelas esquerdas, embora, evidentemente, sejam movimentos que só podem existir em sociedades capitalistas. Sua expressão mais recente são as ONGs.

Não se trata de uma grande e monstruosa conspiração, não! Eles adoram acusar seus adversários de paranóicos. Atuam bastante às claras. Esses grupos, a maioria sob o comando do PT, estão empenhados numa guerra de valores que já teve como objetivo a conquista do poder; hoje, buscam mantê-lo. Tarso nunca recuou de seu livro “Lênin, Coração e Mente”. O método do facinoroso se mostra inviável hoje em dia. O que levou um leninista “modernizado” ao governo do Estado e a dizer o que disse sobre a maconha numa universidade pública, financiada pelos desdentados, foi a vitória de um método: o da contínua, pertinaz e disciplinada desmoralização das instituições.

PS - Não estou questionando a legitimidade de Tarso, não! Estou consciente de que essa vitória se deu com a concordância da maioria dos gaúchos que votaram.

Por Reinaldo Azevedo

(na Coluna de Augusto Nunes): 

Depois de inventar o ministério sem ministro, Dilma cria a estatal do trem fantasma

Com duas medidas provisórias, Dilma Rousseff criou o ministério sem ministro e a estatal que pilota trem fantasma. Há dias, os parlamentares governistas assinaram a certidão de nascimento da Secretaria de Aviação Civil. Só falta escolher o chefe, que terá status de ministro. Nesta terça-feira, a Câmara dos Deputados apressou o parto da Empresa do Trem de Alta Velocidade (ETAV).  Falta o trem-bala que Lula prometeu inaugurar em 2010 e não apitará em curva nenhuma antes de 2016. Depois dos Jogos Olímpicos do Rio.

Faltam também empresas interessadas na construção do colosso ferroviário que promete viagens de Primeiro Mundo na rota Campinas-São Paulo-Rio de Janeiro. Mas a gastança já começou: a medida provisória que criou a estatal do nada autoriza a União a garantir um empréstimo de até R$ 20 bilhões ao consórcio vencedor da licitação que deveria ter ocorrido em 16 de dezembro de 2010, foi remarcada para o fim deste mês e será novamente adiada por três meses. Mesmo com a abertura dos cofres do BNDES, será preciso esperar mais três meses. No mínimo.

Como demonstra o texto reproduzido na seção Vale Reprise, faltam ferrovias, vagões, locomotivas, metrôs, falta tudo que ande sobre trilhos, que também não existem. Nada disso parece importante aos passageiros da megalomania, da caipirice e da ganância. Os países sensatos concluem a montagem de um sistema de transportes eficaz com a construção do trem-bala. O governo brasileiro resolveu começar pelo último capítulo. É mais que um monumental equívoco administrativo. É mais que um desperdício de pelo menos R$ 33 bilhões. É um ato criminoso tramado pelos parceiros que se consideram condenados à impunidade.

(Augusto Nunes).

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Fonte:
Blog Reinaldo Azevedo (Veja)

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