A imprensa faz de conta que Aldo Rebelo não disse o que disse, por Reinaldo Azevedo

Publicado em 13/05/2011 10:54 e atualizado em 13/05/2011 21:17 1063 exibições

O deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP) afirmou ontem com todas as letras na Câmara: “Quem fraudou contrabando de madeira foi o marido de Marina Silva!”. Referia-se a Fábio Vaz de Lima. Num post desta madrugada, recuperei as circunstâncias que, tudo indica, acabaram resultando na acusação. Como Aldo é um político da base do governo, foi acionado, à época, para impedir que o dito-cujo fosse convidado a prestar esclarecimentos a uma comissão da Câmara. Atuou, sugeriu, também a pedido de Marina.

Não sei se o que noto até agora vai se confirmar, mas o fato é que a maioria da imprensa registrou a fala de Aldo como se ele tivesse dito: “Hoje [ontem] é quarta-feira”. Nem mesmo houve interesse em contar o básico: afinal de contas, Aldo falava sobre o quê?

Qualquer outra pessoa da República — até Lula!!! —  que fosse alvo de acusação parecida , naquelas circunstâncias, mereceria imediatamente o que se chama “uma memória do caso”, aquela que fiz na madrugada. Como o assunto diz respeito a Marina Silva, então há uma primeira zona de interdição, que parece ser de natureza religiosa.

Primeiro é preciso atravessar o campo de força da santidade, que afasta naturalmente especulações, para, se vencida essa fase, tentar saber do que se está falando. Fica parecendo que a ex-senadora não pertence a nenhum grupo que disputa o poder. Mais do que isso: fica parecendo que ela não pertence a nenhum grupo que já exerce o poder. No Acre, ela caminha para 16 anos de governo, fiquem sabendo. Lá, a sua turma dá as cartas. Marina perdeu feio a eleição presidencial no seu estado, mas não foi por falta de apoio dos Irmãos Viana.

A imprensa hoje nem mesmo destacou que o petista Sibá Machado (PT-AC) saiu ontem em defesa da Santa do Pau Oco da Floresta. Por virtude ou por vício? Decida o leitor! Quando o marido de Marina foi acusado de irregularidade, era, para todos os efeitos, “assessor” de Sibá. Ocorre que Sibá era nada menos que o suplente de Marina e só estava no Senado porque ela ocupava o Ministério do Meio Ambiente.

Na hipótese mais benigna, há de se supor que, moralista como é, certo?, Marina jamais contrataria o marido para o seu próprio gabinete se estivesse no Senado, contentando-se com um único salário do poder público. Como se tornou ministra, então seu suplente fez por ela o que ela própria não faria por prurido moral. Assim, temos que, por muito moralista, em vez de receber um só salário, a família marineira passou a receber dois.

Mas Marina está acima dessas vulgaridades. Como repetia um deputado do PV na noite de ontem na Câmara, onde já viu falar essas coisas? Não fosse Aldo um “traidor”, como acusou o carbonário preservacionista (!?) Alfredo Sirkis, ninguém jamais tocaria no assunto. Marina segue com o monopólio da metralhadora verbal virtuosa. Pode destroçar a reputação de quem quiser, como fez ontem via Twitter com a de Aldo, mas ninguém pode reagir aos ataques benignos desta telúrica entidade.

Por Reinaldo Azevedo

Líder do governo, que comandou chicana na sessão do Código Florestal, confirma que líder do PT mentiu. Não são mesmo dois patriotas?

Contei aqui, não foi? Escrevi com todas as letras que Paulo Teixeira (SP), líder do PT na Câmara, havia mentido quando afirmou que Aldo Rebelo (PC do B) havia mudado o texto do Código Florestal acertado com os líderes. Parte da imprensa, é bom deixar claro, agindo como militante, divulgou a mentira como se fosse informação. “Militante, Reinaldo? E você? Não é a favor do texto?” Sou, deixo isso claro com todas as letras, mas não preciso mentir para defender o que penso. Leiam o que segue. Volto em seguida:

Código Florestal deve ir à votação no fim de maio, diz líder

Da Agência Brasil:
A votação do novo Código Florestal Brasileiro só deverá ocorrer na última semana de maio. Essa é a previsão do líder do governo na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP). Segundo ele, na próxima semana o governo vai se dedicar a medidas provisórias que estão trancando a pauta da Casa. De acordo com Vaccarezza, o adiamento da votação para o final de maio se justifica para permitir maior amadurecimento do texto do relator, deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), e possibilitar mais diálogo sobre a proposta.

Ele também disse que a ausência do presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), na semana que vem, que estará em viagem oficial ao exterior, contribuiu para a transferência da votação. “Não é adequado fazermos uma votação cercada de tanta paixão como parece essa na ausência do presidente da Câmara. Essa é uma votação muito nervosa”. O líder governista elogiou o relatório do deputado Aldo Rebelo, fruto do acordo feito com o governo, ao dizer que ele é “equilibrado” ao “garantir a defesa do ambiente e as necessidades da produção”.

Segundo ele, o texto apresentado por Rebelo no plenário da Câmara na noite de quinta-feira foi o texto do acordo, sem qualquer modificação. “O texto definitivo estava na liderança do governo à disposição de todos os líderes.” O adiamento da votação do Código Florestal foi justificado pelo líder governista para evitar que o texto fosse desfigurado com uma emenda que estava sendo articulada pelos partidos de oposição. “Ela começou a ganhar adeptos da oposição e também da base do governo. Então achamos melhor adiar a votação.”

Comento
Que cara de madeira certificada, não Vaccarezza?

Paulo Teixeira, falando pela liderança do PT, justificando por que sabotava a votação, acusou Aldo Rebelo de apresentar um texto modificado. Mentiu! Sob o silêncio cúmplice de Vaccarezza, que não se dignou a falar, então, a verdade: “Estamos fazendo essa palhaçada porque queremos impedir a oposição de apresentar um destaque”.

Ora, como será, então? Haverá algum golpe parlamentar para que a oposição não apresente destaque nenhum? Os deputados da base serão levados na coleira, para que jamais votem com a minoria nesse particular? Isso expressa o entendimento que essa gente tem de democracia. Quanto a Paulo Teixeira, o que vocês querem que eu diga? Como pode o líder na Câmara do maior partido do país mentir de forma tão miserável?

Dá para entender por que a luta de fundo deste senhor é a formação de cooperativas de maconheiros. Teixeira, nota-se, é um defensor de cultura e valores alternativos. Ele descobriu que a mentira é só uma verdade alternativa.

Daqui a pouco veremos Teixeira ocupar a tribuna com aquela sua fala mansa, jeito de sobrinho boa-praça, como se nada tivesse acontecido. Um político mentir não é grande novidade. Grave é o jornalismo mentir junto “em nome da natureza”.

A resposta que Aldo deu a Marina, diga-se, acusando seu marido de envolvimento com contrabando de madeira, nasceu de uma mensagem que a ex-senadora postou no Twitter, acusando o relator de ter modificado o texto sem consultar ninguém. Era Marina passando adiante a mentira de Teixeira…

Por Reinaldo Azevedo

Não contem para Marina Silva!
Mas o agronegócio brasileiro salva a balança comercial, as reservas e, literal e metaforicamente, a lavoura. Não fosse ele, estaríamos de pires na mão. E, em muitos aspectos, era ele o réu naquela vergonhosa sessão de ontem na Câmara. Leiam o que vai abaixo. Volto depois.

Exportações do agronegócio atingem US$ 7,9 bilhões em abril

Por Ana Carolina Oliveira, na Folha Online:
As exportações do agronegócio brasileiro atingiram US$ 7,9 bilhões em abril. Isso representa um incremento 24,4% em comparação ao mesmo mês de 2010, segundo dados divulgados nesta quinta-feira pelo Ministério de Agricultura. No acumulado do ano, a balança comercial do agronegócio brasileiro registrou US$ 81,3 bilhões, um aumento de 20,4% em relação ao mesmo período do ano passado. Por conta desse desempenho, o superavit comercial também subiu e alcançou os US$ 66,6 bilhões.

O principal responsável pelo resultado foi o complexo soja (grão, farelo e óleo), que apresentou um crescimento de 35,7% e totalizou US$ 3 bilhões (38,4% do total exportado em produtos do agronegócio no mês de abril de 2011). A quantidade exportada de grão e farelo aumentou 3,6% e 11,6%, respectivamente, assim como os preços dos produtos subiram 29,9% e 37,8%. Apenas o óleo teve redução no volume exportado (37,3%), mas o aumento de 51,8% no preço mais que compensou esta queda.

A segunda mercadoria mais importante em valor exportado no mês foi a carne, responsável por um aumento na receita de 19,2%, o que representa US$ 1,3 bilhão em abril de 2011 (em 2010, o montante registrado no mês foi de US$ 1,1 bilhão). A terceira posição ficou com o complexo sucroalcooleiro (etanol e açúcar), com 10,6% do valor total exportado em produtos do agronegócio. De US$ 677 milhões em abril de 2010, o valor passou para US$ 839 milhões em abril deste ano, indicando um crescimento de 23,9%.

Os preços do açúcar e do álcool aumentaram 28,9% e 37,7% no período, respectivamente. Apesar disso, ambos sofreram queda na quantidade exportada –as vendas de açúcar caíram 3,9% e as do álcool encolheram 7,6%. O valor das exportações de açúcar totalizou US$ 811 milhões (aumento de 23,8%) e o álcool, US$ 28 milhões (incremento de 27,3%). Esses três setores –complexo soja, carnes e complexo sucroalcooleiro– concentraram US$ 5,1 bilhões, o equivalente a 65,7% do valor total exportado de produtos do agronegócio em abril de 2011. Em abril do ano passado, a produção desses setores somados respondera por 63,4% do total exportado.

Voltei
Conforme escrevi ontem, as questões que dizem respeito às grandes propriedades e à produção agropecuária voltada para a produção em escala, que exporta e põe comida barata na mesa do brasileiro, estão resolvidas. Elas não emperram a aprovação do novo Código Florestal. Não que Santa Marina e seus “ecólatras” não tenham tentando fulminar também o agronegócio. As ONGs que fazem a sua fama têm interesses globais que não estão comprometidos com a produção nacional. É uma questão de fato.

A luta dos bravos “defensores da natureza” ontem era CONTRA os agricultores pobres. As Milícias do Bem se organizaram para cassar do produtor rural áreas destinadas à agricultura há mais de cem anos. E acenam com o fim do mundo, como se o Brasil não fosse o país com a maior área de florestas preservada do planeta. Como fica feio admitir que estão massacrando pobres, então surgem as acusações: “Isso tudo é coisa do agronegócio”.

E o “agronegócio” se transforma no grande vilão. Quando o deputado Alfredo Sirkis  (PV-RJ) chamou ontem Aldo Rebelo de “canalha” e “traidor” (uma vez carbonário…), estava, pela via da desqualificação, associando o deputado aos “terríveis” ruralistas. E quem são os ruralistas? Essa gente que produz os números que se vêem acima; essa gente que salva o Brasil do desastre; essa gente que responde pela estabilidade da economia; essa gente que Marina Silva, a WWF e o Greenpeace odeiam.

Não só eles. O ódio também está nos jornais, espalha-se pela grande imprensa. Ontem, ouvindo um tantinho de rádio no carro (Dona Reinalda insiste em coisa séria enquanto dirige…), o locutor, uma notória besta ao quadrado, lamentava o que seria o desastre da natureza se o novo Código Florestal fosse aprovado. Deixava subentendido que era o agronegócio o culpado pela suposta tragédia que adviria com o novo texto. Nos grandes portais, com raras exceções, vilão era Aldo, não Cândido Vaccarezza, que humilhou a Câmara.

A síntese é a seguinte: o setor que literalmente salva a lavoura da economia brasileira é obrigado a se defender como se estivesse num tribunal, acusado por vagabundos que devem seus respectivos empregos à estabilidade que aquela gente malvada sustenta. Cospem na comida que comem. Estão de tal sorte ocupados em salvar o mundo ideal que se esquecem do mundo real. E só para encerrar: o texto de Aldo traz regras para preservar a natureza, não para devastá-la, conforme faz crer a maior máquina de mentiras que já tomou conta do debate público no Brasil.

Por Reinaldo Azevedo

Ódio à democracia - Truculência, humilhação, mentiras, baixarias… É o Planalto operando no Congresso! Os petistas Vaccarezza e Paulo Teixeira comandaram o triste espetáculo!

Caros, o texto é um pouco longo, vai a minudências sobre o funcionamento de votações, mas, asseguro, é importante. Vamos lá.

Foi um espetáculo de truculência como raramente se viu. Assistiu-se ontem no Congresso a uma conspirata para humilhar o Poder Legislativo, evidenciando a sua condição de mero caudatário do Poder Executivo. Pela terceira vez, adiou-se a votação do relatório do deputado Aldo Rebelo (PD do B-SP) de um novo Código Florestal. Só que os fatos ocorridos no fim da noite de ontem e início desta madrugada foram mais graves. Nas duas outras vezes, a Casa foi poupada do ritual de humilhação. Agora não! O Planalto fez questão de tratar os deputados de sua base como cãezinhos amestrados.

A coisa é um pouco enrolada, mas vamos ver se consigo sintetizar. Todo o dia de ontem foi ocupado na tentativa de se chegar a um consenso para pôr o texto em votação — o consenso possível. PV e PSOL, por exemplo, já haviam deixado claro que não aceitavam os fundamentos da proposta. Uma reunião no gabinete do presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), com os líderes dos partidos da base e da oposição celebrou um acordo que consistia no seguinte:
- o governo abria mão da exigência de que os pequenos proprietários (até quatro módulos) também fossem obrigados a recompor a reserva legal;
- no caso das Áreas de Preservação Permanente (APPs) — como beira de rios, por exemplo, muitas delas ocupadas há décadas pela agricultura, especialmente no Sul do país —, a regulamentação da ocupação se daria por decreto. Nota: o texto refere-se, reitero, a áreas já ocupadas; não é autorização para desmatamento novo;
- a oposição teria direito a apresentar um destaque.

E se foi, então, para a votação.

Atenção, leitor! Esse texto, chamado de emenda aglutinativa do plenário, foi acompanhado pessoalmente pelo líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), e pelo líder do PMDB na Casa, Henrique Eduardo Alves (RN). Todas as lideranças assinaram simbolicamente o relatório final, inclusive Paulo Teixeira, o líder do PT (SP).

Dois partidos tinham propostas para retirar o texto de votação: PSOL e PV. Os verdes desistiram da sua, e Ivan Valente (SP) defendeu, então, o adiamento em nome da turma do “Socialismo e Liberdade”. Ora, se Vaccarezza não queria votar o relatório de Aldo, bastaria ter chamado os seus “companheiros” de governismo e orientado: “A hora é agora; a gente diz ’sim’ ao requerimento de Valente e pronto! Adia-se de novo!” MAS ISSO NÃO HUMILHARIA SEUS PARCEIROS O BASTANTE, OS MESMOS QUE HAVIAM DECIDIDO NA SALA DE MAIA QUE ERA HORA DE VOTAR. Vaccarezza permitiu que todos  os líderes de siglas governistas recomendassem a rejeição ao adiamento para, então, tomar a palavra.

Grotesco
E se viu, então, o grotesco! O mesmo homem que havia ajudado a costurar o acordo pedia aos partidos governistas que simplesmente MUDASSEM A ORIENTAÇÃO E QUE O “NÃO” À PROPOSTA DO PSOL FOSSE CONVERTIDO NUM “SIM”. Tratou-se de uma espécie de teste de fidelidade canina: “Deita, levanta, junto, morto!!!” Paulo Teixeira, líder do PT, obedeceu e anunciou que os petistas, a partir daquele momento, defendiam a retirada da proposta. E acusou o deputado Aldo Rebelo de ter alterado o texto combinado; alegou desconhecer a nova versão. Aldo o desmoralizou (ver post abaixo deste) ao exibir a sua assinatura no documento. Henrique Eduardo Alves (PMDN-RN), líder do PMDB, inverteu a orientação, mas, anunciou, é só para que o governo tenha tempo de mudar de idéia. Disse que seu partido não vota mais nada antes de aprovar o novo Código Florestal.

O plenário, no entanto, rejeitou o adiamento; mais deputados se manifestaram contra a proposta de Valente do que a favor.  Então era para votar! Mas PMDB e PT pediram verificação de quórum, e Vaccarezza orientou os partidos da base a entrar em obstrução.  Só 190 deputados confirmaram presença. É necessário um mínimo de 257 para votar projetos (metade mais um). Pronto! Outro adiamento!

Mas que diabo aconteceu?
Mas que diabo, afinal de contas, havia acontecido? Simples! A oposição tinha direito a um destaque, certo? E ela resolveu usá-lo justamente para tentar retirar do texto a prerrogativa de o governo decidir a vida dos agricultores por decreto. Atenção mais uma vez! O fato de os oposicionistas terem concordado com o texto-base e terem assinado o acordo não lhes tira o direito de, por intermédio do destaque, tentar mudar o texto. Ou ela está ali para quê?

Não sei como os jornais vão tratar disso nesta quinta — ou sexta, sei lá eu. No começo desta madrugada, o único portal que noticiava corretamente o que havia acontecido, sem qualquer viés opinativo, era o G1. O resto era militância vagabunda

A truculência comandada por Vaccarezza não se voltou só contra a sua base, mas também contra os três partidos de oposição. Sabia que, por meio do destaque, eles tinham grande chance de retirar do governo o poder de decidir por decreto o que o pequeno agricultor pode ou não plantar. Aliás,  Dilma começa a ficar viciada nesse instrumento. Contra a Constituição, já decide por decreto o salário mínimo, por exemplo.

Nem oposição nem governo
Aldo Rebelo é deputado da base do governo. Seu texto expressa a vontade da maioria esmagadora do Congresso, que representa os brasileiros, goste Marina Silva disso ou não. Anteontem, ela sugeriu que é o Executivo quem deve cuidar do assunto. Não era uma guerra entre oposição e governo, como Vaccarezza tentou fazer parecer.

Há dias, vimos o Supremo Tribunal Federal assoberbar-se e assumir o lugar dos legisladores. Ontem, foi a fez de o Executivo passar o trator no Congresso. Como a reportagem vai cedendo lugar à militância, é bem possível que tudo seja noticiado, assim, com um indiscreto tom de vitória das “forças do bem”, a exemplo do que viu no caso casamento gay.

Para certos iluminados que andam por aí, a democracia sai ganhando sempre que o Congresso é humilhado.  Se a “causa” é boa, a democracia que se dane, certo?

Por Reinaldo Azevedo

12/05/2011

 às 6:51

A mão rápida de Marina no Twitter e o contra-ataque de Aldo

Havia uma figura de negro ontem na Câmara, ar severo, pés no chão, cabeça nas estrelas, coração na mata, o espírito nas esferas celestiais. Era Marina Silva, a verde, vestindo preto para expressar seu luto pela eventual aprovação no novo Código Florestal. A vestal já tinha marchado duas vezes sobre Brasília, indo de seu templo, onde guarda o fogo sagrado, até o templo do poder, o Palácio do Planalto, pedir que não se votasse o texto. Nada de debater na planície. Nada de tentar negociar no Congresso — ela até já havia desdenhado um tantinho do Parlamento. Quem decide, ela deixou claro, é o governo. É a democracia que teremos se esta senhora um dia chegar lá.

Muito bem! Paulo Teixeira, líder do PT na Câmara — aquele que quer criar um código verde, sim, mas para as cooperativas de maconheiros — , discursou e afirmou que Aldo Rebelo (PC do B) havia mudado o texto acordado com o governo e com as oposições. Teixeira não é mentiroso, a gente sabe, mas aquilo que ele dizia era uma mentira.

Cândido Vaccarezza (PT-SP), líder do governo na Câmara, e Henrique Eduardo Alves (RN), líder do PMDB, haviam acompanhando pessoalmente a feitura do texto. O busílis era outro. Usando um direito constitucional que tem, os partidos de oposição fariam um destaque para tentar tirar do governo o direito de legislar sobre culturas agrícolas por decreto (ver texto acima).

Foi o bastante para que a santa do pau oco da floresta mandasse brasa no Twitter: “Estou no plenário da Câmara. Aldo Rebelo apresentou um novo texto, com novas pegadinhas, minutos antes da votação. Como pode ser votado?!” Marina é assim: a Aiatolá da Natureza decreta a fatwa contra a reputação de quem bem entende, e danem-se os fatos. Não tinha havido alteração nenhuma texto — tanto que ele estava devidamente assinado por Teixeira. Aldo se zangou e mandou ver: “Quem fraudou contrabando de madeira foi o marido de Marina Silva!”. Segundo Aldo, quando líder do governo na Câmara, foi procurado por Marina para convencer outros deputados a não convocar o marido, Fábio Vaz de Lima, a prestar esclarecimentos no Congresso sobre a denúncia de crime ambiental.

O plenário explodiu em aplausos. Os verdes ensandeceram. O deputado Alfredo Sirkis (PV-RJ) tratou o relator aos berros: “Canalha! Traidor!”. Um outro, não sei quem, queria que Aldo, imaginem vocês, pedisse desculpas a Marina, como se uma divindade tivesse sido desrespeitada. Não custa lembrar: no debate eleitoral do ano passado, Marina afirmou que a violência estava fora do controle em São Paulo… Quem vai contestar a entidade, não é mesmo?

Mogno
Ainda em 2004, o Ibama, subordinado a Marina, fez uma doação de 6 mil toras de mogno apreendidas para a ONG Fase (Federação de Órgãos para a Assistência Social e Educacional). A Fase era uma das entidades que integrava o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), de que Fábio, o maridão, era dirigente. Houve denúncias de que a política de doação do Ibama seria uma forma de esquentar madeira ilegal extraída da Amazônia. O próprio TCU condenou a doação, dizendo que ela foi promovida sem observar os princípios da isonomia, impessoalidade e publicidade. “Ao menos nos elementos trazidos aos autos, não ficaram claros os motivos que levaram à escolha da Fase como donatária”, disse o relator do processo, ministro Humberto Souto ao Jornal do Brasil.

Ibama
Aldo deu uma mãozinha ao marido de Marina, que eu saiba, como ministro da Coordenação Política, em 2004. Funcionários do Ibama denunciaram uma falcatrua no órgão, e um requerimento do então deputado tucano Luiz Calos Hauly (PR) pediu a realização de uma audiência pública na Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara. Eram convidados a falar o então presidente do Ibama, Marcus Luiz Barroso Barros; o ex-diretor de Gestão estratégica, Leonardo Tinoco, Fábio Vaz e o chefe do Centro Nacional de Populações Tradicionais (CNPT) do órgão, Atanagildo de Deus Matos.

Segundo a denúncia, o Programa de Desenvolvimento Comunitário das Reservas Extrativistas, financiado pelo BNDES, teria sido superfaturado. Leonardo Tinoco e dois outros servidores teriam sido demitidos porque discordaram dos valores do projeto elaborado pelo Conselho Nacional de Seringueiros. O tal Atanagildo, que já respondia a inquérito administrativo, acusado de desvio de R$ 1,5 milhão em um programa ambiental financiado pelo Banco Mundial, teria feito a tabela de preços para o programa das reservas extrativistas.

Muito bem! E o marido com isso? Ele seria o verdadeiro autor do projeto. À época, estava lotado no gabinete do então senador Sibá Machado (PT-AC). Sibá, suplente de Marina, só estava no Senado porque ela era ministra. Não lhes parece, então, muito natural que o marido da titular fosse assessor do suplente? Sibá, hoje em dia, é deputado federal e saiu ontem em defesa do marido de Marina. Foi mais longe: pediu, sabe-se lá com que autoridade, que a fala de Aldo fosse retirada dos anais da Câmara.

Por Reinaldo Azevedo

Novo Código Florestal - A paz não interessa a quem lucra com a guerra

Se Marina Silva e a miríade de ONGs não conseguirem, uma vez mais, humilhar o Congresso brasileiro, acusando-o de incompetente para votar um novo Código Florestal, é possível que o sensato texto do deputado Aldo Rebelo (PC do B) seja aprovado hoje. E, meus caros, aí sim, os nossos problemas estarão apenas começando, já digo por quê. Antes que chegue lá, algumas considerações que são vitais para o entendimento do debate. Cumpre indagar: quem não quer um acordo para que se tenha um Código Florestal exeqüível e responsável no Brasil? A resposta óbvia: as ONGs e os políticos que fizeram da causa ecológica a sua principal fonte de financiamento.

Essa gente precisa do clima de guerra — inclusive da guerra contra a natureza — para que possa se financiar no mercado das idéias. A venda do caos, das teorias escatológicas, do fim-do-mundismo  rendem um dinheirão. Bancos, indústrias de tecnologia, gigantes da área de serviços, grande redes do comércio, toda essa gente está disposta a ganhar o selo de “ecologicamente correta”. Fundações mundo afora, financiadas pelo culpado dinheiro velho, inundam o caixa dos prosélitos da causa. Se o Brasil tiver um Código Florestal que possa ser cumprido, a quem se vai vender a salvação do mundo?

O Brasil é o país que mantém a melhor relação desenvolvimento/conservação do mundo. Alguns dos agentes internacionais que vêm cá fazer o seu proselitismo não teriam o que preservar em seus países de origem e preferem fazer de conta que é razoável ter o Bananão como um grande santuário. É evidente que a contestação desse farisaísmo não deve servir de estímulo à exploração irresponsável dos recursos naturais ou à sua destruição. Mas quem prega isso? Certamente não é o texto de Aldo Rebelo, ao qual se atribuiu, de forma estúpida e vigarista, até mesmo a responsabilidade de cuidar da ocupação do solo urbano, o que é regulado por outras leis e códigos. Trata-se de um formidável espetáculo de desinformação, no qual a imprensa entrou alegremente porque, quase na totalidade, passou a atuar como militante da causa.

Criou-se até a falsa clivagem entre “progressistas” (os que se opõem ao texto de Rebelo) e “reacionários” (os que o defendem), “atrasados” (idem) e “modernos” (o mesmo…). Até ontem à noite, um ponto impedia a votação: a dispensa de reflorestamento para os pequenos proprietários, de até quatro módulos. Ora, fica evidente o caráter anti-social dos que se opõem ao texto. Quem possui grandes extensões de terra não se opõe à recomposição florestal porque ela ocupará uma porcentagem pequena da terra.

Nesse caso, de modo espantoso, além da militância escatológica dos ditos ecologistas, é preciso enfrentar a má fé ideológica do petismo. O governo aceitava isentar os pequenos desde que eles pertencessem a cooperativas ou integrassem a cadeia da chamada “agricultura familiar” — vale dizer, o crivo passaria a ser, então, de natureza puramente política. É sabido que esses grupos, na maioria das vezes, são ligados ao MST e, por conseqüência ao PT. Entenderam o busílis? Se o pequeno agricultor tem pedigree ideológico, então ele não precisa recompor a mata nativa; se não tem, está lascado. É o fim da picada!

Dificuldades
Se o texto de Aldo for aprovado, o país terá uma das mais avançadas e preservacionistas leis ambientais do mundo, que não seria cumprida em qualquer lugar do planeta. Ainda que a aprovação, como se nota, dê um trabalho danado, essa não será a maior dificuldade. Será preciso ter estrutura para fazer valer a letra da lei. E, nesse caso, é preciso mobilizar também os estados, em vez de tentar manter a estrutura centralizada em Brasília. Mas, de novo, os ecologistas ongueiros não querem nem ouvir falar da divisão de responsabilidades e de uma autonomia relativa dos estados; para eles, isso seria sinônimo de desmatamento.

Uma ova! Enquanto o meio ambiente, mesmo dotado de um bom código, como será o de Aldo Rebelo, continuar como terra de ninguém, melhor para essas “Milícias do Bem”, que podem continuar a bater a carteira do grande capital e das fundações para “proteger” o verde. Não fosse assim, não teriam defendido que se adiasse qualquer decisão por mais dois anos. Ora, se essas mesmas entidades dizem que o desmatamento em curso é grande, sem qualquer controle ou regra,  o que se ganharia com o adiamento?

RESPOSTA: MUITO DINHEIRO!

Nesses dois anos, todas as “forças do bem” se conjurariam para que se tivesse no Brasil um Código Florestal que saísse a contento da militância. Provavelmente, ele estaria muito próximo deste de Rebele, mas seriam necessários muitos milhões de dólares para financiar campanhas de preservação e para satanizar os malvados “ruralistas” e o “agronegócio”, que não gostam da natureza, entenderam? Ora… Os grandes empresários do setor já resolveram suas pendengas e estão de olho, hoje, no que fazem muito bem, no mercado de créditos de carbono — como, diga-se, faz George Soros, um grande ecologista hoje em dia.

Quem é mesmo o atrasado nesse debate? Quem é o oportunista? Quem pretende fazer do terrorismo ecológico um redutor do debate público, de modo que não se pode apelar nem mesmo à racionalidade sem que isso pareça de um insuportável reacionarismo? Tenham paciência! Notem que vocês nem ouviram falar do setor sucroalcooleiro ou das papeleiras nesse processo todo. Esses gigantes não terão qualquer dificuldade em se adaptar às restrições. O problema, reitero, está mesmo com os pequenos proprietários. Milhões deles teriam inviabilizada sua atividade se obrigados, como queriam alguns, a recompor a matar nativa.

O nosso problema, reitero, será fazer cumprir o novo código. Para isso, sim, num país viciado em ilegalidade, será preciso mobilizar forças. Quanto à turma viciada no dinheiro fácil que rende a pregação do fim do mundo, dizer o quê? Sei lá… Comece a pregar a substituição de combustíveis fósseis pela energia do pensamento.

O código, como o propõe Aldo, abre uma janela para a convivência pacífica entre economia e preservação. Como sempre, a paz não interessa aos que lucram com a guerra.

Por Reinaldo Azevedo
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Blog Reinaldo Azevedo (VEJA)

1 comentário

  • Almanakut Brasil Ribeirão Preto - SP

    Convidamos o ilustre colunista e seus familiares, para uma visita a Ribeirão Preto, na época das queimadas.

    Se tiver alguém com problemas respiratório, nem pense em trazer, pois os míseros postos de saúde e as disputadas vagas em hospitais, devido aos problemas causados pelo progresso do etanol, não vencem a demanda.

    Para piorar, empreendimentos imobiliarios estão sendo construídos em frente à última reserva de mata nativa do interior paulista.

    Pelo menos, podemos nos contentar com a notícia de que Ribeirão Preto terá Agrishow por mais 30 anos, o que nos trará cada vez mais e mais "agrimoças", conhecidas desde a mais antiga feira do agronegócio do mundo.

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