Só no Brasil a nova ponte do Rio Guaíba não é o caminho mais curto entre o Ministério dos Transportes e a penitenciária

Publicado em 05/07/2011 18:24 682 exibições
dos blogs de Augusto Nunes e Reinaldo Azevedo, em veja.com.br

Só no Brasil a nova ponte do Rio Guaíba não é o caminho mais curto entre o Ministério dos Transportes e a penitenciária

Há uma semana, o governo da China  inaugurou a ponte da baía de Jiaodhou, que  liga o porto de Qingdao à ilha de Huangdao. Construído em quatro anos, o colosso sobre o mar tem 42 quilômetros de extensão e custou o equivalente a R$2,4 bilhões.

Há uma semana, o DNIT escolheu o projeto da nova ponte do Guaíba, em Ponte Alegre, uma das mais vistosas promessas da candidata Dilma Rousseff. Confiado ao Ministério dos Transportes, o colosso sobre o rio deverá ficar pronto em quatro anos. Com 2,9 quilômetros de extensão, vai engolir R$ 1,16 bilhão.

Intrigado, o matemático gaúcho Gilberto Flach resolveu estabelecer algumas comparações entre a ponte do Guaíba e a chinesa. Na edição desta segunda-feira, o jornal Zero Hora publicou o espantoso confronto númerico resumido no quadro abaixo:

Os números informam que, se o Guaíba ficasse na China, a obra seria concluída em 102 dias, ao preço de R$ 170 milhões. Se a baía de Jiadhou ficasse no Brasil, a ponte não teria prazo para terminar e seria calculada em trilhões. Como o Ministério dos Transportes está arrendado ao PR, financiado por propinas, barganhas e permutas ilegais, o País do Carnaval abrigaria o partido mais rico do mundo.

Depois de ter ordenado o afastamento dos oficiais, aí incluído o coronel do DNIT, Dilma Rousseff parece decidida a preservar o general. “O governo manifesta sua confiança no ministro Alfredo Nascimento”, avisou nesta segunda-feira uma nota da Presidência da República. “O ministro é o responsável pela coordenação do processo de apuração das denúncias feitas contra o Ministério dos Transportes”. Tradução: em vez de demitir o chefe mais que suspeito, Dilma encarregou-o de  investigar os chefiados.

Corruptos existem em qualquer lugar. A diferença é que o Brasil institucionalizou a impunidade. Se tentasse fazer em outros países uma ponte como a do Guaíba, Alfredo Nascimento e seus parceiros saberiam que o castigo começa com a demissão e termina na cadeia.

O Bolsa Família dos Bilionários

A reação negativa provocada pela notícia de que o BNDES resolveu abençoar com R$4 bilhões a fusão do Pão de Açúcar com o Carrefour pode ter matado, ainda no berço, o mais audacioso programa social entre todos os que ajudaram a construir o Brasil Maravilha registrado em cartório.

Como Lula acabou com a pobreza, como Dilma já começou a acabar com a miséria, como a classe média existe para pagar as contas do governo, só faltava o programa que ─ aperfeiçoado depois do teste bem sucedido com Sílvio Santos ─ seria lançado oficialmente com a entrega do dinheiro e de um diploma a Abílio Diniz.

É o Bolsa Família dos Bilionários.

Eles acharam que estava tudo dominado

“Está tudo dominado”, costumam lastimar-se muitos comentaristas da coluna. É compreensível a sensação de impotência provocada pela impunidade dos corruptos, pela cumplicidade ativa ou passiva dos três Poderes, pela voracidade da aliança governista, pela pilhagem sistemática dos cofres públicos, pela mansidão bovina da maioria do eleitorado ─ enfim, pela paisagem política desoladora. Mas não está tudo dominado.

A frase que dá por consumado o triunfo dos fora-da-lei será apenas um verso derrotista enquanto existirem imprensa livre e milhões de brasileiros capazes de indignar-se com denúncias consistentes. Se tudo estivesse dominado, Antonio Palocci, por exemplo, ainda seria chefe da Casa Civil. O governo fez o que pôde para proteger o reincidente incurável. Acabou por render-se aos homens honestos inconformados com a nova safra de patifarias.

Se estivesse consumado o triunfo dos vilões, a quadrilha que age há meses no Ministério dos Transportes não começaria a ser desbaratada horas depois que seus integrantes foram identificados por uma reportagem de VEJA. Nomeados pelo ministro Alfredo Nascimento, presidente do PR, e sob o comando do deputado Valdemar Costa Neto, um dos mais gulosos protagonistas do escândalo do mensalão, os quadrilheiros instalados na cúpula do ministério abasteceram o caixa do partido e as próprias contas bancárias com bilhões de reais desviados dos cofres públicos.

Certamente por achar que está tudo dominado, o bando abusou dos métodos de sempre ─ obras sem licitação, contratos superfaturados, barganhas com empreiteiros e empresas fantasmas, fora o resto. Na manhã deste sábado, quatro chefões souberam que estavam desempregados numa conversa por telefone com Alfredo Nascimento, o ex-ministro de Lula que recuperou a vaga no primeiro escalão por ter naufragado na disputa do governo do Amazonas. Veterano frequentador do noticiário político-policial, ele continua a fazer de conta que não sabia de nada. A pose de inocente não combina com o prontuário. E colide com depoimentos que amparam a denúncia de VEJA.

Há dias, Nascimento alegou “compromissos inadiáveis” para ausentar-se da reunião em que Dilma quis saber dos figurões do ministério por que todas as cifras que administram estavam “insufladas”. (Insuflar: é isso o que faz, na novilíngua do Planalto, quem acumula um himalaia de bandalheiras. Mas isso é tema para outro post). A presidente foi dispensada por VEJA de convocar outro encontro para cobrar as respostas: a edição desta semana desvendou o claro enigma.

Com argumentos de sobra para livrar-se dos “insufladores”, Dilma tem o dever de prosseguir a faxina com a imediata demissão do ministro. Ainda convalescendo da afronta estrelada por Palocci, o país não merece ficar outros 20 dias esperando que Alfredo Nascimento se anime a gaguejar algum álibi, ou tente explicar o inexplicável.


O convite ao ministro-problema e os fatos

Como vocês leem abaixo, uma comissão do Senado aprovou um convite para o Ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, dar explicações sobre a lambança no seu ministério. Leiam o que informa Gabriela Guerreiro na Folha Online. Volto em seguida:

A Comissão de Meio Ambiente, Fiscalização e Controle do Senado aprovou nesta terça-feira convite para o ministro Alfredo Nascimento (Transportes) prestar depoimento para explicar as denúncias de superfaturamento em contratos e licitações da pasta e órgãos ligados ao ministério.

Também foram convidados a depor o diretor-afastado do Dnit, Luiz Antonio Pagot, o presidente afastado da Valec, José Francisco Neves e dois assessores de Nascimento –que também deixaram os cargos. Os convites são de autoria dos senadores Pedro Taques (PDT-MT) e Randolfe Rodrigues (PSOL-AP).

Paralelamente aos convites, a oposição protocolou na Comissão de Infraestrutura do Senado pedido de convocação de Nascimento. O líder do PSDB, senador Álvaro Dias (PR), disse que vai defender a aprovação da convocação se Nascimento não atender aos convites da Casa até quinta-feira - quando a comissão se reúne.

“Se o ministro vier antes de quinta como convidado, retiramos o requerimento de convocação. Se não vier, o requerimento pode ser aprovado. Como convocado ou convidado, o importante é que ele venha se explicar”, disse o tucano.

Ontem, em nota, Nascimento disse que está à disposição do Congresso para prestar as “explicações necessárias” sobre as denúncias na pasta. Deputados e senadores do PR, partido do ministro, também protolocaram convites para que ele venha depor no Congresso - numa estratégia para evitar a sua convocação.

O senador Blairo Maggi (PR-MT) protocolou hoje convites nas Comissões de Fiscalização e Infraestrutura do Senado para o ministro se explicar.

As suspeitas de corrupção no Ministério dos Transportes, no Dnit e na Valec incluem um esquema de superfaturamento de obras e recebimento de propina que beneficiaria o PR. O partido controla a pasta desde o governo Lula e é um dos principais aliados do governo.

No sábado, com a divulgação das denúncias pela revista “Veja”, quatro integrantes da cúpula do ministério foram afastados por determinação de Dilma. Apesar das acusações, Dilma decidiu manter Nascimento no cargo.

CPI

A oposição deu início nesta terá-feira à coleta de assinaturas para instalar CPI no Senado com o objetivo de investigar as denúncias de superfaturamento no Ministério dos Transportes, Dnit e Valec. Com minoria na Casa, os oposicionistas admitem que vão precisar do apoio de senadores da base governista para atingir o número mínimo de 27 assinaturas necessárias para que a CPI saia do papel.

“Já temos o apoio de alguns senadores dissidentes da base, como Pedro Taques e Ana Amélia. Vamos continuar a busca por assinaturas”, disse o líder do DEM, senador Demóstenes Torres (GO).

Comento

O convite para Alfredo Nascimento depor é um movimento combinado com o Palácio do Planalto. É uma última tentativa de salvar a cabeça do ministro, Dilma não quis afrontar o PR, demitindo-o. Caso Nascimento consiga dar explicações satisfatórias - e isso só acontecerá se as perguntas forem muito ruins -, sua sorte estará selada. Não restará à presidente alternativa que não seja a demissão. Intimamente, Dilma torce para Nascimento se estourar. O Ministério dos Transportes, como a própria presidente já admitiu; está fora de controle. Valdemar da Costa Neto, Secretário Geral do PR, admitiu em nota oficial que o partido realiza reuniões com a cúpula da pasta para cuidar de interesses da base. É a confissão de um escândalo.

Por Reinaldo Azevedo

Lula: impostura até diante de um cadáver

Poderia deixar passar, mas não vou. Acusar as imposturas de Lula é uma questão civilizatória. A cada vez que ele brutaliza a verdade, é um dever moral acusar a mentira. Na Folha de hoje, o Babalorixá de Banânia afirma que foi preciso Itamar Franco morrer para que lhe reconhecessem o mérito do Plano Real. É uma forma indireta e vigarista de atacar FHC, como se este houvesse sequestrado a obra daquele. O tucano sempre reconheceu, e o fez ainda outra vez há dois dias, que Itamar era o presidente à época da decretação do Real. Mas também é fato notório que este não tinha a exata noção do problema.

Quem não reconhece as virtudes do real é Lula. Tanto é assim que seu partido votou contra a lei que o instituiu. Os petistas diziam que o plano seria um desastre para o Brasil. Quem satanizou Itamar foi Lula, especialmente durante a privatização da CSN. Quem hostilizou Itamar foi Lula, tanto é que o PT se negou a fazer parte da base de apoio ao governo e puniu Luiza Erundina, que aceitou ser Ministra da Administração. Vai ver Lula fala de si mesmo. Enquanto Itamar era Presidente da República, o PT, na oposição, fez o que sabe fazer: sabotar o governo.

Por Reinaldo Azevedo
Tags:
Fonte:
veja.com.br

0 comentário