O depoimento de Pagot e o estilo Dilma

Publicado em 10/07/2011 21:18 e atualizado em 11/07/2011 06:17 311 exibições
dos blogs de Lauro Jardim e Augusto Nunes, em veja.com.br
Será que na terça-feira Luiz Antonio Pagot em seu depoimento no Senado vai cumprir a ameaça e botar o PT na roda? Vai detalhar o que lançou no ar sobre o ministro Paulo Bernardo, que durante a campanha seria o inspirador ou teria “trabalhado em conjunto” com o Dnit nos aditivos para várias obras?

Pela quantidade de emissários que tem circulado em Brasília com o objetivo de baixar a bola de Pagot, o mais provável é que seja um depoimento chocho. Ou seja, não deve avançar mais do que já avançou nas entrevistas dos últimos dias. Não é todo dia que aparece um Roberto Jefferson para explodir-se e explodir esquemas bem armados.

Para além do depoimento de Pagot e da escolha do novo dono da cadeira de ministro dos Transportes, há uma outra questão que excita Brasília: o estilo Dilma. Ele voltou à cena nos episódios da semana passada. Mais do que a demissão de Antonio Palocci, a queda de Alfredo Nascimento e da quadrilha da pesada do ministério dos Transportes deixou inquieta a base do governo no Congresso.

A rapidez do desfecho da crise rompeu, como diz em tom crítico e reservadamente um senador governista, “com as regras básicas da convivência política”. Ele fala da particular etiqueta política a que o mundo de Brasília se acostumou.

Dilma, fique claro, não está chutando o pau da barraca. Mantém suas alianças com partidos 100% fisiológicos. Dá a eles cargos e algum poder. Pragmaticamente, os aceita em troca da governabilidade. Mas, também é verdade, atuou na semana passada num diapasão diferente sobretudo do que foi o padrão da era Lula.

Um político nordestino, dono de um (bom) cargo tanto no governo Lula como no atual, resume à perfeição o sentimento da turma:

- O Lula passava a mão na cabeça do encrencado e o segurava até onde dava. Só quando não dava mais para segurar o demitia. Dessa forma, ficávamos de algum modo grato a ele. Com a Dilma instituiu-se o “publicou na revista, foi para rua”. Não pode ser assim. Está todo mundo tenso.

E qual é o problema? O mesmo político nem espera a pergunta. Não em tom de ameaça (embora seja), mas de aviso, saca rápido um conselho :

- Tem que ter cuidado com a base parlamentar.

É esse o jogo delicado em que Dilma está se metendo. Em suas reuniões fechadas e nas conversas reservadas com jornalistas, a tal base parlamentar do governo tem desenhado um fantasma: o troco, um cascudo no governo numa votação importante na volta do recesso parlamentar de julho.

Ressalte-se que ninguém aqui imagina que Dilma Rousseff esteja querendo botar os maus costumes políticos dos partidos da base porta afora. Até porque eles pululam dentro de sua própria casa, ou seja no PT, como qualquer mensaleiro e aloprado está cansado de saber.

Dilma não está, portanto, como disse outro dia um afoito e exagerado senador, querendo lançar as bases para uma “nova maneira de fazer política”. Talvez ela queira apenas dar um freio de arrumação para diminuir um pouco o grau de fisiologismo e corrupção geral. Ou, numa palavra, livrar-se de parte da herança maldita que Lula deixou como herança.

Por Lauro Jardim

Lula, o eterno sujeito oculto…

O nome de Lula só é citado seis vezes nas 390 páginas das alegações finais do processo do mensalão, enviado ontem por Roberto Gurgel ao Supremo. Só uma delas, aliás, no corpo do texto. Outras quatro menções ocorreram na transcrição de depoimentos de investigados e, em uma nota de rodapé, a sexta.

A propósito, o padrão é o mesmo adotado por Antonio Fernando de Souza, quando ofereceu denúncia contra os mensaleiros em março de 2006. Em 136 páginas, foram apenas duas citações de Lula, em notas de rodapé.

Por Lauro Jardim
…e Dirceu, o onipresente

Em compensação, José Dirceu é citado 150 vezes nas alegações finais. Oitenta e cinco delas no corpo do texto, sessenta em depoimentos de testemunhas e investigados e, em notas de rodapé, outras cinco.

Quando da denúncia, Dirceu também teve uma média de citações acima de uma a cada duas páginas. São 83 menções, 54 das quais no corpo da acusação e 29, em notas de rodapé.

Por Lauro Jardim

Nas asas do marketing

Só no gogó - Lula em mais uma ação de marketing: o negócio dele é jatinho

Só no gogó - Lula em mais uma ação de marketing: o negócio dele é jatinho

Lula foi ao velório de Itamar Franco de jatinho. Dias depois, seguiu noutro jato para o Chile. Nada fora da rotina: desde que deixou a Presidência, todas as viagens que fez — mais de trinta — foram em jatos emprestados. Exceto uma.

Marqueteiro de mão-cheia, justamente em seu primeiro voo depois de deixar o Planalto, entrou num avião da Gol, na ponte aérea Rio-São Paulo, com direito a muita fanfarra e, claro, fotos. Na ocasião, deu declarações dizendo que adorava viajar em voos normais para ver os aeroportos cheios.

Era só da garganta para fora. Lula tem todo o direito de andar de jatinho. Podia, no entanto, poupar o distinto público dos seus arroubos populistas.

Por Lauro Jardim

Silvinho Land Rover atropelou o show de cinismo ensaiado pelos mensaleiros, por Augusto Nunes

Decidido a escapar do processo em curso no Supremo Tribunal Federal, o mensaleiro Silvio Pereira, ex-secretário-geral do PT, fechou em janeiro de 2008 um acordo com a Procuradoria Geral da República. Em troca da suspensão do julgamento por formação de quadrilha, o integrante do bando dos 40 dispôs-se a cumprir uma pena alternativa ─ três anos de serviço comunitário numa subprefeitura de São Paulo.

As duas partes julgaram ter feito um bom negócio. A Procuradoria conseguiu do réu uma confissão de culpa. O delinquente, além do castigo extraordinariamente suave para quem se enfiou até o pescoço nas bandalheiras do mensalão, conseguiu voltar a dormir sem sobressaltos. Ele não sabia o que é isso desde julho de 2005, quando perdeu o cargo na direção do PT e ganhou a alcunha de Silvinho Land Rover, marca do veículo presenteado por um fornecedor da Petrobras ao figurão que lhe abrira as portas do Planalto.

Submerso há mais de três anos, ele pode ser ruidosamente devolvido à ribalta pelo julgamento de que escapou. Depende do resultado. Se o STF sucumbir ao show de cinismo ensaiado por Lula e seus devotos, ignorar a montanha de provas contundentes e absolver os pecadores que continuam no banco dos réus, ficará estabelecido que não houve mensalão nem mensaleiros. Caso seja erguido esse monumento ao absurdo, espera-se que algum ministro togado tenha a bondade de desvendar o enigma produzido por Silvinho Land Rover: pela primeira vez na história do Judiciário, um inocente quis ser punido por crimes que não cometeu.

A quadrilha que controla um ministério enriqueceu com obras do PAC

Até a descoberta da quadrilha comandada por chefões do PR, todas as obras do Ministério dos Transportes eram coisa do PAC. Um trecho de 20 metros da Ferrovia Norte-Sul ficou pronto? Três buracos de uma rodovia federal foram fechados? Uma pedra fundamental vai anunciar outra maravilha sem prazo para terminar? Desde janeiro de 2007, quando foi inventado o Programa de Aceleração do Crescimento, nenhuma dessas miudezas escapou do comício com muito foguetório e outra discurseira de Lula.

“O PAC é, sem dúvida nenhuma, o mais bem-elaborado programa de desenvolvimento que este país já produziu”, gabou-se em maio de 2008 num palanque em Cuiabá. Na maior constelação de canteiros de obras do universo, ensinou, atrasos não são sinais de incompetência, mas demonstrações de seriedade. “É importante que as coisas demorem, para serem bem-feitas”, caprichou. “Porque nós estamos cansados neste país de obras mal começadas e paralisadas a vida inteira”.

Mais espantoso ainda, a montagem e a administração do colosso dispensara a criação de um ministério com prédio próprio, ou a contratação de dezenas de executivos, centenas de especialistas, o homem do cafezinho e um porteiro. Bastara uma Dilma Rousseff. Foram suficientes o colo, os cuidados, as advertências e os ensinamentos da supergerente de país que tudo sabia, tudo anotava e tudo vigiava, armada de pitos, power points e telões.

As coisas mudaram dramaticamente com a aparição, na interminável procissão de patifarias, do andor com o escândalo de julho. Assim que se soube do bando criminoso chefiado por Valdemar Costa Neto e composto por vigaristas do PR, todas as obras na área de transportes foram devolvidas ao ministério. O Planalto não tem nada a dizer sobre obras, licitações e consultorias que sangraram impiedosamente verbas do PAC. Estradas federais agora são coisa do DNIT. Quem cuida de ferrovias é uma certa Valec. O PAC, hoje aos cuidados da madrasta Miriam Belchior, não tem nada a ver com obras do PAC que viram caso de polícia.

Além da queda do ministro Alfredo Nascimento, o escândalo da vez provocou abalos profundos em duas fraudes. A primeira é fingir que existe uma “base aliada” onde existe uma base alugada. O preço do PR, por exemplo, inclui o arrendamento do Ministério dos Transportes a um ajuntamento de larápios. O segundo embuste é fazer de conta que o PAC existe. Como se não fosse apenas a soma dos projetos tocados (ou não) por ministérios e estatais, sem vigilância nem controle por parte do Planalto.

Embora vexatória, admitir tal obviedade é a opção menos perigosa para Dilma Rousseff. Caso insista na pose de Mãe do PAC, a presidente será confrontada com duas hipóteses igualmente desmoralizantes. Se sabia da ladroagem que correu solta no Ministério, é cúmplice de muitos crimes. Se não sabia de nada, é tão incompetente quanto qualquer mãe que não sabe sequer o que o filho faz.

Até o procurador que socorreu Palocci acha que os mensaleiros merecem cadeia

Para alívio dos brasileiros honestos, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, não estendeu aos mensaleiros a lastimável brandura com que tratou o traficante de influência Antonio Palocci. No parecer de 390 páginas que reúne as alegações finais do Ministério Público, Gurgel pediu ao Supremo Tribunal Federal a condenação de 36 réus envolvidos no maior de todos os escândalos protagonizados pela bandidagem federal. Em vez de esconder-se no juridiquês, contou em linguagem de gente quem fez o quê no esquema criminoso desmontado em 2005.

“Ficou comprovado, sem sombra de dúvida, que José Dirceu agiu sempre no comando”, constatou Gurgel. “Era, enfim, o chefe da quadrilha”. O deputado Valdemar Costa Neto, por exemplo, “foi cooptado por José Dirceu e recebeu a quantia de R$ 8.885.742,00 para votar a favor de matérias do interesse do governo”. Sempre desastrado, foi também o então chefe da Casa Civil quem anexou ao bando (e mais tarde acendeu) o estopim da grande crise. “O acordo fechado à época por Roberto Jefferson com José Dirceu impunha o pagamento do valor de R$ 20.000.000 para que o PTB aderisse à base”, resumiu Gurgel, que reservou disparos de grosso calibre a todos os mensaleiros juramentados.

É possível que o conteúdo e a forma do documento tenham sido influenciados pelo desconforto manifestado por centenas de integrantes do Ministério Público com a decisão, tomada por Gurgel, de nem sequer investigar as ilegalidades atribuídas a Antonio Palocci. O áudio divulgado abaixo atesta que o procurador-geral acusou o golpe. O documento encaminhado ao STF não corre o risco de provocar reações semelhantes no universo dos profissionais encarregados de fazer justiça. Na sua essência, o texto se limita a reafirmar ou sublinhar verdades amparadas em  montanhas de provas.

Os ministros do Supremo têm assombrado o Brasil com decisões insensatas. Mas só a renúncia à razão, à altivez e ao respeito à lei poderá explicar a eventual rejeição do que recomenda Gurgel em seu parecer: os quadrilheiros merecem cadeia.

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veja.com.br

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