O misterioso advogado do Diário da Noite e o vigarista que se hospedou no DNIT, por Augusto Nunes

Publicado em 18/07/2011 19:21 636 exibições
blogueiros de veja.com.br (Augusto Nunes, Reinaldo Azevedo e Lauro Jardim)

O misterioso advogado do Diário da Noite e o vigarista que se hospedou no DNIT

Ninguém na redação do Diário da Noite sabia quem era aquele homem de terno e gravata que chegou no começo da tarde, caminhou sem pressa até a mesa desocupada, pendurou o paletó na cadeira, sentou-se com a naturalidade de quem está em casa, fez algumas ligações telefônicas, recebeu cinco ou seis visitantes e conversou com cada um cerca de meia hora, sempre em voz baixa. Deve ter padrinho forte, imaginaram os que o viram partir na hora do crepúsculo.

Voltou na tarde seguinte e reprisou o ritual da véspera. E assim foi por cinco dias, até que alguém enfim lhe perguntou quem era e o que fazia na redação. Era advogado e tinha escritório montado ali perto da sede dos Diários Associados, esclareceu o desconhecido. Naquele início dos anos 70, um amigo que trabalhava na empresa vivia dizendo que aquilo se transformara numa terra sem lei. Ninguém sabia quem mandava, cada um fazia o que queria. Ao passar diante do prédio, bateu-lhe a ideia de acampar na redação do Diário da Noite. Como não encontrou nenhum impedimento, improvisou na mesa uma filial da banca de advocacia. Aquilo era mesmo uma terra sem lei.

Neste começo de inverno, o Brasil foi apresentado a uma história mais espantosa e mais desmoralizante que a do advogado do Diário da Noite, que os jornalistas costumam evocar em defesa da tese de que não há limites para o absurdo quando alguma redação escapa ao controle dos incumbidos de conduzi-la. Na versão reciclada, a empresa em estado terminal é o governo federal, o jornal à deriva é o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, vulgo DNIT, e o advogado desconhecido é um vigarista com nome, sobrenome e apelido.

Frederico Augusto de Oliveira Dias, o Fred, ocupa desde 2008 uma sala do DNIT e o cargo de “assessor do diretor-geral”. Há quase três anos, acumulando as funções de representante do deputado Valdemar Costa Neto ─ chefão do PR e do bando  que age no Ministério dos Transportes ─, Fred despacha despacha com prefeitos, parlamentares e autoridades de outros ministérios, preside reuniões destinadas a estabelecer prioridades, apressa a liberação de verbas multimilionárias. É o que continuaria fazendo se não fosse localizado por VEJA no meio da turma que enriquece nas catacumbas do Ministério dos Transportes.

Nesta sexta-feira, a presidente Dilma Rousseff ordenou ao novo ministro, Paulo Passos, que demitisse o negociante de verbas. Impossível, informou nesta quinta-feira o Correio Braziliense: como o advogado do Diário da Noite, Fred nunca foi nomeado oficialmente para qualquer cargo, não figura na folha de pagamento, não aparece no quadro de funcionários. Chegou lá em 2008 porque Valdemar Costa Neto determinou-lhe que cuidasse dos seus interesses no DNIT. Instalou-se numa sala e entrou em ação. Como não encontrou nenhum impedimento, foi ficando.

Paulo Passos não sabe quem paga o salário do notório vigarista. Também garante que mal conhece Fred, que o acompanhou numa viagem à Bahia quando era ministro interino. O inverossímil Luiz Antônio Pagot faz de conta que não sabe direito quem é ou o que faz o assessor com quem conversava diariamente. “Não vou dizer que é um pobre coitado, mas não é funcionário de carreira, não tem poder de decisão nenhuma”, desdenhou. “Se pudesse comparar, diria que é um estafeta, um boy”. “Boy”, por sinal, é o apelido de Valdemar Costa Neto, que infiltrou numa sala perto do cofre o amigo e cabo eleitoral.

Em troca do apoio incondicional ao governo, Lula presenteou gatunos de estimação alojados no PR com o controle do Ministério dos Transportes e um salvo-conduto que permite roubar impunemente. O advogado do Diário da Noite ficou alguns dias na redação porque o jornal estava morrendo de anemia financeira. O quadrilheiro do DNIT ficou alguns anos por lá porque sobra dinheiro e falta cadeia.

(por Augusto Nunes)


Transportes, Pagot, a flor da moralidade e o pântano. Ou: Não gostam do governo Dilma, mas do prazer que ele proporciona

Para usar uma imagem de Ciro Gomes, um aliado do governo Dilma, o Ministério dos Transportes é um “roçado de escândalos”, não é?, e que só faz aumentar. A reação inicialmente enérgica da presidente Dilma Rousseff recuou para uma tentativa de acomodação, que se mostra inútil. As denúncias se avolumam. A situação de Luiz Antonio Pagot, o “demitido” que está de férias, serve de emblema do imbróglio.

Indagada hoje se ele, afinal, perderá o cargo, a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais), com a firmeza de uma gelatina, afirmou: “Tudo indica que sim, até pelas reiteradas vezes que ela [Dilma Rousseff] tem se comportado dessa forma”. E tentou explicar: “Operacionalmente, com alguém de férias, você não pode tomar essa medida”. A fala está mais para uma anedota. A questão não é “operacional”, mas política. O busílis é outro: Pagot não está disposto a ficar calado.

Afinal, o PT também se aproveitava dos, como chamar?, benefícios auferidos pelo PR no feudo em que havia se transformado o Ministério dos Transportes. Nunca é demais lembrar:  patriotas do “Partido da República” dizem a quem quiser ouvir que dinheiro do esquema irrigou a campanha eleitoral de Dilma. E se perguntam, então: “Por que havemos de pagar o pato sozinhos?” É uma questão, não é? O PR está acusando o PT de falta de companheirismo…

Pagot só está em sursis porque o governo não sabe como mantê-lo e ainda não descobriu uma forma segura de demiti-lo.

A questão é mais séria do que parece. Diz respeito ao modo como o PT organizou a sua gigantesca maioria no Congresso. Ninguém foi convidado para um projeto. Para ter a hegemonia no governo e no processo político, os petistas compram apoios com cargos públicos; é coisa bem diferente de fazer uma composição política para implementar um programa. Governar com aliados é prática distinta de fatiar o governo.

Como não há comprometimento de boa parte das legendas com uma agenda, resta o toma-lá-dá-cá: “Tome os meus votos, mas me dê o ministério, a estatal, a autarquia, a superintendência regional de algum órgão…” Considerando que se trata de uma troca, os que assumem devem fidelidade aos comandantes partidários, não necessariamente à Presidência da República — tampouco ao país. É assim só com o PR? É claro que não!

O PT, no entanto, nessa e em outras pastas, jamais abriu mão de nomear os seus próprios quadros, numa espécie de trabalho de acompanhamento e vigilância. Em nome da qualidade do serviço e da retidão? Não! Busca garantir o seu próprio naco e é beneficiário do “roçado de escândalos” como qualquer outra legenda.

Não são apenas os valentes do “PR” que estão preocupados com o desdobramento do caso. Todas as legendas se sentem mais ou menos ameaçadas. Afinal, o que está em questionamento é uma forma de exercer o poder. A esta altura, as legendas da base refletem: “Se não pudermos cuidar de nosso próprio caixa e dispor do dinheiro público segundo os nossos interesses, ser governista pra quê? Afinal, a gente não gosta do governo Dilma, mas do prazer que ele proporciona…”

O governo torce desesperadamente para que cessem as evidências de corrupção, o que facilitaria uma reacomodação da base, mas está difícil. Segundo o senador Álvaro Dias (PSDB-PR), faltam apenas quatro assinaturas para que se apresente o requerimento de uma CPI. Há pessoas decentes em quase todos os partidos, e não é impossível chegar a esse número. Petistas e peemedebistas sabem como tornar CPIs inoperantes, mas sempre é um trabalho desgastante.

Para encerrar: não me venham com essa história de que a pobre Dilma herdou uma estrutura viciada de seu antecessor. Que a herança é maldita e corrupta, isso depõem os fatos. Se a presidente se acha uma flor da moralidade, é preciso considerar o pântano em que veio à luz, para lembrar Machado. Dilma é governo de continuidade e não cansa de exaltar a “herança bendita” de seu antecessor, certo?

Há um Pagot no meio do caminho. O que dar em troca do seu silêncio? Se a simples ameaça paralisa o governo, a gente imagina o que sobreviria caso botasse a boca no trombone. Ninguém no Ministério Público teve a idéia de lhe propor a delação premiada?

Por Reinaldo Azevedo

Haja mudança de escopo

O Dnit divulgou hoje no Diário Oficial da União o extrato de quinze termos aditivos de contratos de consultoria e obras. Em cinco deles, está sendo firmado o sétimo termo aditivo. Em outros quatro, o oitavo. E em um deles, acredite, o décimo primeiro. Em doze deles, a autarquia liberou o aumento de prazo para obras e finalização de projetos. Mas em dois deles os valores estão sendo aumentados para 22 milhões de reais.

Por Lauro Jardim

O monitorador

Dilma Rousseff incumbiu Gilberto Carvalho de monitorar a Controladoria-Geral da União e a Polícia Federal: quer acompanhar de perto as investigações da CGU e PF sobre o Dnit e o Ministério dos Transportes – ou mais precisamente sobre os indícios de irregularidades cometidos por Luiz Antonio Pagot e sua turma.

Por Lauro Jardim

Jogos Mundiais Militares milionários

Custou caro a abertura dos Jogos Mundiais Militares no fim de semana. A cerimônia, que teve a presença de Dilma Rousseff e Sérgio Cabral, consumiu 24,9 milhões de reais dos cofres da União. O pacote inclui ainda a festa de encerramento da competição

Por Lauro Jardim

Record versus Teixeira

Logo mais, o Jornal da Record manda para o ar mais uma denúncia contra Ricardo Teixeira – a terceira em menos de uma semana. Desta vez, mostrará uma negociação imobiliária considerada suspeita pela reportagem: uma cobertura na Barra da Tijuca comprada por Teixeira das mãos de Wagner Abrahão, dono do grupo Águia, que (junto com a Traffic) venderá os pacotes oficiais de turismo da Fifa para a Copa 2014.

Por Lauro Jardim

O Ibope do fiasco da seleção

O vexame da seleção na Copa América ontem rendeu 30 pontos no Ibope da Grande São Paulo para a Globo. Não foi grande coisa. Apesar de ser o dobro da audiência de Record e SBT juntas no horário, a emissora teve um índice menor do que em outras partidas do Brasil na competição.

No dia 3, a estreia da seleção contra a Venezuela alcançou 32 pontos e contra o Equador, na semana passada, a audiência chegou a 39 pontos. Apenas no jogo contra o Paraguai, na primeira fase, o ibope foi menor (20 pontos no dia 9).

Por Lauro Jardim

É preciso ser temido para ser amado

É claro que vou falar um pouquinho do desastre futebolístico de ontem, mesmo não sendo a minha área. Ocorre que futebol também é política. Mano Menezes parece ser um cara bacana. Eu até gostaria de tê-lo de volta no Corinthians um dia. O Timão lhe é grato. Mas para a Seleção Brasileira? Não dá! Nessas coisas, a gente tem de ser simples. Quem é o melhor técnico da atualidade no Brasil e demonstrou saber trabalhar com jovens? Muricy Ramalho.

A história do que poderia ter sido fica para a sociologia do futebol. Como se trata de uma disputa para saber quem ganha e quem perde, é preciso escolher aquele que mais tem ganhado. É garantia de triunfo? Não! Mas se sabe ao menos que se fez o máximo em favor da vitória. Uma equipe que perde quatro pênaltis seguidos, batendo a chuteira no campo para indicar que a situação é adversa e que o pior pode acontecer, está sem treino, orientação, direção, foco. Há dezenas de fatores intervenientes, mas nada como um fraco rei para levar a coisa para o buraco, como sabia o bardo.

Times dão vexames grandes e pequenos. A Seleção Argentina deu o seu, pequeno, com o pênalti perdido por Tevez. A exemplo do Brasil em relação ao Paraguai, foi superior ao Uruguai durante todo o jogo. E ficou fora. A equipe brasileira é melhor do que a Argentina, tomada homem a homem, mas saiu humilhada de campo. Nunca antes na história destepaiz a Seleção havia perdido um, dois, três, quatro pênaltis, três deles chutados para fora e um entregue ao goleiro, quase como um carinho.

A verdade é que já vimos filme parecido. Dunga foi improvisado do nada e mantido até o fim, com o resultado conhecido. Era o estilo bedel de escola puxando a orelha dos rebeldes. Ninguém o temia porque sua autoridade era uma caricatura. Havia uma aparência de ordem na bagunça. Deu no que deu. Mano é o pai que perdoa sempre. Não é temido, mas não é amado porque sua fala mansa também é uma caricatura. Nas relações verticalizadas, só é amado quem pode ser temido. O paradoxo é apenas aparente. Nesse caso, o amor nasce da confiança de que aquele que manda tem senso de proporção e justiça. Sem o risco da punição, o agrado se degrada em complacência e autocomplacência. Não há futebol vitorioso assim. Não há nem civilização assim. Estaríamos nas cavernas.

Mano, reitero, é um cara bacana. Mas basta reconstituir a história para constatar que a nomeação foi um agradozinho feito ao Apedeuta. Um jogador pode surgir do quase nada, vir à luz como um gênio, com um talento excepcional. Mas um técnico da Seleção precisa é de currículo, faz-se com a experiência, tem de ser medido pelas vitórias, pelas conquistas. “Ah, se Mano ficar e ganhar a Copa de 2014, você queima a sua língua…” Não queimo, não. Se continuar, é claro que vou torcer, como sempre, para que a Seleção Brasileira vença a disputa. O imponderável é um elemento mais presente no futebol do que em qualquer outro esporte. Isso é possível. Mas não significará, de modo nenhum, que ele era a melhor escolha.

No Estadão, leio a seguinte fala atribuída ao técnico:
“Fizemos uma transformação bastante grande para esse primeiro ano de trabalho. E você precisa fazer isso com cuidado porque, quando se sai de uma competição, a avaliação que se tem sobre os jogadores que chegaram não é a mesma se nós tivéssemos vencido”.
Se disse isso mesmo, vênia máxima, o selecionado está frito. Mano quer dizer que, se todas as bolas tivessem entrado, estaríamos dizendo, escrevendo e sentindo coisas diferentes. Bidu! Mas elas não entraram. Pode-se usar o futebol para tertúlias sobre geometria, por exemplo. Mas aí é bom deixar o povão do lado de fora do estádio.

Quatro pênaltis perdidos, em seqüência, num jogo decisivo? Fazer de conta que isso é parte de uma construção e de um aprendizado corresponde a marcar um encontro com o desastre. Se Mano ficar, é bom que saiba ser temido — por bons motivos! —  para que possa ser amado e, então, ter o comando de sua tropa. Ou nada feito.

PS - Ah, sim:  não vale essa história de que, não fosse o goleiro deles… Mas eles têm um goleiro, não? E a função dele é tentar impedir que as bolas cruzem a linha.

Por Reinaldo Azevedo
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