Risco de desabastecimento de sal mineral acende alerta na pecuária de Mato Grosso

Publicado em 02/06/2026 17:07
Dependência de importações, restrições na oferta internacional e alta dos custos pressionam produtores e preocupam setor produtivo.

O risco de desabastecimento de fosfato bicálcico, matéria-prima essencial para a fabricação de suplementos minerais utilizados na alimentação bovina, levou a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) a acionar autoridades estaduais e federais em busca de soluções emergenciais. A preocupação é que a escassez do insumo comprometa a oferta de sal mineral e aumente ainda mais os custos da produção pecuária.

O alerta ocorre em um momento delicado para o setor. Além da pressão provocada pela elevação dos custos de produção, pecuaristas enfrentam margens mais apertadas e queda nos preços pagos pela indústria frigorífica. Mato Grosso, que possui o maior rebanho bovino do Brasil, está entre os estados que podem ser mais afetados caso o problema se agrave.

Apesar da preocupação, a Famato destaca que não há desabastecimento instalado neste momento. O alerta tem caráter preventivo e busca evitar que a situação evolua para uma falta efetiva de produtos nos próximos meses, comprometendo o desempenho das propriedades rurais e a competitividade da cadeia pecuária.

 Dependência externa preocupa setor produtivo

Segundo levantamento realizado pela entidade junto a empresas de nutrição animal, fabricantes de suplementos minerais e produtores rurais, o mercado já registra dificuldades no acesso ao fosfato bicálcico. A situação é atribuída a uma combinação de fatores, incluindo limitações da produção nacional, dependência de importações, restrições externas de oferta e impactos causados por conflitos internacionais sobre cadeias logísticas e produtivas.

De acordo com o analista de Pecuária da Famato, Marcos Carvalho, o Brasil nunca foi autossuficiente na produção de fertilizantes fosfatados e de fosfato bicálcico. Por isso, o abastecimento interno depende de matérias-primas importadas e da estabilidade do mercado internacional.

“Com a diminuição da importação de enxofre, as empresas brasileiras fornecedoras de fosfato bicálcico reduziram consideravelmente as entregas para as empresas de nutrição animal”, explica Carvalho. O enxofre é um componente fundamental para a reação química realizada com a rocha fosfática, processo que dá origem tanto aos fertilizantes fosfatados quanto ao fosfato bicálcico utilizado na suplementação animal.

Contratos foram reduzidos e preços dispararam

A preocupação aumentou após relatos de empresas do setor de nutrição animal que tiveram contratos de fornecimento parcialmente cancelados. Segundo Marcos Carvalho, volumes previstos para abastecimento entre maio e julho deixaram de ser entregues em grande escala.

“Empresas fornecedoras de fosfato bicálcico praticamente cancelaram cerca de 90% dos contratos, entregando pouco mais de 10% para algumas indústrias”, afirma.

O analista destaca ainda a relevância do ingrediente na formulação dos suplementos minerais. Em um saco de sal mineral de 30 quilos, com concentração entre 80 e 90 gramas de fósforo, aproximadamente metade da composição corresponde ao fosfato bicálcico. Isso significa que qualquer interrupção no fornecimento tem potencial para afetar diretamente a fabricação do produto.

Além da dificuldade de abastecimento, os preços também registram forte elevação. Segundo a Famato, uma importante empresa do segmento chegou a suspender temporariamente a comercialização de determinadas linhas de suplementos minerais e posteriormente retomou as vendas com valores significativamente superiores aos praticados anteriormente.

Impactos podem chegar ao campo

A deficiência mineral é um dos principais fatores que comprometem o desempenho dos rebanhos. A ausência de suplementação adequada pode afetar ganho de peso, fertilidade, imunidade, produção leiteira e eficiência reprodutiva, reduzindo a produtividade das propriedades.

Para o presidente da Famato, Vilmondes Tomain, o momento exige atenção imediata das autoridades e do setor produtivo.

“Estamos diante de um alerta importante para a pecuária e para a agricultura. O sal mineral é indispensável para o desempenho produtivo, reprodutivo e sanitário do rebanho, assim como os insumos fosfatados são estratégicos para a produção agrícola”, afirma.

Segundo Tomain, o impacto da escassez vai além das porteiras das fazendas. “Quando esses produtos ficam caros ou, pior, começam a faltar, o impacto chega diretamente ao produtor rural, que já enfrenta aumento de custos e redução da margem da atividade, e pode chegar às prateleiras dos supermercados”, destaca.

A preocupação também alcança a agricultura. Para a entidade, a escassez de matérias-primas fosfatadas evidencia uma vulnerabilidade estrutural do agronegócio brasileiro, uma vez que esses insumos são fundamentais tanto para a nutrição animal quanto para a produção agrícola.

Pecuarista enfrenta cenário desafiador

O vice-presidente da Famato e coordenador da Comissão de Pecuária de Corte da entidade, Amarildo Merotti, avalia que a situação se soma a outros desafios enfrentados atualmente pelos produtores.

“Mato Grosso tem o maior rebanho bovino do Brasil. Qualquer instabilidade no fornecimento de sal mineral atinge milhares de produtores. O pecuarista está sendo pressionado pela alta dos insumos, pelo risco de falta de produto, pela preocupação com vacinas contra clostridioses e pela queda nos preços pagos pela indústria. Essa combinação preocupa muito”, afirma.

A entidade também relaciona o tema à recente escassez de vacinas contra clostridioses, situação que já gerou apreensão entre os produtores. Na avaliação da federação, a combinação entre desafios sanitários e possíveis dificuldades na suplementação amplia os riscos econômicos e produtivos das propriedades rurais.

Outro fator que preocupa é o aumento dos custos de outros insumos importantes para a atividade. Segundo Marcos Carvalho, produtos como ureia, sal branco e enxofre também registraram reajustes expressivos nos últimos meses, pressionando ainda mais os custos de produção.

Soluções emergenciais estão sendo discutidas

Para evitar que o problema se agrave, a Famato encaminhou ofícios ao Ministério da Agricultura, à CNA, à ApexBrasil e ao Governo de Mato Grosso. A entidade também vem realizando reuniões com representantes do setor produtivo e autoridades para buscar alternativas emergenciais.

Entre as medidas defendidas estão a redução temporária ou isenção das tarifas de importação do fosfato bicálcico e do enxofre, redução tributária sobre sal branco e ureia destinados à nutrição animal, desburocratização alfandegária e maior agilidade na liberação de produtos nas fronteiras.

A aproximação com países fornecedores, especialmente a Bolívia, também integra a estratégia da entidade. Segundo Marcos Carvalho, reuniões bilaterais estão sendo articuladas para viabilizar novas alternativas de abastecimento e reduzir os riscos para o setor produtivo.

“Estamos buscando formas para que o mercado não fique desabastecido. O ideal é que as medidas beneficiem todo o Brasil, mas também estamos trabalhando para encontrar soluções rápidas que atendam as necessidades de Mato Grosso”, ressalta.

Confinamento pode adaptar dietas

Mesmo diante das incertezas, especialistas avaliam que os sistemas de confinamento possuem capacidade de adaptação caso haja aumento dos custos ou dificuldades pontuais no fornecimento de suplementos minerais.

O consultor da Hedge Agro Consultoria, Rafael Grings, afirma que muitos confinadores já trabalham com planejamento antecipado da alimentação dos animais.

“Pelas conversas que tive com os confinadores de Mato Grosso e com base no levantamento que realizei junto a eles, não há expectativa de impacto nesse sentido. Isso porque muitos já trabalham de forma planejada e, ao decidirem confinar os animais, preferem garantir previamente a alimentação dentro da própria fazenda”, explica.

Segundo ele, ingredientes como milho, DDG, torta de algodão e farelo de algodão podem ganhar maior participação nas dietas caso o custo dos suplementos minerais aumente significativamente.

“Não significa necessariamente que haverá uma redução significativa no desempenho dos animais, mas sim uma busca por fontes alternativas que permitam manter a eficiência da dieta”, destaca.

Enquanto busca alternativas emergenciais junto aos governos e fornecedores internacionais, a Famato reforça que a prioridade é evitar que a pecuária brasileira enfrente um novo episódio de desabastecimento de insumos estratégicos. Para a entidade, garantir o fornecimento de suplementos minerais e matérias-primas essenciais é fundamental para preservar a produtividade das fazendas, a competitividade do setor e a segurança alimentar do país. Além das medidas de curto prazo, a federação defende o avanço efetivo do Plano Nacional de Fertilizantes 2022-2050 como caminho para reduzir a dependência externa e fortalecer a segurança de abastecimento do agronegócio brasileiro.

 

Por: Michelle Jardim
Fonte: Notícias Agrícolas

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