O Novo Paradoxo da Pecuária Brasileira, por Nelson Pineda

Publicado em 28/12/2010 17:15 417 exibições
Aumentar eficiência dentro do marco regulatório da UE
Recentemente, a pesquisadora alemã Kornelia Smalla afirmou recentemente ao um jornal de São Paulo que controlar o uso de antibióticos em pessoas não é suficiente para conter superbactérias e por isso defende a redução do uso dessas drogas em animais como fator de prevenção.

Este tipo de informação isoladamente provoca a seguinte reação nos consumidores: os antibióticos que os pecuaristas estão utilizando contribuem para o aumento da resistência em humanos. Afirmação no mínimo irresponsável.

Faltou dizer que, na União Européia (UE), o Comitê Científico fundado em 1999 para estudar o impacto do uso de antibióticos na produção animal concluiu que não há evidências científicas de que seu uso cause aumento da resistência antibiótica em seres humanos.

Também faltou dizer que o Codex Alimentarius da OMS tem uma força tarefa trabalhando sobre estes aspectos de riscos para a saúde humana e que seu interlocutor no Brasil é o Departamento de Insumos Pecuários (DFIP), do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), e sua função é garantir a segurança dos alimentos de origem animal. Quer dizer, há brasileiros competentes cuidando de nossos interesses.

Faltou dizer ainda que o Codex Alimentarius não restringe e suporta o uso de tais substâncias em animais, além de estar trabalhando na elaboração do conjunto de metodologias de análise de risco dos produtos utilizados para promover a eficiência alimentar em bovinos, aves e suínos.

Mas, a esta altura o mal já está feito e mais uma vez nossa pecuária enfrenta um novo paradigma a partir de informações sem a devida comprovação científica.

Interessante analisar o que aconteceu em alguns países da UE. Em 1996, a Dinamarca suspendeu o uso dos antibióticos usados como melhoradores de desempenho zootécnico visando reduzir o uso de antibióticos. O resultado, porém, foi exatamente o contrário: o consumo de antibióticos para fins terapêuticos em animais aumentou em 2,3 vezes em dez anos! Com o agravante que os casos de enterococcos resistentes em humanos continuaram crescendo e os índices de mortalidade em animais jovens, principalmente em leitões com diarréia, subiu significativamente, chegando a colocar em risco a atividade dos produtores de suínos dinamarqueses. Mesmo assim, a UE não voltou atrás pressionado pela opinião pública induzida politicamente.

Por outro lado, quando se tem investimento em pesquisas que proporcionam informações científicas atualizadas sobre produtos e moléculas, se torna simples comprovar a segurança das soluções tanto para os animais como para o meio ambiente e para os consumidores. Após a avaliação de extensa série de estudos, recentemente a UE autorizou aos seus produtores a utilização do anticoccidiano Nicarbazina, utilizado na avicultura, com período de retirada de apenas 1 dia e limite máximo de resíduo no fígado 75 vezes maior do que o aprovado anteriormente, garantindo ainda maior segurança aos produtores no Brasil que exportam para a Europa.

Em bovinos, o uso dos antimicrobianos melhoradores de performance favorece o desempenho e começa a se revelar como uma ferramenta fantástica em sistemas de confinamento e de suplementação estratégica a pasto em época de seca, via sal mineral e proteinados. As análises feitas com as moléculas aprovadas mostram que praticamente não são absorvíveis e detectáveis, portanto sem resíduos na carne, garantindo segurança aos consumidores.

A pecuária brasileira enfrenta uma nova dicotomia: se por um lado o mercado de alto valor agregado da UE quer nos impor os padrões de produção que atendam suas exigências, mas que diminuem nossa competitividade, por outra parte temos que nos preparar também para criar padrões técnicos e sanitários para diferentes mercados, sem engessar o aumento da nossa eficiência produtiva. Não nos esqueçamos dos grandes consumidores da nossa carne bovina nas próximas décadas, que serão a Ásia, a Índia e a África.

A diarréia da rebrota, a mastite subclínica e a saúde ruminal em sistemas extensivos de produção de carne a pasto e em confinamento precisam de tecnologias de prevenção que comprovadamente sejam saudáveis para os consumidores. Os produtos aprovados atualmente no Brasil pelo MAPA são comprovadamente seguros e eficazes.

Produzir com sustentabilidade e segurança alimentar é uma obrigação da pecuária brasileira. Impor-nos, porém, legislações advindas dos interesses econômicos e sociais da UE constitui simplesmente uma barreira não tarifária criada pelos concorrentes do Brasil no mercado mundial de proteína animal.

*Eng. Químico. Ms.C. Pecuarista nos Estados de São Paulo e da Bahia. Membro da Câmara Setorial das Carnes do Estado da Bahia.
Tags:

RECEBA NOSSAS NOTÍCIAS DE DESTAQUE NO SEU E-MAIL CADASTRE-SE NA NOSSA NEWSLETTER

0 comentário