CNC: Revisão para cima das estimativas do USDA para as safras 2014/15 pressionaram as cotações futuras

Publicado em 21/11/2014 10:31 384 exibições

BALANÇO SEMANAL — 17 a 21/11/2014

CUSTOS DE PRODUÇÃO — Há tempos, as lideranças do setor produtor da cafeicultura brasileira informam que os custos de produção da atividade estão completamente elevados, em alguns casos acima até dos próprios preços praticados no mercado. Nesse sentido, e ciente que temos que apresentar ao Governo, até janeiro de 2015, números sobre nossos gastos para servirem de embasamento para o Ministério da Fazenda realizar um estudo sobre a atualização dos preços mínimos da atividade, o CNC, em sua reunião ordinária de 8 de novembro, convidou o coordenador de projetos do Centro de Inteligência em Mercados da Universidade Federal de Lavras (Ufla), engenheiro agrônomo Fabrício Andrade, para apresentar os atuais custos de produção que a instituição de ensino apura em conjunto com a CNA em padrões modais que correspondem a todo o cinturão produtor do Brasil.

Ao demonstrar a metodologia empregada para a realização do levantamento, o coordenador do CIM relatou que os dados colhidos também são validados por representantes dos produtores, como federações de agricultura e sindicatos rurais, pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e pelo Ministério da Fazenda. Justamente por essa abrangência, o CNC unirá as informações com as planilhas das cooperativas de produtores para se chegar ao consenso médio e apresentar uma proposta ao Governo que sirva como base para o reajuste dos preços mínimos dos cafés arábica e conilon na safra 2015.

A análise dos gastos no cultivo de ambas as variedades foi realizada nos municípios de Manhumirim, Capelinha, Monte Carmelo, Guaxupé e Santa Rita Sapucaí, em Minas Gerais; Brejetuba e Jaguaré, no Espírito Santo; Franca, em São Paulo; Itabela e Luís Eduardo Magalhães, na Bahia; Abatiá, no Paraná; e Cacoal, em Rondônia. No cômputo médio geral dos custos de produção no Brasil, chegou-se à seguinte conclusão:

– Arábica: a produção manual ocorre em uma área média de 18 hectares e a cafeicultura mecanizada em 121 hectares, com os Custos Operacionais Efetivos (COE) alcançando, respectivamente, R$ 10.001,50/ha e R$ 8.761,82/ha. Utilizando a produtividade como critério de comparação, a produção manual, com média de 27 scs/ha, tem custo de produção de R$ 373,03 por saca de 60 kg. Já a mecanizada, com média de 36 scs/ha (o município de Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, puxa a média para cima devido à sua cafeicultura industrial), tem gastos de R$ 251,83 por saca na produção.

– Conilon: a produção manual ocorre em uma área média de 5 hectares, ao passo que a semimecanizada se dá em 35 hectares, com o COE sendo de R$ 5.818,02/ha no primeiro caso e de R$ 12.776,16/ha no segundo. Utilizando como critério de comparação a produtividade, a cafeicultura de conilon manual, com uma média de 29 scs/ha, tem custos de produção de R$ 200,62 por saca. Já na irrigada, que possui média de 68 scs/ha, o valor investido chega a R$ 189,88 por saca.

O coordenador do CIM/Ufla comunicou que esses dados sugerem duas realidades. Na primeira — minoritária, correspondendo a menos de 10% da cafeicultura brasileira —, observa-se uma possibilidade de produção de café arábica a gastos menores, que permite a concorrência com o Vietnã; a segunda se refere à atividade cafeeira de montanha, onde tecnologicamente não é possível uma redução drástica nos custos, a ponto de ser competitiva com o Vietnã, mas que deve focar na diferenciação voltada à qualidade do café.

Encerrando, Andrade apontou o impacto da estiagem nos custos de produção do café arábica em Minas Gerais. Para isso, foi aplicada a redução do rendimento de café por localidade, aferida no terceiro levantamento da Conab, sobre os custos de produção apurados na safra 2014. A quebra de rendimento foi de 21% no Sul de Minas, 9% na Zona da Mata, 6,95% no Cerrado Mineiro e 3,5% na Chapada. Dessa maneira, após a seca, estimou-se que os custos operacionais totais da atividade subiram: 28% em Guaxupé e 27% em todo o Sul de Minas; na Zona da Mata, a alta foi de 10,8%; no Cerrado, 7,4%; e, na Chapada, o aumento do custo foi projetado em 3,7%.

SAFRA 2014 — Nesta semana, deparamo-nos, novamente, com mais um prognóstico especulativo referente à safra 2014 de café no Brasil. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projetou que o País colherá 51,2 milhões de sacas, representando um avanço de 3,4% em relação à estimativa anterior. A entidade vinculada ao governo dos EUA comunicou que o ajuste resulta “de rendimento melhor do que o esperado em algumas áreas de cultivo, como centro-oeste de Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo".

O CNC reitera que é completamente avesso a esse tipo de especulação, sem embasamento técnico e completamente prejudicial ao mercado, que tem o fator exclusivo de aviltar as cotações, como ocorrido nesta quinta-feira. Dessa forma, reiteramos o repúdio a respeito de quaisquer instituições que atuem com o interesse único de prejudicar os produtores em todo o mundo, os quais, em grande parte, já se deparam com um cenário deficitário de renda.

O Conselho Nacional do Café, na condição de representante de classe e coerente com os princípios da realidade, faz um alerta a todos os players e agentes: se o produtor não tiver condições, ele deixará de produzir. Deixando de produzir, não haverá café suficiente. Não havendo café, o mercado perderá sua fluidez natural e, dessa forma, todos os elos da cadeia, de cafeicultores a consumidores finais, sofrerão as consequências desse desequilíbrio. Por fim, reiteramos que a safra 2014 não fugirá do intervalo entre 40 milhões e 43,3 milhões de sacas, volume apontado pela Fundação Procafé em estudo contratado pelo CNC.

MERCADO — Com os investidores ainda aguardando uma definição a respeito dos impactos da prolongada estiagem sobre a safra brasileira de 2015, o mercado futuro do café arábica continuou influenciado pelas perspectivas climáticas e pelo comportamento do câmbio nacional. A revisão para cima das estimativas do USDA para as safras 2014/15 do Brasil e da Colômbia pressionaram as cotações futuras no pregão de ontem.

Durante a maior parte da semana, predominou tempo aberto sobre as principais origens brasileiras, o que ajudou na valorização das cotações do arábica até quinta-feira. Porém, segundo a Somar Meteorologia, a partir de domingo, o cinturão produtor de café deverá receber chuvas generalizadas, com previsão de volume máximo em Minas Gerais.

Quanto ao mercado de câmbio, o dólar acumulou queda nos últimos dias, após ter renovado a máxima desde abril de 2005 na segunda-feira, quando foi cotado a R$ 2,6013. A valorização do real, que tem impacto positivo sobre as cotações futuras do café, deveu-se principalmente às especulações quanto à condução da política econômica brasileira. Na quarta-feira, último pregão antes do feriado do Dia da Consciência Negra, a divisa norte-americana foi cotada a R$ 2,5757, com variação de -1% em relação ao final da semana passada.

Ontem, o USDA divulgou a atualização de suas estimativas para as safras 2014/15 do Brasil e da Colômbia, aumentando-as em 3,4% e 1,65%, respectivamente. Esse fato levou à desvalorização dos preços futuros do café, de forma que o vencimento março/2015 do Contrato C, negociado na ICE Futures US, encerrou a sessão a US$ 1,8885 por libra-peso, revertendo os ganhos até então acumulados e registrando desvalorização de 750 pontos. Considerando a média dos dois primeiros vencimentos, desde o início do ano o contrato C acumula alta de 62%, principalmente devido à seca no Brasil.

Já na ICE Futures Europe, as cotações do robusta mantiveram tendência positiva, ainda que reduzida, com o vencimento janeiro/2015 encerrando a sessão de quinta-feira a US$ 2.078 por tonelada e registrando ganhos de apenas US$ 4 sobre o fechamento da sexta da semana antecedente.

No cenário internacional, a Associação de Café e Cacau do Vietnã (Vicofa) estima uma redução na quantidade produzida de robusta da ordem de 20% a 25% nesta safra em relação à anterior, quando o País produziu 1,7 milhão de toneladas. Os motivos seriam o cenário climático adverso, que também contou com estiagem no início do ano, e o programa de renovação do parque cafeeiro. Por outro lado, na primeira semana de outubro (mês que marca o início da colheita vietnamita), uma pesquisa conduzida pela Agência Bloomberg junto a dez traders apontou que a safra 2014/15 do país asiático atingiria volume recorde. Essas informações desencontradas reforçam a necessidade de aprimoramento das estatísticas mundiais para que o mercado de café opere com maior transparência.

Os países produtores africanos, por sua vez, estão otimistas com o cenário mercadológico influenciado pela menor oferta brasileira, apostam no crescimento das produções locais e, consequentemente, da receita cambial. A cafeicultura é uma atividade econômica estimulada nessa região pela facilidade de geração de divisas.

A Etiópia, principal produtor de café do continente, prevê o crescimento de 25% na receita gerada por suas exportações nesta safra, que deverá atingir US$ 900 milhões. Ao mesmo tempo, investidores estrangeiros ampliam a injeção de capital na cafeicultura do país, a exemplo da Horizon Plantations, que pertence ao bilionário saudita Mohamed al-Amoudi. Essa companhia investirá US$ 25 milhões no treinamento de trabalhadores, na melhoria de estradas e na modernização do processo de lavagem de unidades produtivas que totalizam 18 mil hectares de café.

Na Uganda, segundo maior produtor de café da África, cuja safra 2014/15 também foi afetada por uma seca, teve início, há cinco anos, um programa de renovação do parque cafeeiro, que prevê o plantio de 300 milhões de mudas mais produtivas. Neste ano, com a alta dos preços do café, os cafeicultores elevaram a demanda por mudas, de forma que foram plantados mais de 60 milhões de cafeeiros ante os 40 milhões renovados nos últimos dois anos.

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CNC

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1 comentário

  • amarildo josé sartóri vargem alta - ES

    Se o USDA fosse um órgão do governo americano responsável pelo controle e estatísticas bélicas, com certeza teria dados precisos sobre a quantidade e estoque de armamentos no mundo. No entanto, sobre café,estaria perdido, não tem conhecimento algum a não ser chutes tendenciosos.

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