Tarifaço dos EUA interrompe recorde nas exportações de café solúvel do Brasil

Publicado em 28/01/2026 16:19 e atualizado em 28/01/2026 17:11
Embarques aos EUA recuaram 28% no ano, pressionados pelo declínio de 40% entre agosto e dezembro, período de vigência do tarifaço de 50%

De acordo com dados do Relatório do Café Solúvel do Brasil 2025, elaborado pela Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (ABICS), as exportações nacionais do produto totalizaram 85,082 mil toneladas, o equivalente a 3,688 milhões de sacas de 60 kg ao exterior no ano passado, volume que implicou queda de 10,6% na comparação com as 95,221 mil toneladas (4,127 milhões de sacas) aferidas no ano anterior.

Por outro lado, as divisas geradas com os embarques atingiram um crescimento de 14,4% ante 2024, chegando ao recorde de US$ 1,099 bilhão. “Atribui-se esse aumento no valor, apesar da queda no volume, à valorização da cotação da matéria prima, tanto dos cafés arábicas, quanto dos canéforas (conilon e robusta), o que elevou o preço do solúvel no mercado”, explica Aguinaldo Lima, diretor executivo da ABICS.

IMPACTO DO TARIFAÇO DE 50% NO MERCADO DOS EUA

A introdução da tarifa de 50% sobre o café solúvel brasileiro importado pelos Estados Unidos teve um impacto significativo nos embarques do produto, que recuaram 28,2% em relação a 2024.

“No período da aplicação dessa tarifação de 50%, entre agosto e dezembro, a redução foi ainda mais drástica: 40% ante o mesmo período do ano anterior. Isso evidencia o impacto direto e imediato da barreira comercial na competitividade do café solúvel nacional nesse mercado vital”, aponta Lima.

Ele anota que a tarifa, que segue vigente sobre o produto, encarece o solúvel brasileiro de forma proibitiva, levando os clientes importadores dos EUA a procurarem alternativas em outros países concorrentes, que gozam de tarifas menores. “Isso resulta na perda de participação de mercado para o Brasil e na necessidade urgente de reavaliar estratégias de diversificação de mercados”, completa.

PRINCIPAIS IMPORTADORES

Os EUA, demonstrando a importância desse mercado ao café solúvel brasileiro, permaneceram como o principal destino das exportações, apesar do tarifaço de 50% vigente desde agosto. Os norte-americanos adquiriram, em 2025, o equivalente a 558.740 sacas (-28,2%).

Fechando o top 3, aparecem Argentina, que importou 291.919 sacas do produto, registrando crescimento de 40,2% ante 2024, e Rússia, com 278.050 sacas, o que implicou alta de 9,8% no comparativo anual.

Entre os principais destinos do café solúvel em 2025, é válido salientar a presença de Indonésia, com 165.308 sacas; México, com 128.595 sacas; Vietnã, com 118.691 sacas; e, principalmente, Colômbia, que ampliou as compras em 178,2%, para 130.029 sacas. “O destaque a esses países se dá porque são grandes e tradicionais produtores de café solúvel”, informa o diretor executivo da ABICS.

REDIRECIONAMENTO E ACORDOS COMERCIAIS

De acordo com Lima, o tarifaço imposto pelos EUA e a subsequente queda nas exportações para o principal importador do café solúvel do Brasil aponta a necessidade de o país precisar pensar em um possível redirecionamento do produto a outros mercados, porém o cenário atual é crítico e desafiador.

“O Brasil é um país com número relativamente limitado de acordos comerciais abrangentes e as tarifas impostas por outras nações e blocos econômicos acabam prejudicando a competitividade do café solúvel brasileiro no cenário global”, explica.

 Além disso, ele explana que “não é uma tarefa simples” redirecionar volumes tão significativos, como os que eram destinados aos Estados Unidos, no curto prazo.

“Novos mercados precisam ser desenvolvidos e isso demanda tempo, investimentos em marketing, adaptação a diferentes regulamentações e, crucialmente, a negociação de condições comerciais favoráveis, muitas vezes através de acordos bilaterais ou blocos econômicos. E essa falta de acordos pré-estabelecidos dificulta uma resposta ágil a choques comerciais como o imposto pelos EUA”, conclui o executivo da ABICS.

MERCADO INTERNO

Em contraste com o volume exportado, o consumo interno de café solúvel alcançou um novo recorde no ano passado, quando o Brasil absorveu 27,008 mil toneladas, equivalentes a 1,170 milhão de sacas, montante que representa crescimento de 9,5% na comparação com 2024.

“Essa performance reflete uma preferência crescente do consumidor brasileiro por essa modalidade de café e o sucesso das estratégias das indústrias de solúvel para o mercado doméstico. A menor inflação sobre o produto — 34% no acumulado de 2024/25 contra 75% do torrado e moído — também deve ter contribuído”, analisa Aguinaldo Lima.

RISCOS COM A REFORMA TRIBUTÁRIA

A aprovação da Reforma Tributária extinguirá, a partir de 1º de janeiro de 2027, as contribuições sociais sobre a receita bruta (PIS/Pasep e COFINS) ao segmento de café solúvel, o que impedirá que o crédito presumido de 7,4% do valor adquirido de café verde industrializado para exportação seja apurado a partir dessa data.

Dessa forma, no período compreendido entre o primeiro dia do ano que vem e 31 de dezembro de 2032, durante a transição para o novo modelo tributário, as exportações de café solúvel sofrerão aumento de seu custo implícito em decorrência da inexistência de medida compensatória para o fim do crédito presumido.

“O impacto é devastador! Com o fim do crédito presumido, a indústria brasileira do setor, considerando os valores médios do café em 2025, perderá R$ 430 milhões, o que representa 7,4% do valor exportado de café solúvel no ano passado. Isso porque, por saca, o crédito presumido equivale a R$ 105,08 em resíduos tributários. Considerando a cotação média do dólar para venda em 2025, esses R$ 105,08 correspondem a um acréscimo de US$ 19,89 para cada saca desse produto exportado, o que significa que, a cada 14 sacas embarcadas, o Brasil ‘exportará’ uma saca em tributo”, revela o executivo da ABICS.

PERSPECTIVAS 2026

O desempenho do café solúvel brasileiro em 2025 destaca a dicotomia entre um mercado interno vibrante e os desafios crescentes no comércio internacional. Enquanto o consumo doméstico demonstra grande potencial de evolução, a possível perda de boa parte do mercado norte-americano e a vulnerabilidade a medidas protecionistas, como a tarifa de 50%, sublinham a necessidade de uma estratégia de longo prazo mais robusta às exportações.

A busca por novos mercados e a intensificação das negociações de acordos comerciais são imperativas. A União Europeia, com seu grande volume de consumo e as perspectivas de redução tarifária através do acordo Mercosul-UE, representa uma rota promissora em médio e longo prazos.

Entretanto, é fundamental que o Brasil continue a diversificar seus destinos de exportação, aprimore sua competitividade e busque uma agenda mais ativa de acordos comerciais, os quais possam mitigar os riscos de concentração de mercado e as barreiras tarifárias.

Adicionalmente, um dos maiores desafios para 2026 será a busca por soluções junto aos Poderes Executivo e Legislativo do Brasil para mitigar os impactos da perda do crédito presumido com a Reforma Tributária.

A necessidade de diálogo e de propostas que possam compensar essa desvantagem competitiva se torna um pilar fundamental para a sustentabilidade e ao crescimento do setor.

“O recorde de divisas alcançado em 2025, em face de uma queda no volume exportado, demonstra a resiliência de um setor que, nos últimos seis anos, investiu nada menos que R$ 2,5 bilhões em novas plantas de produção, ampliações e sustentabilidade, o que exigirá uma abordagem estratégica e proativa diante de um cenário geopolítico, comercial e tributário em constante transformação”, finaliza Lima.

Fonte: ABICS

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