O café está subindo a montanha. E o Brasil precisa correr atrás

Publicado em 10/04/2026 15:01 e atualizado em 10/04/2026 16:45
Com o avanço dos eventos climáticos extremos, o mapa global da produção de café começa a se redesenhar. Regiões tradicionais enfrentam desafios crescentes, enquanto novas áreas entram no radar da cafeicultura mundial

O café, especialmente o arábica, é uma cultura altamente sensível às condições climáticas. Temperaturas moderadas e chuvas bem distribuídas são determinantes para o bom desenvolvimento das lavouras. No entanto, mais do que uma elevação gradual da temperatura média, o que tem impactado diretamente o campo são os eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes e intensos.

Segundo o especialista Vicente Zotti, da NRP Agro, é essa instabilidade que vem alterando o comportamento do produtor. “Não é o aumento da temperatura média que está mudando o cenário, mas sim os eventos extremos, como geadas e irregularidade de chuvas. Isso sim faz o produtor migrar para áreas menos arriscadas”, afirma.

Exemplos recentes reforçam esse cenário. No último ciclo, perdas expressivas foram registradas em regiões produtoras em função de geadas e episódios climáticos severos. Apenas no sul de Minas Gerais, eventos como geadas e chuvas de granizo resultaram na perda de cerca de 3 milhões de sacas, evidenciando o impacto direto dessas ocorrências sobre a produtividade.

Esse movimento tem provocado mudanças importantes dentro do próprio Brasil. Regiões tradicionalmente cafeeiras perderam espaço ao longo do tempo, enquanto novas áreas avançam. No interior de São Paulo, por exemplo, polos históricos como a região de Marília deixaram de ter o mesmo protagonismo, reflexo da maior exposição a riscos climáticos. Por outro lado, estados como Goiás ganham relevância, mesmo com temperaturas mais elevadas, justamente por apresentarem menor risco de geadas.

Essa mudança mostra que o critério de escolha das áreas produtivas está sendo redefinido. Se antes o foco estava nas condições ideais de temperatura, hoje o produtor prioriza regiões com menor risco de perdas extremas, ainda que isso implique novos desafios de manejo.

Ao mesmo tempo em que há essa reorganização interna, o mundo também começa a testar novas fronteiras para a produção de café. Regiões de maior altitude na África, áreas próximas ao Himalaia e até partes dos Estados Unidos passam a ser avaliadas como potenciais produtoras, impulsionadas pelas mudanças climáticas que ampliam a viabilidade dessas localidades.

Apesar desse movimento global, especialistas avaliam que o Brasil deve manter sua posição de liderança. Para Vicente Zotti, fatores estruturais dificultam o avanço de outros países em larga escala. “É muito difícil o Brasil perder protagonismo. Em regiões da África, por exemplo, há limitações como acesso à terra e dificuldade de mecanização. Isso impede ganhos de escala”, explica.

Segundo ele, o cenário mais provável é de fortalecimento da posição brasileira, inclusive com avanço sobre outras variedades. “A tendência é que o Brasil amplie ainda mais sua liderança, tanto no arábica quanto no conilon, podendo se consolidar como o maior produtor em todas as frentes”, afirma.

Diante desse contexto, a adaptação no campo se torna cada vez mais essencial. Entre as principais estratégias adotadas pelos produtores está o avanço da irrigação, que deixou de ser um diferencial para se tornar uma necessidade.

“A irrigação deixou de ser um item de luxo para se tornar fundamental na produtividade”, destaca Zotti. Atualmente, cerca de 18% das áreas de café arábica no Brasil já contam com algum nível de irrigação, número que tende a crescer nos próximos anos. Em culturas como o conilon, em estados como o Espírito Santo, esse percentual já é significativamente maior.

Além da irrigação, práticas como o uso de sombreamento, ajustes no manejo e maior tecnificação vêm sendo incorporadas para reduzir os impactos do estresse hídrico e térmico.

Nesse cenário de transformação, o café de fato começa a subir a montanha, seja pela busca por áreas mais altas, seja pela necessidade de adaptação tecnológica. Para o Brasil, o desafio não é apenas acompanhar essa mudança, mas liderá-la, garantindo competitividade em um ambiente cada vez mais marcado pela instabilidade climática.

Para especialistas do setor, a questão central agora não é se o mapa da cafeicultura vai mudar, mas em que ritmo isso acontecerá e quais produtores estarão mais preparados para responder a esse novo cenário.

Por: Priscila Alves
Fonte: Notícias Agrícolas

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Café virou rolê: música, conversa e até date de fim da tarde
Café reage no fim do dia e arábica dispara mais de 600 pontos enquanto robusta anda de lado
O café está subindo a montanha. E o Brasil precisa correr atrás
Setor cafeeiro intensifica ações pré-safra para promover trabalho decente no campo
Produção de café da Colômbia cai novamente em março devido a chuvas
Café opera sem direção única e mercado trava com pressão da safra brasileira e oferta global maior