Café tenta estabilizar após forte queda da semana, mas oferta brasileira mantém pressão sobre NY

Publicado em 04/09/2026 17:22
Mercado fecha 6ª feira de lado em NY e também no mercado brasileiro

O mercado futuro do café encerrou a sexta-feira (4) buscando estabilização após uma semana de forte pressão sobre os preços. Em Nova York, o contrato dezembro do arábica voltou a operar acima das mínimas da sessão anterior e fechou com 295,60 centavos de dólar por libra-peso com uma leve alta de 25 pontos, enquanto o março já subiu 235 pontos e terminou o dia com 287,40 cents/lb. 

O movimento desta sexta-feira, entretanto, não foi suficiente para alterar de forma significativa o cenário baixista que vem predominando no mercado. A perspectiva de maior disponibilidade de café brasileiro continua pesando sobre as cotações, enquanto o mercado passa a incorporar de maneira mais efetiva os volumes da safra 2026/27.

A leitura está alinhada à análise feita por Haroldo Bonfá, diretor da Pharos Consultoria, em entrevista ao Notícias Agrícolas, durante o Bom Dia Agronegócio desta sexta. Para o especialista, a pressão que aparece agora nos preços veio com certo atraso, justamente porque a safra brasileira, apesar de apresentar sinais de grande volume, demorou a chegar aos portos e aos embarques.

Segundo Bonfá, com a colheita praticamente encerrada — restando apenas uma parcela pequena do arábica — os armazéns brasileiros começam a sentir os efeitos da concentração da oferta. Há unidades que já estão limitando ou interrompendo o recebimento de novas cargas diante da falta de espaço. Na avaliação do consultor, esse movimento é um indicativo importante de que, em volume, a safra brasileira foi boa ou muito boa.

O ponto central para Bonfá é que o mercado agora precisa absorver esse café. Produtores precisam comercializar parte da produção, enquanto indústria, exportadores e importadores precisam cumprir contratos e manter o fluxo de abastecimento.

Esse processo tende a manter os preços pressionados, principalmente porque a curva futura já vinha sinalizando valores inferiores aos praticados no mercado físico. Para o consultor, o movimento atual representa justamente a materialização de uma expectativa que já estava embutida nos preços há algum tempo: uma safra brasileira maior significaria mais oferta e, consequentemente, maior necessidade de escoamento.

Ao mesmo tempo, Bonfá pondera que volume não significa necessariamente perda generalizada de valor. A qualidade continua sendo um diferencial importante. Cafés com bebidas melhores, grãos diferenciados, fermentados e certificados seguem encontrando remuneração superior e, segundo o especialista, apresentam uma queda proporcionalmente menor de preços.

Apesar da pressão provocada pela oferta brasileira, o mercado internacional ainda encontra suporte em estoques certificados bastante baixos. O portal internacional Barchart destaca que os estoques de arábica monitorados pela ICE chegaram a níveis historicamente apertados, funcionando como um fator de sustentação para as cotações.

Esse é um dos elementos que ajudam a explicar por que o mercado não simplesmente aprofundou as perdas nesta sexta-feira. Depois da forte correção dos últimos dias, os preços encontraram algum suporte e passaram a consolidar as perdas.

Ainda assim, a combinação entre a entrada da safra brasileira e uma perspectiva de oferta global mais confortável continua sendo o principal contraponto aos estoques reduzidos. O USDA projeta produção mundial de café em 189,7 milhões de sacas em 2026/27, alta de 6% em relação à temporada anterior, enquanto a produção brasileira é estimada em níveis recordes.

PRODUTOR PRECISA DE GESTÃO NA COMERCIALIZAÇÃO

Diante desse cenário, a recomendação implícita na análise de Bonfá é de atenção à gestão da comercialização. O produtor que ainda possui café não necessariamente precisa interpretar a queda das bolsas como uma indicação de que perdeu todas as oportunidades, mas deve avaliar individualmente custos, qualidade, volume disponível e necessidade de caixa.

O consultor chama atenção para a importância de escalonar as vendas e utilizar instrumentos de proteção de preços, principalmente em um mercado no qual a curva futura permanece negativa. Segundo ele, o produtor brasileiro está cada vez mais preparado tecnicamente para administrar essas ferramentas.

Outro ponto de atenção é a nova florada brasileira. Algumas regiões já começam a apresentar os primeiros sinais, mas o resultado efetivo do pegamento das flores só deverá ficar mais claro nos próximos meses. Esse será um componente importante para definir as expectativas sobre a próxima safra e, consequentemente, sobre os preços.

Além dos fundamentos de oferta e demanda, a logística aparece como outro elemento importante para o mercado. Bonfá chama atenção para problemas envolvendo disponibilidade de contêineres e espaço em navios, justamente em um momento em que o Brasil poderá precisar aumentar significativamente suas exportações.

O consultor cita estimativas de exportação brasileiras próximas de 49 milhões de sacas, contra cerca de 38 milhões no ano anterior. Isso representaria um acréscimo de aproximadamente 11 milhões de sacas a serem movimentadas, ampliando o desafio logístico.

Ao mesmo tempo, problemas logísticos em outras origens podem abrir oportunidades para o café brasileiro. Com dificuldades de transporte em algumas rotas internacionais, o Brasil pode ganhar competitividade caso tenha café disponível, preços adequados e capacidade de embarque.

Assim, embora o fechamento desta sexta-feira mostre uma tentativa de estabilização após a forte queda da semana, o mercado ainda está diante de um cenário de ajuste à maior disponibilidade brasileira.

Para Bonfá, o produtor precisa olhar além da cotação da bolsa e considerar qualidade, logística, câmbio, momento de venda e oportunidades nos diferentes mercados. Mesmo com preços mais contidos, o Brasil permanece em posição estratégica como principal fornecedor mundial e pode se beneficiar justamente de sua capacidade de entregar diferentes padrões e qualidades de café.

O momento, portanto, é de pressão sobre os preços, mas também de necessidade de gestão. Com a safra chegando aos armazéns, a comercialização ganhando ritmo e a próxima florada começando a aparecer, o mercado passa a olhar cada vez mais para a capacidade de absorção dessa oferta e para os sinais que serão dados pela próxima safra brasileira.

Com a estabilidade das cotações em Nova York, nesta sexta-feira (4), os preços do café no mercado brasileiro também registraram estabilidade. As cotações do cereja descascado quase não registraram oscilações. Ainda assim, em Guaxupé/MG, enquanto as demais praças não tiveram variação, o preço subiu 2,04% para R$ 1749,00 por saca. No tipo 6 bebida dura, os indicativos variaram de R$ 1610,00 a R$ 1700,00 por saca. 

Por: Carla Mendes
Fonte: Notícias Agrícolas

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