Café amplia perdas em NY e fecha com queda de mais de 1%; clima da safra 2027 entra no radar
Os preços do café arábica voltaram a perder força na Bolsa de Nova York nesta sexta-feira (9) e encerraram a sessão com baixas superiores a 1% nos principais contratos. Depois da forte valorização registrada nos últimos pregões e de chegar a superar os US$ 3 por libra-peso nas últimas semanas, o mercado ampliou a correção, enquanto os operadores voltam as atenções aos fundamentos e, principalmente, às condições para o desenvolvimento da safra brasileira de 2027. Ao longo deste último pregão da semana, as cotações até testaram ligeiros ganhos, mas perderam o fôlego.
O dezembro/26 fechou o dia cotado a 285,15 cents/lb, queda de 1,35%, enquanto março/27 recuou 1,17%, para 278,05 cents/lb. Maio perdeu 1,10%, negociado a 274,85 cents/lb, julho caiu 1,05%, para 272,45 cents/lb, e setembro encerrou a 270,15 cents/lb, baixa de 0,97%.
O fechamento reforça a perda de fôlego observada depois da arrancada recente das cotações. Em entrevista ao Notícias Agrícolas nesta semana, o diretor da Pharos Consultoria, Haroldo Bonfá, avaliou que o café vinha de uma condição de sobrevenda e precisava de uma correção, mas reconheceu que a intensidade da alta surpreendeu quando dezembro rompeu a região dos US$ 3/lb.
“Nós tínhamos já uma noção de que esse mercado poderia, sim, dar essa estilingada para cima. Ele estava sobrevendido e, com isso, tinha que trazer uma correção na sua posição. O que pouca gente, inclusive nós, esperava foi o fato de ter rompido acima dos US$ 3 por libra-peso”, afirmou Bonfá, sobre o movimento recente de valorização que antecedeu o ajuste.
Segundo o analista, a movimentação dos últimos dias voltou a colocar as cotações dentro de um canal mais amplo que já vinha sendo acompanhado e mostrou, mais uma vez, como a volatilidade pode abrir oportunidades para quem trabalha com níveis previamente definidos de compra e venda. “De novo, deu oportunidade para quem se programou, para quem deixou ordens de compra ou de venda quando batesse esses números acima de US$ 3”, explicou.
No Brasil, paralelamente à movimentação dos preços, o foco se desloca cada vez mais para a formação da próxima safra. A previsão climática para os próximos dez dias indica condições inicialmente mais secas e quentes nas principais regiões cafeeiras, seguidas pelo retorno das chuvas no final de semana e precipitações mais frequentes na próxima semana.
Os volumes previstos variam, em geral, entre 4 e 25 milímetros por dia, com picos entre 25 e 55 milímetros, e as chuvas mais expressivas tendem a alcançar especialmente o Sul de Minas e o Paraná. As temperaturas permanecem acima da média inicialmente, com máximas entre 20°C e 35°C e podendo superar 38°C no norte de Minas Gerais, Bahia e norte do Espírito Santo. Nessas áreas, as condições seguem mais secas, mantendo o risco de estresse para as lavouras. Por outro lado, não há previsão de geadas ou danos provocados pelo frio nas regiões cafeeiras nos próximos dez dias.
E é justamente a combinação entre água e temperatura que, segundo Bonfá, ainda impede que o potencial da safra de 2027 seja considerado consolidado. “A florada foi muito bonita. Nós temos perspectivas de chuva e muito calor pela frente. Precisa ver se esse equilíbrio entre chuva e calor e todo o processo natural para o desenvolvimento da nova safra vai ocorrer”, afirmou.
Embora já existam expectativas positivas para a próxima produção, ainda há um longo caminho até a colheita. A antecipação das floradas pode permitir que os primeiros trabalhos ocorram mais cedo, eventualmente entre maio e junho, mas isso dependerá das condições climáticas dos próximos meses.
Para o cafeicultor, esse cenário torna a gestão ainda mais relevante. O Brasil entra na entressafra depois de colher uma grande safra de arábica e ainda possui volumes expressivos para escoar, inclusive em meio a dificuldades relacionadas à disponibilidade de contêineres e espaço em navios.
Ao mesmo tempo, a forte oscilação de Nova York e do câmbio pode alterar rapidamente tanto a receita da venda do café quanto o custo dos insumos. Bonfá cita como exemplo justamente a recente movimentação do dólar. Segundo ele, a diferença entre comprar um fertilizante importado em um momento de câmbio mais alto e aproveitar posteriormente a valorização do real chegou a representar aproximadamente 5% no custo do mesmo produto. No sentido contrário, para quem exporta, um dólar mais baixo reduz a conversão da receita para reais.
Por isso, mais do que tentar acertar o topo ou o fundo de Nova York, o analista defende que o produtor conheça seus custos, estabeleça objetivos e utilize as ferramentas disponíveis para proteger suas margens. “É super importante você ter a sua visão de custo. Quanto custou o seu café, quanto custa todo esse conceito tecnológico que nós estamos fazendo”, destacou Bonfá, ao lembrar dos investimentos em fertilizantes, defensivos, máquinas, qualidade, colheita e pós-colheita.
“O mercado está muito arisco, esperando oportunidades tanto por parte do comprador como por parte do vendedor. Por isso é tão importante você ter na sua cabeça alguns números e alguns objetivos e, dentro desses objetivos, trabalhar.”
Assim, apesar da queda desta sexta-feira em Nova York, o cenário segue longe de estar definido para o café. O mercado devolveu parte da forte valorização recente, mas entra na entressafra brasileira enquanto o potencial da safra 2027 ainda depende da regularidade das chuvas e, sobretudo, da combinação entre umidade e temperaturas nas próximas semanas.
Nova York, dólar, custo e clima precisam ser acompanhados em conjunto pelo cafeicultor neste momento. Em um mercado que, como definiu Bonfá, está “arisco”, a volatilidade representa risco, mas também pode abrir janelas importantes para proteger margens, comprar insumos e comercializar o café.