Rabobank vê perspectiva de recuperação dos estoques globais de café após chuvas favoráveis no Brasil
O mercado internacional de café pode caminhar para um cenário de maior disponibilidade do produto e recomposição dos estoques globais, após um período marcado por preocupações com restrições de oferta. A avaliação é do Rabobank, que identifica nas condições climáticas favoráveis observadas em setembro e na recuperação das exportações brasileiras elementos capazes de reduzir parte dos riscos para o abastecimento nos próximos ciclos.
A análise faz parte do relatório Brazilian Coffee Monthly Update, referente a setembro e divulgado pelo RaboResearch em outubro. Elaborado pelo analista Claudio Delposte, o levantamento destaca a melhora das condições meteorológicas nos principais países produtores, especialmente Brasil, Vietnã e Indonésia, e as perspectivas mais favoráveis para a safra brasileira 2027/28.
O banco ressalta, entretanto, que a possibilidade de maior oferta ainda não representa um excedente confirmado para a próxima temporada. O equilíbrio entre produção e consumo permanece incerto, dependendo da evolução do clima, das condições agronômicas e da capacidade de escoamento do café.
Chuvas de setembro reforçam perspectivas para a produção brasileira
Um dos principais elementos da análise atualizada do Rabobank está no comportamento das precipitações nas regiões produtoras brasileiras durante setembro, período importante para a florada e o desenvolvimento vegetativo dos cafezais.
Segundo o levantamento, todas as localidades analisadas receberam volumes de chuva significativamente superiores às respectivas médias históricas dos últimos 15 anos. Em Guaxupé, no Sul de Minas Gerais, foram registrados 154 milímetros, contra média de 57,2 milímetros. Em Manhuaçu, na região das Matas de Minas, o acumulado chegou a 111 milímetros, enquanto a referência histórica é de 28,5 milímetros.
O cenário também foi favorável em áreas produtoras de conilon. Em Linhares, no Espírito Santo, as precipitações alcançaram 90 milímetros durante setembro, ante média histórica de 29,4 milímetros.
Na avaliação do banco, a maior disponibilidade de umidade nesse período contribuiu para melhorar as condições de desenvolvimento das lavouras e reforçar expectativas positivas para a produção brasileira de 2027/28. Entretanto, os resultados observados em setembro não garantem o desempenho da próxima safra, que continuará dependendo da distribuição das chuvas e das condições climáticas nos meses seguintes.
Exportações brasileiras podem contribuir para recompor estoques
Outro elemento considerado pelo Rabobank é a recuperação do fluxo de exportações brasileiras, que pode ampliar a disponibilidade de café nos principais mercados consumidores.
Em agosto, o Brasil exportou 4,15 milhões de sacas de 60 quilos, volume 22% superior ao registrado em julho e 31% acima do embarcado no mesmo mês de 2025, segundo dados já divulgados pelo Cecafé em setembro. Na análise mais recente, o Rabobank utiliza essa recuperação dos embarques como um dos fundamentos para a perspectiva de maior presença do café brasileiro no mercado internacional e de possível recomposição dos estoques ao longo dos próximos meses.
Essa avaliação ganha importância em um momento no qual os estoques certificados de arábica na Bolsa de Nova York permanecem historicamente baixos, apesar da disponibilidade de café em países produtores como o Brasil.
A distinção entre esses mercados é relevante: a existência de produto nas origens não significa disponibilidade imediata nos armazéns certificados ou nos países consumidores. Para que a maior oferta se traduza em recomposição efetiva dos estoques, serão necessários embarques, transporte, recebimento e, quando aplicável, aprovação do café para certificação nas bolsas.
Assim, a expectativa de maior disponibilidade internacional pode coexistir, no curto prazo, com dificuldades de abastecimento em determinados mercados e com oscilações expressivas nos contratos futuros.
Perspectiva favorável ainda depende da confirmação da oferta
A possibilidade de um mercado global mais abastecido não é nova nas projeções do Rabobank. Em agosto, a instituição já havia apontado expectativa de excedente mundial de 8,9 milhões de sacas para a temporada 2026/27, embora alertasse para os atrasos no fluxo de café entre países produtores e consumidores.
O levantamento de outubro acrescenta a essa perspectiva os resultados climáticos observados em setembro e a interpretação da recuperação recente das exportações brasileiras, reforçando a avaliação de que os estoques internacionais poderão se recuperar gradualmente.
Para os cafeicultores, o cenário coloca duas variáveis no centro das decisões de comercialização: a sustentação dos preços no curto prazo, diante dos estoques certificados reduzidos, e a possibilidade de maior pressão sobre as cotações adiante, caso a oferta projetada se confirme e o abastecimento dos mercados consumidores seja normalizado.
O Rabobank ressalta que ainda existem incertezas relevantes para o desenvolvimento das próximas safras, tanto de arábica quanto de robusta, e que as condições climáticas e comerciais continuarão determinantes para a trajetória do mercado.