Da fé ao prato do brasileiro: quaresma impulsiona consumo de pescado e expõe desafios da cadeia produtiva no Brasil

Publicado em 02/04/2026 07:25
Demanda aquecida, custos elevados e entraves regulatórios marcam o principal período de vendas da piscicultura brasileira.

A piscicultura brasileira vive seu momento mais simbólico do ano, com o mercado aquecido e boas perspectivas de consumo. A produção nacional de peixes de cultivo, em 2025, foi de 1.011.540 toneladas, de acordo com o levantamento feito pela Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR). Nos primeiros meses de 2026, a demanda interna já mostra sua força e movimenta toda a cadeia produtiva. Com a chegada da Quaresma, esse cenário ganha intensidade e reafirma o pescado como uma das principais opções de proteína na mesa do brasileiro.

De acordo com o presidente da instituição, Francisco Medeiros, o desempenho do setor segue dentro das expectativas. “A piscicultura brasileira neste primeiro semestre está apresentando um desempenho muito bom, em função principalmente do mercado interno aquecido”, afirma. A quaresma responde com uma média de aumento de venda em torno de 30 a 50%.

Esse avanço não acontece por acaso e é construído ao longo do tempo, com planejamento e dedicação. O produtor rural se antecipa para atender o aumento sazonal da procura. Emerson Esteves, da Global Peixe, destaca que “o período da quaresma é considerado o natal do piscicultor”. Segundo ele, a procura chega a aumentar, nesse período, por volta de uns 40%. “Por isso temos que ter um planejamento muito grande operacional para atender a demanda”, completa.

Produção se prepara ao longo do ano para atender pico de consumo

A estratégia envolve não apenas ampliar a produção, mas também fortalecer toda a estrutura de trabalho. O aumento da demanda exige mais presença no campo, mais dedicação das equipes e expansão das operações. “Isso envolve mais horas trabalhadas e mais colaboradores”, explica Emerson, evidenciando o esforço para garantir o abastecimento.

Entre as espécies, a tilápia segue como protagonista absoluta no mercado. Francisco Medeiros destaca que o pescado mais comercializado hoje no Brasil é a tilápia, principalmente pela regularidade na oferta.

O produtor Emerson reforça esse cenário ao afirmar que a espécie “é a queridinha nessa época, pois é uma espécie que caiu nas graças do consumidor pela sua versatilidade”.

O comportamento do consumidor também passa por transformações importantes. A diretora da Aquishow Brasil e representante da Peixe SP, Marilsa Patrício, observa uma preferência crescente por praticidade. “Existe uma busca maior por praticidade e maior demanda por filés e produtos processados, além da valorização da qualidade e da rastreabilidade”, disse.

Indústria reforça planejamento para garantir abastecimento

Do lado da indústria, o período também pede organização e preparo antecipado para evitar qualquer ruptura no fornecimento. O médico-veterinário e diretor da Fider Pescados, Juliano Kubitza, aponta que o aumento na procura pode superar 50% durante a Quaresma. “Principalmente filés e peixes inteiros concentram a maior parte das vendas”, explica.

O médico-veterinário e diretor da Fider Pescados, Juliano Kubitza, o aumento na procura pode superar 50%

Para atender esse crescimento, frigoríficos e produtores trabalham com programações ajustadas. “São construídas programações que se ajustam às capacidades e produtos congelados são estocados com antecedência”, explica Kubitza. Esse planejamento é essencial para garantir regularidade em um período de forte consumo.

Além da logística, o setor mantém atenção constante à qualidade. O especialista ressalta que há exigências que vão desde o manejo nutricional e sanitário até a padronização do pescado. Esse cuidado fortalece a confiança do consumidor e sustenta o crescimento do mercado.

Custos de produção e oscilação de preços desafiam rentabilidade

Mesmo com a demanda aquecida, os custos seguem como um dos principais desafios dentro da porteira. Emerson Esteves destaca que a alimentação representa a maior parte das despesas. “Cerca de 75% de todo custo de produção é ração, enquanto os demais gastos incluem alevinos, energia, mão de obra e combustível”, explica.

Outro ponto de atenção é a variação nos preços ao produtor. Segundo Emerson, os valores têm oscilado nos últimos anos nesse período, influenciados principalmente pelo nível de oferta. “Em anos de maior produção, os valores podem recuar, enquanto em cenários mais ajustados há recuperação, como ocorre atualmente”, observa.

Medeiros reforça que o mercado já apresenta sinais positivos nesse sentido. “A recuperação de preços pagos ao produtor já está acontecendo desde o último trimestre de 2025”, afirma. De acordo com ele, essa valorização vem ocorrendo de forma contínua, somando-se ao efeito sazonal da Quaresma.

Burocracia e falta de políticas ainda limitam crescimento

Apesar do avanço da piscicultura, entraves estruturais ainda limitam o potencial do setor. Para Medeiros, o principal desafio está no excesso de regulamentações. “Os atos regulatórios federais, estaduais e municipais acabam reduzindo a competitividade da piscicultura brasileira”, destaca.

O licenciamento ambiental é um dos pontos mais sensíveis, especialmente em São Paulo. Marilsa Patrício afirma que a ampliação do acesso ao licenciamento ainda é um desafio no estado. Segundo ela, o setor também precisa de maior eficiência nas políticas públicas.

“É essencial investir em infraestrutura e políticas que promovam a competitividade frente ao produto importado. O fortalecimento da cadeia depende de organização, escala e apoio institucional”, conclui.

Consumo ainda é influenciado por cultura e clima

Embora a Quaresma seja o principal período de vendas, o consumo de pescado no Brasil ainda não se mantém constante ao longo do ano. “A quaresma tem o seu papel, mas são outros fatores que acabam contribuindo para a fidelidade do consumidor”, afirma Francisco Medeiros, presidente da Peixe BR.

Além disso, o clima também influencia diretamente o consumo. Juliano Kubitza observa que temperaturas mais altas favorecem a procura por pescado, enquanto o frio tende a reduzir a demanda. “Esse comportamento reforça a dependência de fatores externos para a estabilidade do mercado”, finaliza.

No estado de São Paulo, a produção vem crescendo, mas ainda não supre totalmente a demanda interna. Marilsa destaca que há complementaridade com outras regiões e com produtos importados, especialmente nos momentos de maior consumo. Segundo ela, esse cenário revela espaço para expansão da produção local, com potencial de geração de renda e desenvolvimento regional.

Por: Michelle Jardim
Fonte: Noticias Agricolas

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