China amplia diálogo com Brasil e mercado vê espaço para aliviar pressão sobre carne bovina
O avanço das negociações entre Brasil e China reacendeu o otimismo do mercado pecuário brasileiro em torno das exportações de proteínas animais e abriu espaço para uma leitura mais positiva sobre o impacto das cotas chinesas para carne bovina em 2026. A reabilitação de três plantas frigoríficas brasileiras, o avanço do protocolo sanitário para carne suína e a ampliação das tratativas envolvendo novos produtos fortaleceram a percepção de que a relação comercial entre os países segue estratégica para o agronegócio nacional.
Durante reunião bilateral realizada em Pequim, o ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, e a ministra da Administração-Geral das Alfândegas da China (GACC), Sun Meijun, avançaram em temas considerados prioritários para o comércio agropecuário. Entre os assuntos discutidos estiveram a ampliação das exportações de carne de aves, derivados do etanol de milho, farelo de amendoim, além do protocolo revisado para carne suína e miúdos suínos.
Na avaliação do mercado, entretanto, o principal foco permanece sobre a carne bovina e a possibilidade de flexibilização das medidas de salvaguarda adotadas pela China. O retorno de três unidades brasileiras suspensas anteriormente foi interpretado como um sinal positivo para o setor exportador. “A China ultimamente tem feito um rebalanceamento de habilitações, mas no relativo, olhando para tamanhos de capacidades de abate e pressão de compra regional, o fato de ter reabilitado o Bon Mart em SP e a planta de Mozarlândia em GO é positivo para o pecuarista do Centro-Sul como um todo”, afirmou Douglas Coelho, da Radar Investimentos.
Mercado acompanha cota chinesa e possível flexibilização
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), a China responde atualmente por cerca de 40% a 45% de todo o volume exportado de carne bovina pelo Brasil. Além do peso nas receitas do setor, o mercado chinês ampliou sua presença nos últimos anos, alcançando novas regiões e canais de consumo dentro do país asiático.
Para Fernando Iglesias, coordenador de inteligência de mercado da Safras & Mercado, a reação do mercado às notícias vindas da China foi imediata. “Ontem foi um dia de explosiva alta dos preços na B3. Já haviam rumores de que o ministro brasileiro tentaria uma flexibilização das medidas de salvaguarda em relação à carne bovina”, destacou.
O analista lembra que a possibilidade de ajustes nas cotas se tornou decisiva para a formação dos preços da arroba e para o comportamento da indústria frigorífica nos próximos meses. “Não importa quantos frigoríficos a mais o Brasil tenha habilitados se não acontecer, de fato, uma flexibilização da medida de salvaguarda”, afirmou Iglesias.
Hyberville Neto também avalia que os sinais recentes enviados pela China ajudam a reduzir parte da apreensão que dominava o mercado nas últimas semanas. Para ele, a reabilitação das plantas frigoríficas ocorreu justamente em um momento delicado das discussões sobre a cota chinesa. “Nós temos alguns sinais que, na nossa visão, são muito positivos. A reabilitação dessas três plantas se soma a outros movimentos importantes observados recentemente”, explicou.
Ritmo das exportações pode desacelerar pressão sobre a cota
De acordo com Hyberville Neto, os números divulgados pela China indicam que parte do volume exportado anteriormente pode não estar sendo contabilizado integralmente dentro da cota atual, o que pode adiar o esgotamento do limite previsto para este ano.
“O cenário mais provável hoje é de que essa cota seja preenchida em agosto. Não me surpreenderia se passasse disso”, afirmou. Segundo ele, a desaceleração no ritmo dos embarques brasileiros ao longo dos primeiros meses de 2026 também contribui para aliviar parte da pressão sobre o mercado.
Na visão do especialista, isso pode reduzir o impacto imediato sobre os preços da arroba e sobre o planejamento dos confinadores. “Essa desafogada joga um pouco mais para frente o gargalo da carne taxada na China e distribui melhor os pontos de pressão do mercado”, observou.
Hyberville destacou ainda que o temor em torno das cotas já provocou mudanças no comportamento dos produtores. “Esse barulho acabou deixando muito confinador receoso de se programar para entregar gado no meio do ano”, disse.
Mesmo diante da preocupação envolvendo a possível sobretaxa de 55% sobre volumes acima da cota chinesa, o analista acredita que o mercado brasileiro possui alternativas para redirecionar parte da produção. “Nós temos possibilidade de redirecionamento e venda para outros países”, explicou.
Carne suína e aves ampliam oportunidades no mercado asiático
Além da carne bovina, as negociações entre Brasil e China também avançaram sobre outras proteínas animais. O Ministério da Agricultura confirmou o avanço técnico do protocolo revisado para carne suína e miúdos suínos, considerado um passo importante para o setor.
Apesar disso, Fernando Iglesias avalia que a China ainda atravessa um período de elevada oferta interna de carne suína, o que deve limitar o apetite importador chinês neste momento. “A China tem absorvido volumes menores dentro do mercado internacional. Ela está com bastante disponibilidade de produto em 2026”, explicou.
O consultor destacou, porém, que outros países asiáticos seguem aumentando as compras da proteína brasileira. “Filipinas, Japão e Vietnã devem continuar comprando boas quantidades de carne suína do Brasil no restante da temporada”, afirmou.
No caso da carne de frango, o cenário segue mais favorável. Segundo Iglesias, a proteína avícola brasileira apresenta atualmente maior diversificação de mercados e menor dependência da China. “Hoje, nenhum importador representa mais de 10% do volume total exportado pelo Brasil”, pontuou.
O analista ressaltou ainda que o país deve superar 5,5 milhões de toneladas exportadas de carne de frango em 2026. Paralelamente, os derivados do etanol de milho, especialmente o DDG utilizado na nutrição animal, também devem ganhar espaço no comércio internacional.
Relação estratégica entre Brasil e China ganha novos capítulos
Durante a reunião em Pequim, o ministro André de Paula reforçou que o Brasil seguirá atuando como fornecedor confiável de alimentos para a China. “O Brasil segue comprometido em atuar como fornecedor confiável de alimentos seguros, de alta qualidade e competitivos para a China”, declarou.
A ministra chinesa Sun Meijun também destacou o peso do comércio agropecuário na relação bilateral. Segundo ela, a China importou US$ 51,4 bilhões em produtos agrícolas brasileiros em 2025, valor que representou aproximadamente metade do comércio total entre os dois países.
Para a Abiec, o mercado chinês continuará sendo estratégico para a carne bovina brasileira em 2026. A entidade avalia que há expectativa de novas habilitações, avanço nas negociações técnicas e ampliação das oportunidades comerciais.
Na leitura dos analistas, o mercado ainda exige cautela, mas os sinais recentes vindos da China ajudam a construir um ambiente menos turbulento para o segundo semestre. “É um ano de muita movimentação do mercado e acompanhar informação de qualidade é fundamental para tomar decisões assertivas”, concluiu Fernando Iglesias.
Linha do tempo: 52 anos da parceria Brasil-China
1974 — Início das relações diplomáticas
Brasil e China estabeleceram oficialmente relações diplomáticas.
Décadas de 1980 e 1990 — Parceria estratégica
Os países firmaram a primeira parceria estratégica entre nações em desenvolvimento.
1999 — Avanço do agro brasileiro
As exportações agropecuárias brasileiras para a China alcançaram US$ 320,41 milhões.
2000 — Expansão comercial
O intercâmbio bilateral movimentava cerca de US$ 2,3 bilhões.
2004 — Criação da Cosban
Foi criada a Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação.
2004 — Exportações do agro crescem
As vendas agropecuárias brasileiras para a China chegaram a US$ 2,962 bilhões.
2015 — Comércio ganha escala global
O intercâmbio comercial saltou para US$ 66,3 bilhões.
2022 — Cooperação científica
USP e China Agricultural University firmaram acordo de cooperação em ciências agrárias.
2023 — Recorde histórico do agro
O Brasil exportou US$ 60,21 bilhões em produtos agropecuários para a China.
2023 — Programa de conversão de pastagens
O governo brasileiro lançou o Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas.
2024 — Celebração de 50 anos
Brasil e China comemoraram cinco décadas de relações diplomáticas.
2025 — Agro brasileiro ganha ainda mais espaço
A China importou US$ 51,4 bilhões em produtos agrícolas brasileiros.
2026 — Avanço sanitário e comercial
Brasil e China avançaram nas negociações envolvendo carne suína, aves e derivados do milho.A China autorizou o retorno de três plantas brasileiras de carne bovina. O mercado intensificou o acompanhamento das medidas de salvaguarda chinesas.