Radar China: Relação comercial com Pequim fortalece exportações, mas acende sinal amarelo
A relação comercial entre Brasil e China transformou a pecuária brasileira nas últimas décadas e consolidou o país como um dos maiores fornecedores mundiais de alimentos. Impulsionada pelo crescimento econômico chinês e pelo aumento do consumo de proteínas animais, essa parceria ampliou as exportações brasileiras de carne bovina, fortaleceu a produção no campo e abriu novas oportunidades para os pecuaristas. Ao mesmo tempo, o avanço da dependência do mercado chinês passou a gerar preocupação no setor diante dos riscos econômicos e geopolíticos envolvidos nessa concentração.
Segundo o pesquisador e professor do Insper Agro Global, Leandro Gilio, a aproximação entre os dois países ocorreu a partir de uma combinação natural entre oferta e demanda. “Enquanto a China enfrentava um intenso processo de urbanização e aumento populacional nas cidades, o Brasil avançava no domínio da agricultura tropical e ampliava sua capacidade produtiva. Esse cenário permitiu ao agro brasileiro ocupar espaço estratégico no abastecimento alimentar chinês”, explicou.
A urbanização chinesa cresceu rapidamente desde os anos 1980, saindo de cerca de 15% para quase 70% da população vivendo em áreas urbanas. “Com aproximadamente 1,5 bilhão de habitantes, a China passou a demandar volumes cada vez maiores de alimentos. Nesse mesmo período, o Brasil expandia sua produção agropecuária, principalmente no Centro-Oeste, criando uma complementariedade comercial considerada decisiva para o fortalecimento do setor exportador brasileiro”, disse.
Soja abriu caminho e carnes ganharam protagonismo
O especialista destacou que a expansão da soja brasileira foi um dos principais marcos dessa relação comercial. “O avanço das técnicas agrícolas, a correção de solos, o desenvolvimento de cultivares adaptadas ao Cerrado e o aumento da produtividade permitiram ao Brasil gerar grandes excedentes para exportação. A evolução logística e a globalização também contribuíram para aproximar os dois países”, observou.
Na avaliação do pesquisador, o crescimento da renda da população chinesa alterou os hábitos de consumo e aumentou a procura por proteínas animais de maior valor agregado, especialmente carne bovina. “Esse movimento abriu espaço para o Brasil ampliar embarques de carne bovina, suína e de frango ao longo dos últimos anos. Além disso, episódios como a peste suína africana, entre 2019 e 2020, reforçaram temporariamente a necessidade chinesa de importar alimentos”, afirmou.
Leandro Gilio ressaltou que o consumidor chinês passou a consumir mais carne bovina à medida que sua renda aumentou. “Como a produção local enfrenta limitações para atender toda a demanda, o Brasil ganhou competitividade por conseguir produzir carne em grande escala e com preços mais acessíveis no mercado internacional. Esse cenário ajudou a fortalecer a presença brasileira nas exportações globais de proteínas animais”.
Dependência da China preocupa o setor
Apesar dos benefícios comerciais, o entrevistado alertou que a elevada concentração das exportações brasileiras em um único mercado representa um risco importante. “Atualmente, a China responde por cerca de 35% do valor exportado pelo agronegócio brasileiro, além de absorver mais da metade das carnes embarcadas pelo país e quase 80% da soja exportada”.
Segundo ele, qualquer desaceleração econômica, crise geopolítica ou mudança estratégica chinesa poderia impactar diretamente o agronegócio brasileiro. A dificuldade em redirecionar rapidamente grandes volumes de produção para outros mercados aumenta a preocupação entre exportadores e produtores rurais. Para o especialista, a relação comercial é positiva, mas exige atenção constante.
“As tensões comerciais entre China e Estados Unidos também ajudaram o Brasil a ampliar sua participação no mercado internacional”. O entrevistado lembrou que o país ganhou espaço no mercado chinês durante a primeira guerra comercial entre norte-americanos e chineses, especialmente em produtos como soja, carnes, milho e algodão. Mesmo assim, o pesquisador alertou que esse movimento pode mudar dependendo das futuras negociações entre as duas potências.
Carne bovina ainda tem espaço para crescer
Mesmo diante dos riscos, o especialista avalia que o mercado chinês ainda oferece grande potencial para a carne bovina brasileira. “O consumo médio de carne bovina na China gira em torno de 10 quilos por habitante ao ano, número muito inferior ao registrado no Brasil, onde o consumo chega próximo de 40 quilos per capita. Esse cenário indica espaço para crescimento nos próximos anos”.
Além das carnes, outros segmentos também podem avançar no mercado chinês. Entre eles estão as fibras e a bioenergia, principalmente diante da transição energética global e da busca por combustíveis mais sustentáveis para setores como aviação e transporte marítimo. “O Brasil reúne condições para aproveitar parte dessas oportunidades”, reforçou.
Leandro Gilio também destacou o avanço dos protocolos sanitários e das exigências chinesas para produtos agropecuários. Segundo ele, o Brasil já conseguiu adaptar parte da produção às novas regras, como ocorreu com o chamado “Boi China”, desenvolvido para atender critérios específicos relacionados à idade de abate e exigências sanitárias impostas pelo mercado asiático.
Brasil precisa agregar valor às exportações
Para ampliar ainda mais a presença na China, o entrevistado acredita que o Brasil precisa avançar na exportação de produtos com maior valor agregado. Segundo ele, o consumidor chinês está mudando seu perfil de consumo e buscando alimentos premium e de melhor qualidade. Essa tendência pode abrir novas oportunidades para a pecuária brasileira.
Outro desafio apontado envolve as estratégias chinesas de reduzir a dependência de importações alimentares. O especialista explicou que a segurança alimentar é tratada como prioridade de Estado pela China, que busca fortalecer sua produção doméstica sempre que possível. Isso exige atenção do Brasil diante das mudanças nas políticas comerciais chinesas.
Por fim, o representante do do Insper Agro Global destacou que o Brasil ocupa hoje posição estratégica na segurança alimentar global graças ao crescimento das exportações agropecuárias puxadas pela China. “O país se tornou um dos principais exportadores mundiais de alimentos e apresenta um dos maiores saldos positivos da balança comercial internacional. Para os pecuaristas brasileiros, a relação com a China segue sendo decisiva, mas o setor precisará diversificar mercados e ampliar competitividade para reduzir riscos futuros”, concluiu.