Carnes: Rússia reduzirá suas importações nos próximos anos

Publicado em 14/06/2011 07:54 347 exibições
A Rússia, um dos maiores compradores de carnes do Brasil, reduzirá significativamente suas importações nos próximos anos, levando à desaceleração na expansão do comércio global de carnes. A projeção é da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Agência da ONU para Agricultura e Alimentação (FAO) no estudo "Perspectivas Agrícolas 2011-2020", que será divulgado na sexta-feira.

Impulsionado pela expansão de embarques de frango e carne bovina, o comércio internacional de carnes deve crescer 1,7% ao ano no período, bem menos que a taxa de 4,4% por ano entre 2001-2010.

Essa desaceleração é atribuída em grande parte à menor demanda da Rússia. Até agora um tradicional grande importador de carnes, o país acelerou a política para expandir sua produção de carnes, a ponto de poder alcançar um "certo grau de autossuficiência e saldo exportável" em dez anos.

Significa que os problemas que a Rússia causa no momento aos produtores brasileiros, com o embargo à entrada de carnes de 85 unidades frigoríficas, tendem a aumentar com ou sem pretextos sanitários. Em todo caso, o Brasil estabelecerá sua posição como líder mundial nas exportações de carnes bovina e de frango, mas buscando novos clientes. O estudo prevê que consumidores adicionais estarão essencialmente na Ásia, América Latina e em países exportadores de petróleo.

O Japão continuará a ser o maior importador mundial de carnes em 2020, seguido por México e Coreia do Sul. A China também persegue sua política de autossuficiência. A expansão da indústria mexicana de processamento de alimentos deve reforçar a demanda de carne estrangeira, paralelamente ao declínio nas importações da Rússia. Na União Europeia, o declínio nas exportações serão acompanhadas pela expansão nas importações.

A grande maioria das exportações de carnes virá da América do Sul e do Norte, que representarão quase 84% do total do aumento dos embarques até 2020. O Brasil estabelecerá sua posição como líder nas vendas de carne bovina, atingindo 2 milhões de toneladas em 2020. Os EUA continuarão a expandir suas vendas no Pacífico.

As exportações de carne suína terão crescimento modesto no período, mas com mudanças significativas na composição das vendas. Os embarques da América do Sul e do Norte devem aumentar. As exportações do Brasil crescerão, mas também aumentará a demanda doméstica. O comércio da China, que faz metade da produção e do consumo, não deve ser alterada.

É esperada uma ligeira desaceleração no crescimento das vendas de carne de frango. Brasil e EUA vão reforçar seu domínio, com quase metade das vendas adicionais para os mercados mundiais.

O mercado de carnes é altamente fragmentado por restrições sanitárias. OCDE e FAO dividem o mercado de carne bovina por "rotas de aftosa e o resto do mundo". Grandes exportadores como Brasil e EUA pertencem a diferentes circuitos, e seus preços nem sempre seguem os mesmos passos.

Os EUA garantiram o acesso para as carnes de Santa Catarina. Isso "provavelmente" vai intensificar a arbitragem de preço entre os mercados do Atlântico e do Pacífico. No caso da carne bovina, o impacto da abertura do mercado americano a produtores brasileiros pode resultar em maior competição para produtores que estão em áreas mais distantes, como a Austrália.

Tudo isso ocorrerá num cenário em que a produção mundial de carnes é projetada para crescer 1,8% por ano em média, frente a 2,1% na década precedente. A expansão virá de ganhos de produtividade, sobretudo para frango e suínos, nos países em desenvolvimento. Os preços devem continuar elevados, pela combinação de altos custos de produção, expansão dos estoques e a introdução de regras mais estritas nas áreas ambiental, de segurança alimentar, proteção animal e rastreabilidade. OCDE e FAO preveem alta nominal de 18% para a carne bovina, 26% para a de frango, 16% para a suína e 20% para a ovina.

Brasil e Rússia retomam negociação sobre OMC

O Brasil e a Rússia retomam negociação hoje, em Genebra, sobre a entrada russa na Organização Mundial do Comércio (OMC). A reunião ocorre na véspera de Moscou colocar em vigor o embargo à entrada de carnes de 85 estabelecimentos frigoríficos do Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso.

Fontes brasileiras dizem que a reunião em Genebra estava prevista já há algum tempo e não é consequência dos últimos desdobramentos bilaterais. Já o governo russo não quis marcar reunião com uma delegação do Ministério de Agricultura brasileiro, em Moscou, alegando que seu veterinário chefe estaria justamente em Genebra esta semana.

Na agenda da reunião estão, mais uma vez, as concessões para as carnes brasileiras que os russos precisam fazer para obter o apoio final do Brasil à sua entrada como membro da OMC até o fim do ano.

A negociação é complicada porque o governo russo já ofereceu 60% da cota de 472 mil toneladas de carne suína para os Estados Unidos e a União Europeia, sobrando pouco para o Brasil. Acena com melhora na cota de importação de carne de frango, que já tinha reduzido em mais da metade em relação à cota de dois anos atrás. Para carne bovina, fica em 530 mil toneladas.

Do lado brasileiro, a orientação é desvincular as discussões em Genebra do embargo às carnes brasileiras. Brasília aguarda a resposta do governo russo à carta enviada pelo vice-presidente, Michel Temer, contra o embargo às carnes brasileiras dias depois de sua visita a Moscou.

A expectativa é de que, a partir da resposta russa, poderia haver um tratamento mais amplo e integrado das duas questões simultaneamente. Negociadores querem, assim, dar continuidade aos trabalhos técnicos de acessão russa na OMC, sabendo que um "andamento adequado" pode estar condicionado aos avanços na discussão bilateral, ou seja, à suspensão do embargo.

Ontem, no Rio, o secretário executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Alessandro Teixeira, disse que o governo brasileiro espera resolver até o fim de julho a pendência com a Rússia. Para ele, o embargo russo não é um problema político e em alguns casos os russos têm razão em criticar o Brasil. "Não é a primeira vez que acontece com a Rússia, não vai ser a última e a gente tem que lidar com isso. São vários elementos e a gente tem que equacionar, em alguns deles eles têm razão e em alguns não", frisou.

A Rússia mantém o embargo às carnes do Brasil, mas já voltou atrás na restrição que impôs, no mesmo dia, aos legumes europeus, depois da deflagração da crise da bactéria E.coli, que continua matando pessoas na Europa.

Na ocasião, alguns analistas em Bruxelas também levantaram a suspeita de que Moscou tinha aproveitado o pretexto da crise na Europa para barrar os produtos do velho continente, e pressionar para a UE ajudar na aceleração da entrada russa na OMC.

A questão agora é como Moscou poderá manter a suspensão às carnes brasileiras, quando ao mesmo tempo libera a entrada dos legumes europeus em seu mercado num contexto ainda de insegurança em relação os produtos do velho continente.

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Valor Econômico

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