Divergências metodológicas entre especialistas apresentam incertezas sobre intensidade do El Niño para este ano

Publicado em 17/02/2026 06:00 e atualizado em 17/02/2026 06:54
Análises de Luiz Carlos Molion e Bárbara Sentelhas apresentam cenários distintos para o clima em 2026

O planejamento para a temporada agrícola de 2026 está sendo pautado por uma clara distinção técnica no cenário meteorológico brasileiro, onde o ponto central da discussão não é apenas a ocorrência do fenômeno El Niño, mas a sua real magnitude e os fatores que podem neutralizar ou amplificar seus efeitos no campo. Enquanto as projeções baseadas em modelos matemáticos e dinâmicos apontam para um aquecimento robusto das águas do Oceano Pacífico, leituras fundamentadas em ciclos históricos e geofísicos sugerem que o impacto pode ser menor do que o mercado espera.

Em entrevista concedida ao portal Notícias Agrícolas, a agrometeorologista Bárbara Sentelhas fez uma análise sobre a dinâmica oceânica atual e avaliou as projeções de modelos matemáticos globais, como o NOAA e o ECMWF. Segundo a especialista, os dados indicam um aquecimento acelerado das águas do Oceano Pacífico Equatorial, sugerindo que a fase de neutralidade será breve e dará lugar a um fenômeno El Niño já a partir do segundo semestre de 2026. Sentelhas utilizou como evidência central o gráfico NMME, que ilustra uma trajetória de ascensão térmica das águas, onde a inclinação das curvas aponta para uma anomalia de temperatura que pode superar 1,5°C, o que classificaria o fenômeno como de forte intensidade.

Ela ressaltou durante a entrevista que, embora a classificação técnica dependa da temperatura, o foco do produtor deve estar no impacto prático dessa mudança. Para a agricultura brasileira, os reflexos esperados incluem chuvas volumosas e temporais frequentes na Região Sul durante a primavera e o verão, fator que pode comprometer a colheita de inverno e dificultar o plantio das culturas de ciclo principal. No Centro-Oeste e Sudeste, a tendência indicada é de um inverno com temperaturas acima da média e o retorno de ondas de calor severas acompanhadas de irregularidade hídrica. Já no Norte e Nordeste, o alerta recai sobre o risco de secas prolongadas e déficit hídrico acentuado, impactando diretamente as lavouras.

Em contrapartida, em entrevista ao programa Tempo & Dinheiro, o climatologista Luiz Carlos Molion apresentou uma leitura alternativa baseada em ciclos geofísicos e históricos de longo prazo, relativizando a força de um possível El Niño para este ano. Para Molion, os modelos dinâmicos convencionais falham ao desconsiderar eventos como o impacto de grandes terremotos na circulação oceânica e a influência da órbita lunar nas marés e correntes marinhas. Ele defende que o planeta permanece em um ciclo de resfriamento relativo, o que tornaria qualquer El Niño em 2026 um evento fraco e sem capacidade de dominar o clima global, argumentando ainda que a neutralidade do Pacífico observada no início do ano não deve ser interpretada como uma transição para um aquecimento severo.

Molion ressalta que a atenção do agronegócio não deveria estar voltada para as ondas de calor tropicais, mas sim para a severidade das massas de ar polar vindas da Antártica, que tende a aumentar em períodos de resfriamento global. Os principais riscos apontados pelo climatologista incluem a entrada frequente de ar frio rigoroso com potencial para geadas precoces já a partir do mês de maio, o que geraria um risco elevado para cafezais e pomares de citrus nas regiões Sudeste e Sul. Além disso, ele destacou a necessidade de o produtor priorizar variedades e cronogramas de plantio que protejam o milho safrinha e o trigo das geadas de inverno, que, segundo sua análise, podem ser mais frequentes do que em anos anteriores.

O que diz o INMET

Desde janeiro, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) passou a disponibilizar um serviço de monitoramento com mapas detalhados sobre a Temperatura da Superfície do Mar (TSM) e suas anomalias, ferramentas que são fundamentais para compreender o comportamento do clima no Brasil. Segundo os dados mais recentes, o cenário atual indica um período de neutralidade climática, uma vez que as águas do Oceano Pacífico Equatorial ainda não apresentam o aquecimento ou resfriamento contínuo necessário para configurar, respetivamente, um El Niño ou uma La Niña.

No mapa de anomalia, embora ainda existam manchas de águas com temperaturas próximas à média ou levemente abaixo do normal em certas partes do Pacífico Central, nota-se um aquecimento gradual em outras áreas, como a costa oeste da América do Sul. Esta configuração sugere a possibilidade de um El Niño Costeiro, fenômeno que atinge primordialmente países como Peru e Equador. No Atlântico Sul, o destaque fica para as temperaturas junto à costa brasileira, que variam entre a neutralidade e um leve aquecimento, especialmente mais ao sul do país. Este fator interfere diretamente na umidade e na regularidade das chuvas sobre o país.

 

Por: Ericson Cunha
Fonte: Notícias Agrícolas

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