Com avanço do El Niño, produtor rural deve enfrentar segundo semestre de extremos climáticos

Publicado em 01/06/2026 07:31
Meteorologia alerta para aumento do calor e maior irregularidade das chuvas no país; cenário preocupa produtores com risco de seca, temporais e impactos nas lavouras no segundo semestre

 

O início de junho marca a entrada em uma fase decisiva para o agronegócio brasileiro, com o segundo semestre começando sob alerta para mudanças importantes no padrão de chuva e temperatura em diversas regiões produtoras do país. A influência do fenômeno El Niño deve ganhar força ao longo dos próximos meses, trazendo mudanças importantes no comportamento das chuvas, aumento do calor e impactos diretos sobre lavouras, pecuária, reservatórios e manejo no campo.

Para entender como o clima deve se comportar nas próximas semanas e quais serão os principais impactos no campo, o Notícias Agrícolas ouviu a meteorologista Estael Sias, que traçou um panorama região por região e alertou para os efeitos cada vez mais evidentes do fenômeno El Niño.  Segundo a meteorologista Estael Sias, o padrão climático já começou a mudar em maio e deve ficar ainda mais evidente durante o inverno e a primavera de 2026.

“É um cenário que exige acompanhamento constante, porque teremos regiões com chuva abaixo da média, períodos prolongados de calor e aumento da evapotranspiração, o que reduz a disponibilidade de água para as lavouras”, afirma.

Sul terá menos geada em junho, mas umidade e chuva aumentam 

Após um mês de maio marcado por sucessivas ondas de frio, geadas e temperaturas negativas em áreas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, junho começa com um cenário diferente no Sul do Brasil.

Segundo Estael, o risco de geada diminui bastante na primeira metade do mês e o padrão atmosférico passa a favorecer mais umidade, nebulosidade e períodos de chuva.

“O mês de junho, principalmente até por volta do dia 15, terá risco muito pequeno de geada. Junho já começa diferente nesse aspecto e será um mês marcado pela umidade”, explicou.

Nos primeiros dias do mês, a tendência é de muitas nuvens, nevoeiro e alta umidade relativa do ar, o que pode impactar atividades de logística e escoamento da produção.

“A primeira metade de junho terá muitos períodos de umidade e serração. Quem pega estrada vai enfrentar bastante nebulosidade”, afirmou.
Apesar da umidade elevada, os acumulados de chuva não devem ser tão expressivos neste começo de junho. A tendência de aumento mais consistente das precipitações aparece na segunda metade do mês.

“A chuva deve ganhar força na segunda metade de junho, junto com uma maior oscilação das temperaturas”, destacou.
Segundo a meteorologista, o Sul deve sentir os efeitos mais claros do El Niño a partir de julho e agosto, principalmente com chuva acima da média e aumento no risco de temporais.

“O El Niño reforça a característica do Sul do Brasil de ter mais tempestades, eventos extremos, chuva volumosa em curto período de tempo, raios, vento e granizo”, alertou.

Sudeste começa com umidade, mas calor avança na sequência

No Sudeste, o mês de maio terminou com chuva acima da média em várias áreas de São Paulo, especialmente no interior e na metade sul do estado.

Segundo Estael, o início de junho ainda terá episódios de chuva isolada, principalmente em São Paulo, sul de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

“São Paulo pode ter um pouco mais de umidade nessa primeira metade de junho. Não significa chuva todos os dias, mas alguns episódios de pancadas de chuva”, afirmou.

A partir da segunda metade do mês, o cenário muda e o calor passa a ganhar força sobre a região.

“A temperatura alta aumenta a evapotranspiração e as lavouras acabam perdendo mais água”, explicou.

No norte de Minas Gerais, o padrão de inverno já está instalado, com tempo seco e baixa ocorrência de chuva.

Nordeste deve enfrentar calor e pouca chuva

No Nordeste, o segundo semestre preocupa principalmente pelas condições mais secas previstas para o interior da região.
Segundo Estael, o El Niño deve favorecer redução das chuvas no Matopiba, Agreste e Sertão, aumentando o risco de estresse hídrico nas áreas produtoras.

“O El Niño no Nordeste tem essa característica de reduzir a chuva e provocar períodos prolongados de escassez hídrica”, destacou.

As precipitações tendem a ficar mais concentradas na faixa litorânea e no extremo norte da região, influenciadas pela umidade marítima e pela Zona de Convergência Intertropical (ZCIT).

Enquanto isso, áreas do sul do Piauí, oeste da Bahia e Maranhão devem enfrentar calor intenso e baixa umidade.

“Além da escassez de chuva, teremos períodos muito quentes, o que aumenta o risco de queimadas e dificulta o plantio em algumas áreas produtoras”, alertou.

Norte terá extremos entre excesso e falta de chuva

Na Região Norte, o cenário segue dividido entre áreas com chuva volumosa e outras já entrando em período de estiagem.
Volumes elevados continuam previstos para Amazonas, Amapá, Roraima e norte do Pará, enquanto Tocantins, Acre, Rondônia e sul do Pará devem enfrentar redução significativa das precipitações.

“O ar seco do Centro do Brasil começa a avançar e inibir a chuva nessas áreas”, explicou Estael.
No Tocantins e no sul da Amazônia, o calor também deve ganhar força, com temperaturas entre 34°C e 38°C.

Segundo a meteorologista, o segundo semestre pode repetir problemas registrados em anos recentes, como rios com níveis baixos, aumento das queimadas e dificuldades no abastecimento hídrico.

“O produtor vai enfrentar desafios ligados à redução da chuva, aumento da temperatura e necessidade maior de irrigação”, afirmou.
Ela também chama atenção para os impactos na pecuária.

“Os animais sentem o calor, as pastagens sofrem com a falta de chuva e isso aumenta o estresse térmico do rebanho.”

El Niño deve ganhar força ao longo do inverno

De acordo com Estael, a expectativa é que os órgãos internacionais confirmem oficialmente o início do El Niño nas próximas semanas.

“O oceano já está aquecido. Falta agora a atmosfera responder de forma mais clara a esse aquecimento”, explicou.

A tendência é de que os impactos aumentem gradualmente ao longo do inverno e ganhem força na primavera, trazendo mudanças importantes para o campo em diferentes regiões do Brasil.

Diante desse cenário, a orientação é que o produtor acompanhe constantemente as atualizações meteorológicas e ajuste o manejo conforme o comportamento do clima.

“O clima impacta toda a cadeia produtiva, da agricultura à pecuária, passando pelos reservatórios e pelos custos de produção”, concluiu a meteorologista.

Por: Andreia Marques
Fonte: Notícias Agrícolas

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