Dia do Feijão: Data reforça o valor do grão para o produtor e aponta caminhos para consumo e rentabilidade

Publicado em 10/02/2026 08:45 e atualizado em 10/02/2026 10:49
Data criada pela FAO ganha força no Brasil ao unir mercado, produção, tecnologia e planejamento no campo.

Celebrado em 10 de fevereiro, o Dia Mundial do Feijão foi instituído pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para reconhecer o papel das leguminosas na alimentação global. A data destaca a contribuição do grão para a segurança alimentar, a qualidade nutricional das dietas e a sustentabilidade produtiva. Para o Brasil, o feijão representa mais que alimento: é parte da cultura e da rotina no campo. 

Mesmo com mudanças nos hábitos alimentares, o alimento segue como base da alimentação brasileira. O grão combina alto valor nutricional, custo acessível e ampla aceitação em diferentes regiões. Essa característica mantém o produto presente tanto em receitas tradicionais quanto em novas formas de consumo.

Além do consumo interno, o feijão brasileiro vem ganhando espaço no mercado internacional. O avanço produtivo mostra a capacidade do setor em atender diferentes demandas. Esse cenário amplia as oportunidades, mas também acende alertas importantes para o produtor rural.

Consumo em pauta e desafios no mercado interno

Segundo o presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), Marcelo Eduardo Lüders , o setor vive um momento decisivo. “Nos últimos anos focamos cada vez mais na diversificação de variedades e no mercado mundial. Chegamos a 500.000 toneladas no mercado mundial no ano passado, um recorde absoluto”, afirmou.

Apesar do avanço externo, o dirigente chama atenção para o consumo doméstico. “Percebe-se que há uma diminuição no consumo per capita de feijão”, disse. Diante disso, entidades do setor se reuniram para discutir ações práticas capazes de reverter esse cenário.

Segundo estimativas da Embrapa Arroz e Feijão, o consumo médio aparente per capita de feijão-comum em 2023 foi 12,8 kg/hab. E, considerando o período de 1996-2023, percebe-se um declínio no consumo aparente per capita, depois de ter chegado a 18,8 kg/hab, em 1996.

A proposta, segundo Lüders, é sair do diagnóstico e partir para iniciativas concretas. “A ideia é de que, durante esse dia (10 de fevereiro), possamos discutir como reverter esse cenário. É possível revertê-lo; existem outros países que têm feito um trabalho nesse sentido”, destacou o presidente do Ibrafe.

Feijão como alimento universal e cultural

O feijão está presente em praticamente todas as culturas do mundo. Lüders lembra que são dezenas de tipos consumidos em diferentes países. “É muito difícil você encontrar um país ou uma cultura que não tenha um dos feijões”, afirmou durante a entrevista.

Mais do que nutrição, o grão carrega valor afetivo. “Nós consumimos feijão não só porque ele é bom, mas porque nós gostamos, é um comfort food”, ressaltou. Esse vínculo emocional é visto como estratégia para estimular o consumo desde a infância.

Para o setor, trabalhar essa relação cultural é tão importante quanto destacar benefícios técnicos. “Queremos trabalhar isso com as crianças”, observou.

Safras, preços e expectativa do produtor

No campo, o produtor acompanha atentamente o mercado. A colheita da primeira safra está sendo finalizada, enquanto a segunda avança com plantios concentrados em fevereiro. Essa produção deve chegar ao mercado entre maio e junho.

Sobre os preços, Lüders avalia um movimento de recuperação. “Os preços do feijão preto e do feijão carioca começaram a reagir”, afirmou. No ano passado, segundo ele, muitos produtores venderam abaixo do custo, comprometendo a rentabilidade.

A expectativa agora é mais positiva. “Nós iremos ter preços bastante remuneradores para os produtores”, projetou. A terceira safra, colhida entre julho e agosto, também entra nesse cenário, influenciando diretamente as decisões de plantio.

Tecnologia, irrigação e terceira safra

A terceira safra só é possível graças à irrigação. “Não existiria uma terceira safra no Brasil a menos de R$15 o quilo se não fosse a irrigação”, afirmou. O uso dessa tecnologia mudou o patamar produtivo do feijão nacional.

Além da água, outras inovações ajudam o produtor. Variedades de escurecimento lento e o uso de câmaras frias permitem melhor conservação e comercialização. Essas ferramentas ampliam o tempo de venda e reduzem perdas pós-colheita.

A expectativa para a terceira safra é expressiva. Segundo Lüders, o mercado pode receber mais de 650 mil toneladas de feijão carioca. Esse volume exige planejamento e atenção redobrada à comercialização.

Manejo e janelas ideais de plantio

O analista da Embrapa Arroz e Feijão, Pedro Henrique Lopes Sarmento, explica que a cultura ocorre em três safras. A primeira, chamada de safra das águas, é a mais representativa em Minas Gerais, concentrando grande parte da produção estadual.

O analista da Embrapa Arroz e Feijão, Pedro Henrique Lopes Sarmento, duramte palestra a campo

A segunda safra acontece entre dezembro e março, enquanto a terceira ocorre no período seco. Segundo Sarmento, o ciclo rápido exige atenção constante. “É uma cultura que não pode faltar água na principal fase, que é o florescimento”, alertou.

A janela ideal para o plantio irrigado vai de 15 de abril a 15 de maio. Fora desse período, riscos aumentam. “Temperaturas muito baixas e muito altas acabam prejudicando o florescimento”, explicou o pesquisador da Embrapa.

Investimento, riscos e planejamento

O planejamento da irrigação é apontado como decisivo. “É um investimento muito alto para o produtor”, afirmou. Um pivô pode custar cerca de R$30 mil por hectare, exigindo estudo técnico detalhado.

Segundo o analista da Embrapa, o produtor precisa avaliar outorga, questões ambientais e viabilidade econômica. “Tem que ser um estudo muito bem feito por uma equipe especializada”, reforçou. O erro nesse processo pode comprometer todo o sistema produtivo.

E atenção: a irrigação reduz riscos climáticos, mas não elimina desafios. Inclusive, ainda segundo o especialista da Embrapa, doenças antes comuns no verão começam a surgir também no sistema irrigado,  o que exige manejo ainda mais criterioso.

Rentabilidade e necessidade de conhecimento técnico

O feijão se diferencia de outras culturas pela complexidade do manejo. Falhas no manejo hídrico podem causar perdas severas. “É uma cultura que exige muito conhecimento técnico”, completou.  Apesar disso, o potencial de retorno é elevado. “É uma cultura muito rentável. Em anos de preço favorável, a margem pode superar outras commodities, atraindo novos produtores”, disse. 

O alerta final é claro. “Quando o preço está bom muita gente arrisca sem ter o conhecimento”. Para Sarmento, a chave do sucesso está na informação, no planejamento e na rotação de culturas.

Por: Michelle Jardim
Fonte: Notícias Agrícolas

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