Cinco unidades de frango do Brasil são desabilitadas a exportar a sauditas

Publicado em 22/01/2019 16:35 e atualizado em 23/01/2019 03:04
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No primeiro semestre de 2018 a Arábia Saudita pediu explicações no caso da salmonelose detectada pela Europa

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SÃO PAULO (Reuters) - A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) informou nesta terça-feira que cinco unidades frigoríficas de carne de frango foram desabilitadas a exportar para a Arábia Saudita, maior importador do produto brasileiro, por razões técnicas.

A associação, que representa os principais produtores de carnes de aves e suína do Brasil, afirmou ainda que 25 unidades continuam autorizadas a exportar aos sauditas, de um total de 58 habilitadas pelo Ministério da Agricultura brasileiro.

Do total de habilitadas, somente 30 embarcavam produtos efetivamente aos sauditas, disse a ABPA, ressaltando que o "impacto, portanto, é sobre cinco plantas frigoríficas".

O comunicado foi divulgado após a versão online do jornal Folha de S.Paulo revelar mais cedo que a Arábia Saudita havia desabilitado cinco frigoríficos exportadores.

"As empresas autorizadas constam em uma lista divulgada pelas autoridades sauditas. As razões informadas para a não autorização das demais plantas habilitadas decorrem de critérios técnicos", disse a ABPA em nota.

"Planos de ação corretiva estão em implementação para a retomada das autorizações", acrescentou a ABPA, sem deixar claro no comunicado quais frigoríficos foram desabilitados.

Segundo a Folha, entre as cinco unidades descredenciadas pelos árabes estão unidades da BRF <BRFS3.SA> e JBS <JBSS3.SA>. As empresas não comentaram o assunto.

Fontes com conhecimento da situação disseram à Reuters que duas unidades da BRF estão entre as que foram desabilitadas pela Arábia Saudita.

As ações da BRF fecharam em queda de 5 por cento nesta terça-feira. As da JBS, que operaram em alta após a divulgação da notícia pela manhã, tiveram queda de 0,7 por cento.

Segundo nota do Ministério da Agricultura do Brasil, o grupo de unidades habilitadas atualmente pelos sauditas respondeu no ano passado por 63 por cento do volume das exportações brasileiras de carne de frango para a Arábia Saudita.

O ministério disse ainda que está examinando o relatório da Arábia Saudita, elaborado após missão no ano passado, e encaminhará aos estabelecimentos as recomendações apresentadas.

BRF E EMBAIXADA

No caso da BRF, segundo fontes que falaram à Reuters na condição de anonimato, duas unidades foram desabilitadas para exportar frango para os sauditas, sendo uma em Goiás e outra no Sul do país.

De acordo com uma das fontes, para minimizar perdas, haverá uma mudança no "mix" de produção em algumas plantas que não foram afetadas pela decisão do país árabe, e que continuam credenciadas.

Já as unidades impactadas terão sua produção mais voltada para demanda interna.

"Será feito um ajuste e um rearranjo. Isso não é automático. Deve levar um a dois meses", explicou.

"O impacto não será de um volume expressivo", acrescentou uma segunda fonte.

Em paralelo, a Arábia Saudita vem adotando medidas para aumentar a produção interna e reduzir as importações de carnes de frango, segundo as fontes.

Esses foram os primeiros sinais de que a venda para lá poderia ser impactada no futuro. Os sauditas chegaram a questionar, por questões religiosas, como era feito o abate de frango em unidades brasileiras, o que levou a uma adaptação nas unidades à tradição muçulmana.

A possibilidade de o Brasil mudar a sede de sua embaixada em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, medida que desagrada nações muçulmanas, também foi citada, mas como uma questão secundária.

"Vemos como um decisão comercial, mas a mudança (eventual) de embaixada para Jerusalém foi um combustível a mais", disse a primeira fonte.

O presidente em exercício, Hamilton Mourão, disse nesta terça-feira que a Arábia Saudita poderia estar se "antecipando ao inimigo" ao comentar a decisão daquele país de desabilitar cinco unidades frigoríficas brasileiras de carne de frango que exportam o produto para lá.

Questionado se a decisão saudita seria uma retaliação a uma eventual mudança da embaixada, Mourão respondeu em breve fala à imprensa: "a embaixada não está mudada ainda, né? Pessoal está se antecipando ao inimigo".

(Por Ana Mano)

Entenda os motivos e impactos da decisão da Arábia Saudita (por Giovanni Lorenzon)

Um dia depois de a China anunciar acordo pondo fim às medidas antiduping ao frango brasileiro, o setor acordou com a surpresa da Arábia Saudita deslistando plantas habilitadas a exportarem ao nosso maior comprador mundial do produto. Embora nem todas as 33 plantas exportem regularmente, se a situação não for revertida deverá acarretar perda significativa de mercado, até porque entre elas estão unidades da BRF, JBS e Seara, grandes exportadores. 

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) e o Mapa estão tentando entender a situação que não foi deixada clara pelos sauditas - inclusive descartando qualquer questão sanitária - mas um líder empresarial influente, também negociador do setor, e que pediu anonimato, diz que "pode estar em jogo o interesse daquele país em limitar as importações e estimular a produção local".

De fato, isto chegou a ser anunciado no segundo semestre de 2018. Antes, ainda, a Arábia Saudita havia reclamado na questão da salmonela, durante o desdobramento da Operação Carne Fraca, quando a BRF e outras plantas tiveram cortes de frangos embargados pela Europa.

Não se descarta ainda questões menos técnicas, como algum tipo de retaliação contra as declarações  do governo de Jair Bolsonaro, como o manifesto interesse em mudar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. As declarações já haviam gerado advertências dos árabes mesmo antes da posse - que teve a presença do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

Em meio a dúvidas, mesmo a afirmação do interlocutor do Notícias Agrícolas, que também está em Brasília na tarde desta terça (22), a respeito da tentativa da Arábia Saudita em deixar a concorrência brasileira menor para aliviar os produtores locais também gera mais confusão.

Quais os critérios de elegibilidade para na prática cortar exportações de determinadas empresas? Não haveria outros mecanismos, como aumento de tarifas?

"Mais para fazer barulho e criar estresse", disse, completando: "estão se aproveitando do nosso momento de transição e desorganização".

Por isso, pode ser até uma soma de tudo. E nada se descarta, mesmo que nesta quarta-feira certamente venha alguma informação oficial.

Abaixo, a lista de estabelecimentos brasileiros habilitados como exportadores de carne de frango:

Lista frigoríficos Arábia Saudita

Fonte: Mapa

Nota oficial do Mapa

Arábia Saudita habilita 25 exportadores de carnes de aves

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) tomou conhecimento ontem de relatório publicado pelo serviço sanitário da Arábia Saudita habilitando 25 estabelecimentos brasileiros como exportadores de carne de frango para aquele país ( veja lista em anexo).

A aprovação foi resultante de missão que o Reino enviou ao Brasil em outubro de 2018. Na ocasião, foram visitados frigoríficos, fazendas e fábricas de ração.

O grupo habilitado respondeu no ano passado por 63% do volume das exportações brasileiras de carne de frango – porcentagem que correspondeu a 437 mil toneladas – para a Arábia Saudita.

O Ministério ainda está examinando o relatório e encaminhará aos estabelecimentos as recomendações apresentadas.

Brasília, 22 de Janeiro de 2019.

Posicionamento ABPA sobre decisão da Arábia Saudita

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) confirma que a Arábia Saudita mantém a autorização de exportação de 25 plantas frigoríficas de carne de frango brasileira.   Atualmente, 58 plantas são habilitadas pelo Ministério da Agricultura brasileiro a exportar, mas somente 30 destas embarcam produtos efetivamente.  O impacto, portanto, é sobre 5 plantas frigoríficas.

 As empresas autorizadas constam em uma lista divulgada pelas autoridades sauditas.  As razões informadas para a não-autorização das demais plantas habilitadas decorrem de critérios técnicos.  Planos de ação corretiva estão em implementação para a retomada das autorizações.

A ABPA está em contato com o Governo Brasileiro para que, em tratativa com o Reino da Arábia Saudita, sejam solvidos os eventuais questionamentos e incluídas as demais plantas. Além disto, as plantas que hoje não estão habilitadas contarão com o apoio do Ministério para obter a autorização para exportar a este mercado.

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Por: Giovanni Lorenzon
Fonte: Reuters/Notícias Agrícolas

1 comentário

  • Alexandre Carvalho Venda Nova do Imigrante - ES

    O bom investidor jamais deposita todos os seus ovos numa mesma cesta. Bolsonaro está seguindo a cartilha do bom investidor: deixando de lado as negociações de viés ideológico, para negociar com o Mundo todo. E é assim que deve ser. Se a Arábia Saudita deixar de comprar nossos frangos, o impacto será infinitamente menor, não implicando em fechamento de Unidades de Abate e nem em perda de postos de emprego. Assim funciona um país democrático e capitalista.

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    • DEOCLECIANO PENTELLOGOIÂNIA - GO

      O comércio com os árabes nunca foi ideológico, sempre foi negócio, mas embaixada em Jerusalém aí sim, é ideológico, qual o potencial de mercado com Israel?

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    • ALEXANDRE CARVALHOVENDA NOVA DO IMIGRANTE - ES

      O suficiente, Sr. Deocleciano, para fazê-los enviar - sem custo algum para o Brasil - 130 militares especializados mais 16 toneladas de equipamentos de última geração, para ajudar-nos no resgate das vítimas de Brumadinho, ao contrário dos Árabes que nada fizeram - até o momento - para ajudar. Ah! Antes que eu me esqueça, Israel transferirá - mais uma vez sem custos para o Brasil - a tecnologia para dessanilização da água salobra de poços. E seus árabes, Sr. Deocleciano? Além de dinheiro da compra dos frangos (com milhares de exigências, inclusive que a pessoa responsável pelo abate dos frangos seja um muçulmano), o que mais os Árabes têm feito por nós?

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    • DEOCLECIANO PENTELLOGOIÂNIA - GO

      Sr. Alexandre, na sua linha de raciocínio, prefiro os milhares de cubanos que até na África vão tratar doentes de Ebola, tem que ser muito macho pra isso. Pior serão os milhares de brasileiros ligados a cadeia do frango que perderão com o fim do mercado árabe. Pra mim esse papo de israelenses é pura demagogia, todo o auxilio é bem vindo, mas pelo visto a tecnologia deles não se aplica naquela situação. O programa Água Doce,o senhor conhece? com tecnologia nacional já tira sal da água a tempos por aqui. Quanto aos números, a relação comercial com Israel é pífia em relação a árabe, defender essa atual política externa é muita forçação de barra.

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    • DEOCLECIANO PENTELLOGOIÂNIA - GO

      Sem custos para Israel? Toda tragédia é uma vitrine ao mundo para que alguns demonstrem suas tecnologias e venham a ganhar com isso depois, seja politica ou financeiramente, não sejamos ingênuos.

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