Mercado internacional e logística geram incertezas e colocam setor de proteínas animais em alerta
A quarta-feira foi de debate estratégico para a suinocultura brasileira durante o FNDS Collab 2026, realizado em São Paulo. O encontro, promovido pela Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), reuniu representantes de diferentes elos da cadeia produtiva de suínos para discutir economia, mercado, comportamento do consumidor e os desafios que devem marcar os próximos meses para quem produz proteína animal no país.
Entre os destaques da programação esteve a análise do cenário econômico brasileiro apresentada por Alexandre Mendonça de Barros. O especialista traçou um panorama do momento atual do agronegócio e destacou que, apesar das dificuldades enfrentadas no campo, a economia nacional vive uma fase positiva.
Segundo ele, os indicadores mostram um ambiente interno aquecido. “Nós estamos vivendo um momento muito bom e aqui não tem nenhuma conotação política. As pessoas associam isso a escolhas de partido, mas não é isso, são números”, afirmou.
Economia forte e juros elevados moldam cenário do agro
De acordo com Mendonça de Barros, a economia brasileira atravessa um período de crescimento que influencia diretamente o consumo de alimentos. Por outro lado, esse aquecimento também traz efeitos importantes sobre a política monetária. O Banco Central mantém juros elevados como forma de controlar a inflação. “O Banco Central brasileiro tem que manter uma taxa de juros muito alta porque o mercado interno aquecido é sempre uma tensão com a inflação”, explicou.
Atualmente, a taxa gira em torno de 15% ao ano. Esse nível elevado de juros influencia diretamente a formação de preços no agronegócio e impacta a competitividade do produtor.
Câmbio e grãos pressionam margens no campo
Outro ponto abordado foi o impacto do câmbio sobre os preços agrícolas. Segundo o economista, os juros altos acabam atraindo capital estrangeiro, o que fortalece a moeda brasileira frente ao dólar. “O real se fortaleceu nos últimos meses em parte porque o dólar se enfraqueceu por problemas americanos, mas também porque juros altos atraem dólares e mantêm o real mais forte”, afirmou.
Na prática, isso interfere diretamente na precificação de commodities como milho e soja, insumos fundamentais para a produção de proteína animal. “Se eu estou olhando para a formação de preços de milho e soja, estou abaixando o preço em reais e segurando a elevação de preços por causa da taxa de câmbio”, explicou.
Para o primeiro semestre, a tendência é de pouca variação nos preços. Já para a segunda metade do ano, o cenário pode mudar dependendo do ambiente político e econômico. “Primeiro semestre não sai muito de onde está. No segundo semestre, dependendo de quem liderar as eleições, podemos ter um enfraquecimento do real”, disse.
Crédito rural menor e pressão sobre tecnologia
Um dos alertas feitos durante a apresentação foi a redução significativa na oferta de crédito rural. Mendonça de Barros afirmou que o setor enfrenta atualmente uma das maiores retrações de financiamento que ele já observou. “Nós estamos com o maior corte de crédito que eu já vivi. Se eu pegar os dados do crédito rural, no terceiro trimestre a posição de crédito caiu 30%”, relatou.
Esse cenário pressiona diretamente o produtor, especialmente em anos de margens apertadas. Segundo ele, muitos agricultores estão sendo obrigados a vender parte da produção apenas para fazer caixa e garantir o próximo plantio. “Vamos ter uma boa safra na minha probabilidade, mas o produtor vai ter que vender milho e vender soja para fazer caixa para plantar”, explicou.
Com menos capital disponível, o risco é de queda no nível tecnológico das lavouras. “A experiência mostra que, à medida que o produtor vai se descapitalizando, ele vai baixando a tecnologia dele”, afirmou.
Mercado internacional e logística geram incertezas
O economista também chamou atenção para um cenário internacional mais instável. Conflitos e tensões globais podem gerar dificuldades logísticas e afetar as exportações de carne brasileira. Segundo ele, já existem sinais de problemas no transporte marítimo. “Nós vamos ter um curto prazo nervoso, bem nervoso, porque vamos ter dificuldade de embarques de carnes no Brasil”, alertou.
Os impactos já começam a aparecer nos custos de transporte. “Os fretes começaram a bagunçar”, disse.
Caso as dificuldades persistam, pode haver pressão sobre os preços internos da proteína animal. “Pode ser que não consiga embarcar e isso pressione os preços da carne”, explicou.
Clima também entra na conta do produtor
Além da economia e da logística, o clima aparece como outro fator de risco para o setor agrícola. Alexandre Mendonça de Barros destacou a possibilidade de ocorrência do fenômeno El Niño nos próximos meses. Se o fenômeno se confirmar, algumas regiões do país podem ser beneficiadas, enquanto outras podem enfrentar dificuldades. “Os nossos colegas do Sul são beneficiados, tende a chover mais do que a média”, afirmou.
Por outro lado, áreas do Nordeste e do Matopiba podem sofrer com menor volume de chuvas. “Tocantins, Bahia, Piauí e norte de Goiás tendem a chover menos do que a média histórica”.
Ele também lembrou que o clima pode afetar a safra norte-americana. “Se o El Niño estiver instalado em junho, a fase de enchimento de grãos americanos deve sofrer”, disse, ressaltando que se trata de um risco e não de uma previsão definitiva.
Consumo de alimentos passa por transformação
Outro destaque do FNDS Collab 2026 foi a palestra de Michel Alcoforado, que abordou as mudanças no comportamento do consumidor. O especialista analisou como a cultura influencia diretamente nas escolhas alimentares.
Para o antropólogo, a forma como as pessoas enxergam a alimentação mudou profundamente nos últimos anos. “O avanço da produção, distribuição e venda de alimentos não vai conseguir seguir se não estiver conectado com a cultura”, observou.
O especialista comentou ainda que a cultura funciona como uma lente por meio da qual as pessoas interpretam o mundo. "Esse processo tem impacto direto nos alimentos que chegam à mesa do consumidor e também na forma como ele avalia os produtos".
Consumidor mais exigente desafia cadeia produtiva
Alcoforado destacou que o consumidor atual é mais informado e tem muito mais opções de escolha. Esse cenário torna a decisão de compra mais complexa.
Diante disso, as pessoas passaram a avaliar com mais cuidado os atributos dos produtos. “O consumidor ficou mais pragmático e parar para pensar quais são os atributos e benefícios que aquela escolha vai trazer”, explicou.
Para o produtor e para a indústria, isso representa uma mudança importante. Não basta mais oferecer apenas qualidade. É preciso comunicar melhor o produto e o processo de produção.
Informação e marca ganham espaço na escolha
Outro fator que mudou o comportamento de compra foi o acesso à informação. A internet ampliou o conhecimento do consumidor sobre alimentos e produção. “Ele tem um repertório gigante porque a internet ampliou o repertório de forma absurda”, disse.
Com isso, o consumidor passa a questionar e comparar produtos antes de decidir o que levar para casa. Para Alcoforado, esse cenário exige que empresas e produtores construam identidade e diferenciação. “Se você não inventa uma marca, você não consegue um lugar de escolha nesse hall final”, afirmou.
Segundo ele, produtos que antes eram vistos apenas como commodities agora disputam atenção dentro de um ambiente muito mais competitivo.
Produto precisa gerar conversa e relevância
Na avaliação do especialista, os alimentos precisam hoje ter um papel mais amplo na relação com o consumidor. Não basta apenas satisfazer o paladar. “As marcas e os produtos precisam ter um diferencial claro”, afirmou.
Em muitos casos, a escolha também está ligada à experiência social gerada pelo produto. “Você compra o produto não só porque gosta dele, mas pela possibilidade de falar sobre ele”, afirmou.
Esse movimento, segundo ele, redefine a forma como toda a cadeia produtiva precisa pensar o mercado.