Biosseguridade bem feita: onde as granjas ainda estão falhando?

Publicado em 30/03/2026 09:42
Especialista alerta que erros básicos continuam abrindo portas para doenças e prejuízos na produção animal.

O avanço da produção animal no Brasil trouxe ganhos expressivos em eficiência, mas também elevou o nível de exigência sanitária nas propriedades rurais. Em um cenário global cada vez mais atento à segurança dos alimentos, a biosseguridade deixou de ser diferencial e passou a ser condição básica para permanecer no mercado. Ainda assim, falhas simples continuam sendo recorrentes nas granjas brasileiras.

Durante palestra sobre o tema, o médico veterinário e Consultor de Sanidade e Biosseguridade, Dr. Paulo Roberto Rafi, destacou que o conceito não é novo, mas segue sendo mal executado no campo. “O tema biosseguridade é um tema extremamente importante, vem ganhando relevância no mundo inteiro”, afirmou o especialista, ao ressaltar o crescimento da atenção global sobre o assunto.

Com 33 anos de experiência na produção animal, ele reforça que não existem soluções milagrosas. “Não existe nada milagroso, mas é a questão de o que eu faço e como eu olho tempos e movimentos e fluxo dentro da cadeia”, explicou, destacando que o sucesso depende da disciplina na rotina.

Falhas simples que geram grandes riscos

Um dos principais problemas observados nas granjas é o controle inadequado de acesso. Entradas e saídas de pessoas, veículos e materiais muitas vezes não são registradas corretamente. “Essas situações comprometem a rastreabilidade e isso pode se tornar crítico em momentos de crise sanitária”, alerta.

“Se tiver uma suspeita, a primeira coisa que o Serviço Veterinário Oficial vai pedir é a rastreabilidade dos fluxos”, reforçou o especialista, destacando a importância de registros bem feitos e organizados.

Outro ponto crítico é a falta de higienização de veículos e equipamentos. “Em muitas propriedades, a limpeza deixa de ser realizada por economia ou descuido. Às vezes por economia, não lava, não desinfeta, e isso assusta bastante”, afirmou.

Estrutura existe, mas o manejo falha

Apesar de muitas granjas apresentarem boa estrutura, o manejo inadequado compromete o sistema. “Telas rasgadas, portões abertos e falhas de vedação são problemas frequentes. Esses detalhes facilitam a entrada de aves silvestres e aumentam o risco sanitário”, explica.

O especialista chama atenção para a normalização do erro no dia a dia. “Eu me acostumo com o problema e depois fico remediando”, afirmou, ao explicar que a falta de correção imediata agrava os riscos.

Outro exemplo recorrente é a presença de aves dentro dos galpões. “Passarinho dentro, junto com as aves, e se considera isso normal”, destacou. Para o médico veterinário,   falhas simples podem comprometer todo o sistema produtivo.

Comportamento humano é o maior desafio

Além da estrutura, o comportamento das pessoas é um dos maiores desafios da biosseguridade. “Hábitos fora da granja podem representar risco direto para a produção, especialmente quando não há orientação adequada”.

O especialista reforça a importância da gestão e do controle contínuo. “Se eu não meço, eu não gerencio. Eu não sei se eu estou bom ou se eu estou ruim”, afirmou.

A falta de treinamento também contribui para os erros. Muitas equipes não recebem capacitação suficiente, o que compromete a execução das práticas básicas. “Hoje não se comporta dentro da produção se eu não tiver mensuração”, reforçou.

Planejamento e gestão reduzem riscos

A adoção de ferramentas de gestão pode transformar a biosseguridade dentro das granjas. Checklists, análises de risco e classificação das propriedades ajudam a identificar falhas e priorizar ações.

O especialista destaca que existem caminhos simples para começar. “Eu posso começar por planilhas de avaliação de risco e ver quais são os graus de risco dentro da propriedade”, orientou.

Além disso, o uso de tecnologia pode acelerar esse processo. Sistemas automatizados permitem maior controle e organização das informações, contribuindo para decisões mais assertivas.

Investir antes do problema custa menos

Um dos principais pontos levantados pelo especialista é o custo das falhas. Muitos produtores ainda enxergam a biosseguridade como despesa, quando na verdade se trata de proteção do negócio.

“Quanto significou o surto? Quanto eu poderia ter investido para não ficar remediando depois?”, questionou Dr. Paulo Roberto, ao destacar o impacto econômico das doenças.

Ele também reforça que a biosseguridade precisa ser parte da rotina. “Eu tenho que medir o nível de biosseguridade de cada granja”, afirmou, ressaltando a importância da gestão contínua.

O básico ainda faz a diferença

Mesmo com avanços tecnológicos, o especialista reforça que o básico continua sendo essencial. Ações simples, quando bem executadas, têm grande impacto na prevenção de doenças.

A biosseguridade eficiente exige disciplina, organização e atenção aos detalhes. Em um setor cada vez mais competitivo, cumprir bem os fundamentos pode ser o diferencial entre prejuízo e rentabilidade. Mais do que uma prática, trata-se de prevenção: quanto mais rigorosos forem os cuidados com acesso, higienização e manejo, menores serão os riscos sanitários e maiores as chances de uma produção saudável e lucrativa.

Passo a passo de biosseguridade na avicultura

1. Controle de acesso à granja

Instale cerca ao redor (mínimo 1 metro de altura)

Mantenha portões fechados

Só permita entrada de pessoas autorizadas

 Objetivo: evitar entrada de pessoas e animais que possam trazer doenças.

2. Crie uma barreira sanitária na entrada

Tenha um vestiário/escritório na entrada

Troque roupas e calçados antes de entrar

Use pédilúvio (recipiente com desinfetante para os pés)

Objetivo: impedir que doenças entrem “carregadas” pelas pessoas.

3. Proteja o aviário contra aves e contaminantes

Instale telas anti-pássaros (malha até 2,54 cm)

Utilize cortina vegetal ao redor

Objetivo: evitar contato com aves externas e contaminação pelo ar.

4. Desinfete veículos

Utilize arco de desinfecção na entrada

Higienize caminhões (ração, transporte de aves)

Objetivo: bloquear a entrada de vírus e bactérias vindos de outras granjas.

6. Destine corretamente aves mortas

Utilize composteira

 Objetivo: evitar contaminação do ambiente e disseminação de doenças.

7. Faça o manejo correto dos resíduos

Separe o lixo: Reciclável -  Orgânico - Não reciclável - Use lixeiras adequadas

Objetivo: manter a granja limpa e organizada.

8. Sinalize a propriedade

Coloque placas de advertência

 Objetivo: deixar claro que a entrada é controlada.

9. Mantenha organização e limpeza (Programa 5S)

Utilize: Organização/ Limpeza/ Higiene Disciplina

Objetivo: melhorar a sanidade e o bem-estar no trabalho.

10. Capriche no manejo das aves

Siga boas práticas de produção

Garanta alimentação, ambiência e cuidados corretos

Objetivo: fortalecer a imunidade das aves.

Informações: Embrapa: https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/444151/tecnologias-que-promovem-a-biosseguridade-na-producao-avicola

Por: Michelle Jardim
Fonte: Notícias Agrícolas

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