Suinocultura paulista avança em eficiência e tecnologia durante evento técnico em Campinas

Publicado em 31/03/2026 06:39 e atualizado em 31/03/2026 07:27
Encontro da APCS destaca desafios produtivos, evolução genética e novas estratégias nutricionais para reduzir custos no campo.

A busca por maior eficiência produtiva e redução de custos marcou o debate técnico realizado na última sexta-feira (27), em Campinas (SP). Em um cenário de margens cada vez mais apertadas, produtores paulistas têm priorizado estratégias que aumentem o desempenho dos animais sem ampliar o plantel, focando principalmente em nutrição de precisão e melhoramento genético.

Dados discutidos durante o evento que tinha o tema: “Conexão Tecnológica” indicam que a evolução genética dos suínos elevou significativamente o potencial produtivo, o que exigiu mudanças rápidas na forma como os animais são manejados e alimentados. Esse novo perfil produtivo traz desafios diários ao produtor, especialmente na adequação das dietas e no controle de indicadores zootécnicos dentro das granjas.

Nesse contexto, o Encontro reuniu especialistas, técnicos e produtores para discutir soluções práticas. A programação abordou temas como eficiência alimentar, comportamento produtivo e uso de tecnologias, reforçando que a competitividade da suinocultura depende cada vez mais de decisões baseadas em dados.

Nutrição e genética puxam a eficiência no campo

Um dos pontos centrais do encontro foi a relação direta entre genética e nutrição. O avanço no melhoramento genético elevou o teto produtivo dos animais, mas também aumentou a exigência por dietas mais ajustadas à realidade de cada fase produtiva.

Rodrigo Lima, especialista em nutrição global Topigs Norsvin, destacou que a evolução genética impõe um novo ritmo ao setor. “Na realidade, quem traz essa bagagem para a gente é o potencial genético do animal. Como mostramos durante a apresentação, esses animais vêm trazendo esse potencial, a seleção genética vem melhorando e a nutrição tem que acompanhar isso”, observou.

Segundo ele, um dos principais gargalos ainda está na falta de atualização das dietas. “Observamos que a cada ano a gente tem melhoria nesse potencial. E dentro dessa melhoria, a gente precisa fazer esses ajustes nutricionais também. Às vezes, os produtores ficam com a mesma dieta durante dois, três, quatro anos. Se conseguirmos fazer esses ajustes, seja em consumo de ração ou em concentração de dieta nutricional, conseguiremos alcançar esse desempenho melhorado”, afirmou.

Além do desempenho, a nutrição também influencia diretamente a qualidade da carne. “a qualidade da carne vai depender do animal e do que a gente oferece para esse animal. e muitos desses pontos dependem da gestação, do que a gente fornece para ele. esses nutrientes são importantes para chegar na qualidade da carne que  a gente deseja. A quantidade de lisina que a gente coloca para deposição dos diferentes tecidos, a energia nos períodos corretos também, a idade de abate também, tudo isso vai influenciar na qualidade da carne”, completa.

Melhoramento genético exige ajustes no manejo

A evolução genética também foi destaque nas discussões conduzidas por especialistas. A médica veterinária e  consultora e instrutora Atualtech Djane Dallanora reforçou que o ganho produtivo começa no material genético, mas depende diretamente do manejo dentro da granja.

“O melhoramento genético é quem traz exatamente a melhoria, né? Então, o melhoramento genético traz um teto de evolução e, a partir deste teto, nós começamos a oferecer manejos para esses animais para que eles consigam atingi-lo. Então, a nossa grande discussão aqui foi se diante de uma fêmea com um potencial tão grande, com uma suinocultura que evoluiu tanto nesses índices de produtividade e eficiência de produção, o que nós precisamos fazer do ponto de vista de manejo de dentro das granjas para trabalhar com esse animal que traz essa evolução, reforça”

Ela destacou ainda que o foco em eficiência, sem aumento do número de matrizes, é um caminho mais seguro para o produtor. “Essa é uma mentalidade bastante madura do ponto de vista de uma suinocultura independente. Ou seja, você se torna mais eficiente antes de crescer, é dar o passo de uma forma segura, é aproveitar as oportunidades que existem dentro do sistema de produção. A gente entende que existem realmente oportunidades de aumentar a rentabilidade e melhorar a produtividade dentro do sistema que nós temos fazendo ajustes”, explicou.

Outro ponto essencial é o bem-estar animal, diretamente ligado ao desempenho produtivo. “Todas as vezes que você cria suínos nas melhores condições para eles, esses animais nos devolvem em desempenho. Há uma ligação muito forte entre o bem-estar animal e essa produtividade. Então, quando trabalhamos com fatores de ambiência, de alojamento, de espaço por animal, de fornecimento de água, de fazer os ajustes nutricionais que são necessários para um animal de tanto potencial, tudo isso caminha junto. O entendimento de ofertar a melhor condição, vem junto com o melhoramento. São duas áreas que trabalham juntas e que estão completamente correlacionadas”, disse.

Nutrição de precisão reduz custos e desperdícios

Outro tema que ganhou destaque foi a nutrição de precisão, considerada uma das principais ferramentas para reduzir custos e aumentar a eficiência dentro das granjas. Bruno Silva, professor e pesquisador da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), explicou que o conceito se baseia em fornecer exatamente o que o animal precisa diariamente.

“Durante a palestra a gente discutiu os principais aspectos associados com as mudanças no perfil produtivo das fêmeas. A ideia foi mostrar o quanto a evolução genética impacta a exigência dos animais atuais, que são mais produtivos, têm uma dinâmica corporal diferente. Além disso, também chamamos a atenção para pontos fundamentais associados com fisiologia e metabolismo”, completou. 

O especialista alertou ainda que muitos produtores utilizam práticas antigas para animais mais exigentes. “A gente está abordando os principais aspectos associados com isso, mas também o entendimento do que a gente precisa adequar para atender essas exigências. Muitos produtores seguem fazendo a mesma coisa há 20, 25 anos”, comentou. 

A nutrição de precisão surge como solução para esse descompasso. “O conceito de eficiência de nutrição de precisão consiste basicamente em você entregar para o animal, na base diária, os nutrientes que ele precisa. [...] Então a nutrição de precisão, ela implica na adoção de técnicas que entregam as exigências diárias dos animais, o que o animal precisa de forma pontual, o que permite, muitas vezes, reduzir o custo com desperdício”, explicou.

Os resultados práticos já mostram ganhos econômicos e ambientais. “Por exemplo, os nossos trabalhos de gestação a gente evidenciou reduções na ingestão de proteína da ordem de 14%. Uma redução na excreção de nitrogênio, de fósforo, que isso tem um impacto muito positivo do ponto de vista ambiental, da ordem de 10% e uma redução de 3% no custo de alimentação. E já na maternidade a gente conseguiu reduzir até 11% o custo do quilo do leitão produzido”, afirmou. 

integração do setor fortalece a suinocultura paulista

Além dos debates técnicos, o evento também celebrou os 59 anos da Associação Paulista de Criadores de Suínos (APCS), reforçando o papel da entidade na organização do setor. O encontro reuniu diferentes elos da cadeia produtiva, promovendo troca de experiências e alinhamento estratégico.

A integração entre produtores, técnicos e empresas foi apontada como essencial para enfrentar os desafios atuais. Em um cenário de custos elevados e exigências crescentes, a união do setor aparece como fator decisivo para manter a competitividade da atividade.

 

Por: Michelle Jardim
Fonte: Notícias Agrícolas

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