Compostagem de carcaças ganha força como solução prática e segura nas granjas brasileiras

Publicado em 14/04/2026 10:48
Tecnologia desenvolvida pela Embrapa reduz riscos sanitários, corta custos e facilita o manejo de resíduos nas propriedades rurais.

O jornalista Lucas Scherer, da Embrapa, apresentou uma solução para um dos principais desafios enfrentados por produtores rurais: o destino correto das carcaças de animais que morrem nas granjas. O tema foi discutido no Podcast Prosa Rural  com especialistas, que explicaram como a compostagem em leiras pode ser uma alternativa eficiente, econômica e segura. 

A iniciativa ganha relevância diante do tamanho do rebanho brasileiro e do volume expressivo de resíduos gerados anualmente. A proposta busca orientar produtores de suínos, aves e bovinos sobre práticas adequadas, com foco em sanidade, meio ambiente e viabilidade no campo.

Segundo a Embrapa, o Brasil é um dos maiores produtores de proteína animal do mundo, com um rebanho que ultrapassa 50 milhões de suínos, 230 milhões de bovinos e mais de 1,5 bilhão de aves. Esse cenário, embora positivo para a produção, traz um desafio importante dentro das propriedades: o manejo das carcaças de animais que não chegam ao abate. A estimativa é de que mais de 1,2 milhão de toneladas desse material sejam geradas todos os anos nas granjas brasileiras.

Esse volume exige soluções eficientes, pois o descarte inadequado pode causar sérios problemas. Além do mau cheiro, as carcaças em decomposição liberam gases e substâncias poluentes, que impactam o meio ambiente. Outro ponto crítico é o risco sanitário, já que esses resíduos podem favorecer a proliferação de microrganismos que colocam em risco outros animais e até a saúde pública.

Por que o manejo correto das carcaças é essencial

O analista de transferência de tecnologia da Embrapa, Evandro Barros, destacou durante a entrevista que o manejo inadequado das carcaças representa um risco significativo dentro das propriedades. “Essa estimativa elevada de carcaças de animais mortos é um problema sério, porque esses resíduos em putrefação geram gases e elementos potencialmente poluidores, além de odores desagradáveis”, explicou. Segundo ele, o impacto vai além do ambiente.

Evandro reforçou que o principal risco está na disseminação de doenças. “Eles são matéria para proliferação de microrganismos patogênicos que podem contaminar outros rebanhos”, afirmou. Diante disso, o especialista destacou a necessidade de medidas adequadas. “Portanto, é imprescindível a adoção de práticas seguras para mitigar os riscos ao meio ambiente, à sanidade dos rebanhos e à saúde pública”, completou.

Historicamente, a compostagem em estruturas fechadas tem sido a principal alternativa utilizada pelos produtores. No entanto, esse modelo apresenta limitações práticas. “Esse sistema, apesar de eficiente, exige investimento na construção e manutenção das células, além de maior uso de mão de obra”, destacou Evandro. Em alguns casos, também é necessário o esquartejamento de animais maiores, o que dificulta ainda mais a operação.

Tecnologia de leiras facilita a rotina nas propriedades

Com o avanço das pesquisas, a Embrapa passou a desenvolver alternativas mais acessíveis ao produtor. A compostagem de carcaças inteiras em leiras surge como uma dessas soluções. “Estamos falando da compostagem de carcaças de animais inteiros, uma tecnologia adaptada que já demonstrou eficiência no controle de diversos patógenos”, explicou Barros.

Segundo o especialista, a principal vantagem está na simplicidade do sistema. “Ele é vantajoso por demandar baixo custo de instalação e reduzida mão de obra na montagem das leiras e na condução do processo”, afirmou. A proposta busca atender especialmente propriedades com maior escala de produção e menor disponibilidade de trabalhadores.

Outro ponto importante é o funcionamento do processo. “A compostagem é um processo aeróbico, ou seja, dependente de oxigênio, e possui duas fases principais”, detalhou. Ele explica que a fase termofílica é responsável pela rápida decomposição dos tecidos, enquanto a fase de maturação garante a estabilização do material.

A temperatura tem papel central na eficiência da técnica. “A temperatura mínima aceitável para rápida sanitização é de 50°C, mantida por cerca de 30 dias”, destacou. Nos estudos realizados, os resultados foram positivos. “A temperatura interna da leira se manteve acima de 50°C durante todo o período, chegando a 68°C, o que indica alto potencial de sanitização”, completou.

Como montar e manejar as leiras na prática

Na parte prática, o técnico da Embrapa, Paulo Balde, explicou como o produtor pode aplicar a tecnologia na propriedade. “As leiras são montadas diretamente sobre o solo, em formato semicircular e a céu aberto, mas o local deve ser elevado e distante de corpos hídricos”, orientou. Ele também destacou a importância do cercamento da área.

A escolha do material também é fundamental para o sucesso da compostagem. “Utilizamos um substrato poroso como fonte de carbono, geralmente uma mistura de 70% de serragem e 30% de maravalha”, explicou. Essa combinação ajuda na absorção de líquidos e no equilíbrio do processo.

Um diferencial importante da técnica é a dispensa de cortes nas carcaças. “Não é necessário esquartejamento ou trituração. Os animais são dispostos inteiros”, afirmou Paulo Balde. O único preparo indicado é simples. “É feita uma perfuração na região do abdômen para permitir a saída dos gases e evitar o inchaço do cadáver”, completou.

Após cerca de 65 dias, os resultados já podem ser observados. “Todos os tecidos moles são decompostos, restando apenas ossos maiores, parcialmente degradados”, explicou. O material final apresenta características adequadas para reaproveitamento.

Destino do composto e cuidados finais

O composto gerado pode ser utilizado de diferentes formas dentro da propriedade. “Ele pode ser reutilizado na montagem de novas leiras ou utilizado como fertilizante na agricultura após o período de maturação”, destacou Paulo Balde. Esse período adicional deve durar pelo menos 30 dias.

Apesar da simplicidade da técnica, alguns cuidados são essenciais. “O local deve ser bem escolhido, evitando áreas com acúmulo de água e mantendo distância de nascentes e córregos”, alertou. Outro ponto importante é a proteção da área.

Segundo o técnico, o cercamento é indispensável. “É crucial proteger a área com cerca de tela, com altura superior a 1,5 metro, para evitar a entrada de animais”, explicou. Isso impede que carcaças sejam expostas durante o processo.

A tecnologia reforça o papel da pesquisa na solução de problemas do campo. Ao transformar um passivo em recurso, a compostagem contribui para a sustentabilidade e eficiência das propriedades. Para o produtor, representa uma alternativa prática, segura e economicamente viável.

Com orientação adequada, o manejo de carcaças deixa de ser um problema e passa a integrar o sistema produtivo. A recomendação é buscar informações técnicas e adaptar a tecnologia à realidade de cada propriedade, garantindo melhores resultados no dia a dia.

 

Por: Michelle Jardim
Fonte: Notícias Agrícolas

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