Dor em reprodutores impacta desempenho e bem-estar de frangos de corte

Publicado em 28/04/2026 11:29 e atualizado em 28/04/2026 12:04
Estudo mostra que problemas de locomoção em galos e galinhas afetam diretamente o desenvolvimento da prole e acendem alerta na produção.

Pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP identificaram que dores locomotoras em galos e galinhas reprodutores podem comprometer o desenvolvimento e o bem-estar dos frangos de corte, em estudo realizado em granjas comerciais no Brasil e divulgado recentemente em revista científica internacional. A investigação analisou como a claudicação — dificuldade de locomoção associada à dor — influencia a sensibilidade dos pintinhos e seu desempenho ao longo do ciclo produtivo. O trabalho chama atenção do setor produtivo porque revela impactos diretos na produtividade e na saúde das aves, tema cada vez mais relevante para sistemas intensivos.

De acordo com o professor Adroaldo José Zanella, responsável pela orientação do estudo, o objetivo foi entender como condições de dor nos reprodutores afetam as crias destinadas à produção de carne. A pesquisa foi conduzida pelo médico-veterinário Marco Aurélio Pereira de Almeida, que acompanhou diferentes grupos de aves em condições reais de produção. Os resultados indicam que o problema pode ir além do indivíduo afetado, atingindo também as próximas gerações.

Na prática, isso significa que a qualidade do plantel reprodutor tem impacto direto no desempenho do lote seguinte. Segundo os pesquisadores, quando há dor persistente nos pais, especialmente nas fêmeas, ocorre alteração na forma como os frangos percebem estímulos dolorosos. Esse fator pode comprometer tanto o bem-estar quanto a capacidade de reação das aves diante de desafios no ambiente produtivo.

Como a dor interfere no desenvolvimento das aves

O estudo avaliou a chamada nocicepção, que é a capacidade do organismo de perceber estímulos que podem causar dor. Esse mecanismo é essencial para a sobrevivência, pois permite que o animal reaja rapidamente a situações de risco. Segundo Zanella, alterações nessa resposta indicam desequilíbrios importantes no organismo.

Durante os testes, os frangos foram submetidos a um estímulo controlado de pressão nas pernas, sem causar lesões, para medir o limiar de resposta à dor. Esse processo permite entender o quanto o animal é sensível ao estímulo e como seu sistema nervoso reage. A análise envolveu desde receptores periféricos até áreas do cérebro responsáveis pela interpretação da dor.

Os resultados mostraram que aves descendentes de reprodutores com problemas locomotores apresentaram menor sensibilidade aos estímulos. Para os pesquisadores, isso pode indicar que esses animais já convivem com dor de forma constante e acabam não reagindo adequadamente. Esse cenário é preocupante porque pode mascarar problemas de saúde dentro do plantel.

Impactos diretos na produtividade e no manejo

Outro ponto relevante observado na pesquisa foi a relação entre baixa sensibilidade à dor e aumento de problemas sanitários. Segundo Zanella, aves com respostas alteradas tendem a apresentar maior índice de adoecimento e menor expectativa de vida. Isso impacta diretamente os resultados da produção, principalmente em sistemas que trabalham com margens ajustadas.

Os dados também mostraram que cerca de 3% das aves avaliadas apresentaram incapacidade severa de locomoção. Embora pareça um número pequeno, ele é significativo dentro de um sistema produtivo que já lida com limites de mortalidade. Esse índice representa não apenas perdas econômicas, mas também um desafio importante em termos de bem-estar animal.

Além disso, o estudo identificou diferenças entre machos e fêmeas. Os machos apresentaram menor sensibilidade à dor, especialmente em uma das pernas, o que reforça a necessidade de atenção específica dentro do manejo. Esse tipo de informação pode ajudar o produtor a ajustar estratégias e melhorar os resultados no campo.

Manejo do plantel reprodutor ganha protagonismo

A pesquisa reforça que o cuidado com os reprodutores deve ser visto como prioridade dentro da cadeia produtiva. Segundo Marco Aurélio de Almeida, o estudo foi dividido em três etapas, começando pela avaliação dos reprodutores em granjas comerciais. As aves foram classificadas de acordo com sua condição locomotora e organizadas em diferentes grupos de acasalamento.

Na sequência, os ovos e pintinhos foram identificados conforme a condição dos pais, permitindo o acompanhamento desde o início do desenvolvimento. Já na fase final, os frangos foram avaliados na fase adulta, considerando tanto a locomoção quanto a resposta à dor. Esse acompanhamento completo permitiu identificar claramente os impactos ao longo do ciclo.

Para o pesquisador, os resultados mostram que fatores genéticos e ambientais atuam juntos na formação dessas características. Além disso, há indícios de efeitos que podem se estender entre gerações, o que amplia a importância do manejo adequado. Em sistemas intensivos, pequenos ajustes podem representar ganhos expressivos no resultado final.

Bem-estar animal como estratégia de produção

Os achados também reforçam uma tendência cada vez mais presente na pecuária e na avicultura: a integração entre produtividade e bem-estar animal. Segundo Almeida, o crescimento da demanda por proteína animal exige sistemas mais eficientes, mas também mais responsáveis. Nesse contexto, entender e reduzir fatores de dor se torna essencial.

Zanella destaca que a percepção de dor está diretamente ligada ao equilíbrio do organismo, influenciando parâmetros importantes como metabolismo e resposta a doenças. Quando esse sistema não funciona corretamente, o animal perde capacidade de adaptação, o que compromete sua sobrevivência e desempenho.

Outro ponto importante é que o método utilizado no estudo pode ser aplicado como ferramenta prática no campo. A avaliação do limiar de dor é relativamente simples e pode ajudar no monitoramento do bem-estar dos lotes. Isso abre espaço para novas estratégias de manejo e até programas de melhoramento genético voltados à sanidade das aves.

O que o produtor deve observar no dia a dia
Para o produtor, a principal mensagem do estudo é clara: problemas de locomoção não podem ser ignorados dentro da granja. A presença de aves mancando, com dificuldade de andar ou comportamento alterado deve ser vista como um sinal de alerta. Esses fatores podem indicar dor e gerar impactos que vão além do lote atual.

Investir em boas condições de manejo, nutrição equilibrada e ambiência adequada é fundamental para reduzir esses problemas. Além disso, o acompanhamento frequente do plantel reprodutor pode evitar que falhas se perpetuem ao longo das gerações. A atenção aos detalhes faz diferença no resultado final.

Com a produção de frangos em constante crescimento, a tendência é que o tema ganhe ainda mais relevância nos próximos anos. Integrar eficiência produtiva com cuidado animal não é mais uma opção, mas uma necessidade. E, como mostra o estudo, isso começa na base: com a qualidade e o bem-estar dos reprodutores.

Com informações do Jornal da USP 

Por: Michelle Jardim
Fonte: Noticias Agrícolas

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Peste Suína Africana avança em javalis na Catalunha e amplia zona de vigilância sanitária
Mercado global de suínos enfrenta pressão com custos crescentes
Cidade catarinense tem 75 porcos por habitante e vira símbolo da força do agro
FAO alerta para aumento do risco de gripe aviária na América Latina e reforça detecção precoce
Dor em reprodutores impacta desempenho e bem-estar de frangos de corte
A Nova Korin: Dobrar a Produção de Frangos e Crescer nos Bioinsumos até 2030