Arroz: Tendência de alta desacelera no final da safra, mas cenário se mantém com preços firmes

Publicado em 29/05/2014 12:37 348 exibições
Irga confirma safra abaixo de 8,15 milhões de toneladas no RS, exportações de casca seguem a todo o vapor e a indústria pede definição do Preço de Liberação de Estoques (PLE) da Conab, com vistas à realização de leilões de oferta

O mercado de arroz do Sul do Brasil teve duas semanas bastante movimentadas do ponto de vista político setorial. A Feira Nacional do Arroz (Fenarroz 2014) em Cachoeira do Sul alcançou resultado de comercialização de R$ 280 milhões e ganhou definitivamente um perfil mais profissional como pediam expositores e cadeia produtiva. Em sua programação, muitas discussões técnicas e políticas. Numa delas, a indústria decidiu cobrar do governo federal a definição do Preço de Liberação de Estoques (PLE), com vistas à realização de leilões de oferta dos estoques reguladores. O pedido aconteceu na reunião da Câmara Setorial do Arroz, em Brasília (DF) na última terça-feira e já deve ser analisado pelo CIEP em reunião na próxima semana. 

A Conab reconhece que pode realizar leilão de oferta já nos próximos 60 dias, a partir da regulamentação do novo PLE, até porque o preço de mercado do arroz no Sul do Brasil encontra-se muito acima do valor estabelecido no referencial para a safra 2012/13 (R$ 33,28). Porém, isso dependerá do comportamento futuro dos preços do cereal no mercado interno. Dentro do segmento industrial, há uma forte defesa da liberação de leilões somente para beneficiamento e comercialização interna, uma vez que algumas lideranças entendem existir grande dificuldade em equalizar os altos preços pagos ao produtor (na faixa de R$ 37,00 no RS) e os baixos valores aceitos pelos atacadistas e varejistas (entre R$ 43,00 e R$ 49,00). 

Representantes das indústrias, especialmente da Zona Sul gaúcha, também se queixam das exportações de arroz em casca, que somaram mais de 110 mil toneladas nos últimos 50 dias. Entendem que o ideal seria existir um mecanismo para que o produto só fosse exportado depois de beneficiado no Brasil, gerando empregos e renda. Na verdade, a venda da matéria-prima diretamente para indústrias em seus países de destino, faz com que algumas indústrias locais percam a oportunidade de processar o grão. Mas, o mercado que compra do Brasil no momento, especialmente das Américas, está demandando produto em casca e a cadeia produtiva brasileira, principalmente os agricultores, precisam da exportação de 1,2 a 1,4 milhão de toneladas para equalizar os preços internos.

Alguns representantes da indústria chegaram a comentar os dois temas: liberação de estoques e medidas para evitar a exportação do casca e incentivar a do beneficiado na reunião da Câmara Setorial, mas diante do impasse de não haver um PLE autorizado para a safra 2013/14, o assunto “morreu na casca”. Entre os produtores, a posição é de que não há necessidade nem de leilões nem de obrigar à exportação de beneficiado. Os arrozeiros entendem que o fluxo de oferta para o mercado interno é normal, porém sem a alta pressão de oferta da safra que fazia os preços caírem a patamares vergonhosos, e que a venda de arroz em casca para o exterior ajuda a estabilizar as cotações internas. E argumentam que não há risco de desabastecimento, uma vez que a soma da produção, importações e estoques do Brasil é superavitária em comparação com a demanda e as exportações.

Preços

Diante deste cenário, os preços do arroz em casca não tiveram a mesma pressão de alta de março e abril, quando boa parte dos agricultores vendia soja e buscava outros meios de se rentabilizar para evitar uma superoferta do cereal. Comum fluxo ligeiramente maior de oferta, o Indicador de Preços do Arroz em Casca ESALQ/Bolsa Brasileira de Mercadorias-BM&FBovespa para a saca de 50 quilos (58x10), à vista, colocada na indústria gaúcha, acumula valorização de 2,23% em maio, até a última quarta-feira (28/5), alcançando R$ 36,72. Em dólar o preço fica em US$ 16,44, um pouco alto para viabilizar as exportações de beneficiado e com referencial mais atrativo às importações, inclusive da Tailândia.

Em crise, após um golpe militar, e devendo cerca de US$ 1 bilhão aos arrozeiros, o País asiático tem estoques próximos de 10 milhões de toneladas e precisa se desfazer rapidamente para transformá-lo em recursos e quitar sua dívida. Assim sendo, tende a manter preços mais baixos do que o mercado internacional para reaver os mercados que perdeu para a Índia, o Paquistão e o Vietnã, principalmente. Sabe-se que três navios com aproximadamente 60 mil toneladas, no total, já chegaram ao Maranhão com esta origem, para um grande agente de mercado. E há previsão de pelo menos mais duas embarcações no Nordeste. A mesma empresa que cotou preços para o Nordeste, já tem cotação para São Paulo, em valores bem competitivos.

Mercado interno

No mercado livre gaúcho os preços aos produtores variam entre R$ 36,00 e R$ 37,50, dependendo da região e característica do produto. Em Santa Catarina os valores referenciais acompanham o RS de perto, entre R$ 35,00 e R$ 37,00. Já no Mato Grosso, com uma safra acima do esperado e a pressão do arroz paraguaio, os valores ficam entre R$ 30,00 e R$ 34,00 dependendo da região. Sorriso e Sinop, no Nortão do MT, têm média de R$ 32,00 por saca de 60 quilos com 55% acima de inteiros, referencial para variedade Cambará.

Na indústria, grande reclamação para uma empresa de porte médio que vem comprando arroz na faixa de R$ 35,00 a R$ 37,00 no Sul do Brasil e repassando o fardo por até R$ 43,00 em São Paulo, derrubando o mercado para abrir novos pontos de venda. Milagres que a cadeia produtiva já viu outras vezes e que, em geral, duram pouco. Mas, o suficiente para bagunçar todo o sistema de comercialização e permitir que o varejo, bastante concentrado, dite os valores de compra.

Safra
Na última semana o Irga divulgou que 99,7% da safra gaúcha está concluída, com produção até o último dia 23 de maio, alcançando 8,12 milhões de toneladas. Pela projeção dos 4 mil hectares faltantes que devem ser colhidos esta semana, a safra não deve passar de 8,14 milhões de toneladas, especialmente com a queda vertiginosa de produtividade das lavouras colhidas a partir de abril. A média de rendimento por área fica em 7,26 toneladas por hectare, bem abaixo das 7,5 esperadas.

Mercado

A Corretora Mercado, de Porto Alegre, indica preços médios de R$ 36,70 para a saca de arroz de 50 quilos, em casca, FOB/RS (58x10). Já o saco de 60 quilos de arroz branco (beneficiado) tipo 1, é cotado a R$ R$ 73,00 (sem ICMS) e no Rio Grande do Sul. Quirera e canjicão de arroz, em sacas de 60 quilos, valem respectivamente R$ 37,00 e R$ 38,00, com preços estáveis. Também estável é a cotação do farelo de arroz, em R$ 340,00 a tonelada FOB em Arroio do Meio/RS. 

Tendência

A expectativa é de que o mercado se mantenha em leve alta em junho, especialmente pela saída de arroz nos embarques internacionais, o bom momento da soja, a safra abaixo da expectativa, a projeção de que o governo federal não deve intervir com ofertas de arroz dos estoques públicos – de pouco mais de 600 mil toneladas - ainda no próximo mês, e a projeção de um fenômeno climático El Niño de forte impacto no Sul do Brasil, o que geralmente reduz área plantada e produção tanto nos estados brasileiros quanto no Mercosul. O mercado segue alerta para as importações de arroz e a movimentação do governo federal referente aos estoques e o gargalo de exportações com as obras de ampliação do cais do Porto de Rio Grande.

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Planeta Arroz

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