Trigo dispara mais de 6% em Chicago nesta 4ª (26), com tensão no Mar Negro e leva soja e milho junto
Os preços dos grãos dispararam na Bolsa de Chicago nesta quarta-feira (26), com o trigo liderando os ganhos diante do agravamento das tensões entre Rússia e Ucrânia e dos riscos crescentes para o fluxo de exportações pelo Mar Negro. O movimento também alcançou milho e soja, que encontram sustentação tanto na força do trigo quanto na preocupação com a oferta global de commodities agrícolas.
Os futuros do cereal terminaram o dia subindo mais de 6%, com o vencimento dezembro encerrando o dia com US$ 7,48 e o maio, US$ 7,71 por bushel. O milho também renovou máximas de vários anos, fechando este pregão com ganhos de mais de 2%, enquanto a soja registrou avanços de mais de 1,5%. O farelo de soja também sentiu os impactos e terminou os negócios desta quarta-feira subindo mais de 2,5% na CBOT.
"O mercado de grãos ainda não precificou todo o choque logístico na região do Mar Negro", afirmou Eduardo Vanin, Sênior Agriculture Strategist da Marex e analista de mercado da Agrinvest, em entrevista ao Notícias Agrícolas nesta quarta-feira.
O principal gatilho para o trigo é novamente o Mar Negro. Rússia e Ucrânia estão entre os principais fornecedores mundiais de cereais e os ataques recentes contra infraestrutura portuária e instalações ligadas às exportações aumentaram as preocupações sobre a disponibilidade de trigo no mercado internacional.
Segundo informações divulgadas nesta semana, os ataques recíprocos entre os dois países já provocaram paralisações e atrasos nos embarques, justamente em um momento importante da temporada de exportações da região. A falta de avanços concretos nas negociações para um cessar-fogo também mantém elevado o prêmio de risco incorporado às cotações.
De acordo com informações da agência internacional de notícias Bloomberg, a MSC Mediterranean Shipping Co., maior empresa de transporte marítimo de contêineres do mundo, suspendeu imediatamente novas reservas de e para o porto de Novorossiysk, na Rússia, após um de seus navios ter sido atacado por um drone. Mais cedo, as notícias davam conta de que mais infraestruturas da Rússia já teriam sofrido novos ataques, acomentendo, principalmente armazéns e refinarias de petróleo.
Embora o trigo seja o principal beneficiado diretamente pela tensão geopolítica, os efeitos se espalham pelo complexo de grãos e oleaginosas.
Um dos canais de transmissão para a soja está no farelo de girassol. Rússia e Ucrânia são gigantes nesse mercado e, juntas, representam aproximadamente 60% das exportações mundiais do produto. Para a temporada 2026/27, as projeções indicam exportações próximas de 3,30 milhões de toneladas para a Ucrânia e de 2,80 milhões de toneladas para a Rússia, diante de um mercado global estimado em cerca de 10,25 milhões de toneladas.
O problema é que o agravamento dos ataques também atinge a indústria de processamento no sul da Ucrânia. Relatos locais apontam para a interrupção das atividades de plantas de extração de óleo, além de dificuldades para o embarque marítimo de farelo e óleo vegetal.
E é justamente nesse ponto que o mercado de soja passa a sentir os efeitos do conflito.O farelo de girassol é utilizado na alimentação animal e compete diretamente com o farelo de soja. Com uma parcela importante da oferta indisponível ou sujeita a riscos logísticos, compradores, especialmente na Europa, podem buscar alternativas em outros mercados ou aumentar a utilização de farelo de soja nas formulações de ração.
Com isso, o mercado passa a trabalhar com a possibilidade de uma oferta norte-americana menor do que a indicada atualmente pelas projeções oficiais. O cenário é especialmente importante porque uma redução da produção de milho aperta o balanço de oferta e demanda dos Estados Unidos e aumenta a competição por outros ingredientes utilizados na alimentação animal.
Nesse ambiente, o farelo de soja ganha espaço como fonte proteica, enquanto o próprio milho mais caro eleva o custo da ração e modifica a relação de competitividade entre os diferentes componentes utilizados pela indústria.
Assim, o Mar Negro volta a ocupar uma das posições centrais na formação dos preços agrícolas internacionais. Enquanto a guerra mantiver sob risco portos, terminais, plantas de processamento e corredores marítimos da Rússia e da Ucrânia, o mercado deverá continuar incorporando um prêmio de risco aos grãos.
Para a soja, o efeito pode aparecer tanto pela valorização do milho e do trigo quanto pela possível redução da disponibilidade de farelo de girassol, abrindo espaço para maior demanda pelo farelo de soja no mercado internacional.
MILHO COM SUPORTE TAMBÉM NOS FUNDAMENTOS
No milho, além do componente geopolítico, o mercado conta com fundamentos próprios para sustentar a alta. As dúvidas sobre o tamanho da safra norte-americana aumentaram depois dos resultados recentes do Pro Farmer Crop Tour e da deterioração das condições das lavouras apontada pelo USDA. Na terça-feira, o milho já havia renovado máximas de contrato, e nesta quarta-feira os futuros alcançaram novos níveis de vários anos.
Com informações da Royal Rural e do Grupo Labhoro