Ministro da Agricultura diz que ameaça de alta do pãozinho é 'terrorismo'

Publicado em 09/03/2010 13:54 e atualizado em 09/03/2010 15:35 352 exibições
O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, classificou nesta terça-feira (9) como "terrorismo" a ameaça da indústria panificadora de aumentar o preço do pão francês por conta da elevação, para 30%, do Imposto sobre Importação do trigo vindo dos Estados Unidos.
O aumento da alíquota para o grão norte-americano foi definido na segunda-feira (8) pela Câmara de Comércio Exterior (Camex). O Brasil está autorizado a cobrar sobretaxa de produtos americanos, como retaliação às perdas que o país teve por conta dos subsídios dos EUA a seus produtores de algodão algodão. A retaliação foi aprovada pela Organização Mundial do Comércio (OMC) em agosto de 2009.
Alta exagerada
A lista da Camex contou com a assessoria técnica do Ministério da Agricultura para a escolha dos itens agrícolas. No total, 101 produtos norte-americanos devem sofrer retaliação com a sobretaxa. "Já tem gente querendo ganhar dinheiro a custo de uma determinada situação", resumiu o ministro, referindo-se à decisão da Camex.

Para Stephanes, a ameaça de aumento de preço do pão em 16% não tem lógica. "O custo do trigo no pãozinho varia de 10% a 16%. Com a restrição de 5%, que é quanto compramos dos Estados Unidos, aumentaria em 16%? É terrorismo", reafirmou. 

Além disso, ele comentou que não há justificativa para reajuste, porque o preço atual do pão foi estabelecido em um momento em que a tonelada do trigo custava R$ 750. Depois disso, a trajetória do preço do grão foi descendente. Atualmente, ela custa de R$ 400 a R$ 450 a tonelada. "É inaceitável (um reajuste)", afirmou.

Importação dos EUA
De acordo com dados do Ministério da Indústria e Desenvolvimento (MDIC) levantados pelo G1, a importação de trigo norte-americano representou 4% do total de 5,446 milhões de toneladas (equivalente a US$ 1,209 bilhão) do grão que o Brasil importou durante todo o ano passado.
Em 2010, o trigo dos EUA representou cerca de 2% do total importado em janeiro e fevereiro: a maior parte veio da Argentina, 71%.
Na opinião do vice-presidente do Sindicato dos Panificadores de São Paulo (Sindipan), Manoel Alves Rodrigues Pereira, ainda é cedo para estimar o impacto que a retaliação aos EUA pode ter sobre o preço do pãozinho brasileiro.
"Eu acho que por enquanto é cedo para analisar, há muito trigo do mercado e é um pouco cedo para dizer alguma coisa. Tínhamos a expectativa de importar mais dos EUA e do Canadá (em razão da queda na exportação argentina), mas há outros mercados produtores", diz Pereira.
Segundo números do MDIC, a Argentina foi a principal fonte externa de trigo para o Brasil em 2009: respondeu por 59%, seguida por Uruguai (15,8%), Canadá (15,6%) e Paraguai (15,1%).
Representantes da indústria, no entanto, dizem que o encarecimento do produto deve ocorrer. "Não há dúvida que vai significar trigo mais caro e aumento do preço do pãozinho, principalmente no Nordeste", disse o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), Luiz Martins.
Nas contas dos moinhos, o Brasil vai precisar de trigo americano para atender ao consumo interno de 10,5 milhões de toneladas. Martins conta que a safra brasileira foi de má qualidade e ficou em 4,5 milhões de toneladas. A Argentina teve a menor safra dos últimos 30 anos, e o excedente exportável foi de 1,5 milhão de toneladas.
Efeito positivo
Para o gerente de agricultura do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Mauro André Andreazzi, a retaliação aos EUA pode acabar contribuindo para que o Brasil alcance uma safra de grãos recorde em 2010. Para ele, como o Brasil é dependente da produção externa, isso pode incentivar os agricultores do país a aumentar o investimento no cereal.
Segundo Andreazzi, para alcançar um novo patamar recorde, seriam necessários cerca de 300 mil hectares a mais de plantações de trigo em relação a 2009, com uma produtividade de 3 toneladas por hectare para um novo recorde.
Estoques
Stephanes aproveitou o momento para voltar a criticar o fato de os moinhos brasileiros manterem sob segredo seus estoques de trigo. Ele comentou que o mercado é imperfeito, já que existem 180 mil produtores no Brasil e cinco grandes cadeias de moinhos que adquirem trigo. 

"Os moageiros não mostram à sociedade nem ao governo os estoques que têm. Pedi isso pessoalmente, e não me deram", comentou. "Eles imaginam que aqui ninguém sabe fazer cálculo. Aqui sabemos fazer cálculo", criticou. 
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Fonte:
G1.com

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